sábado, janeiro 14, 2006
contos inconjuntos - I
A plataforma está deserta, invulgarmente. Apesar de anunciada uma ponte, não é suposto que a classe operária sem direito a luxos destes, adira em massa à permissiva tradição. Muito liberal iria o patronato, pensa. Não, o motivo deve ser outro. Ela não indaga durante muito mais tempo a este respeito. Senta-se, lá fora, por enquanto, num banco de madeira, outrora castanho, do qual uma aura de dias antigos se solta, como se houvesse sido roubado directamente a uma fotografia de Doisneau. Daí a alguns instantes entrará na pequena sala, ainda fechada, mais desoladora mas menos gelada que a rua.
Da luz amarela começa a nascer um pequeno tremor, rodeado do mesmo branco. O branco não é propriamente branco, como, aliás, nenhum o é. O branco na realidade é a noite húmida, a brancura vindo da imaginação que chama branco a tudo o que fuja ao contorno definido dos vultos. Também o facto de se saber feito de água o orvalho que dança no ar, ajuda a iludir a descrição das coisas na noite ainda fechada sobre os seus próprios desejos obscuros. A luz projectada na escuridão dá o toque final à visão alva da humidade. O foco intenso torna-se ensurdecedor no momento em que se une ao trepidar do próprio chão, das paredes atrás de si, do relógio obsoleto por cima da sua cabeça, do seu próprio corpo atravessado por calafrios inesperados, fruto com certeza das associações inevitáveis que estes instantes recuperam algures no seu espírito.
Fecha os olhos e sente-se simplesmente invadida pelo trovão do ferro sobre os carris, ribombar ininterrupto, aparentemente feito de gritos do mundo, cadenciados, ritmados, na verdade feito apenas da intermitência provocada pelas juntas de dilatação e pelo próprio peso da serpente de aço que acabou de passar.
O silêncio inebria quando surge sem aviso. Marta, de olhos abertos agora, movimento que o silêncio brusco provocou, inclina-se e espreita para cima. O mostrador sujo permite ainda assim decifrar o ângulo recto dos ponteiros. Não era tão tarde como julgava. Não deve ter acontecido nada de especial hoje, afinal. E esta serenidade é reforçada pelos passos que surgem a anunciar os transeuntes habituais.
A sala da estação está iluminada, mas de portas fechadas ainda. Marta é assim confrontada com os pensamentos a que estas incongruências obrigam – de que serve uma sala de espera fechada, às horas em que mais útil seria para proteger daquele frio, menos iluminado agora, apesar de tudo.
A noite despede-se lentamente das coisas deste lado do tempo, e afasta-se imperceptivelmente.
Do outro lado da linha a ponta de um cigarro refulge, como um silvo, brilha e extingue-se alternadamente a um ritmo que deixa adivinhar uma respiração que denuncia um olhar penetrante pousado em si. Ao seu lado encontram-se já mais pessoas, de mãos nos bolsos dos casacos apertados, duas mulheres, dois homens, três agora com o jovem que se aproxima dos paralelos amarelados que delimitam o fosso das linhas. De mãos nos bolsos das calças, de corpo esticado num espreguiçar que ilude o frio, o rapaz parece--lhe mais ausente, mais espectral, do que todos os outros homens. Talvez por não a ter olhado da mesma forma mecanizada e ritual com que os restantes a miraram.
Ao ouvir os ruídos da fechadura, vindos de dentro da sala, Marta levanta-se e entra. Senta-se no lugar do costume, e pousa a mala na cadeira ao seu lado. Só nesse instante, em que retira o livro, e o abre a três páginas do fim, é que a penetra, com laivos de inevitabilidade, uma ausência que até aí parecia ter escapado à própria ansiedade da espera.
Marta refugia-se nas linhas emotivas do livro para afugentar algo de indefinível, quase tão poderoso como o estertor de há minutos atrás.
Sente-lhe os passos decididos a menos de dois parágrafos de fechar o livro. Tem tempo de pensar que talvez seja providencial esta interrupção. Chorar àquela hora, num cenário tão desolador e deprimente, seria um péssimo começo para mais um dia.
Ela senta-se sem olhar para Marta. Esta sabe-o porque não consegue evitar acompanhar os passos até ao lugar habitual. E uma vez mais ela não a olha, nem uma única vez, apesar de Marta ter a certeza de que é, de uma forma qualquer, igualmente observada. Na segurança assim adquirida de que a outra não olhará directamente para si, Marta sente-se confortável para desfrutar do ritual que, constata agora, a fez chegar mais cedo, que a fez sentir o vazio indefinido até este momento. Com o frio que vem da rua a fazer confundir os vários tipos de arrepios que sente no corpo, Marta observa os movimentos lentos da mulher à sua frente. Olhando para a porta da sala, a mulher cruza as pernas, languidamente (Marta apostaria que o fez numa atitude de subtil exibicionismo, ou pelo menos assim o imagina). Durante o movimento, passa a mão pelo joelho como a confortar uma dor ou uma irritação. Marta tenta distrair o olhar da sensualidade que a cena lhe sugere, observando os detalhes da roupa que veste estes gestos, observando os detalhes da roupa que veste estes gestos. Admira principalmente as botas altas que conduzem a atenção até à pele da perna, ainda agora massajada, e que desaparece para dentro da saia, não sem antes denunciar a suavidade das meias, cuja opacidade crescente ao longo das curvas da perna cruzada faz com que Marta desvie o olhar, não para longe, mas para os olhos da mulher, na certeza de que é intencional a não retribuição.
É monumental a diferença emocional provocada pelo rapaz que lá fora despertou a sua atenção, pela aura fantasmagórica que envolvia a sua discrição, e a inquietude que a invade agora perante esta mulher, que de espectral não tem nada, muito pelo contrário, que parece gritar corpo, matéria, calor, movimento, até na invulgar indiferença com que reage ao seu olhar insistente.
Repentinamente, Marta vê-se a si mesma, como se entrasse agora na sala e olhasse para o seu lugar, e reconhecesse, assustada, a cor que habita o seu olhar, tantas vezes vítreo e agora quase incandescente. O medo, a vergonha, o sentido de decência que pautam a sua vida, o seu quotidiano, de uma ponta do dia ao chegar da madrugada, fazem-na levantar-se num impulso súbito. Sai, a cambalear como quem corre acima das suas forças, para o frio menos branco agora, tanto porque o sol invade a neblina, como porque a humidade se dissipou, quase por encanto. Marta ainda se atreve a pensar que foi o seu próprio sangue a aflorar ao rosto que fez o ar aquecer num ápice.
As horas. Como pequenos artesãos da memória, as horas cumprem o seu papel, avaliam, medem, classificam, armazenam, refundem, compreendem. A meio da tarde Marta não sabe já se o que vivenciou ocorreu nessa manhã ou noutra semana até. Talvez o medo íntimo e os outros operadores do esquecimento façam com que duvide mesmo da realidade das imagens que a invadem inesperadamente quando engole o café quente ou quando entra na casa de banho do emprego.
Tenta lembrar-se apenas de um pormenor que gostava de ver confirmado, se a mulher entrou no mesmo comboio que ela. Não consegue reconstituir o momento em que as portas se abriram, mas não tem dúvidas de, no instante em que a composição começou a andar, ter olhado para dentro da sala, então deserta, tão fria como se não tivesse acolhido antes emoção alguma. Um arrepio percorreu-a, como se a ausência do vulto que procurou fosse um desafio à sua mente.
Durante o dia telefonou ao Pedro, mas ele não atendeu. Provavelmente não teria feito referência aos pensamentos da manhã. Mas se o tivesse ouvido, alguma serenidade acabaria por a invadir, e as dúvidas seriam varridas junto com os detalhes que já esqueceu. Se o tivesse ouvido, teria readquirido alguma da confiança que lhe permitiria encarar o resto do dia com os olhos dele na alma, com o perfume dele a colorir o seu desejo, com as mãos dele a substituírem esta indefinível sensação de posse involuntária que a angustia e fascina simultaneamente.
Hoje vi um tipo de quem devias gostar, fazia o teu estilo, acho, comenta com Luísa. Porquê? Era todo pipi? Não, se queres que te diga, não sei como to descrever, mas era como se ele fosse tão versátil que pudesse ser qualquer tipo de homem, por isso podia ser o teu estilo também, não é? E sorri. Se tu o dizes, quem sou eu!, brincou Luísa, bem-disposta. Estavam lá outros gajos de manhã, mas esses, não sei porquê, acho que não te levariam ao céu. E estava lá aquela mulher, acho que te falei uma vez dela... Não me lembro, talvez. Se calhar não falei, então. Nem sei porque disse isto, não ligues. Mas o que te fez pensar nela? Não sei, às vezes penso que a conheço, ou ela a mim. Não é a primeira vez que tenho esta impressão, por isso podia já ter falado dela.
Depois do desconforto e da perturbação que esta conversa lhe suscitou, Marta resolveu não chegar a falar daquilo ao Pedro. Se há coisas que uma amiga não entende, dificilmente o marido vai entender, pensou. Mas no mesmo instante afirmou para si que o inverso era também verdade – o marido conhecia-a e entendia-a melhor do que a Luísa ou outra mulher na sua vida.
As sombras começam a diluir-se em todas as superfícies, e o cinzento rouba o lugar às cores das próprias coisas, para dar passagem à noite. Marta regressa. Habita-a uma nostalgia que não legitima dentro de si. Contudo, não a expulsa. Talvez não a expulsasse de si, mesmo que pudesse. Este sentimento quebra o quotidiano em pedaços de formas irregulares e desconhecidas. A sua vida tem sido um puzzle de peças lisas e tão previsíveis como se a figura a construir fosse um céu limpo, uma duna extensa, um mar calmo, uma vida silenciosa. Olha pela janela o escuro a indefinir o mundo, que se adivinha já mais do que se vê. As conversas esparsas à sua volta, parecem gravações apenas, como se todas fossem produzidas pela mesma voz que anuncia as estações no tom metálico e cansado que as máquinas exibem. Não tem ninguém ao seu lado, o que ajuda a mobilar esta ilusão com ausências.
Ao colocar o pé na plataforma respira fundo. Apesar da incongruência, dada a hora, senta-se num dos bancos, envolta pela luz ténue que provém da carruagem ainda, que já se move lentamente. Quando a luminosidade desaparece por completo, rodeia-a o silêncio deixado pelos passos já distantes, e o outro silêncio que grita dentro dela, tão violento como a mais completa solidão. À sua frente distingue os contornos do banco iluminado pelo mostrador do relógio, que emite um branco surreal como só em alguns filmes parece existir. A restante luz da estação, de tão débil e distante, não afecta a sua sensação de penumbra completa. É tarde. O Pedro já deve ter chegado a casa. Decide encaminhar-se para o parque onde deixa o carro todos os dias, Para algumas pessoas o lugar é soturno demais para se passar a esta hora, mas Marta não encontrou nunca motivos para temer a escuridão, até porque uma parte de si se revê na paisagem desoladora do parque vazio.
O carro distingue-se na vastidão de terra batida, húmida, como um monumento, como um pensamento solto, marginal, que a alma esqueceu de integrar no fio do quotidiano interior.
