sábado, outubro 28, 2006
#11
x.24.MMVI
sexta-feira, outubro 20, 2006
#10
por exemplo, o atrito sonoro com o tempo, a cor da dúvida sobre o espaço que verdadeiramente roubamos ao mundo, a certeza do delírio em que se metamorfoseiam todas as respostas verdadeiras. por exemplo, a cegueira assassina da vaidade, o poder oculto do silêncio, a ínfima parte da razão que cabe até ao pensamento mais absurdo. por exemplo, uma dor, por exemplo, uma visão mística que nos surpreende o cepticismo, por exemplo, uma evidência insuportável, com o peso uniformemente distribuído entre o desejo e o terror, arte pura, por exemplo. um gesto pintalgado de divino, um sabor apreciado uma única vez, um sentido nunca usado, um mundo totalmente virado do avesso para nós, por exemplo, o contrário da percepção, um absorver para fora, uma luta com o sensorial, uma batalha pela impermeabilidade da alma, por exemplo. uma morte que nasce à flor da pele e se espalha pelo aroma do espírito, de dentro para fora, de cima a baixo.
x.11.MMVI
domingo, outubro 15, 2006
22
deixa perder-se em ti meu rasto
e que o mundo me procure apenas
no teu sorriso metamorfoseado
em dois condores de rubras penas
03.06.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
domingo, outubro 08, 2006
#9
x.06.MMVI
sexta-feira, outubro 06, 2006
#8
por exemplo, a ignorância como esboço de sabedoria ou como sabedoria plena, o desejo como esboço completo da apatia, de indiferença. por exemplo, quando um orgasmo é um livro de apontamentos sobre o vazio, quando a alucinação é um rascunho vivo da monótona lucidez indesejada, ou quando, por exemplo, um homem é o esquema formal e insípido de um sonho.
por exemplo, um mistério, uma pergunta, uma inquietude, talvez um desejo à procura da hora incerta do reconhecimento do seu objecto, talvez uma pobreza maior que a mais temida das mediocridades, talvez, por exemplo, uma mentira auto-imposta por respeito ao rigor e à dignidade do não-saber.
ix.14.MMVI
domingo, outubro 01, 2006
XVII
um refúgio de pedra
dentro do cérebro
para as ideias sem
mãe racional nem
delirante paternidade
incógnita
colónia de férias
permanente
para as ideias inatas
ou geniais
um asilo
talvez
ou um beiral simples
de sombras arqueadas
pelo pensamento
(não quero saber!)
fico até que passe
mais um dia
mais uma vaga
monotonia mental.
29.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
sábado, setembro 23, 2006
#7
por exemplo, uma flor em negativo, pétalas negras de veludo, assustadoras e graciosas como a beleza exponenciada sob o efeito da diferença, assustadoras e graciosas como uma memória mais nossa do que desejaríamos e ao mesmo tempo tão nossa como nós.
por exemplo, o negativo de um afecto, a indiferença que é já outra coisa no outro lado da indiferença, ou melhor, que é o amor num outro lugar, irreconhecível e familiar como um fantasma há muito não vislumbrado por ninguém ou confundido com uma sombra ou um reflexo.
viii.05.MMVI
domingo, setembro 17, 2006
1º andamento
Na fímbria de veludo do teu passado tens a
cor estampada da melancolia, nobreza que te
afasta do chão em que estou mergulhado há
duas eternidades e meia, sentimento nobre o
que serve de pretexto ao amor pelo eterno
sofrer em vão.
Amar a vacuidade do sentido desdobra em nós,
ontem, para sempre e agora, o véu multicolor
da dúvida e da ira, tanto para fora do limite
da língua que o expressa, o óculo mágico
da metamorfose, como para a profundeza da
angústia que o consome em golfadas de lucidez.
No caleidoscópio da incerteza vemos o que
não foi desenhado por deuses mas por espectros,
fantasmas de sangue mais negro que a noite
de sonho, mais quente que o sol apagado
num espectáculo silente e insano.
E regresso sempre ao veludo ancestral
desbotado numas cores e adulterado nos
tons da memória caprichosa, e brilham
os dias sombrios imaculados pela tristeza
e esfumam-se em tons cinza os beijos
redondos e os farrapos de êxtases
que guardavas em molduras de tempo
num museu que não chegou a abrir.
terça-feira, setembro 12, 2006
9. viagem ao antípoda do sentido
de se confundir com um círculo imperfeito invisível. Mal desenhado como os dias e
as paredes dos cemitérios. Do outro, a base inútil.
