segunda-feira, março 24, 2008
livro de orações
mulher de nunca, senhora, luz
não fantasies sobre a minha morte
renuncia ao ímpeto criativo
não sou teu personagem
não sofro mais por ti
não me vivas mais
mulher de lume, de sempre, lírio
deambula por mim adentro mas
sem o peso do amor, sem a
liberdade da influência, com
o voto de silêncio nos dedos
e a renúncia na voz
mulher colibri, de agora, harmonia
deixa-me perpassar o mundo
num acorde só, numa nota
suspensa nas tuas vogais, no
timbre do teu gemido quando
choras pelos teus filhos
mulher, senhora, do tempo morto
fecha-me os olhos com tua saliva
acre e límpida, num beijo de
mãe sobre um órfão de ti
- aceito a tua morte anterior
ao meu renascimento.
vinte e quatro: 03, MMVIII
domingo, fevereiro 24, 2008
livro de orações
senhora, responde sem pressa ao meu lamento
não te precipites sobre a minha dor
não te deixes levar pela minha dignidade
responde quando me conheceres melhor
senhora, perscruta em todos os meus gestos
a ínfima subtileza que os distingue
não te iludas com a arquitectura
não te deixes influenciar pela sua cor
senhora, exorta-me a devolver-te tudo
não perdoes uma só grama de alma
não olvides nenhum pensamento oculto
não deixes para trás o mais precioso
senhora, fala comigo uma língua qualquer
que seja bonita e incompreensível
não deixes de dizer que me amas
mesmo que só ouça o vento rouco.
três: 02, MMVIII
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
livro de orações
alma de mil perfumes,
inebria o vento para que pare
e te inale inconsciente e submisso
perfil de nenúfar,
extasia o olhar do poeta e
conduz as palavras até mim,
por mim adentro
reflexo de pureza,
espelha a minha angústia
para que a contemple na
alteridade libertadora
prende-me aos meus sentidos
não me deixes cair já
de mim abaixo
trinta: 01, MMVIII
terça-feira, fevereiro 05, 2008
livro de orações
tu, que habistaste o tempo antes de mim,
que viverás onde já não estou
concede-me um retorno mais apenas
esquece por uma eternidade e meia
o nosso nome
deixa cair todo o ouro sobre o
meu tempo inequívoco
tu, que morreste no meu vagido,
que anseias por nascer no estertor dissonante
esconde atrás dos olhos o desejo
do meu gesto
nu
vinte e três: 01, MMVIII
terça-feira, janeiro 22, 2008
livro de orações
/primeira
senhora, em teu poder finito e aleatório confio
as minhas preces de ontem e de hoje.
entrego às tuas mãos lânguidas a seiva das
minhas lágrimas
para que nelas banhes o rosto e absorvas
a cor e o sal da minha interioridade.
senhora, em teu poder finito e imperfeito deposito
a esperança de uma luz – não tem de ser brilhante -
basta o calor da verdade e a frescura da paz
para desenhar a pastel um dia com outro tempo.
imploro o abraço das tuas pernas,
dos teus cabelos ondulantes,
dos teus fios de ouro suspensos das asas,
das tuas raízes profundas cravadas no mundo,
o abraço que faça de mim lugar fértil da tua curiosa misericórdia.
senhora, em teu poder finito e inconstante entrego humildemente
o rumo do meu sangue – todo
: do que corre nas veias
e
do que inunda os carris onde desfila inglório
o meu azul final.
vinte: 01, MMVIII
domingo, janeiro 13, 2008
in memoriam Pedro Silva (1977-2008)
Sim, estive lá, e vi a beleza daquele verde que te povoava os sonhos
e cheirei o perfume da terra, Pedro
Ah, e passei pela igreja também, e no caminho pareceu-me reconhecer aquela colina
por onde fugias a correr e aos trambolhões depois de roubar fruta.
Se não era aquela era tal e qual, Pedro, porque eu quase te ouvi a rir.
Estive lá e acho que te encontrei em cada lugar que me descreveste com aquela nobreza só tua, como se cada minuto da tua infância tivesse sido descrito ao teu ouvido por um deus muito pequenino que vivia em ti há tanto tempo. Estive lá, Pedro.
E o que chorei hoje dava para fazer um lago para nadares todo nu se te apetecesse,
e a força que o meu corpo fez contra o peso esmagador da dor teria dado para abrir um vulcão só para aqueceres as mãos no inverno.
Estava lá tanta gente, Pedro. E todos pareciam adivinhar o que eu estava a pensar
porque queriam todos encher o lago e abrir o vulcão.
Quando quiseres vai lá ver se conseguimos.
segunda-feira, novembro 12, 2007
in memoriam Francisco Corado (1981-2007)
uma parte demasiado grande de mim
para que outras palavras aqui tenham lugar
neste momento
aguardarei que a paz regresse
depois do choque e da tristeza profunda
partiu um irmão
partiu um amigo
partiu muito de mim
que só aquele coração guardou fielmente
a ti, Francisco, querido, que amei tanto,
continuarei a amar
até que as nossas almas
entoem de novo em uníssono
uma canção do festival ou
outra alegria qualquer.
fui muito feliz contigo na minha vida.
segunda-feira, novembro 05, 2007
4º andamento
do lugar de quase aqui para cá
não se vê mais do que o vento a
dobrar em dois o mundo
parece tempestade, mas são só
palavras de tédio de quem mora,
mário, entre um lugar e aqueloutro.
