xvii
existiu o longe
tempo e espaço não eram nomes
mas crateras onde a existência sobrevivia ao degelo
jan.04.MMVI
há um lugar onde as flores não têm nome
flores não é o seu nome
flores não é o que o vento sopra
os beijos do vento cantam na nossa língua
a nossa surdez faz-nos duvidar do amor do vento
traduzimos a ignorância em nomes para as flores
nov.22.MMV
vejo inutilmente o sentido
do possível deslizamento
ao alcance de nenhuma
força minha
das sedimentárias
agressões arenosas
da estupidez insensível
(sorrio como um rato
aos miseráveis que
pagaram mais uma
volta da roda colorida)
22.09.03
(in 2 /3 e outros poemas, 2003)
aguarela (Winson & Newton, Cotman series)
s/ papel Fabriano, 18 x 24 cm, 200 g/m2
o murmúrio do meu roçagar por ti adentro, imita o arco-íris de uma ave-do-paraíso,
e desfaz-se em silêncio tumultuoso, como dança nupcial ou espasmo pírrico.
24.01.04
(in horizontes de ouro, 2004)
07.05.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
(coruja desenhada a carvão, há muito tempo, por r.e.)
Sussurra-nos o futuro. Geme se não o acreditamos. Treme de angústia e raiva
por quem já o esqueceu. E tem razão. Preocupa-nos a miséria que nos grita
lá atrás. Envergonha-nos o pesadelo estúpido do que aconteceu sem nós. Até
a nossa leviandade em respeitar o presente parece fruto dessa vingança. Cada
dia que nos condena p’la nossa ausência reflecte a fúria de uma inexistente
relação entre aquele rio de tempo e o leito que nos molda a presença.
Uivam lá adiante, por detrás das colinas que distorcem a luz dos anos, cachos
de segundos apressados, infinitas memórias vazias de instantes guardados em
baús de mortos e loucos imortais. O imenso traço negro das noites sucessivas
deixa-se esculpir na nossa materialidade em contornos frágeis. E desse esboço
fazemos a nossa fronteira. Decidimos sobre que solo imaginário depositamos
os despojos de cada ciclo milenar.
17.01.03
(in a densidade das almas, 2003)
Não escureceu por completo ainda. Vagueia-se sem hesitação, mesmo por ruas desconhecidas. A Rute não atendeu o telefone. O Luís não sabe que ela morreu. Os táxis parecem dormir sem motorista ao longo da avenida escura, também pela sombra que as árvores fazem, ocultando o último sol.
(
- Porque vais?
- Por não ter forma de me convencer a desistir e deixar de dizer o que penso.
- Porque não aceitas que tudo fica incompleto, mesmo assim?
- Porque não acredito em Deus. Não é dele o conceito de work in progress?
)
Foi. Veio. Chegou há minutos e já se dispersou pelas ideias de regresso. Não desfez as malas. Não hesitou em sair do quarto do hotel poucos minutos antes de ter largado as coisas ao acaso no chão. Só amanhã lhe telefonará, cedo, talvez dê para almoçarem juntos.
(
- Ela não atendeu.
- Não o adivinhavas já?
- Mas ela não.
- Talvez os sonhos tenham cumprido as suas funções.
- É tarde para acreditar nisso.
- Vem embora. Ou vais ligar de novo e arriscar que ela atenda?
- Não. Não posso arriscar. Se ela atendesse, tudo teria sido em vão, não?
- E não foi, mesmo assim?
- É impressão minha ou queres acabar com as minhas últimas ilusões?
- Não. Percebeste mal. Até amanhã.
)
A luz da aurora recente augura um dia amplo, limpo de pensamentos - a chuva é uma torrente infernal, o céu azul um mutismo interior. O Luís liga-lhe. Primeiro sinal. Segundo. Terceiro. Quarto. Quinto. Sex... Piiiii. A voz estúpida, estereotipada, do atendedor de chamadas. Ela não atendeu. É impossível não saber que é ele. Que está ali a menos de 500 metros dela. É impossível não saber que se tivesse atendido teria sido a última vez que falavam. São escolhas. Decisões. O Luís dá alguns passos na direcção onde a adivinha. Hesita. Senta-se no chão. Olha os pés que passam apressados. Limpa os olhos, levanta-se e dirige-se ao hotel. Afasta as malas que lhe parecem completamente ridículas. Deita-se. Telefona-me – “ela não atendeu”...
