quarta-feira, maio 02, 2007

no mar, a madrugada...



Vou embarcar durante 23 dias.

Este lugar é vosso. Cuidem dele até ao meu regresso. Percorram os arquivos onde tanto ainda permanece por conhecer e reconhecer.

Obrigado pela companhia silente deste tempo extenso que a madrugada rompeu.

Até breve.

r.e.

domingo, abril 29, 2007

espera

é como um fogo,
o silêncio – uma
opressão no peito
um suspiro trémulo

(o vazio espectral
uma alma doente
como um eco surdo
em gruta sem saída)

nem o vento assobia
nem o ar rumoreja
entre as árvores
nem o lápis sabe
para onde ir já

apenas uma espera
... um silêncio a incinerar ...
apenas um silêncio

29.07.03
(in 2/3 e outros poemas, 2003)

terça-feira, março 27, 2007

2



a luz morna sobre um
olhar fechado
revela-se parca para
o desvendar da inefável
película de sonho que
espreita pelas narinas
quietas quase tranquilas


12.05.03

(in um barco de papel para Afrodite, 2003)

quinta-feira, março 08, 2007

impromptu II - receituário



cada hora de solidão, um milénio de serenidade
cada minuto de olhos abertos, eternidades vazias de luz para não ver, não...
cada passo, léguas que não levem a destino algum
cada suspiro, golfadas de ar para que voe como um balão e veja a vida lá de cima e veja se percebe alguma coisa do mapa
cada olhar de angústia, um telescópio donde possa ver a sua alma a preto e branco como nas fotografias dos mortos

cada vez que acorda, ver o nascer de uma estrela
cada vez que adormece, ver a morte de uma flor



(preciso de mim, e não sei onde me perderam)

08.01.02
(in despojos de lume e de medo, 2002)

domingo, fevereiro 18, 2007

impromptu I - introspecção

sou um espelho sem forma fixa

sou uma luz sem sombra constante

sou um deus sem obra criada

sou uma esfera sem perfeição

sou perfeição sem divindade

sou o que construo do mundo em mim

sou o que o mundo destrói em mim

sou o afecto que não sentes

sou o que sentes no lugar do afecto

sou o vazio que deixas quando aprendes a viver

sou o peso do que me deixas quando queres morrer

sou um em mim e tudo sem mim

sou assim


16.12.01
(in
despojos de lume e de medo, 2001)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

sem título

palimpsesto infinito
rubor sobre a alma
inconsequente memória
acto leve sob a espuma

(in mar branco, nudez insular, 2005)

terça-feira, fevereiro 06, 2007

sem título

inócuo contemplar
ausência anódina
subjectividade anónima
vicissitudes do ínfimo olhar

(in mar branco, nudez insular, 2005)

sábado, janeiro 27, 2007

2º andamento

V

será dia e o vento
fechará o céu à
chave - não mais
deixará o sol o mundo
neste torpor insano.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

2º andamento

IV

ouves o sol?
são sombras, dizias,
e eram folhas do
livro da minha vida
- soubeste cedo.

domingo, janeiro 14, 2007

2º andamento

III

repicam a dobrar
por ninguém (sim, ninguém
transpôs o belo),
mas a tristeza ecoa
de reverberação em reverberação

segunda-feira, janeiro 08, 2007

#17

por exemplo, o frio perguntava as horas e o coração não sabia o tempo, discurso cego e incontornável, por exemplo, o saber que não se sabe o tempo, pensava o coração, é a brecha por onde espreita outro pulsar, outro ritmo. por exemplo, o reflexo demorava-se e a forma ficava oca de exterior, absurdo já antigo, ser-se órfão do mundo. não! não tão poético – ser oco de exterior, estar sempre com o avesso de fora, não saber onde existirá alguma coisa, por exemplo, ou de que lado virá o sol amanhã. ah! amanhã e é já um vislumbre de intuição do frio ao perguntar as horas, lágrimas do tempo derramadas em vão. por exemplo, uma casa vazia, de tudo, de janela a janela só o sol que ali vive por minutos, como uma explosão que se extingue em silêncio, uma casa vazia de sentido. porquê uma casa então? gruta, ou nem tanto, memória tridimensional, por exemplo, ilha em negativo onde o mar ecoa com timbre pobre e seco. à noite as paredes perguntam ao frio quando é que o mundo volta, e o frio vem ter comigo, por exemplo, confiante na minha ignorância.