do lugar de aqui para quase lá
não se vê mesmo mais nada
senão o azul quieto quando
os olhos se fecham de noite
terça-feira, outubro 09, 2007
4º andamento
não te lembras de certeza, mas foste já cristal
num rio de aurora sem nuvens
antes de outonares em ocres e terras queimadas
em sombras e tons pastel, foste a suspensão
da própria cor.
talvez disso te recordes, teres sido vulto de névoa
sobre planície de lençóis cálidos
para te avivar a memória deixo uma canção
sem letra nem melodia, somente o olhar
que a trauteia.
quarta-feira, setembro 26, 2007
quinta-feira, agosto 09, 2007
segunda-feira, agosto 06, 2007
XII
e a vertigem desapareceu
a memória é um relógio
com cada ponteiro para seu lado
viveste no preciso instante
em que se cruzaram
à meia-noite
morri às seis e meia
lembras-te?
quinta-feira, agosto 02, 2007
terça-feira, julho 24, 2007
quarta-feira, julho 18, 2007
quarta-feira, julho 11, 2007
VIII
que me impede
de morrer
a metamorfose
não tem timbre -
e não seria o teu
não és nenhuma
das minhas sete
trombetas
quarta-feira, julho 04, 2007
domingo, julho 01, 2007
quarta-feira, junho 27, 2007
domingo, junho 24, 2007
domingo, junho 17, 2007
terça-feira, junho 12, 2007
quinta-feira, junho 07, 2007
I
uma noite tão grande sobre
o mais completo
silêncio
derruba o luar
dali abaixo
e estende-o ao largo
do desejo
(fim de quase
tudo o que não
merece morrer
hoje)
quarta-feira, maio 02, 2007
no mar, a madrugada...
domingo, abril 29, 2007
espera
o silêncio – uma
opressão no peito
um suspiro trémulo
(o vazio espectral
uma alma doente
como um eco surdo
em gruta sem saída)
nem o vento assobia
nem o ar rumoreja
entre as árvores
nem o lápis sabe
para onde ir já
apenas uma espera
... um silêncio a incinerar ...
apenas um silêncio
29.07.03
(in 2/3 e outros poemas, 2003)
terça-feira, março 27, 2007
2
a luz morna sobre um
olhar fechado
revela-se parca para
o desvendar da inefável
película de sonho que
espreita pelas narinas
quietas quase tranquilas
12.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
quinta-feira, março 08, 2007
impromptu II - receituário
cada hora de solidão, um milénio de serenidade
cada minuto de olhos abertos, eternidades vazias de luz para não ver, não...
cada passo, léguas que não levem a destino algum
cada suspiro, golfadas de ar para que voe como um balão e veja a vida lá de cima e veja se percebe alguma coisa do mapa
cada olhar de angústia, um telescópio donde possa ver a sua alma a preto e branco como nas fotografias dos mortos
cada vez que adormece, ver a morte de uma flor
(preciso de mim, e não sei onde me perderam)
08.01.02
domingo, fevereiro 18, 2007
impromptu I - introspecção
(in despojos de lume e de medo, 2001)
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
sem título
rubor sobre a alma
inconsequente memória
acto leve sob a espuma
(in mar branco, nudez insular, 2005)
terça-feira, fevereiro 06, 2007
sem título
ausência anódina
subjectividade anónima
vicissitudes do ínfimo olhar
(in mar branco, nudez insular, 2005)
sábado, janeiro 27, 2007
2º andamento
será dia e o vento
fechará o céu à
chave - não mais
deixará o sol o mundo
neste torpor insano.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
domingo, janeiro 14, 2007
2º andamento
repicam a dobrar
por ninguém (sim, ninguém
transpôs o belo),
mas a tristeza ecoa
de reverberação em reverberação
segunda-feira, janeiro 08, 2007
#17
xii. 13.MMVI
quinta-feira, dezembro 28, 2006
2º andamento
a manhã verte lume
no coração do medo (inóquo
e misterioso) de
um dia mais vazio
que o último.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
#16
xii.09.MMVI
quinta-feira, dezembro 14, 2006
2º andamento
afastou-se o mar
de encontro a nós
(de pedra
frágil e inerte -
lágrimas de fora
para dentro do
cansaço)
quinta-feira, dezembro 07, 2006
#15
xii.05.MMVI
colapso
desapareci
no labirinto em estado líquido de uma alma em chamas frias
24.08.02
(in prosa perdida, 2002)
quinta-feira, novembro 30, 2006
#14
xi.30.MMVI
segunda-feira, novembro 27, 2006
audrey

também nas árvores a imponência
nasce em tons de verde
que lembram mais a leveza
que o poder. também no mar
existe o perigo de nos afundarmos
como no infinito de um olhar.
é também de mistério que fala
o vento quando embate
num sussurro que desperta e atrai.
uma fotografia assim é como a
escuta impossível do mistério
do vento que embala
o verde majestoso que
impele ao abismo profundo
que o mar anuncia.
uma fotografia é apenas e
tanto mais que isso
terça-feira, novembro 21, 2006
# 13
xi.21.MMVI
segunda-feira, novembro 13, 2006
contos inconjuntos
Dezembro amanhecia.
Levantou-se apenas para ir à casa de banho e voltou para dentro da cama. A noite e o quente refugiavam-se dentro do quarto, por detrás das gelosias fechadas, dentro dos lençóis, contra a teimosia do frio lá fora. O Vasco já havia saído há algumas horas, ainda no ventre da madrugada, mas Margarida acordou só com o tique-taque da bexiga, ou com o chamamento do próprio dia. Dezembro amanhecia mas não era para ela por agora. Agarrou-se à almofada do lado, menos quente já mas ainda acolhedora. O cheiro da noite era inebriante. O sonho interrompido tentava invadir a luz emergente e devolver Margarida à penumbra dos desejos transfigurados – em menos de dez minutos ela dormia de novo, estátua sob o manto, a respirar suavemente.
