quarta-feira, fevereiro 01, 2006

xi

vão é o equilíbrio que se suspeita alcançar
no sono irreal da vigília
passeiam-se vozes sem importância pelos campos das horas
que se cruzam com os pensamentos, e nenhuma
palavra alheia ganha eco ou reflexo no vocabulário da indiferença.

completamente inútil o hastear das virtudes do acordo, da harmonia entre
o indivíduo e a duna ou o monte de entulho ou outra coisa qualquer
que renomeie o colectivo, o anormalmente colectivo, o artificial
sentimento de pertença que também com o seu manto
agasalha a completa irrelevância.

somos de coisa nenhuma e não quereríamos que fosse outra a nossa
definição, mas não temos palavras para traduzir a aceitação
individual desta evidência. só a sociedade domina
a gramática da insignificância.

dez.16.MMV

segunda-feira, janeiro 23, 2006

xiv


vibro em ânsia destituída de cor
vibro num pendular lento
moto perpetuo insensível à minha vontade
sou som e não me ouço
vibro como a terra morta
sou a própria percussão das almas
no solo arrefecido
mastigo desejos para entreter a espera
mais nada acontece senão
o meu vibrar estúpido

como o mar repele a paz interior para fora de si
e a deposita nos olhos emocionados de quem
ouve gaivotas e vê pescadores e cães
também eu exorto os meus sentimentos a saírem
do turbilhão que me vive
para os pousar onde uma flor os possa
metamorfosear em perfume ou uma mulher
os leve para dentro da memória da beleza

vibro
e arrasto no movimento
planícies desenhadas a
estacas e
cercas bois
a viver o
verde asas
que abraçam
o ar em volutas
surpreendentes
vibro e desperto a cada oscilação para um silêncio que julgava ter exalado já

dez.16.MMV

sábado, janeiro 14, 2006

contos inconjuntos - I

Do branco frio emerge a luz forte, ainda silenciosa.
A plataforma está deserta, invulgarmente. Apesar de anunciada uma ponte, não é suposto que a classe operária sem direito a luxos destes, adira em massa à permissiva tradição. Muito liberal iria o patronato, pensa. Não, o motivo deve ser outro. Ela não indaga durante muito mais tempo a este respeito. Senta-se, lá fora, por enquanto, num banco de madeira, outrora castanho, do qual uma aura de dias antigos se solta, como se houvesse sido roubado directamente a uma fotografia de Doisneau. Daí a alguns instantes entrará na pequena sala, ainda fechada, mais desoladora mas menos gelada que a rua.
Da luz amarela começa a nascer um pequeno tremor, rodeado do mesmo branco. O branco não é propriamente branco, como, aliás, nenhum o é. O branco na realidade é a noite húmida, a brancura vindo da imaginação que chama branco a tudo o que fuja ao contorno definido dos vultos. Também o facto de se saber feito de água o orvalho que dança no ar, ajuda a iludir a descrição das coisas na noite ainda fechada sobre os seus próprios desejos obscuros. A luz projectada na escuridão dá o toque final à visão alva da humidade. O foco intenso torna-se ensurdecedor no momento em que se une ao trepidar do próprio chão, das paredes atrás de si, do relógio obsoleto por cima da sua cabeça, do seu próprio corpo atravessado por calafrios inesperados, fruto com certeza das associações inevitáveis que estes instantes recuperam algures no seu espírito.
Fecha os olhos e sente-se simplesmente invadida pelo trovão do ferro sobre os carris, ribombar ininterrupto, aparentemente feito de gritos do mundo, cadenciados, ritmados, na verdade feito apenas da intermitência provocada pelas juntas de dilatação e pelo próprio peso da serpente de aço que acabou de passar.
O silêncio inebria quando surge sem aviso. Marta, de olhos abertos agora, movimento que o silêncio brusco provocou, inclina-se e espreita para cima. O mostrador sujo permite ainda assim decifrar o ângulo recto dos ponteiros. Não era tão tarde como julgava. Não deve ter acontecido nada de especial hoje, afinal. E esta serenidade é reforçada pelos passos que surgem a anunciar os transeuntes habituais.
A sala da estação está iluminada, mas de portas fechadas ainda. Marta é assim confrontada com os pensamentos a que estas incongruências obrigam – de que serve uma sala de espera fechada, às horas em que mais útil seria para proteger daquele frio, menos iluminado agora, apesar de tudo.
A noite despede-se lentamente das coisas deste lado do tempo, e afasta-se imperceptivelmente.
Do outro lado da linha a ponta de um cigarro refulge, como um silvo, brilha e extingue-se alternadamente a um ritmo que deixa adivinhar uma respiração que denuncia um olhar penetrante pousado em si. Ao seu lado encontram-se já mais pessoas, de mãos nos bolsos dos casacos apertados, duas mulheres, dois homens, três agora com o jovem que se aproxima dos paralelos amarelados que delimitam o fosso das linhas. De mãos nos bolsos das calças, de corpo esticado num espreguiçar que ilude o frio, o rapaz parece--lhe mais ausente, mais espectral, do que todos os outros homens. Talvez por não a ter olhado da mesma forma mecanizada e ritual com que os restantes a miraram.
Ao ouvir os ruídos da fechadura, vindos de dentro da sala, Marta levanta-se e entra. Senta-se no lugar do costume, e pousa a mala na cadeira ao seu lado. Só nesse instante, em que retira o livro, e o abre a três páginas do fim, é que a penetra, com laivos de inevitabilidade, uma ausência que até aí parecia ter escapado à própria ansiedade da espera.
Marta refugia-se nas linhas emotivas do livro para afugentar algo de indefinível, quase tão poderoso como o estertor de há minutos atrás.

