segunda-feira, agosto 06, 2007

XII

olhei para trás uma vez apenas
e a vertigem desapareceu

a memória é um relógio
com cada ponteiro para seu lado

viveste no preciso instante
em que se cruzaram
à meia-noite

morri às seis e meia
lembras-te?

quinta-feira, agosto 02, 2007

XI

no ponto de viragem
ameaças des(ex)istir

sofres de vida a mais

terça-feira, julho 24, 2007

X

entre um lugar e o outro dia
depois de nunca

estou eu

quarta-feira, julho 18, 2007

IX

a vida perpetua
este incessante
remorrer

sem música
de fundo

quarta-feira, julho 11, 2007

VIII

não é só a tua voz
que me impede
de morrer

a metamorfose
não tem timbre -
e não seria o teu

não és nenhuma
das minhas sete
trombetas

quarta-feira, julho 04, 2007

domingo, julho 01, 2007

VI

nunca mais choraste
como se o mundo
uma lágrima fosse

quarta-feira, junho 27, 2007

V

no equilíbrio
habita um preço
duro e hediondo

a beleza
é maga
e são duendes
os sonhos
de ontem

domingo, junho 24, 2007

IV

nem no mais ínfimo detalhe
do lugar onde estiveste
deitado
se consegue ler
o teu cheiro
e o teu
suor

domingo, junho 17, 2007

III

o livro de baladas
não foi escrito
ainda

- todas as canções
de amor são
póstumas

terça-feira, junho 12, 2007

quinta-feira, junho 07, 2007

I

cai
uma noite tão grande sobre
o mais completo
silêncio

derruba o luar
dali abaixo
e estende-o ao largo
do desejo

(fim de quase
tudo o que não
merece morrer
hoje)

quarta-feira, maio 02, 2007

no mar, a madrugada...



Vou embarcar durante 23 dias.

Este lugar é vosso. Cuidem dele até ao meu regresso. Percorram os arquivos onde tanto ainda permanece por conhecer e reconhecer.

Obrigado pela companhia silente deste tempo extenso que a madrugada rompeu.

Até breve.

r.e.

domingo, abril 29, 2007

espera

é como um fogo,
o silêncio – uma
opressão no peito
um suspiro trémulo

(o vazio espectral
uma alma doente
como um eco surdo
em gruta sem saída)

nem o vento assobia
nem o ar rumoreja
entre as árvores
nem o lápis sabe
para onde ir já

apenas uma espera
... um silêncio a incinerar ...
apenas um silêncio

29.07.03
(in 2/3 e outros poemas, 2003)

terça-feira, março 27, 2007

2



a luz morna sobre um
olhar fechado
revela-se parca para
o desvendar da inefável
película de sonho que
espreita pelas narinas
quietas quase tranquilas


12.05.03

(in um barco de papel para Afrodite, 2003)

quinta-feira, março 08, 2007

impromptu II - receituário



cada hora de solidão, um milénio de serenidade
cada minuto de olhos abertos, eternidades vazias de luz para não ver, não...
cada passo, léguas que não levem a destino algum
cada suspiro, golfadas de ar para que voe como um balão e veja a vida lá de cima e veja se percebe alguma coisa do mapa
cada olhar de angústia, um telescópio donde possa ver a sua alma a preto e branco como nas fotografias dos mortos

cada vez que acorda, ver o nascer de uma estrela
cada vez que adormece, ver a morte de uma flor



(preciso de mim, e não sei onde me perderam)

08.01.02
(in despojos de lume e de medo, 2002)

domingo, fevereiro 18, 2007

impromptu I - introspecção

sou um espelho sem forma fixa

sou uma luz sem sombra constante

sou um deus sem obra criada

sou uma esfera sem perfeição

sou perfeição sem divindade

sou o que construo do mundo em mim

sou o que o mundo destrói em mim

sou o afecto que não sentes

sou o que sentes no lugar do afecto

sou o vazio que deixas quando aprendes a viver

sou o peso do que me deixas quando queres morrer

sou um em mim e tudo sem mim

sou assim


16.12.01
(in
despojos de lume e de medo, 2001)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

sem título

palimpsesto infinito
rubor sobre a alma
inconsequente memória
acto leve sob a espuma

(in mar branco, nudez insular, 2005)

terça-feira, fevereiro 06, 2007

sem título

inócuo contemplar
ausência anódina
subjectividade anónima
vicissitudes do ínfimo olhar

(in mar branco, nudez insular, 2005)

sábado, janeiro 27, 2007

2º andamento

V

será dia e o vento
fechará o céu à
chave - não mais
deixará o sol o mundo
neste torpor insano.