Acordou e dirigiu-se à casa de banho outra vez, com a leve sensação de que algo se repetia infinitamente naquela manhã, afinal em tudo igual às outras. De caminho, em bicos de pés, viu-se fugidia no espelho do quarto, e murmurou um bom dia sorridente, por debaixo da máscara de sono que ainda lhe ocultava as feições naturais. Sentada na sanita pensava ‘hoje tenho de acabar o terceiro capítulo’. Limpou-se, levantou-se e preparou o duche. Resmungou qualquer coisa a propósito das calças do pijama do Vasco no chão da casa de banho, e perguntou-se onde é que teriam ficado esquecidas as cuecas desta vez. Acabou por descobri-las atrás da porta, atiradas com certeza em gesto aleatório ou, pelo contrário, como que escondidas, naqueles comportamentos imperscrutáveis que as mulheres surpreendem nos seus companheiros. Por detrás da contrariedade manifesta no resmungo, nasceu um sorriso apaziguador que já conhece.
Preparou um sumo de laranja e um café para acompanhar as torradas. ‘Hoje não saio de casa’, comprometia-se consigo mesma enquanto ia desenhando mentalmente o dia à medida tanto da necessidade como do desejo. Sentou-se na varanda ainda molhada, a acabar o sumo e a contemplar a manhã já crescida. Pensou no Vasco e numa manhã distante em que o frio os tinha feito aproximar, desconhecidos então, talvez tanto como, apesar de tudo, continuavam ainda a ser. ‘Todo o tempo é sempre tão pouco e demais’, pensava. Agarrava-se a estes flashes que as primeiras associações mentais traziam, porque sabia que o texto tinha de nascer no seio destes impulsos encriptados pelo inconsciente. Forçava-se a uma liberdade de pensamentos que não tinha. Desejava uma fluidez que desconhecia em si mas para a qual intuía dirigir-se se desse os passos certos, ou pelo menos se evitasse os atritos que têm atrofiado a sua escrita. Era de memória viva que esperava ver surgir em fluxos irreprimíveis, a sequência de imagens, eventos, diálogos com que povoaria o seu romance. ‘Mas qual romance?!’
Nesse momento, ao enunciar com raiva esta dúvida, sentia a emoção escorrer dentro dela num apelo às lágrimas que aí vinham. Perguntar ‘Qual romance?’ a propósito da rarefacção da sua escrita, era um prelúdio a inquirir ‘Mas que vida?’. No entanto, sabia que era injusto perguntar aquilo. Interrogava-se sim porque é que em qualquer fase da sua vida havia questionado assim o seu destino, as suas escolhas, o seu mundo, o seu presente. Porquê? Afinal rodeava-a tanta beleza e dignidade, tanta felicidade espalhadas pelas horas. Porquê então este permanente e inquietante suspirar por algo diferente, algo melhor. Melhor, como, em quê? O que quer que fosse, só dependia da sua noção de liberdade. E a sua própria noção de liberdade estava num ponto muito próximo do zero absoluto. Não a liberdade em si mas o sentido da sua realização. Esse paradoxo era canónico, mas em Margarida assumia os contornos de uma espécie de punição, de uma expiação submersa num passado que quase já não reconhecia mas intuía mais poderoso do que a razão conseguia conceber. Se isto fosse o seu romance...
Depois de almoço pensou em vestir-se para sair, mas hesitou e acabou por decidir ficar em casa o resto do dia e, quem sabe, à noite pudesse reler o produto dessa reclusão forçada e sentir-se orgulhosa. Ligou ao Vasco para solidificar esse auto-imposto sacrifício, tornando-o evidente ao mundo exterior. Ele não atendeu. Nem podia. O beijo de boa noite que haviam trocado na noite anterior quando ela se deitou, ainda cedo, para não comprometer a resolução de aproveitar o dia seguinte, foi o último gesto que os uniu, foram as últimas palavras que proferiram, foi a última imagem que registou do homem que, horas mais tarde, seria obrigada a reconhecer no corpo encontrado sem identificação naquele quarto impessoal, misteriosamente familiar, como pôde sentir com surpresa e repulsa quando morbidamente quis penetrar no antro das quatro paredes vazias que assistiram ao fechar daquele capítulo da sua vida.
nov.11.MMVI
(NOTA: noutro lugar, a morte de Vasco aqui referida é descrita como tendo sido a morte de Vicente. Não é gralha, nem é inocente esse deslocamento narrativo)
sexta-feira, novembro 10, 2006
#12
desenhar no ar com os dedos, em danças coordenadas com o olhar, o contorno de uns lábios que se movem inconscientes do ritual. pisar de novo o verde sobre o qual alguém flutuou, por exemplo, depois de um encontro secreto.
ser eco de um grito calado. recordar em vão todos os detalhes de um momento assaz insignificante. projectar no futuro os sonhos de quem fomos quando éramos outros, permanentemente esquecidos. por exemplo, morrer à nascença ou, o que é o mesmo, no mais completo alheamento que a senilidade autoriza e protege.
