segunda-feira, abril 24, 2006
xxv
a rosa não é a flor nem o relâmpago dos sentidos todos
a rosa mentiu ao tempo
a rosa deixa no branco a impureza do destino impermeável à dor
a rosa escorre em latejos de pavor rubro
a rosa deita-se ao lado do outro e adormece longe
a rosa foi um poema
jan.19.MMVI
sábado, abril 22, 2006
#5
por exemplo, o cheiro a resina, o jogo colorido sobre a caruma, o plástico em argolas, os cinco pinos com as cores respectivas, o lilás ao centro, o verde, o amarelo, o rosa, o azul, norte, sul, este, oeste, o lilás ao centro, eu.
por exemplo, o cheiro a fritos, a melancia, a resina, o sabor dos rissóis, das castanhas piladas, o cheiro a lilás, os gritos de crianças que brincam, que brincam e gritam porque brincam e gritam se não brincam, cheiro dos gritos a crianças que são estúpidas até que a idade as torne ainda mais crianças ou ainda mais estúpidas.
por exemplo, as conversas sem assunto e a cor das conversas que cheiram a nomes que ecoam entre os pinheiros, nomes de ontem, pinheiros de hoje com o cheiro dos nomes a ecoar entre os gritos e as conversas sem assunto.
por exemplo, o cheiro a mar que não há, o sabor do beijo que se esqueceu, a textura do tempo de mil folhas.
iv.21.MMVI
quinta-feira, abril 20, 2006
xvi
ficaste pleno, plano, belo.
eras o verde irregular, de timbre em timbre, de tom em tom.
esqueceste a gradação e ficaste limpo, impuro, vivo.
os traçados da pele calejada pelo ócio desfiguram a tua não-idade.
és o tempo que se estendeu como manto sobre virgem.
o tempo é-te a própria virgindade.
perdeste o tempo estriado em esperança.
não há socalcos já no teu olhar.
jan.01.MMVI
quarta-feira, abril 19, 2006
xxxiv
abaixo. não é vocabulário que saiba decifrar
e deus só está sujeito à sua hermenêutica pessoal
(no que de pessoal aqui fosse razoável aceitar)
mar.15.MMVI
domingo, abril 16, 2006
xxxiii
memórias líquidas
resquícios permanentes de tempo
de que tempo?
flagrante é o não-sentido
nenhuma verdade se deixa reconhecer ao espelho
de que tempo?
resquícios de um futuro que o presente renuncia
a realidade está prenhe de mim
e deambulo sobre toda a água do mundo
menos sobre aquela que escorre nas sílabas
e nos acordes em suspensão
de que tempo?
fev.06.MMVI
quinta-feira, abril 13, 2006
#4
por exemplo, um delírio, um velório, um veleiro ao vento, um vislumbre de ti que inebria, um velório? que inebria? um vislumbre de ti que inebria. por exemplo, um quadro mal pintado, um vestígio de desejo, um vagido imaginado, um dia vital. um funeral? um dia que inebria? um vestígio de desejo. por exemplo, um sorriso disfarçado, uma paixão fora do tempo, um deus que morreu, um enterro? um deus que inebria? um sorriso disfarçado. por exemplo, uma cama na praia desnudada p’lo mar, um pinheiro derrubado num sonho antigo, uma queda, uma morte? inebriante? uma cama antiga num sonho derrubado. por exemplo, um nenúfar que não se pintou, um perfume misturado com maresia, uma pétala de mármore cinzelada com uma pena, uma pétala caída? inebriada por um poema? um perfume de mármore sobre a água calada. por exemplo, uma sinfonia por escrever, um cantar luminoso, um toque de harpa sobre o manto de silêncio da noite, um piar de corvos, de abutres? inebriante morbidez? silêncio por escrever na luz. por exemplo, um amor. por exemplo, uma eternidade.
iv.13.MMVI
segunda-feira, abril 10, 2006
#3
por vezes a memória do mundo falha ao seleccionar o menos real do passado e fazer dessa invenção inconsciente o paradigma do devir pessoal e histórico. por exemplo, aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio não remetem para a ovação do fim do espectáculo, não fazem fechar os olhos pela saudade do sentimento de omnipotência que tinha ao voar sobre o linóleo preto de encontro aos braços seguros dele, não. aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio são a própria ausência desse passado. a decrepitude do que não chegou a passar de um sonho feito mentira da vida a si mesma.
ele nunca olhou para este velho mesmo quando não era velho. ele não recebeu o meu voo quando eu era talvez até capaz de me dispersar pelo ar com o suor como chuva. ele não soube sequer que eu um dia quis ser bailarino. sou um velho. tenho oitenta e dois anos, quase oitenta e três, e aqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio não chegam sequer a ser um riso de escárnio pela mentira que agora renuncio.
sou infeliz. como sempre fui. e se nunca duvidei disso quando o via lançar-se, ele sim, no espaço infinito do palco, não vou duvidar agora da evidência da infelicidade de não poder ver o meu sonho naqueles ramos a esgrimirem o ar em silêncio.
iv.10.MMVI
sexta-feira, abril 07, 2006
#2
não me lembro por exemplo do nome dele. e sei que o soube. não matei nunca ninguém de quem não fosse íntima. no sentido mais visceral do termo (se bem que visceral adquiriu em mim ao longo destes séculos conotações múltiplas).
