sexta-feira, junho 16, 2006

XX

num afago ansioso de
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego

enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação

uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão

01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)

quarta-feira, junho 14, 2006

sem título

vilipêndio doentio
da virtude – um fustigar intenso
do véu interno e inocente;

(vigília enferma, labirinto hipnótico
e vão, inconsequente e triste)

vaticino-me uma morte
sem nome – gota de mim no vácuo
vislumbrado atrás do pano;

(a lua segue-me os passos, vacilantes
e aturdidos, de olhos velados)

veste-te, vento, de brisa
e leva para longe o veneno
das cinzas da minha vontade.

06.12.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)

sexta-feira, junho 09, 2006

4


redundância

quero um dia outro
um dia antes
um dia sem mundo
um mundo sem dia

(vê o horizonte sem traço definido
sem cor distinta no céu e na terra
de contorno sinusoidal
em pedaços separados por nadas azuis)

um som sem vibração
uma cor sem vibração
um coração sem cor
uma acção sem dor

e as gaivotas de asas cristalizadas
e os colibris de asas cristalizadas
e as cotovias de asas cristalizadas
e os gaviões de asas cristalizadas

e os homens de asas cristalizadas


(um dia sem mundo
um mundo sem dia)


quero um século sem mim
quero-me sem um século de mim

03.02.04
(in imanências, 2004)

sexta-feira, junho 02, 2006

2



era uma vez no infinito


o requinte de deus consiste na distância

palavras onde nem uma gota de sangue
cabe sem que o sentido se dissolva
em
heresia capital

“há uma lúcida entrega
onde deixou de haver fé”


no infinito, não há palavras esquecidas

sempre que vier o demiurgo
ao mundo incriado
será estrangeiro

“pela mesma lógica
que fez nascer fé”


e deus será filho ilegítimo
de um pai onírico e sem memória

“no lugar da oferenda cega”


morre-se em silêncio, lá.


02.02.04
(in imanências, 2004)

tempo

tempo intuição
projecto desgovernado
imprevisível refúgio

de e para dentro de deus

(in mar branco, nudez insular, 2005)

domingo, maio 28, 2006

16

os corpos cantam
de memória já
a melopeia agreste
da procura fremente
um do outro

noite cheia
se envolvem sem
nostalgia nas mãos
e nos dedos apenas
desejos de travessia

mistura-se no
escuro o escuro dos
teus olhos com o das
roupas sobre o nosso
sono inquieto

retomamos a rota do
sonho interrompido
mas com o sabor
agri-doce da manhã
real que nos rapta

27.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)

quarta-feira, maio 24, 2006

(dia 21 de novembro, 2048)


I

“Ich bin der Welt abhanden gekommen”
(Friedrich Rückert)


Longe, envolto em brumas, mais do que pude imaginar-te, criei-te.
Revejo-te nessa memória que dizes do futuro por me preveres cá atrás, bem longe do teu entendimento. Estranho ao mundo também ... na ausência do poder ... do sentir.
Mais do que possas um dia conceber, no fundo das pessoas reside sempre a angústia acalentadora de existirem sem vida, sem nada, mas também a ilusão comicamente tocante de nunca deixarem de pensar que essa é uma condição instável de que a humanidade se livrará escrevendo, criando mundos em que ...

Longe, envolto em brumas...
... criei mundos em que não morri antes de saber escrever o que era a morte. E tu, executor desse sonho, tentas vislumbrar-me absurdamente, não compreendendo... ou não aceitando...

quinta-feira, maio 11, 2006

# 6

Por exemplo, um lugarejo escondido fora do mapa, um cheiro a estrume que encanta e inebria porque é infância perdida de novo, as ervas altas a emoldurar as papoilas cobrem o horizonte quando nos sentamos no chão. Por exemplo, um melro, não... uma arvela ou um arvelim sedento, num piar de nostalgia, de saudades de mim, de ti, do tempo em que os matávamos com carinho. Nojo.
Os pequenos pescoços torcidos no torno invencível dos nós dos dedos num estrangular delicioso. Por exemplo, a veneração que protege inexplicavelmente as andorinhas, essas não, que são as galinhas de nossa senhora, argumento de deitar as mãos à cabeça agora e que tinha a força da profecia então, se matares uma andorinha, a primavera pode não acabar, mas farás nossa senhora chorar. Isso não. Mata antes uma carriça para treinar a pontaria ou um tordo, troféu miserável. Po exemplo, um cheiro, não a estrume já, mas a sangue. Sangue seco. Nos dedos pintados pelas penas inertes e ensopadas. O sangue que se saboreia como prova da conquista estúpida. Orgulho de estupor. Vergonha até a memória doer e ir embora chorar e limpar as lágrimas a uma parra qualquer.