xi.10.MMVI
quinta-feira, novembro 09, 2006
sem título
projecto desgovernado
imprevisível refúgio
de e para dentro de deus
(in mar branco, nudez insular, 2005)
terça-feira, novembro 07, 2006
1º andamento
virá o azul inundar o leito seco da
tua forma de cristal, será fugaz mas
indelével como vento soprado num conto
lido à lareira; não extinguirá o lume
mas a ideia infernal; não arrastará as
árvores altas - fechará os meus olhos
como brisa sobre a penugem de uma
gaivota recém-nascida, como hálito
inspirado antes do primeiro beijo;
assim o azul verterá sobre o
deserto a tua paixão revivida na
penumbra de um dia sem noite.
virá a memória líquida dos corpos
calibrar o fiel onde todas as sensações se
comparam e reduzem a uma contínua
e subtil repetição de instantes primordiais
- a dor, o desejo, a angústia e o
alívio de todos os parágrafos perfeitos.
vii.11.MMVI
domingo, novembro 05, 2006
X.
(“... quando tu próprio és o espelho e a réplica
dos que não atingiram o teu tempo...”
Jorge Luis Borges)
e do reflexo fizeste a obra
milagre profano da morte da ideia
o tempo quebrou o tempo
01.03.02
sábado, outubro 28, 2006
#11
x.24.MMVI
sexta-feira, outubro 20, 2006
#10
por exemplo, o atrito sonoro com o tempo, a cor da dúvida sobre o espaço que verdadeiramente roubamos ao mundo, a certeza do delírio em que se metamorfoseiam todas as respostas verdadeiras. por exemplo, a cegueira assassina da vaidade, o poder oculto do silêncio, a ínfima parte da razão que cabe até ao pensamento mais absurdo. por exemplo, uma dor, por exemplo, uma visão mística que nos surpreende o cepticismo, por exemplo, uma evidência insuportável, com o peso uniformemente distribuído entre o desejo e o terror, arte pura, por exemplo. um gesto pintalgado de divino, um sabor apreciado uma única vez, um sentido nunca usado, um mundo totalmente virado do avesso para nós, por exemplo, o contrário da percepção, um absorver para fora, uma luta com o sensorial, uma batalha pela impermeabilidade da alma, por exemplo. uma morte que nasce à flor da pele e se espalha pelo aroma do espírito, de dentro para fora, de cima a baixo.
x.11.MMVI
domingo, outubro 15, 2006
22
deixa perder-se em ti meu rasto
e que o mundo me procure apenas
no teu sorriso metamorfoseado
em dois condores de rubras penas
03.06.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
domingo, outubro 08, 2006
#9
x.06.MMVI
sexta-feira, outubro 06, 2006
#8
por exemplo, a ignorância como esboço de sabedoria ou como sabedoria plena, o desejo como esboço completo da apatia, de indiferença. por exemplo, quando um orgasmo é um livro de apontamentos sobre o vazio, quando a alucinação é um rascunho vivo da monótona lucidez indesejada, ou quando, por exemplo, um homem é o esquema formal e insípido de um sonho.
por exemplo, um mistério, uma pergunta, uma inquietude, talvez um desejo à procura da hora incerta do reconhecimento do seu objecto, talvez uma pobreza maior que a mais temida das mediocridades, talvez, por exemplo, uma mentira auto-imposta por respeito ao rigor e à dignidade do não-saber.
ix.14.MMVI
domingo, outubro 01, 2006
XVII
um refúgio de pedra
dentro do cérebro
para as ideias sem
mãe racional nem
delirante paternidade
incógnita
colónia de férias
permanente
para as ideias inatas
ou geniais
um asilo
talvez
ou um beiral simples
de sombras arqueadas
pelo pensamento
(não quero saber!)
fico até que passe
mais um dia
mais uma vaga
monotonia mental.
29.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
sábado, setembro 23, 2006
#7
por exemplo, uma flor em negativo, pétalas negras de veludo, assustadoras e graciosas como a beleza exponenciada sob o efeito da diferença, assustadoras e graciosas como uma memória mais nossa do que desejaríamos e ao mesmo tempo tão nossa como nós.
por exemplo, o negativo de um afecto, a indiferença que é já outra coisa no outro lado da indiferença, ou melhor, que é o amor num outro lugar, irreconhecível e familiar como um fantasma há muito não vislumbrado por ninguém ou confundido com uma sombra ou um reflexo.
viii.05.MMVI
domingo, setembro 17, 2006
1º andamento
Na fímbria de veludo do teu passado tens a
cor estampada da melancolia, nobreza que te
afasta do chão em que estou mergulhado há
duas eternidades e meia, sentimento nobre o
que serve de pretexto ao amor pelo eterno
sofrer em vão.
Amar a vacuidade do sentido desdobra em nós,
ontem, para sempre e agora, o véu multicolor
da dúvida e da ira, tanto para fora do limite
da língua que o expressa, o óculo mágico
da metamorfose, como para a profundeza da
angústia que o consome em golfadas de lucidez.
No caleidoscópio da incerteza vemos o que
não foi desenhado por deuses mas por espectros,
fantasmas de sangue mais negro que a noite
de sonho, mais quente que o sol apagado
num espectáculo silente e insano.
E regresso sempre ao veludo ancestral
desbotado numas cores e adulterado nos
tons da memória caprichosa, e brilham
os dias sombrios imaculados pela tristeza
e esfumam-se em tons cinza os beijos
redondos e os farrapos de êxtases
que guardavas em molduras de tempo
num museu que não chegou a abrir.
terça-feira, setembro 12, 2006
9. viagem ao antípoda do sentido
de se confundir com um círculo imperfeito invisível. Mal desenhado como os dias e
as paredes dos cemitérios. Do outro, a base inútil.
