quinta-feira, dezembro 22, 2005
II
quando o vento embater no escuro será
de dia como é dia a noite para o
reverso das pétalas das flores que fogem
do olhar da coruja artista pintora da
perspectiva aérea dos vultos dos telhados e
dos sonhos deitados fora pela ignorância
é banal a inquietude gratuita que
exibe vergonhosamente um preço falso
para fugir aos impostos que o tempo
cobra até aos menos aventureiros
e vulgar é o refúgio na confissão
da derrota, da desistência, da modesta
entrega nas mãos da dor inocente
quando tu morreres não será dia
nem poderei mentir mais sem
beber o tempo com a sabor a mofo
nem alterar o meu desejo de
morrer antes de ti para ti por ti
não será possível escapar à medíocre
vulgaridade da dor à paralisia
estereotipada da ausência da náusea
do nojo de tudo o que respirar
ainda em mim, de todo o pulsar
de todo o rugir marulhante do
sangue insensível e louco
quanto durará a minha vigília
os prédios parecem ter tanta gente
lá dentro, e nos passeios à volta,
a trabalhar, a foder, a criar, a fingir
uma vida dentro e fora dos prédios
que num segundo se podem tornar
tijolo só, pó compactado, destroços
num naufrágio fantasma, sem mais
mortes a anunciar que não a nossa
o teu sono é o meu respirar
noite em ti que aqui emerge luz
ao acordares o vento terá na voz
um nome novo para nós, e as
flores não irão cheirar a nada mais
para além do nome que já tinham
será ensurdecedor adormecer assim
com os gritos dos nomes de tudo o
que ainda existir sem ti
amo-te não rimará com mais
nada
e o poema adormece
nov.23.MMV
domingo, dezembro 18, 2005
sem título
quarta-feira, dezembro 14, 2005
III
mas tenho o nome dela gravado sob a
imagem das suas pernas nuas, de infanta,
maria-rapaz, menina viril e forte,
pernas arranhadas pela pele áspera do
abrunheiro velho, pernas que as minhas
mãos desenham no branco do desejo sem
nome ainda, mas com sabor já,
diferente do sabor dos abrunhos maduros
de que perdi o rasto dentro da minha boca
o sexo não é este sexo, nem pulsa
ao ritmo da evidência, nem geme ao
som do silêncio de uma boca que
absorve o travo acre do fruto virgem,
nem se atravessa à frente do próprio
desejo, nem consome a angústia em
amplexos mais amplos que o gesto
que o faz nascer, que o faz morrer
como quem nasce, ou ao contrário -
distinção que o sexo não conhece
desaparece da boca a sede quando
a volúpia inocente chega para brincar,
e não são dedos os dedos – os olhos
com que as mãos cantam alto os
contornos do outro corpo antes de
ouvirem falar a língua do sexo mudo
- como não são seios as colinas trémulas
moldadas em artes de oleiro sem
mestre, pelas palmas das mãos que
asfixiam numa ansiedade adocicada
a infância eram palavras que enchiam
o desejo todo, e fotografias interditas
que o espalhavam ao longo das
horas oníricas entre instantes de
líbido acesa pela incógnita do possível;
eram palavras mais do que os corpos
ou as partes dos corpos que descreviam;
eram a própria essência da pulsão vil
e torpe enclausurada em sílabas soltas
e solta na palavra gemida, gritada
tenho na boca os sabores todos
nos nomes e nas formas decifradas
no escuro ou na luz viva e inocente
da memória frágil que se apaga a cada
aroma a cada cor, devolvidos p’lo tempo
ao fundo branco do espírito que
absorveu o sentido dos impulsos em
golfadas de vida suspensa entre
ritos e sonhos, entre margens cheias
do mesmo sangue, outro ar, sempre
sexta-feira, dezembro 09, 2005
I
há um lugar onde as flores não têm nome
flores não é o seu nome
flores não é o que o vento sopra
os beijos do vento cantam na nossa língua
a nossa surdez faz-nos duvidar do amor do vento
traduzimos a ignorância em nomes para as flores
nov.22.MMV
segunda-feira, dezembro 05, 2005
VI
não há palavras gigantes nem sonhos de nylon
vir é sinónimo de ter sido como um gato o é da melancolia
e todos os felinos sabem cair
senão for a eternidade, outro sabor exibirá o troféu
sobre o gosto e a diagonal dos membros desarticulados
em circunvoluções cerebrais pintadas a acrílico sobre
um fundo negro e denso de ópio em flor
os ramos nus das cigarras despertas pelo
pincel de dali soam a mel, e o sentido das sentenças
é desenhado a sanguina real, como os brasões ilustram
no fogo de cobre hipócrita e snob, qualidades polvilhadas como
farinha amparo sobre aristocratas de flanela e morais de plasticina
dez.05.MMV
domingo, novembro 27, 2005
iniludível vileza
máscara de virtude disfarce de nobreza subtil representação de dignidade caricatura de inteligência amplitude grandiosa de gestos desinteressados ternura contida desejo guardado miséria enriquecida de humildade misericórdia ignorada azedume feito silêncio ouro inventado em tons falsos calor sob a voz que embala o abraço que manipula a arte engendrada no vapor da auto-comiseração o infinito prensado num pensamento a genialidade esquecida na escuridão doente vaidade adiada derretido na indiferença o orgulho fantasia de futuro a enfeitar os instantes borracha purificadora do tempo metamorfoses do ego em lágrimas vãs tristes melodias em delírio de ritmos obcecados mística humana desenhada a inveja e crueldade apetite pela derrocada do sentido sede de noite e eternidade ímpeto de quase tudo no tempo de praticamente nada excitação fulgurante e fugaz tenacidade forjada no limbo do bem-querer dedicado poemas iluminados pela lucidez inocente da ignorância e a
ilusão persistiu) em tempos
Nov.18.MMV
(in geometria da inexistência, 2005)
quarta-feira, novembro 23, 2005
sem título
sem título, 2005
sexta-feira, novembro 18, 2005
sem título
desejo de obnubilar
e olvido desejado.