v.10.MMVI

domingo, maio 07, 2006

quatro rimas perdidas


I
ontem não choveu
mas nos barrancos e nas encostas
dilataram-se pedras e rios

II
ruíram muros ancestrais
nas vizinhas planuras -
animais em fuga (já mortas as sombras)

III
sem gotas de água
caíram em aromas a pureza e a morte
sobre os limites do verde triste

IV
de longe vi o que pude,
aqui escrevo agora (invento)
o canto amargo do silêncio.
18.05.02

(in prosa perdida, 2002)

sexta-feira, maio 05, 2006

13

minha boca
perdida num
vale de joelhos
escarpados
naufrágio na
tentação

para lá do deserto
ventre duna
um oásis salgado
quente ilusão
húmida

25.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)

segunda-feira, maio 01, 2006

xxvi

espernear é grito cómico. há até o delírio de espaço
como se as pernas alcançassem o éter e rebentassem de riso.
palhaços. mágicos sem jeito.

jan.20.MMVI

segunda-feira, abril 24, 2006

xxxi

na escuridão da verdade a morte é feita de luzeiros doces.

jan.26.MMVI

xxv

a rosa é um ritual estranho à felicidade
a rosa não é a flor nem o relâmpago dos sentidos todos
a rosa mentiu ao tempo
a rosa deixa no branco a impureza do destino impermeável à dor
a rosa escorre em latejos de pavor rubro
a rosa deita-se ao lado do outro e adormece longe
a rosa foi um poema

jan.19.MMVI

sábado, abril 22, 2006

#5

por exemplo, o cheiro a resina, o sabor a pão de deus com queijo, o cheiro a mofo, o sabor a castanhas piladas, a textura do molotof, o cheiro a ontem, o sabor de hoje, a textura do vazio.
por exemplo, o cheiro a resina, o jogo colorido sobre a caruma, o plástico em argolas, os cinco pinos com as cores respectivas, o lilás ao centro, o verde, o amarelo, o rosa, o azul, norte, sul, este, oeste, o lilás ao centro, eu.
por exemplo, o cheiro a fritos, a melancia, a resina, o sabor dos rissóis, das castanhas piladas, o cheiro a lilás, os gritos de crianças que brincam, que brincam e gritam porque brincam e gritam se não brincam, cheiro dos gritos a crianças que são estúpidas até que a idade as torne ainda mais crianças ou ainda mais estúpidas.
por exemplo, as conversas sem assunto e a cor das conversas que cheiram a nomes que ecoam entre os pinheiros, nomes de ontem, pinheiros de hoje com o cheiro dos nomes a ecoar entre os gritos e as conversas sem assunto.
por exemplo, o cheiro a mar que não há, o sabor do beijo que se esqueceu, a textura do tempo de mil folhas.

iv.21.MMVI

quinta-feira, abril 20, 2006

xvi

não há socalcos já dentro de ti.
ficaste pleno, plano, belo.
eras o verde irregular, de timbre em timbre, de tom em tom.
esqueceste a gradação e ficaste limpo, impuro, vivo.
os traçados da pele calejada pelo ócio desfiguram a tua não-idade.
és o tempo que se estendeu como manto sobre virgem.
o tempo é-te a própria virgindade.
perdeste o tempo estriado em esperança.
não há socalcos já no teu olhar.

jan.01.MMVI

quarta-feira, abril 19, 2006

xxxiv

esventrar deus não o derrubou da irrealidade
abaixo. não é vocabulário que saiba decifrar
e deus só está sujeito à sua hermenêutica pessoal
(no que de pessoal aqui fosse razoável aceitar)

mar.15.MMVI

domingo, abril 16, 2006

xxxiii

perduram dentro do ventre opaco e doce
memórias líquidas
resquícios permanentes de tempo
de que tempo?
flagrante é o não-sentido
nenhuma verdade se deixa reconhecer ao espelho
de que tempo?
resquícios de um futuro que o presente renuncia
a realidade está prenhe de mim
e deambulo sobre toda a água do mundo
menos sobre aquela que escorre nas sílabas
e nos acordes em suspensão
de que tempo?