Um cone feito de infinitos é como uma recta, mas as rectas têm cor.
Nos subúrbios da nossa capacidade de pensar, existe um tempo que não
se deixa manipular sem preço. Uma base inútil, porque não há cones que precisem
de tempo para se deixarem nele repousar. Um vértice é suficiente. Nem de cor
precisa.
Um cone tem um preço para se materializar em espaço. Numa dessas
esquinas sem rosto, percorre-se um labirinto infantil para chegar à condição
óbvia da nossa impotência estrutural.
Apesar de se confundir com um círculo imperfeito, o vértice não é inútil.
13.03.03
(in a densidade das almas, 2003)
sem título
intuída em cada vereda íngreme
do pensamento maduro
27.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
sexta-feira, setembro 08, 2006
13
minha boca
perdida num
vale de joelhos
escarpados
naufrágio na
tentação
para lá do deserto
ventre duna
um oásis salgado
quente ilusão
húmida
25.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
segunda-feira, julho 31, 2006
sem título
sobre o tudo de alguma coisa
nos continua a afastar sempre
do sentido completo da nossa
despojada doutrina do amor
17.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
quarta-feira, julho 19, 2006
três vultos de angústia
(teatro)
o Mestre (também narrador)
uma Lágrima
o Vento
a Palavra (apenas voz amplificada)
o Discípulo
1º ACTO – a ausência
Quadro I
Cena 1
o Vento, vestido de azul, sem gravata, obviamente, proclama como se recitasse de cor poemas de juventude:
- Irmãos do Norte, tragam
Brisas frescas e brilhantes
Vontades de saber constantes
Que nem os tempos ...
indignado pela introdução inoportuna, o Mestre interrompe bruscamente a récita, gritando desde lá do fundo:
- Alto! Isto ainda não começou! Isto ainda não podia ter começado. E a ter começado, que forma ridícula de começar ...
O Vento, surpreendido mas rapidamente recomposto, ...
sexta-feira, julho 14, 2006
8
dos teus braços suspensos
num acaso feliz
sobre o (vermelho) tecido
assusta pela cálida
semelhança com a
morte precoce de
um ramo partido
14.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
segunda-feira, julho 03, 2006
1º andamento
Era de noite mais noite que o universo imerso em
ti, como o orvalho luminoso no fulcro de prazer
de um trevo, no seio de quatro folhas corações de
fortuna, feitiço, luar imerso em ti, mais luar que
o brilho da paixão entre a coruja e a noite de quatro
madrugadas imersas no teu seio.
E depois continuou a névoa de tempo com o sol
submerso em mim, noite mais noite que a tua
morte.
Por entre os ramos invisíveis dos bosques por
desbravar sem coragem nem desejo, emerges sólida
como uma recordação que julgava presa no olvido
de tenazes ardentes, emerges mais sólida que o templo
de visões místicas que o tempo destruiu na minha
crença de papel, emerges sólida como a água bravia
da chuva mais chuva que a tempestade em mim quando
não és tempo nem azul nem ausência.
03.vii.MMVI
sábado, julho 01, 2006
XII
impossibilidade de estender o braço e
(confiante, sofregamente)
tocar o tecto do nosso infinito
06.12.02
(in infinitas impossibilidades, 2002)
domingo, junho 18, 2006
plúmbea amargura
como uma solidão velha;
esmagas-me p’lo caminho
numa ânsia de terror
e poder;
mas perecerás ao lume
dos mistérios antigos
da escrita e dos sons.
21.06.02
(in prosa perdida, 2002)
I.
há que aprender (com os pássaros) a morrer
e deixar
que a brisa nos consuma
e saber ver
a preto e branco
(sem amar demais a melancolia)
e aceitar a beleza da ilusão construída
(in instantes de perplexa aprendizagem, 2002)
sexta-feira, junho 16, 2006
XX
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego
enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação
uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão
01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
quarta-feira, junho 14, 2006
sem título
da virtude – um fustigar intenso
do véu interno e inocente;
(vigília enferma, labirinto hipnótico
e vão, inconsequente e triste)
vaticino-me uma morte
sem nome – gota de mim no vácuo
vislumbrado atrás do pano;
(a lua segue-me os passos, vacilantes
e aturdidos, de olhos velados)
veste-te, vento, de brisa
e leva para longe o veneno
das cinzas da minha vontade.
06.12.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
sexta-feira, junho 09, 2006
4
redundância
quero um dia outro
um dia antes
um dia sem mundo
um mundo sem dia
sem cor distinta no céu e na terra
de contorno sinusoidal
em pedaços separados por nadas azuis)
uma cor sem vibração
um coração sem cor
uma acção sem dor
e os colibris de asas cristalizadas
e as cotovias de asas cristalizadas
e os gaviões de asas cristalizadas
e os homens de asas cristalizadas
(um dia sem mundo
um mundo sem dia)
quero-me sem um século de mim
sexta-feira, junho 02, 2006
2
era uma vez no infinito
palavras onde nem uma gota de sangue
cabe sem que o sentido se dissolva
em
heresia capital
onde deixou de haver fé”
ao mundo incriado
será estrangeiro
que fez nascer fé”
de um pai onírico e sem memória
02.02.04
tempo
tempo intuição
projecto desgovernado
imprevisível refúgio
de e para dentro de deus
(in mar branco, nudez insular, 2005)
domingo, maio 28, 2006
16
de memória já
a melopeia agreste
da procura fremente
um do outro
noite cheia
se envolvem sem
nostalgia nas mãos
e nos dedos apenas
desejos de travessia
mistura-se no
escuro o escuro dos
teus olhos com o das
roupas sobre o nosso
sono inquieto
retomamos a rota do
sonho interrompido
mas com o sabor
agri-doce da manhã
real que nos rapta
27.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
quarta-feira, maio 24, 2006
(dia 21 de novembro, 2048)
I
(Friedrich Rückert)
Revejo-te nessa memória que dizes do futuro por me preveres cá atrás, bem longe do teu entendimento. Estranho ao mundo também ... na ausência do poder ... do sentir.
