sexta-feira, setembro 13, 2013

8.


tenho em meu poder
uma verdade sem luz

não há o que lhe
desenhe a sombra -
é a própria sombra
que respira a verdade

e ilumina o sonho ténue

s.d.

domingo, março 31, 2013

7.

chamar eloquente silêncio ao vazio
dizer estilo em tom de
eufemística metamorfose
da inconsequência

assim o medo se entranha
e aparece, nesse lugar
que chama pelo meu
nome, como metáfora
do lírico silêncio


08.abri - 12

domingo, fevereiro 17, 2013

6.


tua morte fosse
marco geodésico
horizonte, farol,
coordenada

e a deriva a minha
eterna morada


trinta.03.mmxiii

quarta-feira, agosto 29, 2012


5.
 
ler silêncios no lugar
do dito
 
escutar o grito
que do passado mudo
sobrevive na dor
das coisas amadas
 
- ecce ars
 
treze, 3: mmxii

quinta-feira, maio 24, 2012


4.


estremecem fulgores dolorosos
de felicidades abandonadas
(o dia irrompe num sopro de
presente,
a chama hesita e
sangra)


penetra na luz violenta uma
tenebrosa passividade
- entre a memória e
o visco que nos
escraviza contra todo
o olvido


treze, 3: mmxii

domingo, abril 15, 2012


3.


soprou forte o vento sobre


as cinzas do jardim


a preto e branco




as pedras escureceram


suspensas no negrume


da tarde antiga




os esqueletos dos pássaros


desenham mal o passado


- outro vento os embala


quatro, 3: mmxii

domingo, março 25, 2012


2.


afogo de lágrimas o azul


purpúreo do teu silêncio





dezoito, 2: mmxii

quinta-feira, março 08, 2012


1.


a muralha era um facto lúcido

invisível, cristalino, morto

na fronteira do real


lugar de feitiço, a muralha existiu

uma hora, e deixou a transparência

entrar em mim, inadvertidamente



hoje não existe o lúcido traço (

lembra-te, não procures mais
por mim adentro

)



s.d.

terça-feira, novembro 08, 2011

o único oito do ano




Nem todos os dias a madrugada se adensa assim.

Nem todas as horas estas mãos se esvaziam tanto.



Hoje tudo parece mais inútil, mais estúpido.



Mesmo a dor, adormece inquieta.

Não grita, não se revolta.

Dorme.

Mas nada dorme dentro da dor.



Acho que nunca aprenderei a dizer-te adeus.



oito.xi.MMXI

domingo, agosto 14, 2011

segundo livro de orações


/sétima


pai, chegou o momento do choro
e do esquecimento do tempo


chegaram as míseras lágrimas que
te alimentam, que te sonham líquido
e te afundam o sentido

chegou, pai, o vento manso e quente
que lançaste um dia sobre a minha luz
e me queimou a liberdade de te escutar

pai, chegaram as notas daquela melodia
(lembras-te desse silêncio,
dessa melancólica melopeia que cantei?)
chegaram todas as notas num acorde
tremendo e luxuoso, trítonos sobre quintas,
quartas perfeitas sobre meios-tons de nunca

pai, o som veio buscar-me,
o trovoar das flautas, o ribombar dos
violinos imperiais, o restolhar dos tímpanos,
tudo às avessas numa orquestra muda

mas ainda assim, som

som onde adormeço quando te escuto
som de onde inspiro a morte
em pausas longas de tão breves

chegou o momento do choro
silente como no sonho que rezei, pai

chegaste, e aqui te reconheço
pela primeira vez
só, de novo
nu

onze: 08, MMXI

quarta-feira, agosto 10, 2011

segundo livro de orações

/sexta
 


é o dia eco do teu regresso
são os minutos reverberações
do teu pulsar calmo e apaziguador
são os anos o deserto
de todas as miragens que desenho

sê para mim mais que o tempo
que conheço e invento

é o mês o rio que dos meus olhos
desce para o teu ventre e aí se evapora
são as horas ramos esguios de fantasmas
que a noite esboça se te não sinto
são os séculos planícies onde apascento
a alma que rumina sem fim

sê para mim mais que o tempo
que componho e destruo

é o segundo o fulgor de te intuir
são os meses todos, todas as semanas
aninhadas em torno do teu cabelo,
o berço que te embala o regresso
são centelhas de morte
os batimentos da acelerada pulsação
quando de novo te dou à luz
 
sê para mim mais que o tempo
que choro e esqueço



dez: 08, MMXI

terça-feira, agosto 09, 2011

segundo livro de orações

/quinta


não aceito essa noite que prometes
não caminhei até aqui para silenciar
o mar que os meus olhos despejam
quando adormeces

nem o teu beijo ácido e devorador
me compromete mais com a tua boca
nem com os teus braços que traem
a minha solidão

renuncio à brisa do teu arfar sobre
a minha madrugada - renuncio à
loucura de te beber o vento que
sinto nas veias


(porque te chamo se te afasto
porque te chamo se te amo
porque te chamo se me incendeio
porque te chamo se me odeio)


morreram as corujas em vão
para chegares à minha alma
e eu não estar lá para te matar

foi a lua ressonância do meu grito
será o dia eco do teu nascimento


nove: 08, MMXI

segunda-feira, janeiro 10, 2011

da) entre vi…

um dia disseram-me
: vida,
só uma!

nesse dia disseram-me outras mentiras
mas eu nessas acreditei –
com vontade, como
se crê em tudo o que sabemos falso

acreditei (bah…) que os pássaros morriam
e tudo à minha volta denunciava
o seu canto submerso
nos recantos das coisas inúteis
(sob as toalhas que cobrem
as mesas ridículas, camilhas e
afins, sobretudo as de imitação
barata, e que nem molduras com
fotografias mal tiradas levam
em cima
(atrás dos livros
demasiado novos para esconder
a magia que o meu olhar
discreto lhes confere quando
os desejo folhear de novo,
beber
(entre os

… que os pássaros tinham morrido…

pássaros que nunca voaram,
nunca! mas vivem ainda no sonho
que o seu canto imortal inspira

esses pássaros que morriam
(de mim, em mim, para mim)
recolhiam no bico lágrimas
como orvalho das minhas
madrugadas (lembras-te
do seu sabor?