Marta estremece e abranda bruscamente o passo. A respiração acompanha simetricamente este movimento e o coração parece querer gritar algo incompreensível. O medo assume a forma de uma silhueta recortada de encontro ao seu carro. Parece-lhe distinguir uma incandescência que a remete imediatamente para o frio da manhã e para aquele olhar estendido sobre ela, com o requinte de malvadez de todos os comportamentos invasivos a que não podemos fugir. Sem dar conta de o ter decidido, estacou. O coração deve ter ordenado retirada, à revelia da sua consciência. No entanto, a fraqueza de que parece revestir-se esta atitude horroriza-a. Finge procurar algo na bolsa, justificando assim a hesitação, e recomeça a andar, com o olhar preso à sua ténue sombra no chão, cada vez menos visível à medida que se aproxima do automóvel. Só a poucos metros do carro se apercebe que a pessoa não está de frente para ela, como precipitadamente intuíra, mas de perfil, olhando para a escuridão que se estende em redor.
Assim como o breu da madrugada se dilui no dia como fumo no espaço, também a tensão e a angústia deram lugar ao alívio e a uma lufada de bem-estar quando Marta vislumbrou o reflexo acobreado dos cabelos compridos caídos ao longo do vulto alto, e não o porte ameaçador do homem que a fitara de manhã. Não precisou de um segundo sequer para saber quem era ela, mas precisou de algo mais do que isso para avaliar o efeito dentro de si, provocado por tal constatação.
No momento em que o cigarro se apaga numa poça de lama, e a sua luminosidade tremeluzente deixa de desenhar o cabelo que ondula subtilmente submisso à aragem da noite, Marta encontra-se ao lado do carro, a um braço esticado de distância da mulher que a espera. A escuridão repentina, contudo, não permite ter a certeza da verdadeira posição em que se encontram, criando em Marta uma inesperada sensação de liberdade. O medo que a assolou momentos antes criou uma pressão no peito que agora se espalha pelo corpo como uma energia que a arrepia e queima. Apenas o brilho no olhar, mesmo na mais completa penumbra, as aproxima num derradeiro reconhecimento. Antes de qualquer questionamento anterior, mesmo que para tal tivesse havido tempo, Marta dirige a mão quase cega àquele cabelo que se aproxima também imperceptivelmente. Marta faz deslizar a mão pela nuca da mulher-mistério-fascínio, e sente nas polpas dos dedos o crepitar sub-reptício da pele que reage ao seu toque. Ao contrário do que a razão poderia levar a crer, não se espanta com o seu gesto, nem com a naturalidade com que o mesmo é esperado, senão mesmo exigido pela placidez com que uma mão se lhe pousa no rosto.
Os lábios não se tocam plenamente centrados no primeiro impulso trémulo; parecem marionetas manipuladas com mestria em que, mais do que a precisão dos movimentos, são as expressões e as intenções comunicadas através dos fios que espelham as emoções. Num segundo momento, sim, beijam-se, ansiosas ambas, ou pelo menos assim os seus olhos entreabertos o revelariam se o negro circundante o permitisse. Marta sente-se puxada com delicadeza de encontro ao outro corpo, e ambos de encontro à porta do carro, que agora adquire a cumplicidade de um espectador, de um voyeur. Marta não teria gostado de sentir o vazio em torno deste momento ébrio. O ferro húmido e frio tempera a excitação com o sabor do inédito e do impensável, ou talvez apenas quebre o manto pesado do esquecimento. A penumbra do tempo aclara-se um pouco e Marta sente outros dedos nos seus, não estes que lhe sobem pelas costas num rastejar sapiente, mas outros, longínquos, feminis tanto pela delicadeza como pela juventude. Olvidados, mas presentes.
De repente vê-as a si mesma de fora, como de manhã tinha acontecido, mas não é vergonha que sente agora, nem medo, muito menos. Sente o embate do encontro do tempo com o pensamento, o encontro da luz com o olhar, o encontro de si consigo mesma, nesta outra que beija sofregamente, que bebe e deseja beber mais, nesta pele quente que os dedos tocam sem hesitar, o encontro com o continente por sonhar. O ar húmido transforma o carro num refúgio impreterível, um abrigo providencial, o espectador que se torna parte da cena. Com a luz repentina que o abrir das portas desperta, os seus olhos miram-se pela primeira vez, como que na retribuição de todos os olhares parciais ou evitados, não correspondidos directamente. Apesar do sorriso malicioso nos lábios, apressam-se a fechar o carro e a desligar a luz, impulsivamente, como quem teme estragar um rolo inadvertidamente exposto à claridade. O rolo que protegem é o filme dos instantes vividos, que não querem arriscar perder no triturador implacável em que se tornam tanto a consciência e como os julgamentos preconceituosos da razão. Escondem-se na escuridão de novo como quem foge ao outro lado de si. Não falam, não se beijam, dão-se as mãos que tremem, como se entoassem a lacrimosa num requiem ao futuro. Marta tem o sabor a naufrágio na boca, e sente o peito como destroços à deriva, aos quais se agarra aquela mulher que parece diluir-se naqueles minutos como se fossem os últimos. Mas Marta não o podia saber.
Um clarão repentino quebra em minúsculos grãos o cristal do instante suspenso entre os dedos entrelaçados. As mãos afastam-se, reactivamente. O carro que se aproxima aponta a luz invasora na direcção das estátuas em que as duas mulheres se tornaram, com a respiração sustida, cada uma pelas suas razões, e ambas unidas na dor de quem acaba de perceber algo demasiado grande para o lugar que tinha reservado à descoberta. Marta tinha sentido até esse instante a segurança de quem se entrega a um cirurgião das emoções imprevisíveis. Mas a fragilidade que a outra mulher revela, no respirar tenso e quebrado, num equilíbrio instável entre o desejo de ficar e a necessidade de fugir, leva-a a condensar em si todo o medo e emoção acumulados, e num impulso determinado murmura, com tanta ternura como veemência, Vai, amor, agora vai.
Cerra os olhos enquanto escuta a porta do carro a fechar-se com a subtileza e a naturalidade de todos os gestos afectuosos. Não foi um adeus, não foi o aceitar simples da exortação que os seus lábios sopraram. Foi um sopro de destino, um suspiro, um salto para o abismo do quotidiano impossível.
Marta regressa a casa, com o carro a rolar como se acompanhasse um funeral, o motor lânguido e lamentoso numa identificação com os sentimentos da mulher que assim o conduz. A luz forte que projecta à sua frente invade o escuro e cristaliza a noite num frio branco, já silencioso.
dez.05.MMV
quinta-feira, janeiro 12, 2006
VII
a inebriante vertigem chamou
o teu orgulho e cedeste à escuridão
à cegueira de ser diferente e belo
mas chegaste e o espelho
não se desfez em sorrisos
odeias-te, e à imensidão que
te fez crer na urgência de voar
dez.07.MMV
domingo, janeiro 08, 2006
v
ou simplesmente para a Blimunda
despeço-me em registos de prata, subtis acenos ao ontem
feito hora minha débil e triste. hora minha numa posse injusta.
para que quero o tempo. para que me quer o tempo.
pastel de nata, buganvília, pedra de calçada, sintoma, peso, leque, açafrão ou cadáver.
os segundos não me querem. expulsam-me das horas. fico preso numa eternidade de ponteiros suspensos entre carris, movimento de faíscas a deflagrarem a minha angústia etílica.
esfuma-se de encontro ao branco da inexistência o meu sangue, sépia nos dedos do diabo, arquitecto a projectar a diluição do ser
em pó em sombra até à incolor indolor passividade da vida de regresso
ao esperma universal, ao óvulo infecundo de deus
podia ter sido um arco-íris entre as pernas do orvalho, um riacho
a desfilar fresco pelos labirintos do cérebro, podia até ter sido cordão umbilical
entre uma nuvem e a tela sob o acto criador de um cego, podia ser
o vento artesanal num teatro de marionetas, gostava de ter sido
a própria terra que engoliu a fertilidade toda do gado mítico, e devia ter sido,
acima de tudo, silêncio
o silêncio
o inevitável
a podridão não é tudo. não há só merda debaixo do tempo. o fio de saliva que desliza pela vida das pedras é a secreção que denuncia o organismo pulsante do mundo, inconsciente, em coma. o mundo está em coma
desde que foi violado. o mundo não despertará nunca. não há eutanásia que o alivie. o mundo respira apenas pelo artificial mecanismo do pensamento humano, pelo artificial mecanismo da fotossíntese, pelo artificial mecanismo das órbitas monótonas dos astros.
se me despeço não é com respeito nem reverência. a prata cobre apenas o revestimento de tristeza e renúncia. renuncio à aceitação ontológica da vida. não entendo o que quer dizer liberdade. não entendo o que significa suicídio.
não quero saber morrer.
deixei de me questionar acerca da verosimilhança da morte. a vida
não é fantasia que chegue, mas a morte é óbvia e estúpida. e estúpidos são os pensamentos que a integram na vida. e estúpidos os artifícios de a recusar no seio dos desejos. chamar nomes aos ímpetos não os afasta
da verdade. os ímpetos descendentes são tão óbvios como a desistência de os combater. amo o instante
anterior à nomeação dos impulsos infinitos. e isto não quer dizer rigorosamente nada
não dei nome a nenhum dos espelhos. cada recanto de mim que exige independência não contém o nome como condição reivindicada. habitam-me sem b.i., sem passaporte. a bem dizer, não sei se não gostam mesmo de ser clandestinos. os de Pessoa deviam ser mais civilizados. davam-lhe mais satisfações, com certeza.
os meus espelhos são silentes, até quando gritam
mais alto do que o vazio que os alimenta.
o vazio grita mais alto do que tudo o que aprendi a
reconhecer. o vazio é o próprio ensurdecer lúcido e esmagador
despeço-me do silvar do frio. despeço-me a cada gesto, de amor
e de lirismo, do silvar do frio. um até já sem convicção nenhuma. um arrufo
de enamoramento entre mim e o lume. um até já inconsequente
numa língua estranha à ceifeira nua e sensual.
se renuncio à vida e à morte, sou louco. eu não sou outro que não aquele que habita ambas as margens do limbo, simultaneamente.
o lado esquerdo do correr dos dias. o lado esquerdo do esquecimento. não renuncio mas não aceito uma ou outra. não aceito viver nem morrer vivendo. quero morrer só depois de morto. despeço-me
desta morte entre aspas
desta morte com nome
e definição
despeço-me das metáforas que a deturpam para lhe dar o sentido de que não precisa para ser bela, como bela é, apenas e só, a nossa
se isto fosse um poema. se isto fosse um poema
há o desgaste também, o roer, o moer de todos os mecanismos mentais de justificação ingénua, o cansaço das pernas, dos arco-íris todos entre as pernas, dos próprios orvalhos acumulados e não reflectidos em nenhum olhar.
há a penumbra densa da emoção, o escape inviolável do delírio e a desistência mascarada de interesse fingido
no silvar do frio habita a resposta ao acenar lamentoso da autocomiseração, mas o frio não se despede. acena também, simplesmente como um anzol trémulo de malícia perante a cegueira dos peixes.
acena-me com o infinito feito gelo, acena-me com o equilíbrio de todas as osmoses que desenham e mantém os glaciares deslizantes como fantasmas
(o peito era diálogo e escureceu)
dez.05.MMV
sexta-feira, janeiro 06, 2006
existiu o longe
xvii
existiu o longe
tempo e espaço não eram nomes
mas crateras onde a existência sobrevivia ao degelo
jan.04.MMVI
segunda-feira, janeiro 02, 2006
a continuação do fim
a náusea antecipada de mais uma incompletude anunciada pelo esquecimento e pelo desvario de deus em mim, por mim, de mim...