Mais do que possas um dia conceber, no fundo das pessoas reside sempre a angústia acalentadora de existirem sem vida, sem nada, mas também a ilusão comicamente tocante de nunca deixarem de pensar que essa é uma condição instável de que a humanidade se livrará escrevendo, criando mundos em que ...
Longe, envolto em brumas...
... criei mundos em que não morri antes de saber escrever o que era a morte. E tu, executor desse sonho, tentas vislumbrar-me absurdamente, não compreendendo... ou não aceitando...
quinta-feira, maio 11, 2006
# 6
Os pequenos pescoços torcidos no torno invencível dos nós dos dedos num estrangular delicioso. Por exemplo, a veneração que protege inexplicavelmente as andorinhas, essas não, que são as galinhas de nossa senhora, argumento de deitar as mãos à cabeça agora e que tinha a força da profecia então, se matares uma andorinha, a primavera pode não acabar, mas farás nossa senhora chorar. Isso não. Mata antes uma carriça para treinar a pontaria ou um tordo, troféu miserável. Po exemplo, um cheiro, não a estrume já, mas a sangue. Sangue seco. Nos dedos pintados pelas penas inertes e ensopadas. O sangue que se saboreia como prova da conquista estúpida. Orgulho de estupor. Vergonha até a memória doer e ir embora chorar e limpar as lágrimas a uma parra qualquer.
v.10.MMVI
domingo, maio 07, 2006
quatro rimas perdidas
I
ontem não choveu
mas nos barrancos e nas encostas
dilataram-se pedras e rios
II
ruíram muros ancestrais
nas vizinhas planuras -
animais em fuga (já mortas as sombras)
III
sem gotas de água
caíram em aromas a pureza e a morte
sobre os limites do verde triste
IV
de longe vi o que pude,
aqui escrevo agora (invento)
o canto amargo do silêncio.
(in prosa perdida, 2002)
sexta-feira, maio 05, 2006
13
perdida num
vale de joelhos
escarpados
naufrágio na
tentação
para lá do deserto
ventre duna
um oásis salgado
quente ilusão
húmida
25.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
segunda-feira, maio 01, 2006
xxvi
como se as pernas alcançassem o éter e rebentassem de riso.
palhaços. mágicos sem jeito.
jan.20.MMVI
segunda-feira, abril 24, 2006
xxv
a rosa não é a flor nem o relâmpago dos sentidos todos
a rosa mentiu ao tempo
a rosa deixa no branco a impureza do destino impermeável à dor
a rosa escorre em latejos de pavor rubro
a rosa deita-se ao lado do outro e adormece longe
a rosa foi um poema
jan.19.MMVI
sábado, abril 22, 2006
#5
por exemplo, o cheiro a resina, o jogo colorido sobre a caruma, o plástico em argolas, os cinco pinos com as cores respectivas, o lilás ao centro, o verde, o amarelo, o rosa, o azul, norte, sul, este, oeste, o lilás ao centro, eu.
por exemplo, o cheiro a fritos, a melancia, a resina, o sabor dos rissóis, das castanhas piladas, o cheiro a lilás, os gritos de crianças que brincam, que brincam e gritam porque brincam e gritam se não brincam, cheiro dos gritos a crianças que são estúpidas até que a idade as torne ainda mais crianças ou ainda mais estúpidas.
por exemplo, as conversas sem assunto e a cor das conversas que cheiram a nomes que ecoam entre os pinheiros, nomes de ontem, pinheiros de hoje com o cheiro dos nomes a ecoar entre os gritos e as conversas sem assunto.
por exemplo, o cheiro a mar que não há, o sabor do beijo que se esqueceu, a textura do tempo de mil folhas.
iv.21.MMVI
quinta-feira, abril 20, 2006
xvi
ficaste pleno, plano, belo.
eras o verde irregular, de timbre em timbre, de tom em tom.
esqueceste a gradação e ficaste limpo, impuro, vivo.
os traçados da pele calejada pelo ócio desfiguram a tua não-idade.
és o tempo que se estendeu como manto sobre virgem.
o tempo é-te a própria virgindade.
perdeste o tempo estriado em esperança.
não há socalcos já no teu olhar.
jan.01.MMVI
quarta-feira, abril 19, 2006
xxxiv
abaixo. não é vocabulário que saiba decifrar
e deus só está sujeito à sua hermenêutica pessoal
(no que de pessoal aqui fosse razoável aceitar)
mar.15.MMVI
domingo, abril 16, 2006
xxxiii
memórias líquidas
resquícios permanentes de tempo
de que tempo?
flagrante é o não-sentido
nenhuma verdade se deixa reconhecer ao espelho
de que tempo?
resquícios de um futuro que o presente renuncia
a realidade está prenhe de mim
e deambulo sobre toda a água do mundo
menos sobre aquela que escorre nas sílabas
e nos acordes em suspensão
de que tempo?