Sente-lhe os passos decididos a menos de dois parágrafos de fechar o livro. Tem tempo de pensar que talvez seja providencial esta interrupção. Chorar àquela hora, num cenário tão desolador e deprimente, seria um péssimo começo para mais um dia.
Ela senta-se sem olhar para Marta. Esta sabe-o porque não consegue evitar acompanhar os passos até ao lugar habitual. E uma vez mais ela não a olha, nem uma única vez, apesar de Marta ter a certeza de que é, de uma forma qualquer, igualmente observada. Na segurança assim adquirida de que a outra não olhará directamente para si, Marta sente-se confortável para desfrutar do ritual que, constata agora, a fez chegar mais cedo, que a fez sentir o vazio indefinido até este momento. Com o frio que vem da rua a fazer confundir os vários tipos de arrepios que sente no corpo, Marta observa os movimentos lentos da mulher à sua frente. Olhando para a porta da sala, a mulher cruza as pernas, languidamente (Marta apostaria que o fez numa atitude de subtil exibicionismo, ou pelo menos assim o imagina). Durante o movimento, passa a mão pelo joelho como a confortar uma dor ou uma irritação. Marta tenta distrair o olhar da sensualidade que a cena lhe sugere, observando os detalhes da roupa que veste estes gestos, observando os detalhes da roupa que veste estes gestos. Admira principalmente as botas altas que conduzem a atenção até à pele da perna, ainda agora massajada, e que desaparece para dentro da saia, não sem antes denunciar a suavidade das meias, cuja opacidade crescente ao longo das curvas da perna cruzada faz com que Marta desvie o olhar, não para longe, mas para os olhos da mulher, na certeza de que é intencional a não retribuição.
É monumental a diferença emocional provocada pelo rapaz que lá fora despertou a sua atenção, pela aura fantasmagórica que envolvia a sua discrição, e a inquietude que a invade agora perante esta mulher, que de espectral não tem nada, muito pelo contrário, que parece gritar corpo, matéria, calor, movimento, até na invulgar indiferença com que reage ao seu olhar insistente.
Repentinamente, Marta vê-se a si mesma, como se entrasse agora na sala e olhasse para o seu lugar, e reconhecesse, assustada, a cor que habita o seu olhar, tantas vezes vítreo e agora quase incandescente. O medo, a vergonha, o sentido de decência que pautam a sua vida, o seu quotidiano, de uma ponta do dia ao chegar da madrugada, fazem-na levantar-se num impulso súbito. Sai, a cambalear como quem corre acima das suas forças, para o frio menos branco agora, tanto porque o sol invade a neblina, como porque a humidade se dissipou, quase por encanto. Marta ainda se atreve a pensar que foi o seu próprio sangue a aflorar ao rosto que fez o ar aquecer num ápice.