Um cone feito de infinitos é como uma recta, mas as rectas têm cor.
Nos subúrbios da nossa capacidade de pensar, existe um tempo que não
se deixa manipular sem preço. Uma base inútil, porque não há cones que precisem
de tempo para se deixarem nele repousar. Um vértice é suficiente. Nem de cor
precisa.
Um cone tem um preço para se materializar em espaço. Numa dessas
esquinas sem rosto, percorre-se um labirinto infantil para chegar à condição
óbvia da nossa impotência estrutural.
Apesar de se confundir com um círculo imperfeito, o vértice não é inútil.
13.03.03
(in a densidade das almas, 2003)
sem título
intuída em cada vereda íngreme
do pensamento maduro
27.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
sexta-feira, setembro 08, 2006
13
minha boca
perdida num
vale de joelhos
escarpados
naufrágio na
tentação
para lá do deserto
ventre duna
um oásis salgado
quente ilusão
húmida
25.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
segunda-feira, julho 31, 2006
sem título
sobre o tudo de alguma coisa
nos continua a afastar sempre
do sentido completo da nossa
despojada doutrina do amor
17.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
quarta-feira, julho 19, 2006
três vultos de angústia
(teatro)
o Mestre (também narrador)
uma Lágrima
o Vento
a Palavra (apenas voz amplificada)
o Discípulo
1º ACTO – a ausência
Quadro I
Cena 1
o Vento, vestido de azul, sem gravata, obviamente, proclama como se recitasse de cor poemas de juventude:
- Irmãos do Norte, tragam
Brisas frescas e brilhantes
Vontades de saber constantes
Que nem os tempos ...
indignado pela introdução inoportuna, o Mestre interrompe bruscamente a récita, gritando desde lá do fundo:
- Alto! Isto ainda não começou! Isto ainda não podia ter começado. E a ter começado, que forma ridícula de começar ...
O Vento, surpreendido mas rapidamente recomposto, ...
sexta-feira, julho 14, 2006
8
dos teus braços suspensos
num acaso feliz
sobre o (vermelho) tecido
assusta pela cálida
semelhança com a
morte precoce de
um ramo partido
14.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
segunda-feira, julho 03, 2006
1º andamento
Era de noite mais noite que o universo imerso em
ti, como o orvalho luminoso no fulcro de prazer
de um trevo, no seio de quatro folhas corações de
fortuna, feitiço, luar imerso em ti, mais luar que
o brilho da paixão entre a coruja e a noite de quatro
madrugadas imersas no teu seio.
E depois continuou a névoa de tempo com o sol
submerso em mim, noite mais noite que a tua
morte.
Por entre os ramos invisíveis dos bosques por
desbravar sem coragem nem desejo, emerges sólida
como uma recordação que julgava presa no olvido
de tenazes ardentes, emerges mais sólida que o templo
de visões místicas que o tempo destruiu na minha
crença de papel, emerges sólida como a água bravia
da chuva mais chuva que a tempestade em mim quando
não és tempo nem azul nem ausência.
03.vii.MMVI
sábado, julho 01, 2006
XII
impossibilidade de estender o braço e
(confiante, sofregamente)
tocar o tecto do nosso infinito
06.12.02
(in infinitas impossibilidades, 2002)
domingo, junho 18, 2006
plúmbea amargura
como uma solidão velha;
esmagas-me p’lo caminho
numa ânsia de terror
e poder;
mas perecerás ao lume
dos mistérios antigos
da escrita e dos sons.
21.06.02
(in prosa perdida, 2002)
I.
há que aprender (com os pássaros) a morrer
e deixar
que a brisa nos consuma
e saber ver
a preto e branco
(sem amar demais a melancolia)
e aceitar a beleza da ilusão construída
(in instantes de perplexa aprendizagem, 2002)
sexta-feira, junho 16, 2006
XX
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego
enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação
uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão
01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
quarta-feira, junho 14, 2006
sem título
da virtude – um fustigar intenso
do véu interno e inocente;
(vigília enferma, labirinto hipnótico
e vão, inconsequente e triste)
vaticino-me uma morte
sem nome – gota de mim no vácuo
vislumbrado atrás do pano;
(a lua segue-me os passos, vacilantes
e aturdidos, de olhos velados)
veste-te, vento, de brisa
e leva para longe o veneno
das cinzas da minha vontade.
06.12.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)