fev.06.MMVI
quinta-feira, abril 13, 2006
#4
por exemplo, um delírio, um velório, um veleiro ao vento, um vislumbre de ti que inebria, um velório? que inebria? um vislumbre de ti que inebria. por exemplo, um quadro mal pintado, um vestígio de desejo, um vagido imaginado, um dia vital. um funeral? um dia que inebria? um vestígio de desejo. por exemplo, um sorriso disfarçado, uma paixão fora do tempo, um deus que morreu, um enterro? um deus que inebria? um sorriso disfarçado. por exemplo, uma cama na praia desnudada p’lo mar, um pinheiro derrubado num sonho antigo, uma queda, uma morte? inebriante? uma cama antiga num sonho derrubado. por exemplo, um nenúfar que não se pintou, um perfume misturado com maresia, uma pétala de mármore cinzelada com uma pena, uma pétala caída? inebriada por um poema? um perfume de mármore sobre a água calada. por exemplo, uma sinfonia por escrever, um cantar luminoso, um toque de harpa sobre o manto de silêncio da noite, um piar de corvos, de abutres? inebriante morbidez? silêncio por escrever na luz. por exemplo, um amor. por exemplo, uma eternidade.
iv.13.MMVI
segunda-feira, abril 10, 2006
#3
por vezes a memória do mundo falha ao seleccionar o menos real do passado e fazer dessa invenção inconsciente o paradigma do devir pessoal e histórico. por exemplo, aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio não remetem para a ovação do fim do espectáculo, não fazem fechar os olhos pela saudade do sentimento de omnipotência que tinha ao voar sobre o linóleo preto de encontro aos braços seguros dele, não. aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio são a própria ausência desse passado. a decrepitude do que não chegou a passar de um sonho feito mentira da vida a si mesma.
ele nunca olhou para este velho mesmo quando não era velho. ele não recebeu o meu voo quando eu era talvez até capaz de me dispersar pelo ar com o suor como chuva. ele não soube sequer que eu um dia quis ser bailarino. sou um velho. tenho oitenta e dois anos, quase oitenta e três, e aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio não chegam sequer a ser um riso de escárnio pela mentira que agora renuncio.
sou infeliz. como sempre fui. e se nunca duvidei disso quando o via lançar-se, ele sim, no espaço infinito do palco, não vou duvidar agora da evidência da infelicidade de não poder ver o meu sonho naqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio.
iv.10.MMVI
sexta-feira, abril 07, 2006
#2
não me lembro por exemplo do nome dele. e sei que o soube. não matei nunca ninguém de quem não fosse íntima. no sentido mais visceral do termo (se bem que visceral adquiriu em mim ao longo destes séculos conotações múltiplas).
mas lembro-me por exemplo do perfume que ele usava nessa noite. sei que não foi fácil resistir à tentação de o poupar. a hesitação começou exactamente pelo perfume. não por desejar que ele vivesse mais tempo. não por permitir que me assolasse qualquer impedimento de ordem mundana ou racional. matá-lo-ia de qualquer forma, e beberia o sangue a seguir, como aconteceu. a hesitação percorreu-me o corpo, e não a mente. o perfume viciou-me os sentidos. deixei por instantes de viver antecipadamente o prazer do néctar rubro. desejei poder prolongar aquele quê de místico, porque aquele aroma tinha em mim mais de duzentos anos. não podia imaginar voltar a quebrar o ímpeto por tão pouco. mas a sede e a luxúria da morte é sempre maior.
bebi. li um dia que existiram em tempos no imaginário popular europeu alguns seres, vampiros, como lhes chamavam, que ficaram conhecidos por prazeres e necessidades tão próximas das minhas que percorro a minha memória em busca da noite em que teria devorado algum. e não encontro uma única ocasião em que se instale sequer a dúvida.
não existem vampiros.
iv.07.MMVI
quarta-feira, abril 05, 2006
#1
iii.29.MMVI
domingo, abril 02, 2006
xxxv
ao acordar é universal sem precisar de língua materna. aliás,
a beleza não tem sequer um código que chame a si mesmo
um batalhão de interpretações . a beleza quando nasce
é imediatamente deus.
mar.22.MMVI
sexta-feira, março 31, 2006
xxxii
a cor do tempo minuto negro
dor de coisa nenhuma esquecimento
afinal era ontem
o futuro por cumprir inteiro
e falhei o lugar inviolável do rito
afinal escuto
outras vozes chamamentos antigos
sobre a modorra do silêncio
fev.06.MMVI
terça-feira, março 28, 2006
XIV
réptil
no covil
escurecido
do meu peito
(do meu choro
cândido redil
de emoções
antigas)
a morte
que de longe
espreito
e me espia
silente
de cansaço
ou ardil
27.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
domingo, março 26, 2006
xxix
de cartão duro esquecidas neste hangar vazio. és o gesto que anula a distância
entre as folhas de papel de todos os diários do mundo.
o próprio restolhar das ideias que passeiam pelos dias como
pólen. não há horas tristes dentro das caixas vazias.
somente pó. memórias das coisas que te preocuparam, que te dilaceraram
a alma incauta. as caixas são fantasmas. imensamente pesadas
de tanto nada levarem dentro.
derrubar a verdade suspensa revela-se redundante –
uma lucidez lábil caiu já no passado ou no futuro.