As horas. Como pequenos artesãos da memória, as horas cumprem o seu papel, avaliam, medem, classificam, armazenam, refundem, compreendem. A meio da tarde Marta não sabe já se o que vivenciou ocorreu nessa manhã ou noutra semana até. Talvez o medo íntimo e os outros operadores do esquecimento façam com que duvide mesmo da realidade das imagens que a invadem inesperadamente quando engole o café quente ou quando entra na casa de banho do emprego.
Tenta lembrar-se apenas de um pormenor que gostava de ver confirmado, se a mulher entrou no mesmo comboio que ela. Não consegue reconstituir o momento em que as portas se abriram, mas não tem dúvidas de, no instante em que a composição começou a andar, ter olhado para dentro da sala, então deserta, tão fria como se não tivesse acolhido antes emoção alguma. Um arrepio percorreu-a, como se a ausência do vulto que procurou fosse um desafio à sua mente.
Durante o dia telefonou ao Pedro, mas ele não atendeu. Provavelmente não teria feito referência aos pensamentos da manhã. Mas se o tivesse ouvido, alguma serenidade acabaria por a invadir, e as dúvidas seriam varridas junto com os detalhes que já esqueceu. Se o tivesse ouvido, teria readquirido alguma da confiança que lhe permitiria encarar o resto do dia com os olhos dele na alma, com o perfume dele a colorir o seu desejo, com as mãos dele a substituírem esta indefinível sensação de posse involuntária que a angustia e fascina simultaneamente.
Hoje vi um tipo de quem devias gostar, fazia o teu estilo, acho, comenta com Luísa. Porquê? Era todo pipi? Não, se queres que te diga, não sei como to descrever, mas era como se ele fosse tão versátil que pudesse ser qualquer tipo de homem, por isso podia ser o teu estilo também, não é? E sorri. Se tu o dizes, quem sou eu!, brincou Luísa, bem-disposta. Estavam lá outros gajos de manhã, mas esses, não sei porquê, acho que não te levariam ao céu. E estava lá aquela mulher, acho que te falei uma vez dela... Não me lembro, talvez. Se calhar não falei, então. Nem sei porque disse isto, não ligues. Mas o que te fez pensar nela? Não sei, às vezes penso que a conheço, ou ela a mim. Não é a primeira vez que tenho esta impressão, por isso podia já ter falado dela.
Depois do desconforto e da perturbação que esta conversa lhe suscitou, Marta resolveu não chegar a falar daquilo ao Pedro. Se há coisas que uma amiga não entende, dificilmente o marido vai entender, pensou. Mas no mesmo instante afirmou para si que o inverso era também verdade – o marido conhecia-a e entendia-a melhor do que a Luísa ou outra mulher na sua vida.

As sombras começam a diluir-se em todas as superfícies, e o cinzento rouba o lugar às cores das próprias coisas, para dar passagem à noite. Marta regressa. Habita-a uma nostalgia que não legitima dentro de si. Contudo, não a expulsa. Talvez não a expulsasse de si, mesmo que pudesse. Este sentimento quebra o quotidiano em pedaços de formas irregulares e desconhecidas. A sua vida tem sido um puzzle de peças lisas e tão previsíveis como se a figura a construir fosse um céu limpo, uma duna extensa, um mar calmo, uma vida silenciosa. Olha pela janela o escuro a indefinir o mundo, que se adivinha já mais do que se vê. As conversas esparsas à sua volta, parecem gravações apenas, como se todas fossem produzidas pela mesma voz que anuncia as estações no tom metálico e cansado que as máquinas exibem. Não tem ninguém ao seu lado, o que ajuda a mobilar esta ilusão com ausências.
Ao colocar o pé na plataforma respira fundo. Apesar da incongruência, dada a hora, senta-se num dos bancos, envolta pela luz ténue que provém da carruagem ainda, que já se move lentamente. Quando a luminosidade desaparece por completo, rodeia-a o silêncio deixado pelos passos já distantes, e o outro silêncio que grita dentro dela, tão violento como a mais completa solidão. À sua frente distingue os contornos do banco iluminado pelo mostrador do relógio, que emite um branco surreal como só em alguns filmes parece existir. A restante luz da estação, de tão débil e distante, não afecta a sua sensação de penumbra completa. É tarde. O Pedro já deve ter chegado a casa. Decide encaminhar-se para o parque onde deixa o carro todos os dias, Para algumas pessoas o lugar é soturno demais para se passar a esta hora, mas Marta não encontrou nunca motivos para temer a escuridão, até porque uma parte de si se revê na paisagem desoladora do parque vazio.
O carro distingue-se na vastidão de terra batida, húmida, como um monumento, como um pensamento solto, marginal, que a alma esqueceu de integrar no fio do quotidiano interior.
Marta estremece e abranda bruscamente o passo. A respiração acompanha simetricamente este movimento e o coração parece querer gritar algo incompreensível. O medo assume a forma de uma silhueta recortada de encontro ao seu carro. Parece-lhe distinguir uma incandescência que a remete imediatamente para o frio da manhã e para aquele olhar estendido sobre ela, com o requinte de malvadez de todos os comportamentos invasivos a que não podemos fugir. Sem dar conta de o ter decidido, estacou. O coração deve ter ordenado retirada, à revelia da sua consciência. No entanto, a fraqueza de que parece revestir-se esta atitude horroriza-a. Finge procurar algo na bolsa, justificando assim a hesitação, e recomeça a andar, com o olhar preso à sua ténue sombra no chão, cada vez menos visível à medida que se aproxima do automóvel. Só a poucos metros do carro se apercebe que a pessoa não está de frente para ela, como precipitadamente intuíra, mas de perfil, olhando para a escuridão que se estende em redor.
Assim como o breu da madrugada se dilui no dia como fumo no espaço, também a tensão e a angústia deram lugar ao alívio e a uma lufada de bem-estar quando Marta vislumbrou o reflexo acobreado dos cabelos compridos caídos ao longo do vulto alto, e não o porte ameaçador do homem que a fitara de manhã. Não precisou de um segundo sequer para saber quem era ela, mas precisou de algo mais do que isso para avaliar o efeito dentro de si, provocado por tal constatação.