xii. 13.MMVI

quinta-feira, dezembro 28, 2006

2º andamento

II

a manhã verte lume
no coração do medo (inóquo
e misterioso) de
um dia mais vazio
que o último.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

#16

por exemplo, caía uma árvore sem razão e deus ria-se. de quê?, ninguém se atrevia a saber; saberia-o a árvore se tivesse de o confessar, mas a solidão era um estigma silente. vinhas ao longe... não! já não vinhas. eram imagens, por exemplo, miragens, talvez, imaginário podre e incerto. por exemplo, a chuva suspendia o gesto hiperbólico e sorria no ar. não! deus não se ria agora. só o ser humano se ria da morte. deus só se ria da ordem do mundo, por exemplo, e da perfeição. aplanavam-se as colinas em forma de mulher robusta e deus corava. a memória de deus não era infinita mas pouco faltava para poder nomear todos os corpos esculpidos na orografia terrestre, por exemplo, ou cada um dos recantos sumptuosos e idílicos do fundo do mar. inundavam-se os recessos da alma com correntes de pensamentos livres e deus morria. verdejavam no labirinto verde do espírito ideias de mundos possíveis e deus morria. orvalhavam-se as manhãs da mente em gotas de futuro límpido e deus morria. não! o homem nunca se ria da morte de deus.

xii.09.MMVI

quinta-feira, dezembro 14, 2006

2º andamento

I

afastou-se o mar
de encontro a nós
(de pedra
frágil e inerte -
lágrimas de fora
para dentro do
cansaço)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

#15

por exemplo, não ter medo de amar. não ter vergonha de morrer, nem ficar confuso com a incerteza. por exemplo, não ter sequer incertezas e só aceitar dentro de si o que já deixou de se poder perder - o falso e o definitivo. por exemplo, ir atrás do tempo buscar a forma das coisas, ou enterrar debaixo da solidão o terror claustrofóbico de ficar fechado neste universo apertado. por exemplo, gritar bem alto o nome que temos hoje, deixar que alguém se volte e nos olhe de frente, nós próprios, num espelho que não existe, pelo menos fora do desejo intrínseco ao próprio existir. por exemplo, não ter receio de não ser único, não ter pudor em revelar-se banal e desinteressante, imensamente inconsequente, até frívolo e fútil, quem sabe se não cruel e pérfido até, ou, por exemplo, ser a própria vileza e maldade atroz personificada fora dos pesadelos. não ter ambições morais, ou esperanças sociais, nem dúvidas religiosas, ou remorsos artificiais, nem mesmo convicções existenciais e ainda menos crenças ideológicas. por exemplo, não ter medo de amar - entregar toda a pele, todo o sangue, toda a dor, todo o ar, todo o sofrimento, a vida e mais um pouco, ao labirinto dos afectos inquebrantáveis.

xii.05.MMVI

colapso


desapareci
no labirinto em estado líquido de uma alma em chamas frias

24.08.02

(in prosa perdida, 2002)