jan.25.MMVI
terça-feira, março 21, 2006
xxviii
não há poema que quebre o cristal sob o pensamento mas
apenas poesia onde a razão se abre voluntariamente ao olhar turvo do delírio
e há quem saiba disso
do lado de cá da lucidez e não saiba dizer
o que vê sem parecer ter-se fundido já
com o próprio reflexo
um sol a escorrer pela calçada recebe os passos afogueados
de alguém que foge tremendo da sua própria sombra
inunda-se acolá um recanto onde outro se afoga todos os dias
depois de saltar borda fora do titanic
o mundo é criado sete vezes antes do almoço e outras tantas
antes do medicamento da noite
o verde é ruivo para aquela mulher que se debruça quase nua
num parapeito gradeado
outro mundo outras pessoas
outra beleza outros medos
a morte é outro mito
a vida outro lugar
há poemas que aguardam que o peso da razão se disperse pelo
azul todo para nascerem sob os pensamentos do outro lado do cristal
há almas que cantam já esses versos
aguardo-te
leio-te ternamente
jan.25.MMVI
xxvii
do teu coração. não precisei de saltar. não precisei sequer
de sair da noite. estavas à minha volta em cada pedra.
jan.21.MMVI
sábado, março 18, 2006
vacilo
do desejo de trevas que faço nascer numa libido fiel a
Thanatos
trepido sem comoção por esta perda, este proveito que
aceito tenazmente em cada despedida de mim rumo a
Tebas
tomo nos braços o deus que me recebe enquanto chora
pela desilusão na hora em que termina a profecia de
Tirésias
devolvo-me a Eros e a Édipo, hóspedes na transmutação
da alma, até Ulisses ao Tejo regressar sob o canto das
Tágides.
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
segunda-feira, março 13, 2006
xxiv
a máquina clara pulsa um conforto piedoso pleno de empatia por toda a inércia minha e das árvores pálidas mesmo sob o signo do sol escuro e timbrado a prata como artigo falso mas bonito quente estretecido na bruma do desejo dos rouxinóis ou de outra folha de papel qualquer que isto da vida do mundo não cabe numa resma bíblia pardo ou manteiga e falta o resto da arte toda por matar
e o vento que já não é verde entretanto pela erosão da realidade cheira a madrugada despida pelas horas que lá passam e a tocam com dedos impressionistas em acordes de uma nota só ritmada a contratempo com os piares discretos como confissões de pã
afinal não custa aceitar a vida encerrada num pisa-papéis sem nada lá dentro
jan.17.MMVI
xxx
a terrível vontade do amor pelo absoluto
(o absoluto, sim, o inexistente e inútil absoluto)
a caneta é um assassino lírico.
jan.26.MMVI
domingo, março 12, 2006
xxiii
virgem de luz e de mim era um vazio estranho
brilhava desumana e altiva ainda perene num trono de saudade
jan.13.MMVI
quinta-feira, março 09, 2006
xxii
fosse o mistério que a assolasse, eu não saberia, se o
desejasse, distinguir um de outro signo seu.
branqueado o desejo de regressar à indiferença, hoje, ontem, não sei,
que angústia me prende ao chão, por não saber pedir-lhe
que se revele, e porventura seria desilusão quando agora não
significasse nada.
jan.12.MMVI
segunda-feira, março 06, 2006
hoje deixei-me ficar por aqui...
dormi sem dar por isso, e não me lembro de ganhar alento
nenhum gesto de coragem foi loucura, nem a vida é
gentil e gratuita -
sobra sempre um dia de glória, um mistério...
a lua gritará por mim dentro em breve,
sonho, girando
sob a grande cúpula do possível.
12.10.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
sexta-feira, março 03, 2006
xx
não penses. não definas. diz.
plêiade. uma explosão doce dentro da boca. e no fim
a carícia da língua num roçagar lânguido e lento.
plêiade. o prazer simples e enigmático. dádiva das estrelas
ou de quem descobriu o lugar delas
no gesto de as nomear.
dentro da boca a alumiar o prazer.
jan.05.MMVI
quarta-feira, março 01, 2006
xviii
não lhe resta destino que não a conversa entabulada com as árvores e
os pintores cegos. é vício do olhar erudito saber mais
do que pode. é vício bem remunerado e perverso. não inútil. simplesmente
tão ingénuo como o vento passear entre rebanhos e entabular conversas com o cinzento seco ou com a própria indefinição de cor em que as árvores se descrevem aos pintores cegos.
estendo-lhe um ramo. e depois outro. e é uma dança
onde era submissão. e é quase amor o roçar dele por mim afora, as folhas
arrepiadas ao toque gentil de um sopro, a copa aconchegada por cascatas descendentes de energia, de brisa inodora e leve. recolho os ramos
num amuo fingido e o vento brinca também numa voluta irrequieta, volteio de circo, rodopiar exibicionista que faz recordar ao pintor cego
a primeira mulher que tocou.
o vento tem conversas de velho e eu tenho palavras feitas de
infinito. as minhas sílabas são melismas para a velhice do vento. sou uma
infinda reserva de vocalisos abstractos que o vento contrapõe à sua desfiada história. desceu por falta de força ou vergado pela solidão.
não há nuvens eloquentes. o azul já não vibra
nos pensamentos dos pintores. nem o branco. sei de um lugar
onde se esconderam mas o sigilo impera entre os espectros.
o pintor aproxima-se e começa a trabalhar. escuta.
invade-me o desejo de sussurrar-lhe algo que o vento não entenda.
mata-me outra vez. faz amor comigo.
o vento exibe a indiferença que o esquecimento trouxe. o pintor
seca os olhos, fechados por dentro e por fora e pega num pastel
qualquer.
jan.04.MMVI