o imenso infinito indefinível tormento da estreiteza dos horizontes que não são de ouro, de cinza quanto muito.
o primeiro relance de um olhar apagado pelo facto de a luz se consumir na extensão da madrugada não onírica, de vigília à beira de um sopro.
obrigado pela companhia espectral
r.e.
quarta-feira, dezembro 28, 2005
VIII
no chão como vidro barato. era o vaso antigo
e julgava-se o néctar.
de que se imaginava então ébria a poesia... ébria
de sentido, talvez. o poeta, estalajadeiro insensato, deixou dormir incautamente as palavras, e o vinho adocicado do lirismo embalou-as a contragosto
numa dança vital mas deprimente. as palavras não se suportam já
umas às outras. enojam-se. vomitam-se.
o poema escurece
nas mãos de bagaço que o sentido exala. o poeta é mórbido na indiferença.
vende o sentido em promessas de delírio, êxtase, sonho. e a poesia
que lembra a sobriedade perdida do tempo puro
começa a chorar. e são rimas as lágrimas que recordam. e pé métrico é o ranho que assoa ao lenço branco do papel pautado. a poesia queria recuperar a inocência mas o seu sangue tem mais sentido do que alguma vez julgou possível absorver. o poeta sorri maliciosamente. como se a bebedeira
das palavras fizesse de si um ser mais sóbrio, mais lúcido, menos conspurcado pela sede de saber e criar. a poesia quebrou-se, contudo, porque era frágil e efémera. o sentido não estava dentro do verso. mas envolvia-o como um manto, como uma redoma, como um abraço fraterno. quebrou-se
ao cair no chão real. quebrou-se pela luz de soprano agudo do dia claro.
partiu-se pela própria consciência da sua fragilidade. o poeta não sabe chorar esta perda. o poeta disfarça a dor que o esmaga. sorri, como se sorri num funeral, exorcizando o pavor e o nojo da evidência. as palavras quedam-se, mudas, numa miríade de pérolas sujas pela lama da realidade, depois do inverno ontológico que as nevou.
nevam palavras sobre os estilhaços ainda. como uma corrente que não se extingue, com um fogo que não seca. o lirismo todo dentro dos verbos e dos nomes de tudo, evaporou-se no hálito de uma estrofe grotesca.
desfilam pelo delírio fora animais marinhos, monstros da infância com as caras mais conhecidas. há uma palavra que cheira a jeropiga, avó.
e os teus olhos são outras palavras que as lentes grossas fazem dizer
farol morcego lampião espanto medo lucidez menina carapaus maçã trapos tristeza ternura quase amor
quase tanto que ainda foge
por detrás das lentes grossas que fazem os olhos dizer
tanta coisa. e de certeza que a tua conversa com a morte foi cheia de palavras ébrias de sentido. ninguém está sóbrio quando fala
com a morte. só quando se fala da morte.
que poeta vendeu às palavras o sentido da tua morte
os teus olhos eloquentes por detrás da aparente cegueira quedaram-se
como ventos dentro de ti, como ar dentro das flores, como sílabas no chão de nada. pensei que falava de palavras e falava de ti, ‘vó. como são as coisas...
se calhar também falavas de ti quando pensávamos que confundias
as personagens das novelas da manhã com as da noite. ou quando parecias falar com alguém de outro tempo. ou quando não dizias nada.
o teu silêncio era o teu nome, não era o adormecimento dos afectos. eras tu
a desfiar a tua solidão em lençóis de faltas de perdas de esquecimentos.
não sei porque é que as palavras ébrias se transformaram sem que eu quisesse na tua tristeza, no teu sonho enjeitado. não sei. talvez não estivesse a falar de ti, afinal, mas do que aprendi com a tua morte. do que aprendi quando morreu a tua casa. a minha casa que morreu contigo. quebraste-te
em migalhas pintadas de ruindade e deixaste a marca indelével da ternura
no coração das minhas palavras. e não provaste nunca
o sabor inebriante da poesia.
ou talvez a prova de que o tenhas feito sejam as palavras que fizeste nascer aqui no meio do sentido das que chamo minhas.
dez.10.MMV
quinta-feira, dezembro 22, 2005
II
quando o vento embater no escuro será
de dia como é dia a noite para o
reverso das pétalas das flores que fogem
do olhar da coruja artista pintora da
perspectiva aérea dos vultos dos telhados e
dos sonhos deitados fora pela ignorância
é banal a inquietude gratuita que
exibe vergonhosamente um preço falso
para fugir aos impostos que o tempo
cobra até aos menos aventureiros
e vulgar é o refúgio na confissão
da derrota, da desistência, da modesta
entrega nas mãos da dor inocente
quando tu morreres não será dia
nem poderei mentir mais sem
beber o tempo com a sabor a mofo
nem alterar o meu desejo de
morrer antes de ti para ti por ti
não será possível escapar à medíocre
vulgaridade da dor à paralisia
estereotipada da ausência da náusea
do nojo de tudo o que respirar
ainda em mim, de todo o pulsar
de todo o rugir marulhante do
sangue insensível e louco
quanto durará a minha vigília
os prédios parecem ter tanta gente
lá dentro, e nos passeios à volta,
a trabalhar, a foder, a criar, a fingir
uma vida dentro e fora dos prédios
que num segundo se podem tornar
tijolo só, pó compactado, destroços
num naufrágio fantasma, sem mais
mortes a anunciar que não a nossa
o teu sono é o meu respirar
noite em ti que aqui emerge luz
ao acordares o vento terá na voz
um nome novo para nós, e as
flores não irão cheirar a nada mais
para além do nome que já tinham
será ensurdecedor adormecer assim
com os gritos dos nomes de tudo o
que ainda existir sem ti
amo-te não rimará com mais
nada
e o poema adormece
nov.23.MMV
domingo, dezembro 18, 2005
sem título
quarta-feira, dezembro 14, 2005
III
mas tenho o nome dela gravado sob a
imagem das suas pernas nuas, de infanta,
maria-rapaz, menina viril e forte,
pernas arranhadas pela pele áspera do
abrunheiro velho, pernas que as minhas
mãos desenham no branco do desejo sem
nome ainda, mas com sabor já,
diferente do sabor dos abrunhos maduros
de que perdi o rasto dentro da minha boca
o sexo não é este sexo, nem pulsa
ao ritmo da evidência, nem geme ao
som do silêncio de uma boca que
absorve o travo acre do fruto virgem,
nem se atravessa à frente do próprio
desejo, nem consome a angústia em
amplexos mais amplos que o gesto
que o faz nascer, que o faz morrer
como quem nasce, ou ao contrário -
distinção que o sexo não conhece
desaparece da boca a sede quando
a volúpia inocente chega para brincar,
e não são dedos os dedos – os olhos
com que as mãos cantam alto os
contornos do outro corpo antes de
ouvirem falar a língua do sexo mudo
- como não são seios as colinas trémulas
moldadas em artes de oleiro sem
mestre, pelas palmas das mãos que
asfixiam numa ansiedade adocicada
a infância eram palavras que enchiam
o desejo todo, e fotografias interditas
que o espalhavam ao longo das
horas oníricas entre instantes de
líbido acesa pela incógnita do possível;
eram palavras mais do que os corpos
ou as partes dos corpos que descreviam;
eram a própria essência da pulsão vil
e torpe enclausurada em sílabas soltas
e solta na palavra gemida, gritada
tenho na boca os sabores todos
nos nomes e nas formas decifradas
no escuro ou na luz viva e inocente
da memória frágil que se apaga a cada
aroma a cada cor, devolvidos p’lo tempo
ao fundo branco do espírito que
absorveu o sentido dos impulsos em
golfadas de vida suspensa entre
ritos e sonhos, entre margens cheias
do mesmo sangue, outro ar, sempre
sexta-feira, dezembro 09, 2005
I
há um lugar onde as flores não têm nome
flores não é o seu nome
flores não é o que o vento sopra
os beijos do vento cantam na nossa língua
a nossa surdez faz-nos duvidar do amor do vento
traduzimos a ignorância em nomes para as flores
nov.22.MMV
segunda-feira, dezembro 05, 2005
VI
não há palavras gigantes nem sonhos de nylon
vir é sinónimo de ter sido como um gato o é da melancolia
e todos os felinos sabem cair
senão for a eternidade, outro sabor exibirá o troféu
sobre o gosto e a diagonal dos membros desarticulados
em circunvoluções cerebrais pintadas a acrílico sobre
um fundo negro e denso de ópio em flor
os ramos nus das cigarras despertas pelo
pincel de dali soam a mel, e o sentido das sentenças
é desenhado a sanguina real, como os brasões ilustram
no fogo de cobre hipócrita e snob, qualidades polvilhadas como
farinha amparo sobre aristocratas de flanela e morais de plasticina
dez.05.MMV
domingo, novembro 27, 2005
iniludível vileza
máscara de virtude disfarce de nobreza subtil representação de dignidade caricatura de inteligência amplitude grandiosa de gestos desinteressados ternura contida desejo guardado miséria enriquecida de humildade misericórdia ignorada azedume feito silêncio ouro inventado em tons falsos calor sob a voz que embala o abraço que manipula a arte engendrada no vapor da auto-comiseração o infinito prensado num pensamento a genialidade esquecida na escuridão doente vaidade adiada derretido na indiferença o orgulho fantasia de futuro a enfeitar os instantes borracha purificadora do tempo metamorfoses do ego em lágrimas vãs tristes melodias em delírio de ritmos obcecados mística humana desenhada a inveja e crueldade apetite pela derrocada do sentido sede de noite e eternidade ímpeto de quase tudo no tempo de praticamente nada excitação fulgurante e fugaz tenacidade forjada no limbo do bem-querer dedicado poemas iluminados pela lucidez inocente da ignorância e a
ilusão persistiu) em tempos
Nov.18.MMV
(in geometria da inexistência, 2005)
quarta-feira, novembro 23, 2005
sem título
sem título, 2005
sexta-feira, novembro 18, 2005
sem título
desejo de obnubilar
e olvido desejado.
replico: “Onde?” à
ontológica busca.
Onde sou, fui
ou (des)conheci?
Onde, para quê
ou por que ouro
falso me ocultei?
Onde me espero
d’olhos fechados,
senão nos ontens
odiados, amados,
infinitos e ocos?
21.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
terça-feira, novembro 15, 2005
Ribatejo seen from the car
Ribatejo seen from the car, 2005
Nothing with nothing aroung it
And a few trees in between
one of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil is it?
quinta-feira, novembro 10, 2005
15
brado que ao surdo ensurdece
numa pequena esfera de sentido
caminho que apaga a passada
sinfonia sonata concerto silente
que ecoa numa redoma de seda
vento que desfigura o mar calmo
e o sol, ah!, anjo inocente caído
por detrás do tempo cansado
virtude ensinada em vil ardósia
podridão e vício servidos em mel
catacumbas de vitrais vendados
lucidez humilhada pela realidade
infinito aprender da descrença
amor, o incognoscível feiticeiro.