fev.06.MMVI

quinta-feira, abril 13, 2006

#4


por exemplo, um delírio, um velório, um veleiro ao vento, um vislumbre de ti que inebria, um velório? que inebria? um vislumbre de ti que inebria. por exemplo, um quadro mal pintado, um vestígio de desejo, um vagido imaginado, um dia vital. um funeral? um dia que inebria? um vestígio de desejo. por exemplo, um sorriso disfarçado, uma paixão fora do tempo, um deus que morreu, um enterro? um deus que inebria? um sorriso disfarçado. por exemplo, uma cama na praia desnudada p’lo mar, um pinheiro derrubado num sonho antigo, uma queda, uma morte? inebriante? uma cama antiga num sonho derrubado. por exemplo, um nenúfar que não se pintou, um perfume misturado com maresia, uma pétala de mármore cinzelada com uma pena, uma pétala caída? inebriada por um poema? um perfume de mármore sobre a água calada. por exemplo, uma sinfonia por escrever, um cantar luminoso, um toque de harpa sobre o manto de silêncio da noite, um piar de corvos, de abutres? inebriante morbidez? silêncio por escrever na luz. por exemplo, um amor. por exemplo, uma eternidade.

iv.13.MMVI

segunda-feira, abril 10, 2006

#3

por exemplo, aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio, pose de bailarinos decadentes, lentos, nostálgicos de um tempo glorioso que não existiu.
por vezes a memória do mundo falha ao seleccionar o menos real do passado e fazer dessa invenção inconsciente o paradigma do devir pessoal e histórico. por exemplo, aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio não remetem para a ovação do fim do espectáculo, não fazem fechar os olhos pela saudade do sentimento de omnipotência que tinha ao voar sobre o linóleo preto de encontro aos braços seguros dele, não. aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio são a própria ausência desse passado. a decrepitude do que não chegou a passar de um sonho feito mentira da vida a si mesma.
ele nunca olhou para este velho mesmo quando não era velho. ele não recebeu o meu voo quando eu era talvez até capaz de me dispersar pelo ar com o suor como chuva. ele não soube sequer que eu um dia quis ser bailarino. sou um velho. tenho oitenta e dois anos, quase oitenta e três, e aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio não chegam sequer a ser um riso de escárnio pela mentira que agora renuncio.
sou infeliz. como sempre fui. e se nunca duvidei disso quando o via lançar-se, ele sim, no espaço infinito do palco, não vou duvidar agora da evidência da infelicidade de não poder ver o meu sonho naqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio.

iv.10.MMVI

sexta-feira, abril 07, 2006

#2

por exemplo, lembro com uma espécie de prazer estranho e viscoso o sabor do sangue ainda quente. e a desilusão perante a cor que ganhou ao secar, nada harmoniosa com a imagem mental associada ao sabor. não é imediato que se trate de um prazer sequer, falta de imediatez essa afinal que acontece com frequência em todas as memórias, ainda mais as sensoriais. mas não era também um sangue qualquer. uma vida que se tira é um rito de passagem. como a segunda vida que se habita. como a última luz que é contemplada. são ritos subliminares à existência e frustram qualquer tentativa de análise moral.
não me lembro por exemplo do nome dele. e sei que o soube. não matei nunca ninguém de quem não fosse íntima. no sentido mais visceral do termo (se bem que visceral adquiriu em mim ao longo destes séculos conotações múltiplas).
mas lembro-me por exemplo do perfume que ele usava nessa noite. sei que não foi fácil resistir à tentação de o poupar. a hesitação começou exactamente pelo perfume. não por desejar que ele vivesse mais tempo. não por permitir que me assolasse qualquer impedimento de ordem mundana ou racional. matá-lo-ia de qualquer forma, e beberia o sangue a seguir, como aconteceu. a hesitação percorreu-me o corpo, e não a mente. o perfume viciou-me os sentidos. deixei por instantes de viver antecipadamente o prazer do néctar rubro. desejei poder prolongar aquele quê de místico, porque aquele aroma tinha em mim mais de duzentos anos. não podia imaginar voltar a quebrar o ímpeto por tão pouco. mas a sede e a luxúria da morte é sempre maior.
bebi. li um dia que existiram em tempos no imaginário popular europeu alguns seres, vampiros, como lhes chamavam, que ficaram conhecidos por prazeres e necessidades tão próximas das minhas que percorro a minha memória em busca da noite em que teria devorado algum. e não encontro uma única ocasião em que se instale sequer a dúvida.
não existem vampiros.

iv.07.MMVI