mas lembro-me por exemplo do perfume que ele usava nessa noite. sei que não foi fácil resistir à tentação de o poupar. a hesitação começou exactamente pelo perfume. não por desejar que ele vivesse mais tempo. não por permitir que me assolasse qualquer impedimento de ordem mundana ou racional. matá-lo-ia de qualquer forma, e beberia o sangue a seguir, como aconteceu. a hesitação percorreu-me o corpo, e não a mente. o perfume viciou-me os sentidos. deixei por instantes de viver antecipadamente o prazer do néctar rubro. desejei poder prolongar aquele quê de místico, porque aquele aroma tinha em mim mais de duzentos anos. não podia imaginar voltar a quebrar o ímpeto por tão pouco. mas a sede e a luxúria da morte é sempre maior.
bebi. li um dia que existiram em tempos no imaginário popular europeu alguns seres, vampiros, como lhes chamavam, que ficaram conhecidos por prazeres e necessidades tão próximas das minhas que percorro a minha memória em busca da noite em que teria devorado algum. e não encontro uma única ocasião em que se instale sequer a dúvida.
não existem vampiros.
iv.07.MMVI
quarta-feira, abril 05, 2006
#1
iii.29.MMVI
domingo, abril 02, 2006
xxxv
ao acordar é universal sem precisar de língua materna. aliás,
a beleza não tem sequer um código que chame a si mesmo
um batalhão de interpretações . a beleza quando nasce
é imediatamente deus.
mar.22.MMVI
sexta-feira, março 31, 2006
xxxii
a cor do tempo minuto negro
dor de coisa nenhuma esquecimento
afinal era ontem
o futuro por cumprir inteiro
e falhei o lugar inviolável do rito
afinal escuto
outras vozes chamamentos antigos
sobre a modorra do silêncio
fev.06.MMVI
terça-feira, março 28, 2006
XIV
réptil
no covil
escurecido
do meu peito
(do meu choro
cândido redil
de emoções
antigas)
a morte
que de longe
espreito
e me espia
silente
de cansaço
ou ardil
27.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
domingo, março 26, 2006
xxix
de cartão duro esquecidas neste hangar vazio. és o gesto que anula a distância
entre as folhas de papel de todos os diários do mundo.
o próprio restolhar das ideias que passeiam pelos dias como
pólen. não há horas tristes dentro das caixas vazias.
somente pó. memórias das coisas que te preocuparam, que te dilaceraram
a alma incauta. as caixas são fantasmas. imensamente pesadas
de tanto nada levarem dentro.
derrubar a verdade suspensa revela-se redundante –
uma lucidez lábil caiu já no passado ou no futuro.
jan.25.MMVI
terça-feira, março 21, 2006
xxviii
não há poema que quebre o cristal sob o pensamento mas
apenas poesia onde a razão se abre voluntariamente ao olhar turvo do delírio
e há quem saiba disso
do lado de cá da lucidez e não saiba dizer
o que vê sem parecer ter-se fundido já
com o próprio reflexo
um sol a escorrer pela calçada recebe os passos afogueados
de alguém que foge tremendo da sua própria sombra
inunda-se acolá um recanto onde outro se afoga todos os dias
depois de saltar borda fora do titanic
o mundo é criado sete vezes antes do almoço e outras tantas
antes do medicamento da noite
o verde é ruivo para aquela mulher que se debruça quase nua
num parapeito gradeado
outro mundo outras pessoas
outra beleza outros medos
a morte é outro mito
a vida outro lugar
há poemas que aguardam que o peso da razão se disperse pelo
azul todo para nascerem sob os pensamentos do outro lado do cristal
há almas que cantam já esses versos
aguardo-te
leio-te ternamente
jan.25.MMVI
xxvii
do teu coração. não precisei de saltar. não precisei sequer
de sair da noite. estavas à minha volta em cada pedra.
jan.21.MMVI
sábado, março 18, 2006
vacilo
do desejo de trevas que faço nascer numa libido fiel a
Thanatos
trepido sem comoção por esta perda, este proveito que
aceito tenazmente em cada despedida de mim rumo a
Tebas
tomo nos braços o deus que me recebe enquanto chora
pela desilusão na hora em que termina a profecia de
Tirésias
devolvo-me a Eros e a Édipo, hóspedes na transmutação
da alma, até Ulisses ao Tejo regressar sob o canto das
Tágides.
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
segunda-feira, março 13, 2006
xxiv
a máquina clara pulsa um conforto piedoso pleno de empatia por toda a inércia minha e das árvores pálidas mesmo sob o signo do sol escuro e timbrado a prata como artigo falso mas bonito quente estretecido na bruma do desejo dos rouxinóis ou de outra folha de papel qualquer que isto da vida do mundo não cabe numa resma bíblia pardo ou manteiga e falta o resto da arte toda por matar
e o vento que já não é verde entretanto pela erosão da realidade cheira a madrugada despida pelas horas que lá passam e a tocam com dedos impressionistas em acordes de uma nota só ritmada a contratempo com os piares discretos como confissões de pã
afinal não custa aceitar a vida encerrada num pisa-papéis sem nada lá dentro
jan.17.MMVI
xxx
a terrível vontade do amor pelo absoluto
(o absoluto, sim, o inexistente e inútil absoluto)
a caneta é um assassino lírico.
jan.26.MMVI
domingo, março 12, 2006
xxiii
virgem de luz e de mim era um vazio estranho
brilhava desumana e altiva ainda perene num trono de saudade
jan.13.MMVI