Set.28.MMV
(in encontro entre as pedras suaves, 2005)
segunda-feira, novembro 07, 2005
sem título
ânsia de regresso – metamorfose
do inverno entoado entre as folhas
sobreviventes
14.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
segunda-feira, outubro 31, 2005
vã acuidade
vejo inutilmente o sentido
do possível deslizamento
ao alcance de nenhuma
força minha
das sedimentárias
agressões arenosas
da estupidez insensível
(sorrio como um rato
aos miseráveis que
pagaram mais uma
volta da roda colorida)
22.09.03
(in 2 /3 e outros poemas, 2003)
terça-feira, outubro 25, 2005
o azul era vento
aguarela (Winson & Newton, Cotman series)
s/ papel Fabriano, 18 x 24 cm, 200 g/m2
quinta-feira, outubro 20, 2005
26
para ti, Céu
como tudo o que sou
é teu
de mais a menos infinito,
qual "animal aflito"
encontrei-te
suspensa
na flor em que
te perdi.
vem
de olhos fechados
pelo vento
nas minhas asas
trémulas
de colibri.
não deixes
que o tempo
se esfume,
agora,
numa nuvem
escura arrastada
pela inércia
pura.
desce dessa
para outra flor
e renasce
nos olhos
ardentes do
colibri que te
segura.
10.06.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
segunda-feira, outubro 17, 2005
sem título
o murmúrio do meu roçagar por ti adentro, imita o arco-íris de uma ave-do-paraíso,
e desfaz-se em silêncio tumultuoso, como dança nupcial ou espasmo pírrico.
24.01.04
(in horizontes de ouro, 2004)
quarta-feira, outubro 12, 2005
cena em tempo lento
demorei um milímetro a sentir
o perfume de uma queda
(angústia sem porosidade a registar)
vi-te da cor do fundo de mim
e não chorei
caí, depois.
domingo, outubro 09, 2005
XXII
coberto pelo manto do silêncio
envergonhado
(- a mortalidade é o pior dos defeitos)
o coveiro acende o cigarro
e espanta olhares curiosos
com um cabecear amalucado
por dentro pensa no infinito,
pinta-o de cores brilhantes
falsificadas
(- nunca o preto foi verdadeiro)
e enterra corpos como farpas
na alma da terra humedecida
pelo suor de escaravelhos e larvas
08.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
sexta-feira, outubro 07, 2005
13
mais que a luz que não há
por detrás daquela folha que não vejo
disse árvore e o vento saudou o ar
embatendo na luz que me devolveu
o verde entranhado nos veios
digo árvore e é o sol que desenho
quebrado pela sombra de um galho
partido que deixei suspenso no sonho
Jul.30.MMV
quarta-feira, outubro 05, 2005
XX
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego
enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação
uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão
01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
domingo, outubro 02, 2005
14
novos diálogos adâmicos
a (tua) morte
à imagem
da (minha) vida
a minha vontade
assim em mim
como no fundo de ti
a (minha) vida
à imagem
da (tua) morte
a tua vontade
assim em mim
como no fundo de ti
quarta-feira, setembro 28, 2005
11
simples ao olhar confiante
entre as coisas
algumas metades de coisas
espaço que é também algo
entre espaços medidos pelo olhar
confiança de que o nada tenha partido para o sonho
e de entre as coisas apenas a distância possa
gritar
sim, a distância entre espaços
é uma outra
coisa.
Jun.13.MMV
domingo, setembro 25, 2005
madrugada inquieta
primeira tentativa de utilização de pastel seco.
não partilho o resultado da primeira experiência com pastel de óleo :)
r.e.
quarta-feira, setembro 21, 2005
IX
à minha espera, como
uma mãe que se tivesse
esquecido de um berço
num hipermercado e só
agora, trinta anos idos,
lembrasse os parabéns
que não me deu.
caminhos conhecidos
que hoje me confundem
e que fizeram o rol
dos mistérios com que
cresci...
Lisboa à espera do sol...
ninfa inquieta deitada
na relva, de dorso nu
à beira de um rio,
diferente do de lágrimas
que a tristeza faz agora
desaguar rosto abaixo
por razão nenhuma
23.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
segunda-feira, setembro 12, 2005
mediocridade a carvão
da perfeição
derrubou do topo da memória os laivos
de passos sensatos que a intuição
planeara. Resta a desordem?
O lugar do futuro está sublinhado
a diamante. É um cubo perfeito. O centro é oco. Como guiar
a passada larga pela ilusória vacuidade do mundo?
Ultrapassar a nobre vileza da condição
oferecida a troco de vida
conduz a liberdade à clausura de se redefinir
a troco de quase nada. Que sobra?
Centros. Metades. Fulcros. Zénites.
Vácuos. Pontos insuspeitos.
Nós cegos.
Ago.29.MMV
sexta-feira, setembro 09, 2005
13. metáfora líquida
uma cordilheira de água plana sobre nada. Assenta num limite invisível, num traço...
numa superfície imaginada pela nossa incredulidade. Água, sobre uma fina fronteira de
textura e substância. Todas as configurações parecem ter abdicado de uma face da sua individualidade. Como alguém que decidisse ser plano ou côncavo ou amorfo num dos lados do seu corpo. As nuvens repousam sem memória da forma antiga. A lâmina que as separa do céu invisível é fatal - ou foi, no instante do embate. As almas abdicaram também de uma dimensão. Existência, sobre uma fina fronteira de vida e morte.
As almas assentam numa colina invertida - o abrigo do mundo ao contrário...
o véu que desvenda, o tecto que descobre, o refúgio que desampara. As águas elevadas
moldam-se a um destino anterior. Repousam num milagre, e movem-se numa osmose lenta
e solitária. A densidade das almas comprova-se p’la observância de similar paradigma. Isolamos o âmago do resto do nosso espírito, como por uma membrana amniótica criativa.
10.04.03
(in a densidade das almas, 2003)
segunda-feira, setembro 05, 2005
sem título
podiam ter escolhido outra luz até.
importava apenas tornar lúgubre a
falta de fé com que me libertavam.
16.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
sexta-feira, setembro 02, 2005
12
plena noite quase luz
fica o deleite de te eternizar –
segunda-feira, agosto 29, 2005
pelas corujas, o fascínio
se me entrasse noite escura pela janela semi-aberta
a coruja com que sonho
07.05.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
(coruja desenhada a carvão, há muito tempo, por r.e.)esquissos de ti
Ago.28.MMV
(in a geometria da inexistência)
domingo, agosto 28, 2005
Incognoscibilidade (vários meses antes)
Caminharam em silêncio durante vários minutos, alguns quilómetros de dúvidas e receios. A primeira coisa que ela lhe disse foi: «estás preparado?». «Ainda não», disse Luís, com um travo amargo na boca. Ela deu-lhe a mão. Entraram numa zona sombria da cidade, por debaixo dos arcos antigos e sujos pelos pombos, e a cor dela mudou. Deixou de brilhar. Apareceu ao olhos dele com a secura e a debilidade alva que a morte imprime a tudo o que toca. «Vamos?, sugeriu-lhe ele, sem a olhar de frente, sentindo apenas a pressão da mão dela sobre a dele. Subiram até ao local da performance.
Perto do castelo, magnânime como se tivesse descido do céu e instalado em cima das árvores, existe uma praça quase sempre vazia. O Luís conduzi-a até ao meio da praça. Segurou-lhe com uma mão um dos braços, violentamente, obrigando-a a curvar-se para tentar fugir à dor. De uma ou outra janela surgiram rostos. Alguns regressaram aos seus quotidianos, porque a cena não parecia merecer maior atenção. Outros permaneceram. Havia público. Sara perscrutou os seus rostos e exagerou um pouco mais a dor realmente sentida. O Luís gritou-lhe algo que se tornou imperceptível para quem não estivesse ao nível térreo. A lâmina brilhou como que por milagre, sob as copas cerradas das árvores que deixavam a praça coberta de um fresco incómodo. Mas brilhou. E brilharam os olhos à janela. O sangue começou a notar-se por debaixo da camisola, na zona lombar. Ela recurvou-se muito mais do que pareceria necessário a quem do outro lado não pudesse ver o que se passava. A sua posição insólita, dobrada sobre si mesma, já quando ela a largava, chamou a atenção de uma mulher que a tentou alcançar para a ajudar a levantar-se. A mão da mulher ficou tingida e o grito dela foi o sinal para que o Luís desatasse a correr como um fugitivo. Ainda antes de contornar derradeiramente a esquina da praça, olhou para Sara e sorriu-lhe. Ela retribuiu o sorriso, como se o sangue que se libertava do seu corpo fosse o de Rute ou de outra actriz qualquer. Mas era o dela. Ele sabia que ela estaria a pensar na Rute. Apesar de nesse dia ele ainda não a ter conhecido, sabia que os seus destinos estavam desenhados no meio de tantos outros.
Sara fechou os olhos. Uma vez mais. Rute acordará um dia. Uma vez mais.
sábado, agosto 27, 2005
10
ou seria desejo místico se a conquistavam outras coisas –
ânsia de sublime imerecido, perspectiva de um sorriso divino
.
pela inutilidade o investimento é devolvido sem pressa
mas cheio da fragrância da auto-comiseração que entope a estima
mas refulge no escuro – líquido fedorento sob nariz obstruído
.
a vontade, a boa, cresce em tons de lágrima sonora
e tempera de moral o deserto, pintalga de fé a sede, equilibra
o poder o real o admissível a vergonha – mata o sonho de ser mau
.
Jun.07.MMV
segunda-feira, agosto 22, 2005
é a alma um polígono frio e débil
– desfaz-se em pó azul escuro
quando um pingo de medo desliza
pelo declive polido de cada aresta
permeável à dor.
privada de um véu diáfano que
lhe perpetue a fragilidade, é cristal
mais puro que o desenho ingénuo
do mundo possível que deus desejaria
ter perspectivado.
se a luz a penetra ou a ocultam
sombreados de prata, reflecte
a condição póstuma com que
preencherá o espaço dos futuros
prenhes de morbidez.
quando de placidez a inundo,
deixa-se esventrar pelo corte oblíquo
do tédio e da palavra surda e morta,
num deambular íntimo sem peso
nem forma primordial.
domingo, agosto 14, 2005
5
que se universe o teu corpo
a língua, minha, cometa de
cauda líquida sobre firmamentos
desenhados, barriga acima
peito abaixo,
anunciando turbilhões à
flor da pele
o reboliço de dedos no
interior, no magma salgado
do teu núcleo, do teu
centro acedido por
brechas e falhas tectónicas
o meu olhar circum-navegante
o tempo da noite e o
dia a escuridão restante)
cada planície colina vale
de pernas ventre seios
de uma à outra aurora
horizontes perfeitos)
14.05.03
sábado, agosto 13, 2005
eu não sou o sonho
sou o estímulo
e a sede que fica
a arder na garganta
quando é parca
a nascente e longínquo
o oceano adormecido
eu não sou o deserto
mas a vontade de viajar
no sentido irreversível
dos caminhos
nem tão-pouco o néctar...
sou a própria idade da colheita
e não fosse eu o espírito
seria a arte de o inventar
para quando o sonho
fosse quase nada
15.04.03
(in a incerta permanência da dúvida)
terça-feira, agosto 09, 2005
(dia 31 de outubro, 2041)
Não encontrei uma porta aberta e continuei sozinho, a percorrer caminhos escuros que o hábito clareia, como se a memória não penetrasse mais além do nível básico da orientação abstracta, como se só funcionasse relativamente ao que a rodeia e nunca ao que a fundamenta. A noite envolve as pessoas que gritam silenciosamente, envolve os pássaros distantes e inexistentes. Não me envolve. Penetra-me. Tentadora, poderosa e submissa. Testa-me a capacidade de não recordar a luz do fim da tarde, a capacidade de reconhecer o belo na escuridão do desamparo.