quinta-feira, novembro 30, 2006

#14

por exemplo, uma ladeira coberta de outro verde, molhado de lágrimas da noite, íngreme como apetece à aventura, nem demais nem de menos, perfeita para, por exemplo, correr e só parar no asfalto, rebolar até as costas de encontro às silvas, escorregar até o carrinho de rolamentos se voltar ao contrário, para gáudio de todos, principalmente do condutor feliz. por exemplo, um muro, alto como todos os muros eleitos para o risco, alto e estreito, irregular, mágico pelo esconderijo que oferece às lagartixas, deusas para quem se rasteja de calças rotas pelo chão que os ratos pisam de madrugada e que as velhas pisam de manhã cedo quando vão à praça. por exemplo, uma cave aberta ao vento que silva rente ao solo, mas fechada à invasão dos miúdos pela imponente escuridão que são braços de mãos esticadas e negras; que são milhões de morcegos, se calhar mais, a povoar qualquer pesadelo que se preze, especialmente os da vigília; que são, por exemplo, corpos atraentes por estarem nus e aterradores por estarem mortos; uma cave que sobrevive à curiosidade de uma geração ou duas, e onde todos juram um dia lá ter entrado, heróis por dois segundos, até a bazófia ser desmascarada pela sabedoria céptica do grupo. por exemplo, uma oração, uma invocação ao diabo, um ritual, por exemplo, pedras que afinal se mexeram, delírio de medo na fuga do destino que nesse dia se traçou irreversivelmente, sem que nem sequer eu o adivinhasse.

xi.30.MMVI

segunda-feira, novembro 27, 2006

audrey




também nas árvores a imponência
nasce em tons de verde
que lembram mais a leveza
que o poder. também no mar
existe o perigo de nos afundarmos
como no infinito de um olhar.
é também de mistério que fala
o vento quando embate
num sussurro que desperta e atrai.
uma fotografia assim é como a
escuta impossível do mistério
do vento que embala
o verde majestoso que
impele ao abismo profundo
que o mar anuncia.

uma fotografia é apenas e
tanto mais que isso

terça-feira, novembro 21, 2006

# 13

por exemplo, quando chove no coração e é sempre inverno em nós, ou o tempo desliza para fora da pele e somos suspensão sem atrito nem massa, sem matéria nem corpo, sem nome nem traço distintivo, por exemplo, quando o próprio pronome pessoal nos repele e se recusa a sublinhar uma qualquer identidade, ou melhor, uma qualquer alteridade. por exemplo, um apelido sem ascendência, uma herança sem herdeiros, uma ponte sem quaisquer margens, um rio sem foz e de nascente incerta, maré sem direcção, leito sem curso, seco como o coração dos outros, que Agostinho dizia ser sempre de noite para nós, e afinal é sempre verão sem a chuva que atola as planícies do nosso. por exemplo, quando não estamos já no lugar onde o olhar de alguém repousa, quando a voz que emitimos percorre o labirinto do mundo, e regressa à nossa solidão, intacta como antes da primeira vogal, por exemplo, ou como no próprio instante do nascimento do desejo de ser fala, discurso, viagem, travessia aos antípodas de nós, sem o risco da estranheza nem o sorriso do reconhecimento.