replico: “Onde?” à
ontológica busca.
Onde sou, fui
ou (des)conheci?
Onde, para quê
ou por que ouro
falso me ocultei?
Onde me espero
d’olhos fechados,
senão nos ontens
odiados, amados,
infinitos e ocos?
21.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
terça-feira, novembro 15, 2005
Ribatejo seen from the car
Ribatejo seen from the car, 2005
Nothing with nothing aroung it
And a few trees in between
one of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil is it?
quinta-feira, novembro 10, 2005
15
brado que ao surdo ensurdece
numa pequena esfera de sentido
caminho que apaga a passada
sinfonia sonata concerto silente
que ecoa numa redoma de seda
vento que desfigura o mar calmo
e o sol, ah!, anjo inocente caído
por detrás do tempo cansado
virtude ensinada em vil ardósia
podridão e vício servidos em mel
catacumbas de vitrais vendados
lucidez humilhada pela realidade
infinito aprender da descrença
amor, o incognoscível feiticeiro.
Set.28.MMV
(in encontro entre as pedras suaves, 2005)
segunda-feira, novembro 07, 2005
sem título
ânsia de regresso – metamorfose
do inverno entoado entre as folhas
sobreviventes
14.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
segunda-feira, outubro 31, 2005
vã acuidade
vejo inutilmente o sentido
do possível deslizamento
ao alcance de nenhuma
força minha
das sedimentárias
agressões arenosas
da estupidez insensível
(sorrio como um rato
aos miseráveis que
pagaram mais uma
volta da roda colorida)
22.09.03
(in 2 /3 e outros poemas, 2003)
terça-feira, outubro 25, 2005
o azul era vento
aguarela (Winson & Newton, Cotman series)
s/ papel Fabriano, 18 x 24 cm, 200 g/m2
quinta-feira, outubro 20, 2005
26
para ti, Céu
como tudo o que sou
é teu
de mais a menos infinito,
qual "animal aflito"
encontrei-te
suspensa
na flor em que
te perdi.
vem
de olhos fechados
pelo vento
nas minhas asas
trémulas
de colibri.
não deixes
que o tempo
se esfume,
agora,
numa nuvem
escura arrastada
pela inércia
pura.
desce dessa
para outra flor
e renasce
nos olhos
ardentes do
colibri que te
segura.
10.06.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
segunda-feira, outubro 17, 2005
sem título
o murmúrio do meu roçagar por ti adentro, imita o arco-íris de uma ave-do-paraíso,
e desfaz-se em silêncio tumultuoso, como dança nupcial ou espasmo pírrico.
24.01.04
(in horizontes de ouro, 2004)
quarta-feira, outubro 12, 2005
cena em tempo lento
demorei um milímetro a sentir
o perfume de uma queda
(angústia sem porosidade a registar)
vi-te da cor do fundo de mim
e não chorei
caí, depois.
domingo, outubro 09, 2005
XXII
coberto pelo manto do silêncio
envergonhado
(- a mortalidade é o pior dos defeitos)
o coveiro acende o cigarro
e espanta olhares curiosos
com um cabecear amalucado
por dentro pensa no infinito,
pinta-o de cores brilhantes
falsificadas
(- nunca o preto foi verdadeiro)
e enterra corpos como farpas
na alma da terra humedecida
pelo suor de escaravelhos e larvas
08.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
sexta-feira, outubro 07, 2005
13
mais que a luz que não há
por detrás daquela folha que não vejo
disse árvore e o vento saudou o ar
embatendo na luz que me devolveu
o verde entranhado nos veios
digo árvore e é o sol que desenho
quebrado pela sombra de um galho
partido que deixei suspenso no sonho
Jul.30.MMV
quarta-feira, outubro 05, 2005
XX
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego
enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação
uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão
01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
domingo, outubro 02, 2005
14
novos diálogos adâmicos
a (tua) morte
à imagem
da (minha) vida
a minha vontade
assim em mim
como no fundo de ti
a (minha) vida
à imagem
da (tua) morte
a tua vontade
assim em mim
como no fundo de ti