Percorro as ruas nuas de luz, ou apenas vestidas com os farrapos degradantes dos candeeiros envergonhados e tristes. Uma musa desnudada seria prostituta em bairro de deuses e artistas. A sua poesia seria pó nas mesas sujas de vinho, ode à reveladora decadência do espírito soturno e amargo.
quinta-feira, agosto 04, 2005
XVI. (estudos e interlúdios)
na placidez da espera
do instante preciso
de fazer nascer
o tremor de vida
que numa lágrima ou
num suspiro
se deixe aprisionar
demiúrgico, sim
na magia de sentir
a morte do silêncio
na vontade de respirar
à pulsação
de um gongo ou um tam-tam
louco, talvez
pela inelutável fuga
do tempo com que nos deixas sonhar
estriado em figuras quase humanas
no previsível como no não-esperado
demiúrgico, repito
na derrota do instante vulgar
transfigurado em suspensão silente
imaculado de novo pelo teu virtuoso aceno
à imortalidade
03.03.02
(in instantes de perplexa aprendizagem, 2002,
poemas para António Pinho Vargas)
domingo, julho 31, 2005
Outro ar, outro lume
Chamavam-lhe o pássaro sem morte. Nem todos a apelidavam assim. Apenas os que a tinham amado. Incondicionalmente. Quase todos os outros diziam apenas “ali vai ela”, e nessa aparente familiaridade, de nomear como quem aponta com o dedo hipócrita, não sabiam que só denunciavam o contraste da sua própria mediocridade com a elevação do seu espírito leve e imperscrutável.
Há algumas semanas atrás, o taberneiro galhofava com os menos sóbrios acerca das mulheres sem nome. Todos as conheciam por tudo menos pelo bilhete de identidade, diziam sorrindo com a boca desfigurada pela falta de controle muscular que o vinho expõe (mas que não está nunca ausente dos rostos idiotas destes homens, mesmo ao acordar). O taberneiro insistia que o vinho e as putas eram as provas irrefutáveis da presença de Deus, nestes ou noutros termos menos coloquiais. “Sem umas pernas onde esconder a bebedeira, um homem pareceria um louco ou um parvalhão”, sentença auto-analítica de profundidade insuspeitada na boca que a proferia. O Casimiro, do poleiro dos 57 anos, cacareja incompreensivelmente um remate para a ordinarice anterior, mas o vinho canta mais alto e sai apenas um arroto surdo e nojento, que promove as gargalhadas imbecis dos comparsas. O que ele pretenderia dizer fica para dias que não vão chegar. A morte não é tão complacente que permita que todos os disparates sejam soltos sem mais nem menos. Em menos de um ano, este e outros dois ou três como ele farão rezar missas hipócritas. São os ritmos de todos os interiores. Mais evidentes que nas capitais, onde o vinho veste fato, e a morte é acompanhada pelos coros de Mozart.
Nessa tarde, um ruído estrepitoso chamou os olhares à porta escancarada da tasca, mas o olhar não chega e os corpos tentam a dança risível de se levantarem rapidamente. Só quem nunca tentou levar um bêbado pelo braço até casa é que poderá não saber o quadro em movimento parodístico que aqui se refere. Um dos mais velhos ainda se agarrou a uma cadeira manca antes de cair, ele e a cadeira, e os dois copos que o desequilíbrio atira ao chão. Mas ninguém reparou, porque quase todos se esmagavam à porta para poder ver mais, ver antes, como se o seu estado permitisse distinguir lucidamente o que realmente aconteceu.
Não foi apenas o cantar do vinho que foi atropelado pelo barulho disfarçado de trovão envergonhado que soou pela rua toda. Também as conversas cacarejadas na Lina foram silenciadas pelo susto. Com maior aparato na cabeleireira do que na tasca, o silêncio chega sempre como um rebentar de onda no meio da noite. Quando as mulheres falam querendo que a sua versão da história ganhe coerência e verosimilhança, sobe o estrépito das vogais e o arrastar irritante das consoantes. O silêncio forçado varre esta amálgama de banalidades como um estalo num petiz surpreendido num devaneio mais adulto que os seus seis anos.
A Lina saiu primeiro, como senhora de um templo cuja profanação teria de ser esmiuçada inquisitorialmente. As madames impedidas pelos secadores alienígenas não conseguiam engolir os grunhidos da frustração de estar a perder um evento provavelmente imperdível. Mas dor maior era terem de se sujeitar à novela em que a Lina transformaria até o mais desinteressante episódio trivial. Se bem que trivial não era aquele estrondo perigosamente familiar. A Célia seguiu a patroa, o que deixou enfurecidas as clientes que, entregues a si mesmas, se tornavam de repente umas estranhas insuportáveis mutuamente. Toda a gente se (re)conhece sempre por intermédio de um elo inconsciente que alguém representa, cabeleireira ou padre, juiz ou taberneiro. Sem os vínculos subtis de uma compreensão global somos tão irreconhecíveis como um estrangeiro mudo e cego.
O pássaro sem morte jazia no chão.
A perspectiva mais ampla sobre a praça seria a da varanda do Arnaldo, mas não estava ninguém em casa para a desfrutar. Mas de qualquer janela à volta se via parte do cenário, interrompida a visão apenas pelas copas das árvores providenciais contra a curiosidade quotidiana. Dos escritórios da Cont@r as três secretárias e os dois técnicos não conseguiram reproduzir sequer um som que dignificasse o espanto e o horror simultaneamente. Viam, mais próximo do que desejariam, o corpo de um homem. Parecia vivo. Parecia irreal. Parecia familiar.
O cheiro da detonação chegava até aos andares mais altos, quase todos habitados por velhas solitárias cuja surdez natural fez do estoiro um banal ruído de rua, talvez mais um dos diários toques de pára-choques, talvez mesmo um balão a rebentar ou um caixote da casa de mudanças tratado com menor cuidado. Apenas uma das inquilinas do nº 25 se preocupou com o pior, talvez por ser a mais nova, ainda a raspar a margem esquerda dos setenta. E foi dela o primeiro grito, porque o corpo que viu foi o de uma criança, que dali lhe pareceu a neta da Laurinda. Mas não podia ser porque estavam todos a passar esta semana na serra. Mas era uma criança, de qualquer forma, e estar ali deitada de barriga para baixo com o vestido enrodilhado não podia deixar de arrepiar, mesmo à distância de cinco andares.
Jazia no chão, com as mãos abertas e o corpo torcido numa coreografia interrompida.
Os três corpos exibiam imobilidades diferentes. Dois respiravam imperceptivelmente. Um apenas respirava já outro ar. O ar que o pássaro sem morte respirava era ainda o mesmo. Apenas o lume que a queimava era já outro. O de uma tranquilidade imposta à alma pela violência de todos os actos justos e inadiáveis. A sua filha foi a primeira a sair do escuro que envolveu o seu olhar no instante em que o tremor e o medo a fizeram refugiar-se na inconsciência de um desmaio. A primeira pessoa que viu foi o pai. Controlou o grito impulsionado pelo choque do contraste entre a imobilidade presente e todos os gestos passados, que na sua mente voaram num frenesim de luz e som, como numa alucinação. Correu imediatamente para a mãe, abanou-a, chamou-a, e só parou de soluçar convulsivamente quando esta lhe apertou a mão com força, ainda antes de abrir os olhos. A arma estava ainda ao alcance de um braço que intencionalmente se movesse nessa direcção. Só a polícia a tirou de lá, alguns minutos mais tarde.
“Nenhum homem te tocará sem amor nas polpas dos dedos, nem a luz do respeito no olhar, enquanto arder em mim este fogo, querida”, foram as palavras que lhe ouviram quando as separaram para averiguar os detalhes do sucedido. A filha olhou ainda uma vez mais para o pai, com o alívio e o nojo misturado com um sabor ainda indefinível que só muitos anos mais tarde definiria para si mesma.
A rapidez com que o quotidiano se instalou de novo na praça apenas denunciou a hipocrisia de nenhum dos acontecimentos passados e presentes ter constituído surpresa ou novidade. Há lugares assim, onde até a tragédia parece fazer parte do destino colectivo, e o silêncio é a mais cruel das tiranias. Poucas pessoas continuaram a dizer “ali vai ela”. Nem só quem a amou incondicionalmente a passou a chamar também o pássaro em chamas.
sexta-feira, julho 29, 2005
(dia 31 de outubro, 2041)
... com a morte vê-se o silêncio ...
Agora, perto do rio, olho para trás como para um altar, ladeado por Queirós, santo que enamorado se enlaça num corpo nu ... bonito ... de ninfa ...
Lembro-me novamente dos pássaros que “silenciosos” me procuram e penso subir de novo ao seu encontro, apesar de a tarde anunciar não só o seu silêncio, mas também o meu cansaço. Subo. Caminho lentamente, para não chorar. Cumprimento, com um toque de volúpia, a ninfa nua que me olha discretamente. Perto da igreja, decido não olhar na sua direcção e sigo em frente. Ando mecanicamente, como quem não conhece por onde vai. Acho que se encontrasse uma porta aberta, uma porta qualquer, entraria, apenas para me sentir acompanhado pela solidão de um edifício desconhecido, e não por esta multidão que tão bem conheço e desprezo. É quase noite, finalmente.
quinta-feira, julho 28, 2005
sombras
dos teus olhos e já escureces,
nuvem, sobre o meu altar
de folhas cansadas neste
jardim sem nome
e é a cor do teu sorriso
triste, que me ensina a
amar o inverno eterno
25.09.03
(in 2 / 3 e outros poemas, 2003)
quarta-feira, julho 27, 2005
as nervuras simétricas da alma
a meio do labirinto
um poema conhecido, recitado de olhos fechados
na penumbra de um sorriso
em marés de vento, lúcido,
um cego tacteia a fronte amiga
e descobre o azul, nas maçãs desse rosto de pedra
enfim, a deambular na luminosidade da lua
um corvo morre, sim,
não sei a que horas, mas tarde
29.04.02
(in prosa perdida, 2002)
segunda-feira, julho 25, 2005
andorinha sem paixão
mas é tão grande o pavor
da imensidão de vazio e de mais nada
tivesse agora uma religião
em que cego mergulhasse
o temor não seria tanto
para isso servem Deus
e os anjos e os sonhos
cegam e abrem porta de perdição
com fé nada ficaria
desse temor bisonho
desse obstáculo à coragem
a queda seria corrida
em direcção ao infinito
o vazio eterno planície
nessa morte não receada
os olhos adormeceriam
a alma já lá estava
tão rápida a transição
do medo ao desejo
nem um feixe de luz
poderoso esse Deus
“amarás o que temes
morrerás enquanto sonhas”
que a fé venha longe
cavalo sem asas
andorinha sem paixão.
07.01.00
(in despojos de lume e de medo, 2000)
sexta-feira, julho 22, 2005
7. maldição
O princípio da nostalgia é o instante em que nos envergonhamos de ter elaborado
uma teoria da eternidade. Saudamo-nos com reserva, humildemente. Vai-se o tempo
de mãos dadas com a nossa ignorância, e fica ao nosso lado, como um demónio benevolente
e inútil, a consciência de tudo o que nos declara menos que quase nada. As águas infiltram-se
por cada fenda de luz. O princípio do desespero é o cintilante quebrar de todos os fragmentos
construídos pelos poetas para os inocentes. O tempo desequilibra-se e tenta puxar-nos também
para lá de todos os nossos limites espirituais. As águas param, o milagre da palavra...
