domingo, dezembro 18, 2005

sem título

sem título, 2005
carvão comprimido
s/ papel Clairefontaine, 180 g (27,2x40cm)
tu não vieste
e a sede de ti
fez-se leito de
alguma parte
do meu desejo

quarta-feira, dezembro 14, 2005

III

não tenho na boca o sabor dos abrunhos
mas tenho o nome dela gravado sob a
imagem das suas pernas nuas, de infanta,
maria-rapaz, menina viril e forte,
pernas arranhadas pela pele áspera do
abrunheiro velho, pernas que as minhas
mãos desenham no branco do desejo sem
nome ainda, mas com sabor já,
diferente do sabor dos abrunhos maduros
de que perdi o rasto dentro da minha boca

o sexo não é este sexo, nem pulsa
ao ritmo da evidência, nem geme ao
som do silêncio de uma boca que
absorve o travo acre do fruto virgem,
nem se atravessa à frente do próprio
desejo, nem consome a angústia em
amplexos mais amplos que o gesto
que o faz nascer, que o faz morrer
como quem nasce, ou ao contrário -
distinção que o sexo não conhece

desaparece da boca a sede quando
a volúpia inocente chega para brincar,
e não são dedos os dedos – os olhos
com que as mãos cantam alto os
contornos do outro corpo antes de
ouvirem falar a língua do sexo mudo
- como não são seios as colinas trémulas
moldadas em artes de oleiro sem
mestre, pelas palmas das mãos que
asfixiam numa ansiedade adocicada

a infância eram palavras que enchiam
o desejo todo, e fotografias interditas
que o espalhavam ao longo das
horas oníricas entre instantes de
líbido acesa pela incógnita do possível;
eram palavras mais do que os corpos
ou as partes dos corpos que descreviam;
eram a própria essência da pulsão vil
e torpe enclausurada em sílabas soltas
e solta na palavra gemida, gritada

tenho na boca os sabores todos
nos nomes e nas formas decifradas
no escuro ou na luz viva e inocente
da memória frágil que se apaga a cada
aroma a cada cor, devolvidos p’lo tempo
ao fundo branco do espírito que
absorveu o sentido dos impulsos em
golfadas de vida suspensa entre
ritos e sonhos, entre margens cheias
do mesmo sangue, outro ar, sempre


dez.03.MMV

sexta-feira, dezembro 09, 2005

I


há um lugar onde as flores não têm nome
flores não é o seu nome
flores não é o que o vento sopra
os beijos do vento cantam na nossa língua
a nossa surdez faz-nos duvidar do amor do vento
traduzimos a ignorância em nomes para as flores


nov.22.MMV

segunda-feira, dezembro 05, 2005

VI

ou a influência íntima do azul

não há palavras gigantes nem sonhos de nylon
vir é sinónimo de ter sido como um gato o é da melancolia
e todos os felinos sabem cair
senão for a eternidade, outro sabor exibirá o troféu
sobre o gosto e a diagonal dos membros desarticulados
em circunvoluções cerebrais pintadas a acrílico sobre
um fundo negro e denso de ópio em flor

os ramos nus das cigarras despertas pelo
pincel de dali soam a mel, e o sentido das sentenças
é desenhado a sanguina real, como os brasões ilustram
no fogo de cobre hipócrita e snob, qualidades polvilhadas como
farinha amparo sobre aristocratas de flanela e morais de plasticina

dez.05.MMV

domingo, novembro 27, 2005

iniludível vileza

persistiu) em tempos a

máscara de virtude disfarce de nobreza subtil representação de dignidade caricatura de inteligência amplitude grandiosa de gestos desinteressados ternura contida desejo guardado miséria enriquecida de humildade misericórdia ignorada azedume feito silêncio ouro inventado em tons falsos calor sob a voz que embala o abraço que manipula a arte engendrada no vapor da auto-comiseração o infinito prensado num pensamento a genialidade esquecida na escuridão doente vaidade adiada derretido na indiferença o orgulho fantasia de futuro a enfeitar os instantes borracha purificadora do tempo metamorfoses do ego em lágrimas vãs tristes melodias em delírio de ritmos obcecados mística humana desenhada a inveja e crueldade apetite pela derrocada do sentido sede de noite e eternidade ímpeto de quase tudo no tempo de praticamente nada excitação fulgurante e fugaz tenacidade forjada no limbo do bem-querer dedicado poemas iluminados pela lucidez inocente da ignorância e a

ilusão persistiu) em tempos

Nov.18.MMV

(in geometria da inexistência, 2005)

quarta-feira, novembro 23, 2005

sem título


sem título, 2005
Tizas Faber-Castell, branca e sanguina
s/ papel Mi-Teintes, 160grs
o fogo submerso
não ilumina
caminha sozinho
por entre os espaços
frios que a vida
tece entre desejos
e medos

sexta-feira, novembro 18, 2005

sem título

“Onde?” é resposta,
desejo de obnubilar
e olvido desejado.

replico: “Onde?” à
ontológica busca.

Onde sou, fui
ou (des)conheci?
Onde, para quê
ou por que ouro
falso me ocultei?
Onde me espero
d’olhos fechados,
senão nos ontens
odiados, amados,
infinitos e ocos?