No momento em que o cigarro se apaga numa poça de lama, e a sua luminosidade tremeluzente deixa de desenhar o cabelo que ondula subtilmente submisso à aragem da noite, Marta encontra-se ao lado do carro, a um braço esticado de distância da mulher que a espera. A escuridão repentina, contudo, não permite ter a certeza da verdadeira posição em que se encontram, criando em Marta uma inesperada sensação de liberdade. O medo que a assolou momentos antes criou uma pressão no peito que agora se espalha pelo corpo como uma energia que a arrepia e queima. Apenas o brilho no olhar, mesmo na mais completa penumbra, as aproxima num derradeiro reconhecimento. Antes de qualquer questionamento anterior, mesmo que para tal tivesse havido tempo, Marta dirige a mão quase cega àquele cabelo que se aproxima também imperceptivelmente. Marta faz deslizar a mão pela nuca da mulher-mistério-fascínio, e sente nas polpas dos dedos o crepitar sub-reptício da pele que reage ao seu toque. Ao contrário do que a razão poderia levar a crer, não se espanta com o seu gesto, nem com a naturalidade com que o mesmo é esperado, senão mesmo exigido pela placidez com que uma mão se lhe pousa no rosto.
Os lábios não se tocam plenamente centrados no primeiro impulso trémulo; parecem marionetas manipuladas com mestria em que, mais do que a precisão dos movimentos, são as expressões e as intenções comunicadas através dos fios que espelham as emoções. Num segundo momento, sim, beijam-se, ansiosas ambas, ou pelo menos assim os seus olhos entreabertos o revelariam se o negro circundante o permitisse. Marta sente-se puxada com delicadeza de encontro ao outro corpo, e ambos de encontro à porta do carro, que agora adquire a cumplicidade de um espectador, de um voyeur. Marta não teria gostado de sentir o vazio em torno deste momento ébrio. O ferro húmido e frio tempera a excitação com o sabor do inédito e do impensável, ou talvez apenas quebre o manto pesado do esquecimento. A penumbra do tempo aclara-se um pouco e Marta sente outros dedos nos seus, não estes que lhe sobem pelas costas num rastejar sapiente, mas outros, longínquos, feminis tanto pela delicadeza como pela juventude. Olvidados, mas presentes.
De repente vê-as a si mesma de fora, como de manhã tinha acontecido, mas não é vergonha que sente agora, nem medo, muito menos. Sente o embate do encontro do tempo com o pensamento, o encontro da luz com o olhar, o encontro de si consigo mesma, nesta outra que beija sofregamente, que bebe e deseja beber mais, nesta pele quente que os dedos tocam sem hesitar, o encontro com o continente por sonhar. O ar húmido transforma o carro num refúgio impreterível, um abrigo providencial, o espectador que se torna parte da cena. Com a luz repentina que o abrir das portas desperta, os seus olhos miram-se pela primeira vez, como que na retribuição de todos os olhares parciais ou evitados, não correspondidos directamente. Apesar do sorriso malicioso nos lábios, apressam-se a fechar o carro e a desligar a luz, impulsivamente, como quem teme estragar um rolo inadvertidamente exposto à claridade. O rolo que protegem é o filme dos instantes vividos, que não querem arriscar perder no triturador implacável em que se tornam tanto a consciência e como os julgamentos preconceituosos da razão. Escondem-se na escuridão de novo como quem foge ao outro lado de si. Não falam, não se beijam, dão-se as mãos que tremem, como se entoassem a lacrimosa num requiem ao futuro. Marta tem o sabor a naufrágio na boca, e sente o peito como destroços à deriva, aos quais se agarra aquela mulher que parece diluir-se naqueles minutos como se fossem os últimos. Mas Marta não o podia saber.
Um clarão repentino quebra em minúsculos grãos o cristal do instante suspenso entre os dedos entrelaçados. As mãos afastam-se, reactivamente. O carro que se aproxima aponta a luz invasora na direcção das estátuas em que as duas mulheres se tornaram, com a respiração sustida, cada uma pelas suas razões, e ambas unidas na dor de quem acaba de perceber algo demasiado grande para o lugar que tinha reservado à descoberta. Marta tinha sentido até esse instante a segurança de quem se entrega a um cirurgião das emoções imprevisíveis. Mas a fragilidade que a outra mulher revela, no respirar tenso e quebrado, num equilíbrio instável entre o desejo de ficar e a necessidade de fugir, leva-a a condensar em si todo o medo e emoção acumulados, e num impulso determinado murmura, com tanta ternura como veemência, Vai, amor, agora vai.
Cerra os olhos enquanto escuta a porta do carro a fechar-se com a subtileza e a naturalidade de todos os gestos afectuosos. Não foi um adeus, não foi o aceitar simples da exortação que os seus lábios sopraram. Foi um sopro de destino, um suspiro, um salto para o abismo do quotidiano impossível.