As águas retornam.
O limbo da condição moderna destaca-se a pontilhado da nossa imagem de colagens. Pedaço a pedaço, vão-se esfumando os restos de cola entre cada espelho. A ironia isola-nos como pode
da verdadeira esfera que nos envolve, e por onde escorrem as águas ideais.
10.02.03
(in a densidade das almas, 2003)
quinta-feira, julho 21, 2005
Incognoscibilidade (uns dias antes)
Saberei um dia que a vida é quase tudo o que não pensámos que fosse. Mas entre um e outro olhar mundividente podia haver uma centelha de sabedoria que prevalecesse sobre o desânimo.
0:15
Dói-me o corpo.
2:24
Ele sabe mais do que eu sobre o fim. Mas eu sei mais do que ele sobre ele. Não consigo perceber se ganho ou perco na véspera, mas sei que perco no próprio dia. O meu silêncio tem um preço mais alto do que a minha sabedoria toda sobre ele e do que a dele sobre o fim.
2:53
Posso ir embora?
Não.
Posso desistir?
Sim.
Posso chorar?
Não.
Posso amar?
Sim.
Posso viver?
4:22
Não sei se ele percebeu quando me matou pela primeira vez. Não sei se eles viram o que nos estavam a fazer aos dois. Não sei se eu própria percebi quando morri para eles a primeira vez. Não quero acreditar que o destino pudesse ter sido só este. Não quero negar-me a probabilidade de poder ter inventado tudo de outra maneira. Não quero ter certezas a esta hora incerta.
5:01
A dor passou. Acho que amanhã vai chover, mas não é muito, afinal.
segunda-feira, julho 18, 2005
sem título
ausência anódina
subjectividade anónima
vicissitudes do ínfimo olhar
sexta-feira, julho 15, 2005
esta eternidade
(...de luz; poder olhar o tempo lado a lado, imitar-lhe
a dança em nós, fazer do seu corpo redondo um par
num ritmo esquivo e doente, sem sincronia ou elegância; mirar
a água e ver o reflexo aterrado pela ânsia
da evaporação invisível de todos os espelhos; desejar deixar
expresso simbolicamente os medo, os fascínios e chamar
literatura a essas infantilidades existenciais; amar
como o vinho, o sangue; quebrar em caleidoscópicas ilusões
todos os sonhos de cada madrugada; temer o escuro mesmo
disfarçado...)
Ah!, se não fôssemos imortais
condenados a esta inutilidade...
Jul.12.MMV
(in a geometria da inexistência)
terça-feira, julho 12, 2005
8
ninguém)
porque coibir a verdade da nudez
ansiada? – palidez, talvez, mas
mais que silêncio (dúvida
ou nada)
Abr.20.MMV
domingo, julho 10, 2005
6. vertigem
Sussurra-nos o futuro. Geme se não o acreditamos. Treme de angústia e raiva
por quem já o esqueceu. E tem razão. Preocupa-nos a miséria que nos grita
lá atrás. Envergonha-nos o pesadelo estúpido do que aconteceu sem nós. Até
a nossa leviandade em respeitar o presente parece fruto dessa vingança. Cada
dia que nos condena p’la nossa ausência reflecte a fúria de uma inexistente
relação entre aquele rio de tempo e o leito que nos molda a presença.
Uivam lá adiante, por detrás das colinas que distorcem a luz dos anos, cachos
de segundos apressados, infinitas memórias vazias de instantes guardados em
baús de mortos e loucos imortais. O imenso traço negro das noites sucessivas
deixa-se esculpir na nossa materialidade em contornos frágeis. E desse esboço
fazemos a nossa fronteira. Decidimos sobre que solo imaginário depositamos
os despojos de cada ciclo milenar.
17.01.03
(in a densidade das almas, 2003)
sábado, julho 09, 2005
quinta-feira, julho 07, 2005
quarta-feira, julho 06, 2005
III
a morte não existe senão no capítulo infindo da nossa angústia
a morte não existe senão no parágrafo visionário da capacidade de sonhar
a morte não é
a morte não se diz morte quando se nomeia
a morte não se nomeia quando se pensa
a morte não se pensa no momento em que existe
a morte é a nossa necessidade dela
a morte é a devolução do que lhe demos inconscientemente
ou de uma vida de imenso vazio colorida)
27.10.02
domingo, julho 03, 2005
reflexo / dor / fluxo
Mas porquê? Penetrar no real não devia ser simétrico a sair dele? Os gestos
não são contidos em dimensões paralelas?
(oblíquas nunca, porque a unidade não saberia como se multiplicar – assim,
pode o som ser ritmo exponenciado, e a luz
movimento invisível).
Magoam as ilusões mais que as desilusões. Embatemos impávidos contra a verdade mas sofremos por saber inquestionavelmente que é neblina sempre o que dizemos céu limpo.
Que perpassa enfim, por entre os dedos da alma, se nos atrevemos a escorrer raiva para fora do tempo, para dentro de nós? Que sabor tem o rio da desesperança? Não é amargo, como o lugar-comum apregoa. Não é doce, padre, não é doce.
Somos múltiplos sem desejo de tal mistério. Somos deliciosamente espectrais.
Jun.13.MMV
(in a geometria da inexistência)
quinta-feira, junho 30, 2005
6
não o cobre a insanidade a crença a lucidez
- somente ainda, a veste risível da dor vã.
Abr.02.MMV
terça-feira, junho 28, 2005
Firmes Penas
o casario, a luz coada pela
neblina entre aqui e as paredes
sujas pelas tradições de janeiro,
as janelas que se deixaram abertas
por cansaço ou insuspeitada intenção,
ali espreita um rosto, duas casas adiante
apenas o vento a embater no escuro, sem rostos,
somente gatos, talvez, ou ainda os gemidos deles.
o casario não está ali,
chega-nos de longe, de onde um primo (
afastado?) se pôs à frente do carro (não,
não era primo, ou era?), uma perna
partida, acho que sem mais tragédia.
a vinha sem dias nem horas,
por detrás do curral, vazio também
como se nunca ali houvesse cheirado a
asno quando o havia, e só agora o animal
inexistente deixasse o seu rasto subtil, ou são
as velharias que o lembram saudosamente.
a vinha corta o tempo em cristais de cor,
primeiro o negro de melros a atrair o olhar,
as miras, depois, que mancham a lembrança
de vergonha por se lembrar do ar um dia sujo,
do chilriar calado, penas ensopadas em sangue,
depois ainda, o vento a dançar com as folhas
secas (que salvam tarde demais os pássaros
da queda prematura), os cães a viver o sol
raro, cães que as velhas alimentam como
parentes em desgraça caídos, acorrentados.
cheira a vinho, mesmo aqui em cima,
e não vem do casario apenas, impregna
a própria estrada, embebeda até as lagartixas
nas paredes húmidas, fascinantes, dos poços.
cheira a vinho tinto, é sempre tinto
o vinho que nos pinta a lembrança das
palavras gritadas de um ao outro lado
da mesa onde a família julga que está,
o pão é o que se imagina junto ao aroma
ácido, pão de tratamento carinhoso, mesmo
na angústia da fome, quando o houve,
todos os cheiros são familiares ainda, não
o sabíamos antes, nunca, ou teria sido guardado
mais longe na memória; recorda-se o mais
ínfimo detalhe da insignificância e da pobreza.
sábado, junho 25, 2005
a lição sem discípulo
um instante.
__________? Não. Segura-o,
não o prendas, segura apenas -
não o deixes ser.
Segura o instante mesmo sabendo que ele
existe apesar do teu esforço.
Não abras os olhos. Segura
o instante, outro
sim, eu sei, não o de há pouco,
este agora,
como não fazer dele outro também?
Tenta.
Recomeça.
Se o vires pelo olfacto da alma,
se o pressentires seguro pelo osfacto da alma
se o instante submisso e feliz te fizer lembrar
um campo de relva acabada de cortar, então
abre os olhos.
Olha para ele.
Não, não abras a mão.
Olha através de ti para o instante que seguras.
____________!!! Sim, sim, eu sei.
É lindo o que vês de ti no caminho que
te leva a ele.
Vira-o lentamente.
Não sabes?
É apenas um pedaço de tempo!
Outro, já, infinitamente,
eu sei.
Virar um pedaço de tempo não é fácil –
requer tempo!
Irónico? Se não confiarmos no impossível.
Sabes para que lado está ele virado?
_____________? Sim, para onde olha ele
quando olha para ti?
Pronto. Agora, basta ignorares o espelho. Consegues
ver o movimento entre a criança e o vazio?
Amplia-o... pouco...
_____________? Não sei isso. Mas sei que se a alma
o desenhou bem, e não mentiste quando
disseste ter cheirado a relva acabada de cortar,
neste momento deves tê-lo a cerca de 90º.
Como que a espreitar, sim. Um olho em ti e
outro no vórtice de quase tudo.
Aperta a mão um pouco –
se conseguires que o tempo
sinta a pressão da tua existência,
conseguiste criá-lo.
________! É belo, sim, assustadoramente.
Jun.25.MMV
quarta-feira, junho 22, 2005
escolhe-se
na encruzilhada, o
caminho, tão único
como o preterido e
abandonado
sequer, esta
miragem das
(in)finitas (im)
possibilidades)
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
segunda-feira, junho 20, 2005
incognoscibilidade (talvez dois dias depois)
- Sim. Já te podiam ter dito antes. Mas também eu quis ter a certeza, por isso...
- Tanta coisa, para...
- Sim. É fodido. Alguém não aguentou a pressão.
- Há alguma investigação a decorrer já?
- Mais ou menos. É mais uma contra-investigação.
- Hmm... Como assim?
- O Luís confessou.
- Confessou o quê, caralho?
- Que a matou. Diz que sente ainda o cheiro do sangue. Passou-se!
- E tu, não dizes nada?
- Eu não posso fazer quase nada. Sou o único que podia tentar dizer que acredita que ele não a matou. Mas nem sequer posso aparecer, quanto mais fazer com que acreditem em mim. Mandei um mail ao tipo que está à frente da coisa. Relatei-lhe os telefonemas. Mas o Luís não desmente o que já disse. E há montes de referências à deambulação pela cidade, como em transe, já depois da hora em que conseguiram situar o crime.
- Que foda!
- É que eu até percebo. Um gajo tanto sonha com uma merda, que se isso acontece mesmo um tipo perde a noção se teria simplesmente sonhado.
- Bom... mais cedo ou mais tarde o Luís embrulhava-se todo. Aquela cena só ia durar até um deles quebrar. De qualquer forma, a coisa ia sempre virá-lo do avesso.
- É capaz de até ser melhor assim. Quer dizer... a nível global. Ele não deve aguentar muito mais que este mês, se eu bem o conheço. Por isso, a coisa salda-se com dois mortos só. Só que esta brincadeira ainda vai a meio... se...
- Que merda... Também quem a despachou podia ter feito a cena mais completa - um bilhete, uma história qualquer que arrumasse o caso sem confusões. Tudo feito à pressa...
- Pode ser que estejamos a falar afinal pela última vez, e nunca nos pudemos conhecer. Isso sim, sem dúvida que é um sinal positivo. As circunstâncias que nos fariam estar juntos no mesmo sítio seriam concerteza as que fariam um de nós estar de olhos bem fechados e o outro de olhos bem abertos.