) – mentiras salgadas

disseram-me que o amor
morria como os pássaros
e eu acreditei, e em todo
o lado o amor se revelava
como um garoto a brincar
às escondidas, inocente
na sua crença pura de
invisibilidade total

(o amor também julga
esconder-se, bah…
mas todos os lugares são
templo e caverna onde
se refugia
todos os sons, mensageiros
da voz que acalenta
a ausência (até o rouco
murmúrio do mar, ou o
desesperado grito de
deus, me trazem a dor
de te escutar, outra mentira…

sobre as vidas da vida, entre
a vida, sob a pele viva
da vida, vidas sem mapa, sem
origem nem fim, de todas as
vidas a vida, sobre essas
não! Morram os pássaros ou
o amor, continuem a morrer
até que o meu coração
desista de acreditar
na verdade.

dez: 01, MMXI

segunda-feira, janeiro 03, 2011

segundo livro de orações

/quarta


espero pela noite que o teu beijo
apagou num sopro branco e lento

espero pela suavidade dos teus lábios
roçando os meus pensamentos
como uma amante dedicada e fiel


espero que a luz da noite que beijas
oculte a sede e a inquieta perda
dos sentidos e do sentido desta espera



anseio-te vestido de branco
adivinho o roçagar do teu olhar pelo
firmamento fora, como se houvesses
roubado o mapa da minha alma deserta

espero escutar o rouxinol transfigurado
de canto rouco e trôpego (trinado surdo
que a noite engole e regurgita com inveja)



- fosse minha a voz que escuto por detrás
da lua, fosse teu o espanto da coruja que
morre, fosses noite e beijo e vento agora.


dois: 01, MMXI

quinta-feira, julho 22, 2010

segundo livro de orações

/terceira


ao vento que foge do escuro
exorto a que te guie até
mim sob o luar negro


peço-lhe que afaste do teu
caminho sombras e vultos
para que não confundas o
choro da minha alma
com o mal que a noite exala


exorto o vento que foge de mim
a que traga o teu cheiro
o aroma beatífico do teu cabelo
que acaricia os ramos mais altos
do bosque e o tapete de musgo
onde durmo quando te espero


se chegares antes do sol
trava o seu raio até o meu
olhar nascer para acreditar
na noite alva que trazes
para dentro de mim


quero uma noite eternamente
branca trazida pelo teu beijo




treze: 03, MMX

segunda-feira, junho 21, 2010

segundo livro de orações

/segunda



sob o luar negro da tua
ausência choro em uníssono
com as corujas de olhar
em êxtase, quase místicas


sobre as pedras molhadas
de orvalho e frias pela
ausência demorada do sol
deambulo descalço e lento
como água que se cristaliza
sem quebrar a corrente -
lágrimas que secam pelo
teu rosto esfíngico abaixo


deambulo para ti à escuta
do restolhar que os teus
braços provocam nas nuvens
que te acolhem a alvura sombria


deambulo para ti alerta
ao vento que foge do escuro
e te anuncia em silêncio branco.



treze: 03, MMX

quarta-feira, abril 21, 2010

segundo livro de orações

/primeira



não vieste ao meu encontro
quando caí


não caminhaste sobre a terra
para segurar a minha sombra
e sorver a seiva da minha
tristeza e descrença


não consumiste no fogo do teu
amor o meu amor por ti


não trouxeste anjos nem pássaros
nem ouro nem sarças nem naus
nem auras nem pão nem néctar
nem corpo de filho nem filho dos corpos
nem luz (
nada trouxeste que eu precisasse
para me escutar melhor (talvez os
pássaros, pai, mas...)

nem luz...



mas sob o luar negro da tua
ausência deambulo para ti



oito: 03, MMX

sexta-feira, outubro 09, 2009

III

eras a nuvem sob os castelos
de sombras e de palavras densas
que lia quando sonhava
a eternidade de cada lugar.

e eras a chuva que a desfazia
arremessando ameias e sílabas
para o abismo do passado,
para o negrume de qualquer vida
sem o horizonte ocultado
pelo teu vulto.

e eras o livro que se escrevia
com os silêncios nascidos
da chuva (
o mar cantava em polifonia
com outros silêncios
) e nessa escrita perdias-te
na hermenêutica da minha
presença.

eras o prado onde a chuva
dormia, onde cada gota
encontrava o meu olhar e
se tomava de sal.

e eras o refúgio de lágrimas
que não brotavam já
do mesmo céu.

e era belo o diálogo subtil
da chuva com os meus
mares, com os lagos onde
afoguei o lirismo, com os
charcos que mascaram as
rugas do meu tempo,
com os riachos por onde
descem sons e mortes –
mortes silentes e sons sem vida.

eras toda a água –
eras toda a água e
até no deserto
me esperas.

08.out.MMIX