Marta regressa a casa, com o carro a rolar como se acompanhasse um funeral, o motor lânguido e lamentoso numa identificação com os sentimentos da mulher que assim o conduz. A luz forte que projecta à sua frente invade o escuro e cristaliza a noite num frio branco, já silencioso.

dez.05.MMV

quinta-feira, janeiro 12, 2006

VII

foste ágil, inutilmente
a inebriante vertigem chamou
o teu orgulho e cedeste à escuridão
à cegueira de ser diferente e belo

mas chegaste e o espelho
não se desfez em sorrisos
odeias-te, e à imensidão que
te fez crer na urgência de voar

dez.07.MMV

domingo, janeiro 08, 2006

v

ante mare, undae
ou simplesmente para a Blimunda

despeço-me em registos de prata, subtis acenos ao ontem
feito hora minha débil e triste. hora minha numa posse injusta.
para que quero o tempo. para que me quer o tempo.
pastel de nata, buganvília, pedra de calçada, sintoma, peso, leque, açafrão ou cadáver.

os segundos não me querem. expulsam-me das horas. fico preso numa eternidade de ponteiros suspensos entre carris, movimento de faíscas a deflagrarem a minha angústia etílica.
esfuma-se de encontro ao branco da inexistência o meu sangue, sépia nos dedos do diabo, arquitecto a projectar a diluição do ser
em pó em sombra até à incolor indolor passividade da vida de regresso
ao esperma universal, ao óvulo infecundo de deus

podia ter sido um arco-íris entre as pernas do orvalho, um riacho
a desfilar fresco pelos labirintos do cérebro, podia até ter sido cordão umbilical
entre uma nuvem e a tela sob o acto criador de um cego, podia ser
o vento artesanal num teatro de marionetas, gostava de ter sido
a própria terra que engoliu a fertilidade toda do gado mítico, e devia ter sido,
acima de tudo, silêncio
o silêncio
o inevitável

a podridão não é tudo. não há só merda debaixo do tempo. o fio de saliva que desliza pela vida das pedras é a secreção que denuncia o organismo pulsante do mundo, inconsciente, em coma. o mundo está em coma
desde que foi violado. o mundo não despertará nunca. não há eutanásia que o alivie. o mundo respira apenas pelo artificial mecanismo do pensamento humano, pelo artificial mecanismo da fotossíntese, pelo artificial mecanismo das órbitas monótonas dos astros.

se me despeço não é com respeito nem reverência. a prata cobre apenas o revestimento de tristeza e renúncia. renuncio à aceitação ontológica da vida. não entendo o que quer dizer liberdade. não entendo o que significa suicídio.
não quero saber morrer.

deixei de me questionar acerca da verosimilhança da morte. a vida
não é fantasia que chegue, mas a morte é óbvia e estúpida. e estúpidos são os pensamentos que a integram na vida. e estúpidos os artifícios de a recusar no seio dos desejos. chamar nomes aos ímpetos não os afasta
da verdade. os ímpetos descendentes são tão óbvios como a desistência de os combater. amo o instante
anterior à nomeação dos impulsos infinitos. e isto não quer dizer rigorosamente nada

não dei nome a nenhum dos espelhos. cada recanto de mim que exige independência não contém o nome como condição reivindicada. habitam-me sem b.i., sem passaporte. a bem dizer, não sei se não gostam mesmo de ser clandestinos. os de Pessoa deviam ser mais civilizados. davam-lhe mais satisfações, com certeza.
os meus espelhos são silentes, até quando gritam
mais alto do que o vazio que os alimenta.
o vazio grita mais alto do que tudo o que aprendi a
reconhecer. o vazio é o próprio ensurdecer lúcido e esmagador

despeço-me do silvar do frio. despeço-me a cada gesto, de amor
e de lirismo, do silvar do frio. um até já sem convicção nenhuma. um arrufo
de enamoramento entre mim e o lume. um até já inconsequente
numa língua estranha à ceifeira nua e sensual.