- Podes crer. Que vida de merda!
- Vou desligar.
- Sim... eu tam...
sábado, junho 18, 2005
[des] {re} (cr) [tru] i (a) dor
inventei-me de novo,
crédulo, louco –
o sol, uma esférica convulsão de vermelhos,
e o ar impregnado de dúvidas.
dei-me outro nome,
troquei de olhar –
a rua, agora deserta, não me espera assim,
e procura por mim agitadamente.
reformulo a dúvida,
repenso tudo –
o mundo, ser vivo à beira da minha ausência,
arfante pelo medo de me perder.
(in horizontes de ouro, 2004)
segunda-feira, junho 13, 2005
Incognoscibilidade
Não escureceu por completo ainda. Vagueia-se sem hesitação, mesmo por ruas desconhecidas. A Rute não atendeu o telefone. O Luís não sabe que ela morreu. Os táxis parecem dormir sem motorista ao longo da avenida escura, também pela sombra que as árvores fazem, ocultando o último sol.
(
- Porque vais?
- Por não ter forma de me convencer a desistir e deixar de dizer o que penso.
- Porque não aceitas que tudo fica incompleto, mesmo assim?
- Porque não acredito em Deus. Não é dele o conceito de work in progress?
)
Foi. Veio. Chegou há minutos e já se dispersou pelas ideias de regresso. Não desfez as malas. Não hesitou em sair do quarto do hotel poucos minutos antes de ter largado as coisas ao acaso no chão. Só amanhã lhe telefonará, cedo, talvez dê para almoçarem juntos.
(
- Ela não atendeu.
- Não o adivinhavas já?
- Mas ela não.
- Talvez os sonhos tenham cumprido as suas funções.
- É tarde para acreditar nisso.
- Vem embora. Ou vais ligar de novo e arriscar que ela atenda?
- Não. Não posso arriscar. Se ela atendesse, tudo teria sido em vão, não?
- E não foi, mesmo assim?
- É impressão minha ou queres acabar com as minhas últimas ilusões?
- Não. Percebeste mal. Até amanhã.
)
A luz da aurora recente augura um dia amplo, limpo de pensamentos - a chuva é uma torrente infernal, o céu azul um mutismo interior. O Luís liga-lhe. Primeiro sinal. Segundo. Terceiro. Quarto. Quinto. Sex... Piiiii. A voz estúpida, estereotipada, do atendedor de chamadas. Ela não atendeu. É impossível não saber que é ele. Que está ali a menos de 500 metros dela. É impossível não saber que se tivesse atendido teria sido a última vez que falavam. São escolhas. Decisões. O Luís dá alguns passos na direcção onde a adivinha. Hesita. Senta-se no chão. Olha os pés que passam apressados. Limpa os olhos, levanta-se e dirige-se ao hotel. Afasta as malas que lhe parecem completamente ridículas. Deita-se. Telefona-me – “ela não atendeu”...
Depois de acordar, o Luís foi a um bar. Pensa-se melhor entre duas bebidas. Sai e chama um táxi. Não parou. É tarde. Devem haver zonas perigosas. Decide ir a pé. Entra noutro bar. Não quer passar mais uma noite a martirizar-se por não lhe ligado uma segunda vez. Refaz o percurso e vê o esboço de sol que espreita.
Jun.13.MMV
sábado, junho 11, 2005
VI
travessa que me impulsiona
me suga para o seu centro
um conhecido desconhecido
vultos de outros pesadelos
são agora companheiros
cúmplices inocentes pela
primeira vez talvez
derrubo o medo e anseio
pelo perigoso frémito
de loucura irracional
de naquele mar navegar
dou dinheiro a quem passa
de olhar feito ameaça
e deleito-me como desistente
na certeza desta incerteza
o futuro é real aqui e agora
que deixa de ser vislumbrado
levianamente para ser apenas
uma luz morta sob a porta
uma madrugada de sol intenso
nos candeeiros urbanos banais
cobre-me a sorte de ilusão
e afasta-se a sorrir a morte
23.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
terça-feira, junho 07, 2005
5
a cor do vinho, o cheiro como um músculo
pulsa nos sentidos mesclados de ironias – são
os olhos, sabias?, que lhe afagam o odor e o
travo a passado, passas do ano esquecido.
o tempo arredonda-se, como uma chama
imperturbável na macieza com que engana
o rio da angústia que as imagens alimentam
dentro da insónia – colheita de demónios
em forma de esperanças com sabor a fruta.
a líquida metamorfose de mim em néctar
fez-se na madrugada do dia que não houve.
aspiro a crescer dentro da terra, a respirar
o lume ritual, a beber o mar que me embala
a queda no redentor manto fúnebre de algas,
com as sereias homéricas a confirmar os sons
do crepitar da pele, da sede pútrida dos vermes.
escuto ainda o restolho num sussurro falso
natureza a implorar clemência à raiva que
contida ainda no peito ameaça queimar os
rios quebrar nuvens em pedaços coloridos
e fazer do último arco-íris cama de bordel.
Abr.01.MMV
domingo, junho 05, 2005
XIV
viajante,
não repouses debaixo de uma sombra;
será sempre uma sombra,
representação da frescura
e nunca a carícia da água
ou o arrulho do vento franco
06.12.02
sexta-feira, junho 03, 2005
(dia 24 de junho, 2028)
Não está tão escuro agora, mas o quarto não me parece o mesmo. Olho em meu redor, a cadeira, a cama... Queria sentir-me sozinho, mas assim...
os lençóis amarrotados mantém-me em contacto comigo mesmo, e quase desato a rir de me observar a dormir há pouco...
Perto da janela penso novamente que se a abrisse nem o eterno me iluminaria; o vazio não é infinito, então... e a consolação que daí advém remonta à ideia de que o meu autor se encontra lá, desse lado imaterial da janela. E não é coragem o que me falta para a abrir.
Talvez me falte dúvida. Talvez até me falte fé, mas quase que ao contrário - não tenho assim tamanha necessidade de olhar nos olhos azuis do fascínio pela angústia, e perguntar-lhe ternamente:
também me amas?
quinta-feira, junho 02, 2005
quarta-feira, junho 01, 2005
4
o mundo se veja
se deixe apalpar, não fuja
da perseguição dos sentidos;
aflige-me o contraste
entre o que há e o que
não há
Abr.01.MMV
terça-feira, maio 31, 2005
aforismos
O mundo em nosso redor faz-se sentir único ao olhar de cada um, e confiamos que assim não é.
Chegamos a rezar para que assim não seja.
sábado, maio 28, 2005
3
nem o fluxo germinal imaginado
inibe o reflexo, muscular tumulto,
que ao desejado amplexo cede lugar
Mar.31.MMV
quinta-feira, maio 26, 2005
4. nuvem desancorada
deixas-te desenhar pelo seu capricho impressionista. Concede-te
apenas o poder do contraste. Podes exibir a tua nudez cinzenta, ou esconder
o teu exuberante negrume. Podes imprimir-lhe a ilusão de movimento, se abrires
muito os braços. Podes lançar-nos numa busca pelo seu olhar, se te deixares embalar
pelo vento. A lua controla-te, leme da nossa mestria em te imaginar solta. Deitada sobre
o seu horizonte, dança contigo no colo, e adormeces com o nosso choro de embalar. São
diamantes que os nossos olhos te oferecem, enquanto te sorriem terna e maternalmente as estrelas, que te vestem de lantejoulas a pele. Adensas-te lá adiante, espraias-te lá atrás numa
duna escura de há instantes passados. A lua arrasta-te, pesada e triste. Queres voar e o
branco não te deixa. É o branco que se prendeu às coisas bonitas que te envolve agora
numa agonia, âncora da tua solidão.
10.01.03
(in a densidade das almas, 2003)
segunda-feira, maio 23, 2005
22
insubmissão e revolta
é inútil o vazio como inútil é a fome
(surpresa envolta em clarões)
como pode a verdade estar mascarada de perfeição ou a perfeição em trajes de nulidade vã?
desfaz-se o sonho em cada manhã?
talvez não... talvez descanse apenas
e o som do sol a cair do outro lado
seja somente o eco desses sonhos...
(a dúvida que se impõe
é da cor das pupilas vítreas
de um mamífero desconhecido)
cai o véu do corpo da rarefação da alma
é desnudada assim na sua virginal beleza
esquálida, enfim, uma carcaça do deserto
que o tempo seco e pesado descarnou já
(grito por ver agora o ultraje
perpetrado pela verdade falsa)
ergo-me?
levanto os olhos?
caminho de rosto sombrio?
expulso a raiva num murro teológico?
Sim.
22.02.04
domingo, maio 22, 2005
(dia 31 de outubro, 2041)
Nas ruas em que disperso o meu olhar pelas paredes e pelos telhados ...
(Walt Whitman)
Olho para trás e espero um segundo de preciosa ansiedade. Por esta rua já desceram tantas pessoas, mas também tantas personagens, e era por ele que o meu pensamento ansiava, pois que nos seus derradeiros meses também ele, por interposta genialidade de José, procurou o seu eu/autor - e com ele, fantasma de companhia, morreu.
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com a minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.”
(Ricardo Reis)
Continuo a descer, agora que a emoção me escorre discretamente pela face, e atravesso a estrada, para virar naquela esquina, descer as escadas e parar sentado. Gostava que fosse noite, noite poética, noite dura, que cura. De noite este lamento seria ouvido, e por detrás da solidão, ouviria chamar o meu nome.
quarta-feira, maio 18, 2005
2
deixariam de pulsar no mundo
motivos para outras epopeias
Mar.31.MMV
domingo, maio 15, 2005
1
enobrece a chuva, o sal do horizonte,
colhe-se o âmbar para a eternidade
que recebe desolado este olhar,
contemplar inerte, inane (imortais,
estes coros varonis sobre as ondas)
Mar.28.MMV
sexta-feira, maio 13, 2005
(dia 24 de junho, 2028)
O Triângulo apresenta contudo a grande desvantagem de não elaborar satisfatoriamente a ideia de não-retorno. Tento ainda imaginar um triângulo em espiral ...
(ver NOTA)
Mas a não-sobreposição no retorno, apesar de presente, não é definida pelo número de vértices, pois o problema é comum a todas as formas fechadas; é a própria ausência de sobreposição mais importante que a Forma. É pena, pois a ideia inicial agradava-me intuitivamente. Lembro-me do meu autor lá adiante (não sei em que direcção) e penso que a nossa sobreposição estaria sempre correlacionada com a sua morte, pois que eu lhe sobreviveria (como qualquer personagem). E neste momento? Poderia matar o meu autor com este pensamento? Sentirá ele na sua imaterial memória a ameaça da futura aniquilação dos sentimentos?
NOTA: no manuscrito que aqui se transcreve, existia um esquisso, algo rasurado (deduzimos que por hesitação teórica ou falta de firmeza no traço), em que o presumível autor deste fragmento tentou ilustrar o esquema mental a que se refere - uma espiral constituída, não por uma forma elíptica ou circular, mas por uma forma triangular. Diz-se agora que "existia" um esquisso, porque à data em que se tentam reunir os elementos que permitam entender de que forma estes fragmentos nos elucidam acerca do seu autor, descobrimos um pedaço deste mesmo texto, com data por confirmar ainda, no qual não parece ter havido lugar a tentativa alguma de ilustração gráfica. Ainda não foi possível determinar sequer se estamos em presença de momentos diversos do mesmo pensamento, ou simples tentativa de reformulação (na hipótese, plausível por agora, de que sejam do mesmo autor). Sobre a representação gráfica, e dada a quase ilegibilidade do traçado definitivo, perdido entre outros riscos aparentemente inúteis, decidimos omiti-la nesta transcrição, reservando essa divulgação para um momento mais avançado do estudo destes manuscritos.
terça-feira, maio 10, 2005
díptico para Deus - para Ti, punhais
Quando te esqueço
sofro da certeza impura
e danço quase quedo
num medo sólido e uno.
