(“... quando tu próprio és o espelho e a réplica
dos que não atingiram o teu tempo...”
Jorge Luis Borges)
e do reflexo fizeste a obra
milagre profano da morte da ideia
o tempo quebrou o tempo
01.03.02
por exemplo, o atrito sonoro com o tempo, a cor da dúvida sobre o espaço que verdadeiramente roubamos ao mundo, a certeza do delírio em que se metamorfoseiam todas as respostas verdadeiras. por exemplo, a cegueira assassina da vaidade, o poder oculto do silêncio, a ínfima parte da razão que cabe até ao pensamento mais absurdo. por exemplo, uma dor, por exemplo, uma visão mística que nos surpreende o cepticismo, por exemplo, uma evidência insuportável, com o peso uniformemente distribuído entre o desejo e o terror, arte pura, por exemplo. um gesto pintalgado de divino, um sabor apreciado uma única vez, um sentido nunca usado, um mundo totalmente virado do avesso para nós, por exemplo, o contrário da percepção, um absorver para fora, uma luta com o sensorial, uma batalha pela impermeabilidade da alma, por exemplo. uma morte que nasce à flor da pele e se espalha pelo aroma do espírito, de dentro para fora, de cima a baixo.
x.11.MMVI
deixa perder-se em ti meu rasto
e que o mundo me procure apenas
no teu sorriso metamorfoseado
em dois condores de rubras penas
03.06.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
um refúgio de pedra
dentro do cérebro
para as ideias sem
mãe racional nem
delirante paternidade
incógnita
colónia de férias
permanente
para as ideias inatas
ou geniais
um asilo
talvez
ou um beiral simples
de sombras arqueadas
pelo pensamento
(não quero saber!)
fico até que passe
mais um dia
mais uma vaga
monotonia mental.
29.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
minha boca
perdida num
vale de joelhos
escarpados
naufrágio na
tentação
para lá do deserto
ventre duna
um oásis salgado
quente ilusão
húmida
25.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)