se renuncio à vida e à morte, sou louco. eu não sou outro que não aquele que habita ambas as margens do limbo, simultaneamente.
o lado esquerdo do correr dos dias. o lado esquerdo do esquecimento. não renuncio mas não aceito uma ou outra. não aceito viver nem morrer vivendo. quero morrer só depois de morto. despeço-me
desta morte entre aspas
desta morte com nome
e definição
despeço-me das metáforas que a deturpam para lhe dar o sentido de que não precisa para ser bela, como bela é, apenas e só, a nossa

se isto fosse um poema. se isto fosse um poema

há o desgaste também, o roer, o moer de todos os mecanismos mentais de justificação ingénua, o cansaço das pernas, dos arco-íris todos entre as pernas, dos próprios orvalhos acumulados e não reflectidos em nenhum olhar.
há a penumbra densa da emoção, o escape inviolável do delírio e a desistência mascarada de interesse fingido

no silvar do frio habita a resposta ao acenar lamentoso da autocomiseração, mas o frio não se despede. acena também, simplesmente como um anzol trémulo de malícia perante a cegueira dos peixes.
acena-me com o infinito feito gelo, acena-me com o equilíbrio de todas as osmoses que desenham e mantém os glaciares deslizantes como fantasmas


(o peito era diálogo e escureceu)

dez.05.MMV

sexta-feira, janeiro 06, 2006

existiu o longe



© 2006


xvii

existiu o longe
tempo e espaço não eram nomes
mas crateras onde a existência sobrevivia ao degelo

jan.04.MMVI

segunda-feira, janeiro 02, 2006

a continuação do fim

afirmei no primeiro post e, um ano depois, reafirmo o mesmo credo:

a náusea antecipada de mais uma incompletude anunciada pelo esquecimento e pelo desvario de deus em mim, por mim, de mim...
o imenso infinito indefinível tormento da estreiteza dos horizontes que não são de ouro, de cinza quanto muito.
o primeiro relance de um olhar apagado pelo facto de a luz se consumir na extensão da madrugada não onírica, de vigília à beira de um sopro.

obrigado pela companhia espectral

r.e.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

VIII

a poesia sempre foi ébria. minto. a poesia era o puro álcool até se estatelar
no chão como vidro barato. era o vaso antigo
e julgava-se o néctar.
de que se imaginava então ébria a poesia... ébria
de sentido, talvez. o poeta, estalajadeiro insensato, deixou dormir incautamente as palavras, e o vinho adocicado do lirismo embalou-as a contragosto
numa dança vital mas deprimente. as palavras não se suportam já
umas às outras. enojam-se. vomitam-se.
o poema escurece
nas mãos de bagaço que o sentido exala. o poeta é mórbido na indiferença.
vende o sentido em promessas de delírio, êxtase, sonho. e a poesia
que lembra a sobriedade perdida do tempo puro
começa a chorar. e são rimas as lágrimas que recordam. e pé métrico é o ranho que assoa ao lenço branco do papel pautado. a poesia queria recuperar a inocência mas o seu sangue tem mais sentido do que alguma vez julgou possível absorver. o poeta sorri maliciosamente. como se a bebedeira
das palavras fizesse de si um ser mais sóbrio, mais lúcido, menos conspurcado pela sede de saber e criar. a poesia quebrou-se, contudo, porque era frágil e efémera. o sentido não estava dentro do verso. mas envolvia-o como um manto, como uma redoma, como um abraço fraterno. quebrou-se
ao cair no chão real. quebrou-se pela luz de soprano agudo do dia claro.
partiu-se pela própria consciência da sua fragilidade. o poeta não sabe chorar esta perda. o poeta disfarça a dor que o esmaga. sorri, como se sorri num funeral, exorcizando o pavor e o nojo da evidência. as palavras quedam-se, mudas, numa miríade de pérolas sujas pela lama da realidade, depois do inverno ontológico que as nevou.
nevam palavras sobre os estilhaços ainda. como uma corrente que não se extingue, com um fogo que não seca. o lirismo todo dentro dos verbos e dos nomes de tudo, evaporou-se no hálito de uma estrofe grotesca.

desfilam pelo delírio fora animais marinhos, monstros da infância com as caras mais conhecidas. há uma palavra que cheira a jeropiga, avó.
e os teus olhos são outras palavras que as lentes grossas fazem dizer
farol morcego lampião espanto medo lucidez menina carapaus maçã trapos tristeza ternura quase amor
quase tanto que ainda foge
por detrás das lentes grossas que fazem os olhos dizer
tanta coisa. e de certeza que a tua conversa com a morte foi cheia de palavras ébrias de sentido. ninguém está sóbrio quando fala
com a morte. só quando se fala da morte.