Depois de acordar, o Luís foi a um bar. Pensa-se melhor entre duas bebidas. Sai e chama um táxi. Não parou. É tarde. Devem haver zonas perigosas. Decide ir a pé. Entra noutro bar. Não quer passar mais uma noite a martirizar-se por não lhe ligado uma segunda vez. Refaz o percurso e vê o esboço de sol que espreita.
Jun.13.MMV
nem o fluxo germinal imaginado
inibe o reflexo, muscular tumulto,
que ao desejado amplexo cede lugar
Mar.31.MMV
insubmissão e revolta
é inútil o vazio como inútil é a fome
(surpresa envolta em clarões)
como pode a verdade estar mascarada de perfeição ou a perfeição em trajes de nulidade vã?
desfaz-se o sonho em cada manhã?
talvez não... talvez descanse apenas
e o som do sol a cair do outro lado
seja somente o eco desses sonhos...
(a dúvida que se impõe
é da cor das pupilas vítreas
de um mamífero desconhecido)
cai o véu do corpo da rarefação da alma
é desnudada assim na sua virginal beleza
esquálida, enfim, uma carcaça do deserto
que o tempo seco e pesado descarnou já
(grito por ver agora o ultraje
perpetrado pela verdade falsa)
ergo-me?
levanto os olhos?
caminho de rosto sombrio?
expulso a raiva num murro teológico?
Sim.
22.02.04
IV
Levanto-me e a manhã sabe-me a cinza, a pó. Talvez seja da madeira do chão, do tecto, ou apenas de mim. Tenho frio. Ouço passos; estou sozinho. Ouço passos novamente. Sobre a cadeira a roupa remexe-se desalinhada, como que acordada de um sonho em que vestia um príncipe. Os passos eram dele, e agora que saiu, ajudo a roupa a encontrar-se consigo mesma, vestindo-a no meu corpo.
Olho para a janela fechada e penso vagamente na hipótese de nada existir para além dela... nem sequer o vazio. Aproximo-me da porta e esta limitação espacial irrita-me. Preferia Ser sem Espaço, ou pelo menos sem Forma, o que já seria suficientemente delimitador. Com um sorriso, ironicamente, a porta convida-me a sair ...
Aceito.
No corredor a ausência de plantas surpreende-me.
Regresso e penso ...
Sonho com o dia em que a visão mística do som se confunda em tal medida com a realidade do que ouço,
que a morte me soe apenas como um pizzicato de contrabaixos,
em sinfonia rarefeita quasi weberniana
I
Não fosse o barulho da cidade em movimento, neste fim de tarde, suficientemente agressivo, o silêncio dos pássaros tornar-se-ia desesperadamente ensurdecedor. Olho-os, percorro o seu trajecto agitado, e não os ouço. E eles voam em torno das árvores, tantos ... e eu não os ouço ... seria hora de acordar aflito, se ...
... mas não sonho.
Esta angústia remonta a uma antiga intuição,
... com a obra morre a ideia ... ... com a morte vê-se o silêncio ...
“... são almas que choram, ...”
As pessoas que me evitam, apressadamente, afastam-me o pensamento dos pássaros e olho em redor. Encaminho-me para aquela igreja - na falta de uma gruta, uma catedral...
À porta, cumprimento o mendigo (há sempre um mendigo à porta das igrejas). Apetece-me sentar a seu lado e pedir-lhe um pouco de pão, pretexto que a seus olhos seria válido para legitimar, pela fome do corpo, a nossa irmandade na solidão do espírito.
Sento-me e não lhe peço nada ... mas anuncio-lhe com tristeza: "os pássaros morreram".
Ele já sabia, levanta-se e afasta-se apenas para não ter de enfrentar a minha inocência.
Não entro. Deixo-me ficar sentado, indiferente ao que as pessoas vão pensando enquanto por ali passam. Os nossos olhos cruzam-se por vezes, e apesar de a minha aparência não provocar o habitual desviar do olhar e da misericórdia, o insólito da minha postura inexpressiva traz à superfície aquele tipo de sentimentos que, como a compaixão, nunca vêm sós. E é numa mistura emocional que alguns aceleram o passo, enquanto outros, por associações tão pessoais que não se enumeram, não hesitam em contornar-me e, sem deixar de com o olhar mo agradecer, entram na igreja.

uma sombra
de rugosidade –
plausível? verosímil
?
o traçado minucioso
misterioso (delicado)
de uma lisura
perdida, de um
grão, de
um atrito.
é isso.
a sombra
lembrada
do próprio atrito
é isso –
a feliz
saudade.
Mar.10.MMV
(in livro xiii)