II
Danço num segredo
e guardo-me para ela –
a renúncia ao saber e
ao desassossego vão.
III
Sossego na ausência
dos teus braços de luz
isento da tributação da
alma antes penhorada.
IV
Um dia, sem tempo e
olhos nos olhos, infiel
à fé, pétrea a entrega,
a partir chamei chegar.
V
E porque ris, se não
estavas lá, oráculo ou
esfinge, e nem sabias
quem chegou partindo?
VI
Há um lugar visceral
dentro do teu nome
no qual habita inócua
a minha dúvida perdida
VII
Não é ainda triste
o aroma que a morte
exala, afinal, entre
um e outro suspiro teu.
VIII
Procuras, derradeira e
desesperada criação,
o coração das minhas
desapaixonadas trevas.
IX
Enfrentas o deserto
e a rocha, o oceano
pálido e o infindável
abismo do meu olhar.
X
Uma vela ao fundo,
um incenso por queimar,
talvez um cântico, hino
ao tempo? Aguarda.
XI
É mais bela a tua
solidão agora, espelho
- vislumbro o belo,
panegírico da liberdade.
XII
Imitas na tua queda
o outro declive, grave
destino sobre irmãos
na perdição, caídos, vis.
último punhal
Recuperas a noite
do teu nascimento
no silêncio que deixo
a embalar o teu sonho.
? - Abr.18.MMV
(in livro xiii, 2005)
Nota: como antes anunciado, este díptico para Deus que aqui termina faz o contraponto ao tríptico para o Diabo, que tinha aberto este volume intitulado livro xiii.
todas as partes foram editadas aqui, e podem ser lidas a partir dos arquivos.
domingo, maio 08, 2005
batem-me
pedras que servem de berço aos rios
de uma infância banal qualquer, as
recordações póstumas de uma branda
quietude. batem-me com a violência
das evidências que balizam a nossa
credulidade no mundo infinito e belo,
apesar da crueldade bélica dos instintos.
01.09.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
Dádiva em Marília Campos
Muito obrigado, Marília.
quinta-feira, maio 05, 2005
dádiva
é sempre daqui que se olha
para o reflexo
sempre donde não nos vemos
mas intuímos
e sempre nos surpreende
a brancura
sempre a luz nos ofusca
aura intensa
é sempre daqui que nascemos
para o mundo
sempre os olhos abertos inúteis
quase cegos
sempre que o céu cai digno
sobre a morte
e sempre que o som do grito
atroz ecoa.
01.02.04
terça-feira, maio 03, 2005
Ode a um amor diferente
ouvi sem ouvir o meu nome
que a tua voz sem voz já
deixou pairar silente entre
os teus olhos e a minha dor
ressonância adiada
temido eco odioso
desejado colhido no
prado do tempo sem
promessa esquecido
viajar pela tua memória não
me permiti nem o tempo a
mim concedeu nobreza que
antes iluminasse desejo tal
o vento nas flores
a água nos rebordos
vasos aves aroma a
banha sabor de fruta
o som da tarde
cantei-te sem melodia sonhos
em forma de oração pedaços
de crueldade sem rumo com a
coragem envenenada de amor
fio de rádio parodiantes
luz em fundo sombrio
frinchas de persianas
conversas perdidas na
vizinhança envelhecida
quando parti sem desejar voltar
repousas imagem inquieta hirta
imponente invulnerável e dócil
amor que não esbanjaste
mimo inviolado guardado
ignorado talvez revestido
da leveza que a maldade
parece dar ao olhar vazio
talvez muito de ti viva em mim
assim nesta clausura em que me
defino quando fecho os olhos e
um cheiro a mofo me inebria
uma velhice intemporal
meiguice uma subtileza
da voz com a chuva ao
fundo da rua na escada
na relva no teu quarto
não cheiravas a morte no último
dia nem a pele resistiu ao beijo
não foi inerte o olhar inerte nem
mudo o afecto que ecoou em nós
letras que não sabias
não sabendo ensinaste
e nem a amar podias
adivinhar que ensinavas
sendo ódio o dicionário
não partiste agora para mais longe
do que para onde a vida te afastara
estás no mesmo lugar sem morada
em que vivem os diferentes amores
in memoriam
Beatriz Oliveira Pereira
(17.01.1914 - 28.04.2005)
quinta-feira, abril 21, 2005
o velho paradoxo
Sem a hipótese do livre arbítrio quanto ao ter acendido esse cigarro, não poder dizer à partida “não, obrigado, eu não vivo”, como vencer a tentação de lamentar o poder do seu sabor ao preço que o tempo cobra?
Haverá vida de enrolar em mortalha? Existência de rapé? O que será um cachimbo? O próprio mundo que aguarda a erva aromática do nosso sangue, da nossa mente? Para desfrute de que fumador compulsivo?
Abr.02.MMV
(in a geometria da inexistência)
segunda-feira, abril 18, 2005
ex-libris da tugosfera
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro em branco aos olhos do poder – um poema para os despertos.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Desejei muito que a Agnés da “Imortalidade” existisse de facto. Não me apaixonei por ela, mas pelo que o Kundera nela viu. “Adriano” passou a significar algo de muito intenso depois da Yourcenar. Clarissa, Laura e Virginia, marcaram, colorindo, um olhar sobre A Mulher pela mão de Cunningham.
Qual foi o último livro que compraste?
Casa na Duna, de Carlos de Oliveira; A Mancha Humana, de Philip Roth; Camões: Labirintos e Fascínios, de Aguiar e Silva
Qual o último livro que leste?
Os Demónios de Kraven, de Alan Isler
Que livros estás a ler?
Casos do Beco das Sardinheiras, de Mário de Carvalho; Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro; Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco; A Vaga de Calor, de Urbano Tavares Rodrigues; Granta nº 87; Discurso da Narrativa, de Gérard Genette; O Rei, o Sábio e o Bobo, de Shafique Keshavjee; A Angústia da Influência, de Harold Bloom;...
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
1) A poesia e a ficção de Jorge Luis Borges, a poesia de Pedro Tamen (e, quem sabe, a sua tradução de Proust, dado o tempo que provavelmente teria), a poesia de Al Berto.
2) As Cidades Invisíveis, e demais fantasias de Italo Calvino (devia haver edições com a obra completa num só volume para o caso de emergências como esta).
3) Os romances do Umberto Eco, para reler um após outro (acho que escondia os Limites da Interpretação no meio dos romances).
4) O Ser e o Nada do Sartre, Ser e Tempo do Heidegger, Verdade e Método do Gadamer, Investigações Filosóficas do Wittgenstein e Diferença e Repetição do Deleuze, preencheriam com toda a certeza as horas mais longas.
5) Cadernos em branco, para expandir os livros que levasse para outras páginas, para outros sonhos.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
À Azul, pela cumplicidade de tantas leituras, pela partilha de tantas ideias, pelo fascínio de tantos anos.
À Helena, pela empatia das palavras que lhe leio, pela beleza e profundidade do que nos comunica.
Ao Alexandre, que nos leva com ele para tantos recantos do mundo, como livros para uma ilha deserta.
sexta-feira, abril 15, 2005
díptico para Deus - harmonia celeste
Ufano na solidão
em que me defino
sem definhar ao
castigo que clamaste
no momento ímpar
da sóbria separação,
escorro angústia
ao invés de sal
pelas órbitas
insanas, irreais;
mas é contudo
alegria revolta
paz insatisfeita
que se esvai de mim
assim, neste fluir
escuro por que me
tentas a voltar.
Numa ilha sem ti
rodeado de ti só
alcanço o limite
o cume a franja
do sentido da tua
ausência incerta;
e mascaro de fome
o sabor a nada,
e digo sequioso
quando trago
voluptuosamente
afinal o néctar
o sangue esperma
teu e de todos os
corpos que aceitas.
O nome é então
o que resta do verbo
e o som do estertor
é tempestade que
ressoa já na minha
inexistência triunfal;
o poder é o nome
do som inexistente,
a dor do espírito
que não sente já
o peso da tua mão
a afagar-me sem dó.
quinta-feira, abril 14, 2005
retrato esboçado ao luar
não é a morte mais silente
que o dia sem ti
nem a noite imponente deslumbre maior
que o céu que dorme nos teus braços
nem o mar véu mais puro
que a tua pele nua
24.01.04
sábado, abril 02, 2005
XII
lúgubre sobre o que intuo me invadir derradeiramente.
sei a cor do débil apagar de todas as velas e
comprometo a minha inteligência em cada olhar
sorridente sobre um poema assinado – prova irrefutável
da sede de paz enganadora e triste. adio o afecto
que adivinho nascer nesse momento em que convergem
as fés e as descrenças, em que brilha o sol
e a lua simultaneamente, em que caem as estrelas
duas a duas (porque o mal se partilha também no
universo inerte). adio o deslumbramento doloroso, não
por parca audácia mas por me quedar a olhar demasiado
tempo o rio de águas paradas (translúcidas, porém) da
vida que me banha.
27.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
indícios de nós
o espaço que as palavras deixam escorrer
por entre as respirações. Talvez
angústiaéotraçodoesboçodenósquenãoconsenteplenitude
se perfile na consciência como um exército contra
o sentido perdido. Memória tempo pulsação
cada vez mais vida a viver-se fora de nós. Todos os sinais
da nossa presença soam a rufos de circo
TRRRrrrrrrrrrrrrrrrrrLadiesAndGentlemenrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrParaTodosVósrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrODerradeirorrrrrrrrrrrEstertorRRRRRRRTCHSSSHHhhh...
Pulsação ritmo eternidade
Abr.01.MMV
(in a geometria da inexistência)
díptico para Deus - harmonia celeste
Pedes-me cinco sons
e os sentidos parecem
não ser capaz de evocar
um acorde temperado;
não consigo aniquilar
o ruído das preces
o arrulho de dores
da fé, a rugosidade
de tudo, a finitude.
Dou-te o medo, o
desajeitado medo de
quase nada, para que
com o branco brinques;
a cor do teu abraço
é escura já demais
para o vento que dizes
colher na túnica
dos profetas cegos.
Exiges o grito incerto
e não afino no parcial
harmónico que te doa,
que te quebre, magoe.
Cerras-me os olhos
com a força convicta
da unidade demiúrgica
com que os abriras;
esqueces a promessa
do infinito escuro
contido no deserto
em que as lágrimas
se vertem, desaguam.
Abro a garganta no
silêncio simulado
da oração hipócrita
com que te desgosto;
invoco todos os nomes
de impossibilidades
que te anunciem a dor
com que sucumbo
à realidade sem nós.
(in livro xiii)
Nota: este díptico, ainda em elaboração, de que é agora apresentada o primeiro poema da primeira parte, fechará o volume livro xiii, em contraponto com o tríptico para o Diabo que o tinha encetado, e que pode ser consultado nos arquivos.
r.e.