que poeta vendeu às palavras o sentido da tua morte
os teus olhos eloquentes por detrás da aparente cegueira quedaram-se
como ventos dentro de ti, como ar dentro das flores, como sílabas no chão de nada. pensei que falava de palavras e falava de ti, ‘vó. como são as coisas...
se calhar também falavas de ti quando pensávamos que confundias
as personagens das novelas da manhã com as da noite. ou quando parecias falar com alguém de outro tempo. ou quando não dizias nada.
o teu silêncio era o teu nome, não era o adormecimento dos afectos. eras tu
a desfiar a tua solidão em lençóis de faltas de perdas de esquecimentos.
não sei porque é que as palavras ébrias se transformaram sem que eu quisesse na tua tristeza, no teu sonho enjeitado. não sei. talvez não estivesse a falar de ti, afinal, mas do que aprendi com a tua morte. do que aprendi quando morreu a tua casa. a minha casa que morreu contigo. quebraste-te
em migalhas pintadas de ruindade e deixaste a marca indelével da ternura
no coração das minhas palavras. e não provaste nunca
o sabor inebriante da poesia.
ou talvez a prova de que o tenhas feito sejam as palavras que fizeste nascer aqui no meio do sentido das que chamo minhas.

dez.10.MMV

quinta-feira, dezembro 22, 2005

II

por quanto tempo mais dormirás

quando o vento embater no escuro será
de dia como é dia a noite para o
reverso das pétalas das flores que fogem
do olhar da coruja artista pintora da
perspectiva aérea dos vultos dos telhados e
dos sonhos deitados fora pela ignorância

é banal a inquietude gratuita que
exibe vergonhosamente um preço falso
para fugir aos impostos que o tempo
cobra até aos menos aventureiros
e vulgar é o refúgio na confissão
da derrota, da desistência, da modesta
entrega nas mãos da dor inocente

quando tu morreres não será dia
nem poderei mentir mais sem
beber o tempo com a sabor a mofo
nem alterar o meu desejo de
morrer antes de ti para ti por ti

não será possível escapar à medíocre
vulgaridade da dor à paralisia
estereotipada da ausência da náusea
do nojo de tudo o que respirar
ainda em mim, de todo o pulsar
de todo o rugir marulhante do
sangue insensível e louco

quanto durará a minha vigília

os prédios parecem ter tanta gente
lá dentro, e nos passeios à volta,
a trabalhar, a foder, a criar, a fingir
uma vida dentro e fora dos prédios
que num segundo se podem tornar
tijolo só, pó compactado, destroços
num naufrágio fantasma, sem mais
mortes a anunciar que não a nossa

o teu sono é o meu respirar
noite em ti que aqui emerge luz

ao acordares o vento terá na voz
um nome novo para nós, e as
flores não irão cheirar a nada mais
para além do nome que já tinham

será ensurdecedor adormecer assim
com os gritos dos nomes de tudo o
que ainda existir sem ti

amo-te não rimará com mais
nada
e o poema adormece

nov.23.MMV

domingo, dezembro 18, 2005

sem título

sem título, 2005
carvão comprimido
s/ papel Clairefontaine, 180 g (27,2x40cm)
tu não vieste
e a sede de ti
fez-se leito de
alguma parte
do meu desejo

quarta-feira, dezembro 14, 2005

III

não tenho na boca o sabor dos abrunhos
mas tenho o nome dela gravado sob a
imagem das suas pernas nuas, de infanta,
maria-rapaz, menina viril e forte,
pernas arranhadas pela pele áspera do
abrunheiro velho, pernas que as minhas
mãos desenham no branco do desejo sem
nome ainda, mas com sabor já,
diferente do sabor dos abrunhos maduros
de que perdi o rasto dentro da minha boca

o sexo não é este sexo, nem pulsa
ao ritmo da evidência, nem geme ao
som do silêncio de uma boca que
absorve o travo acre do fruto virgem,
nem se atravessa à frente do próprio
desejo, nem consome a angústia em
amplexos mais amplos que o gesto
que o faz nascer, que o faz morrer
como quem nasce, ou ao contrário -
distinção que o sexo não conhece

desaparece da boca a sede quando
a volúpia inocente chega para brincar,
e não são dedos os dedos – os olhos
com que as mãos cantam alto os
contornos do outro corpo antes de
ouvirem falar a língua do sexo mudo
- como não são seios as colinas trémulas
moldadas em artes de oleiro sem
mestre, pelas palmas das mãos que
asfixiam numa ansiedade adocicada

a infância eram palavras que enchiam
o desejo todo, e fotografias interditas
que o espalhavam ao longo das
horas oníricas entre instantes de
líbido acesa pela incógnita do possível;
eram palavras mais do que os corpos
ou as partes dos corpos que descreviam;
eram a própria essência da pulsão vil
e torpe enclausurada em sílabas soltas
e solta na palavra gemida, gritada

tenho na boca os sabores todos
nos nomes e nas formas decifradas
no escuro ou na luz viva e inocente
da memória frágil que se apaga a cada
aroma a cada cor, devolvidos p’lo tempo
ao fundo branco do espírito que
absorveu o sentido dos impulsos em
golfadas de vida suspensa entre
ritos e sonhos, entre margens cheias
do mesmo sangue, outro ar, sempre