21.11.03

(in a língua secreta do egoísmo, 2003)

terça-feira, novembro 15, 2005

Ribatejo seen from the car


Ribatejo seen from the car, 2005
Pastel de Óleo (Faber-Castell)
s/ papel Canson 21 x 29,7 cm, 90 g/m2
inspirado em
"Alentejo seen from the train"
de Fernando Pessoa

Nothing with nothing aroung it
And a few trees in between
one of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil is it?

quinta-feira, novembro 10, 2005

15

dilúvio que invade a própria sede
brado que ao surdo ensurdece
numa pequena esfera de sentido

caminho que apaga a passada
sinfonia sonata concerto silente
que ecoa numa redoma de seda

vento que desfigura o mar calmo
e o sol, ah!, anjo inocente caído
por detrás do tempo cansado

virtude ensinada em vil ardósia
podridão e vício servidos em mel
catacumbas de vitrais vendados

lucidez humilhada pela realidade
infinito aprender da descrença

amor, o incognoscível feiticeiro.


Set.28.MMV

(in encontro entre as pedras suaves, 2005)

segunda-feira, novembro 07, 2005

sem título

o crepúsculo desvenda-se sobre a
ânsia de regresso – metamorfose
do inverno entoado entre as folhas
sobreviventes

14.04.03

(in a incerta permanência da dúvida, 2003)

segunda-feira, outubro 31, 2005

vã acuidade



vejo inutilmente o sentido
do possível deslizamento
ao alcance de nenhuma
força minha
das sedimentárias
agressões arenosas
da estupidez insensível

(sorrio como um rato
aos miseráveis que
pagaram mais uma
volta da roda colorida)

22.09.03

(in 2 /3 e outros poemas, 2003)

terça-feira, outubro 25, 2005

o azul era vento

o azul era vento, 2005

aguarela (Winson & Newton, Cotman series)

s/ papel Fabriano, 18 x 24 cm, 200 g/m2


quinta-feira, outubro 20, 2005

26


para ti, Céu
como tudo o que sou
é teu
de mais a menos infinito,
qual "animal aflito"


encontrei-te
suspensa
na flor em que
te perdi.

vem
de olhos fechados
pelo vento
nas minhas asas
trémulas
de colibri.

não deixes
que o tempo
se esfume,
agora,
numa nuvem
escura arrastada
pela inércia
pura.

desce dessa
para outra flor
e renasce
nos olhos
ardentes do
colibri que te
segura.

10.06.03
(in
um barco de papel para Afrodite, 2003)

segunda-feira, outubro 17, 2005

sem título


o murmúrio do meu roçagar por ti adentro, imita o arco-íris de uma ave-do-paraíso,
e desfaz-se em silêncio tumultuoso, como dança nupcial ou espasmo pírrico.

24.01.04

(in horizontes de ouro, 2004)

quarta-feira, outubro 12, 2005

cena em tempo lento


demorei um milímetro a sentir
o perfume de uma queda
(angústia sem porosidade a registar)

vi-te da cor do fundo de mim
e não chorei

caí, depois.


20.01.04
(in horizontes de ouro, 2004)

domingo, outubro 09, 2005

XXII

envolto em cores de cipreste,
coberto pelo manto do silêncio
envergonhado
(- a mortalidade é o pior dos defeitos)
o coveiro acende o cigarro
e espanta olhares curiosos
com um cabecear amalucado

por dentro pensa no infinito,
pinta-o de cores brilhantes
falsificadas
(- nunca o preto foi verdadeiro)
e enterra corpos como farpas
na alma da terra humedecida
pelo suor de escaravelhos e larvas

08.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)

sexta-feira, outubro 07, 2005

13

queria dizer árvore e não capto
mais que a luz que não há
por detrás daquela folha que não vejo

disse árvore e o vento saudou o ar
embatendo na luz que me devolveu
o verde entranhado nos veios

digo árvore e é o sol que desenho
quebrado pela sombra de um galho
partido que deixei suspenso no sonho

Jul.30.MMV

quarta-feira, outubro 05, 2005

XX

num afago ansioso de
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego
enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação
uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão

01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)

domingo, outubro 02, 2005

14


novos diálogos adâmicos


e deus disse:

faça-se
a (tua) morte
à imagem
da (minha) vida


e o homem disse:

seja feita
a minha vontade
assim em mim
como no fundo de ti


e deus viu que isso era bom


e o homem disse:

faça-se
a (minha) vida
à imagem
da (tua) morte


e deus disse:

seja feita
a tua vontade
assim em mim
como no fundo de ti


e o homem viu que isso era bom


15.02.04
(in imanências, 2004)

quarta-feira, setembro 28, 2005

11

é um espaço apenas
simples ao olhar confiante
entre as coisas
algumas metades de coisas
espaço que é também algo
entre espaços medidos pelo olhar
confiança de que o nada tenha partido para o sonho
e de entre as coisas apenas a distância possa
gritar
sim, a distância entre espaços
é uma outra
coisa.


Jun.13.MMV