xi.21.MMVI

segunda-feira, novembro 13, 2006

contos inconjuntos

III

Dezembro amanhecia.
Levantou-se apenas para ir à casa de banho e voltou para dentro da cama. A noite e o quente refugiavam-se dentro do quarto, por detrás das gelosias fechadas, dentro dos lençóis, contra a teimosia do frio lá fora. O Vasco já havia saído há algumas horas, ainda no ventre da madrugada, mas Margarida acordou só com o tique-taque da bexiga, ou com o chamamento do próprio dia. Dezembro amanhecia mas não era para ela por agora. Agarrou-se à almofada do lado, menos quente já mas ainda acolhedora. O cheiro da noite era inebriante. O sonho interrompido tentava invadir a luz emergente e devolver Margarida à penumbra dos desejos transfigurados – em menos de dez minutos ela dormia de novo, estátua sob o manto, a respirar suavemente.
Acordou e dirigiu-se à casa de banho outra vez, com a leve sensação de que algo se repetia infinitamente naquela manhã, afinal em tudo igual às outras. De caminho, em bicos de pés, viu-se fugidia no espelho do quarto, e murmurou um bom dia sorridente, por debaixo da máscara de sono que ainda lhe ocultava as feições naturais. Sentada na sanita pensava ‘hoje tenho de acabar o terceiro capítulo’. Limpou-se, levantou-se e preparou o duche. Resmungou qualquer coisa a propósito das calças do pijama do Vasco no chão da casa de banho, e perguntou-se onde é que teriam ficado esquecidas as cuecas desta vez. Acabou por descobri-las atrás da porta, atiradas com certeza em gesto aleatório ou, pelo contrário, como que escondidas, naqueles comportamentos imperscrutáveis que as mulheres surpreendem nos seus companheiros. Por detrás da contrariedade manifesta no resmungo, nasceu um sorriso apaziguador que já conhece.
Preparou um sumo de laranja e um café para acompanhar as torradas. ‘Hoje não saio de casa’, comprometia-se consigo mesma enquanto ia desenhando mentalmente o dia à medida tanto da necessidade como do desejo. Sentou-se na varanda ainda molhada, a acabar o sumo e a contemplar a manhã já crescida. Pensou no Vasco e numa manhã distante em que o frio os tinha feito aproximar, desconhecidos então, talvez tanto como, apesar de tudo, continuavam ainda a ser. ‘Todo o tempo é sempre tão pouco e demais’, pensava. Agarrava-se a estes flashes que as primeiras associações mentais traziam, porque sabia que o texto tinha de nascer no seio destes impulsos encriptados pelo inconsciente. Forçava-se a uma liberdade de pensamentos que não tinha. Desejava uma fluidez que desconhecia em si mas para a qual intuía dirigir-se se desse os passos certos, ou pelo menos se evitasse os atritos que têm atrofiado a sua escrita. Era de memória viva que esperava ver surgir em fluxos irreprimíveis, a sequência de imagens, eventos, diálogos com que povoaria o seu romance. ‘Mas qual romance?!’
Nesse momento, ao enunciar com raiva esta dúvida, sentia a emoção escorrer dentro dela num apelo às lágrimas que aí vinham. Perguntar ‘Qual romance?’ a propósito da rarefacção da sua escrita, era um prelúdio a inquirir ‘Mas que vida?’. No entanto, sabia que era injusto perguntar aquilo. Interrogava-se sim porque é que em qualquer fase da sua vida havia questionado assim o seu destino, as suas escolhas, o seu mundo, o seu presente. Porquê? Afinal rodeava-a tanta beleza e dignidade, tanta felicidade espalhadas pelas horas. Porquê então este permanente e inquietante suspirar por algo diferente, algo melhor. Melhor, como, em quê? O que quer que fosse, só dependia da sua noção de liberdade. E a sua própria noção de liberdade estava num ponto muito próximo do zero absoluto. Não a liberdade em si mas o sentido da sua realização. Esse paradoxo era canónico, mas em Margarida assumia os contornos de uma espécie de punição, de uma expiação submersa num passado que quase já não reconhecia mas intuía mais poderoso do que a razão conseguia conceber. Se isto fosse o seu romance...
Depois de almoço pensou em vestir-se para sair, mas hesitou e acabou por decidir ficar em casa o resto do dia e, quem sabe, à noite pudesse reler o produto dessa reclusão forçada e sentir-se orgulhosa. Ligou ao Vasco para solidificar esse auto-imposto sacrifício, tornando-o evidente ao mundo exterior. Ele não atendeu. Nem podia. O beijo de boa noite que haviam trocado na noite anterior quando ela se deitou, ainda cedo, para não comprometer a resolução de aproveitar o dia seguinte, foi o último gesto que os uniu, foram as últimas palavras que proferiram, foi a última imagem que registou do homem que, horas mais tarde, seria obrigada a reconhecer no corpo encontrado sem identificação naquele quarto impessoal, misteriosamente familiar, como pôde sentir com surpresa e repulsa quando morbidamente quis penetrar no antro das quatro paredes vazias que assistiram ao fechar daquele capítulo da sua vida.

nov.11.MMVI


(NOTA: noutro lugar, a morte de Vasco aqui referida é descrita como tendo sido a morte de Vicente. Não é gralha, nem é inocente esse deslocamento narrativo)