dez.03.MMV

sexta-feira, dezembro 09, 2005

I


há um lugar onde as flores não têm nome
flores não é o seu nome
flores não é o que o vento sopra
os beijos do vento cantam na nossa língua
a nossa surdez faz-nos duvidar do amor do vento
traduzimos a ignorância em nomes para as flores


nov.22.MMV

segunda-feira, dezembro 05, 2005

VI

ou a influência íntima do azul

não há palavras gigantes nem sonhos de nylon
vir é sinónimo de ter sido como um gato o é da melancolia
e todos os felinos sabem cair
senão for a eternidade, outro sabor exibirá o troféu
sobre o gosto e a diagonal dos membros desarticulados
em circunvoluções cerebrais pintadas a acrílico sobre
um fundo negro e denso de ópio em flor

os ramos nus das cigarras despertas pelo
pincel de dali soam a mel, e o sentido das sentenças
é desenhado a sanguina real, como os brasões ilustram
no fogo de cobre hipócrita e snob, qualidades polvilhadas como
farinha amparo sobre aristocratas de flanela e morais de plasticina

dez.05.MMV

domingo, novembro 27, 2005

iniludível vileza

persistiu) em tempos a

máscara de virtude disfarce de nobreza subtil representação de dignidade caricatura de inteligência amplitude grandiosa de gestos desinteressados ternura contida desejo guardado miséria enriquecida de humildade misericórdia ignorada azedume feito silêncio ouro inventado em tons falsos calor sob a voz que embala o abraço que manipula a arte engendrada no vapor da auto-comiseração o infinito prensado num pensamento a genialidade esquecida na escuridão doente vaidade adiada derretido na indiferença o orgulho fantasia de futuro a enfeitar os instantes borracha purificadora do tempo metamorfoses do ego em lágrimas vãs tristes melodias em delírio de ritmos obcecados mística humana desenhada a inveja e crueldade apetite pela derrocada do sentido sede de noite e eternidade ímpeto de quase tudo no tempo de praticamente nada excitação fulgurante e fugaz tenacidade forjada no limbo do bem-querer dedicado poemas iluminados pela lucidez inocente da ignorância e a

ilusão persistiu) em tempos

Nov.18.MMV

(in geometria da inexistência, 2005)

quarta-feira, novembro 23, 2005

sem título


sem título, 2005
Tizas Faber-Castell, branca e sanguina
s/ papel Mi-Teintes, 160grs
o fogo submerso
não ilumina
caminha sozinho
por entre os espaços
frios que a vida
tece entre desejos
e medos

sexta-feira, novembro 18, 2005

sem título

“Onde?” é resposta,
desejo de obnubilar
e olvido desejado.

replico: “Onde?” à
ontológica busca.

Onde sou, fui
ou (des)conheci?
Onde, para quê
ou por que ouro
falso me ocultei?
Onde me espero
d’olhos fechados,
senão nos ontens
odiados, amados,
infinitos e ocos?

21.11.03

(in a língua secreta do egoísmo, 2003)

terça-feira, novembro 15, 2005

Ribatejo seen from the car


Ribatejo seen from the car, 2005
Pastel de Óleo (Faber-Castell)
s/ papel Canson 21 x 29,7 cm, 90 g/m2
inspirado em
"Alentejo seen from the train"
de Fernando Pessoa

Nothing with nothing aroung it
And a few trees in between
one of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil is it?

quinta-feira, novembro 10, 2005

15

dilúvio que invade a própria sede
brado que ao surdo ensurdece
numa pequena esfera de sentido

caminho que apaga a passada
sinfonia sonata concerto silente
que ecoa numa redoma de seda

vento que desfigura o mar calmo
e o sol, ah!, anjo inocente caído
por detrás do tempo cansado

virtude ensinada em vil ardósia
podridão e vício servidos em mel
catacumbas de vitrais vendados

lucidez humilhada pela realidade
infinito aprender da descrença

amor, o incognoscível feiticeiro.


Set.28.MMV

(in encontro entre as pedras suaves, 2005)

segunda-feira, novembro 07, 2005

sem título

o crepúsculo desvenda-se sobre a
ânsia de regresso – metamorfose
do inverno entoado entre as folhas
sobreviventes

14.04.03

(in a incerta permanência da dúvida, 2003)

segunda-feira, outubro 31, 2005

vã acuidade



vejo inutilmente o sentido
do possível deslizamento
ao alcance de nenhuma
força minha
das sedimentárias
agressões arenosas
da estupidez insensível

(sorrio como um rato
aos miseráveis que
pagaram mais uma
volta da roda colorida)

22.09.03

(in 2 /3 e outros poemas, 2003)