dilúvio que invade a própria sede
brado que ao surdo ensurdece
numa pequena esfera de sentido
caminho que apaga a passada
sinfonia sonata concerto silente
que ecoa numa redoma de seda
vento que desfigura o mar calmo
e o sol, ah!, anjo inocente caído
por detrás do tempo cansado
virtude ensinada em vil ardósia
podridão e vício servidos em mel
catacumbas de vitrais vendados
lucidez humilhada pela realidade
infinito aprender da descrença
amor, o incognoscível feiticeiro.
Set.28.MMV
(in encontro entre as pedras suaves, 2005)
quinta-feira, novembro 10, 2005
segunda-feira, novembro 07, 2005
sem título
o crepúsculo desvenda-se sobre a
ânsia de regresso – metamorfose
do inverno entoado entre as folhas
sobreviventes
14.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
ânsia de regresso – metamorfose
do inverno entoado entre as folhas
sobreviventes
14.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
segunda-feira, outubro 31, 2005
vã acuidade
vejo inutilmente o sentido
do possível deslizamento
ao alcance de nenhuma
força minha
das sedimentárias
agressões arenosas
da estupidez insensível
(sorrio como um rato
aos miseráveis que
pagaram mais uma
volta da roda colorida)
22.09.03
(in 2 /3 e outros poemas, 2003)
terça-feira, outubro 25, 2005
o azul era vento
o azul era vento, 2005
aguarela (Winson & Newton, Cotman series)
s/ papel Fabriano, 18 x 24 cm, 200 g/m2
quinta-feira, outubro 20, 2005
26
para ti, Céu
como tudo o que sou
é teu
de mais a menos infinito,
qual "animal aflito"
encontrei-te
suspensa
na flor em que
te perdi.
vem
de olhos fechados
pelo vento
nas minhas asas
trémulas
de colibri.
não deixes
que o tempo
se esfume,
agora,
numa nuvem
escura arrastada
pela inércia
pura.
desce dessa
para outra flor
e renasce
nos olhos
ardentes do
colibri que te
segura.
10.06.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)
segunda-feira, outubro 17, 2005
sem título
o murmúrio do meu roçagar por ti adentro, imita o arco-íris de uma ave-do-paraíso,
e desfaz-se em silêncio tumultuoso, como dança nupcial ou espasmo pírrico.
24.01.04
(in horizontes de ouro, 2004)
quarta-feira, outubro 12, 2005
cena em tempo lento
demorei um milímetro a sentir
o perfume de uma queda
(angústia sem porosidade a registar)
vi-te da cor do fundo de mim
e não chorei
caí, depois.
20.01.04
(in horizontes de ouro, 2004)
domingo, outubro 09, 2005
XXII
envolto em cores de cipreste,
coberto pelo manto do silêncio
envergonhado
(- a mortalidade é o pior dos defeitos)
o coveiro acende o cigarro
e espanta olhares curiosos
com um cabecear amalucado
por dentro pensa no infinito,
pinta-o de cores brilhantes
falsificadas
(- nunca o preto foi verdadeiro)
e enterra corpos como farpas
na alma da terra humedecida
pelo suor de escaravelhos e larvas
08.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
coberto pelo manto do silêncio
envergonhado
(- a mortalidade é o pior dos defeitos)
o coveiro acende o cigarro
e espanta olhares curiosos
com um cabecear amalucado
por dentro pensa no infinito,
pinta-o de cores brilhantes
falsificadas
(- nunca o preto foi verdadeiro)
e enterra corpos como farpas
na alma da terra humedecida
pelo suor de escaravelhos e larvas
08.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
sexta-feira, outubro 07, 2005
13
queria dizer árvore e não capto
mais que a luz que não há
por detrás daquela folha que não vejo
disse árvore e o vento saudou o ar
embatendo na luz que me devolveu
o verde entranhado nos veios
digo árvore e é o sol que desenho
quebrado pela sombra de um galho
partido que deixei suspenso no sonho
Jul.30.MMV
mais que a luz que não há
por detrás daquela folha que não vejo
disse árvore e o vento saudou o ar
embatendo na luz que me devolveu
o verde entranhado nos veios
digo árvore e é o sol que desenho
quebrado pela sombra de um galho
partido que deixei suspenso no sonho
Jul.30.MMV
quarta-feira, outubro 05, 2005
XX
num afago ansioso de
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego
enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação
uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão
01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego
enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação
uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão
01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
domingo, outubro 02, 2005
14
novos diálogos adâmicos
e deus disse:
faça-se
a (tua) morte
à imagem
da (minha) vida
a (tua) morte
à imagem
da (minha) vida
e o homem disse:
seja feita
a minha vontade
assim em mim
como no fundo de ti
a minha vontade
assim em mim
como no fundo de ti
e deus viu que isso era bom
e o homem disse:
faça-se
a (minha) vida
à imagem
da (tua) morte
a (minha) vida
à imagem
da (tua) morte
e deus disse:
seja feita
a tua vontade
assim em mim
como no fundo de ti
a tua vontade
assim em mim
como no fundo de ti
e o homem viu que isso era bom
15.02.04
(in imanências, 2004)
quarta-feira, setembro 28, 2005
11
é um espaço apenas
simples ao olhar confiante
entre as coisas
algumas metades de coisas
espaço que é também algo
entre espaços medidos pelo olhar
confiança de que o nada tenha partido para o sonho
e de entre as coisas apenas a distância possa
gritar
sim, a distância entre espaços
é uma outra
coisa.
Jun.13.MMV
simples ao olhar confiante
entre as coisas
algumas metades de coisas
espaço que é também algo
entre espaços medidos pelo olhar
confiança de que o nada tenha partido para o sonho
e de entre as coisas apenas a distância possa
gritar
sim, a distância entre espaços
é uma outra
coisa.
Jun.13.MMV
domingo, setembro 25, 2005
madrugada inquieta
madrugada inquieta, 2005
pastel s/ papel canson mi-teintes 160grs preto
primeira tentativa de utilização de pastel seco.
não partilho o resultado da primeira experiência com pastel de óleo :)
r.e.
quarta-feira, setembro 21, 2005
IX
Lisboa parada à espera...
à minha espera, como
uma mãe que se tivesse
esquecido de um berço
num hipermercado e só
agora, trinta anos idos,
lembrasse os parabéns
que não me deu.
caminhos conhecidos
que hoje me confundem
e que fizeram o rol
dos mistérios com que
cresci...
Lisboa à espera do sol...
ninfa inquieta deitada
na relva, de dorso nu
à beira de um rio,
diferente do de lágrimas
que a tristeza faz agora
desaguar rosto abaixo
por razão nenhuma
23.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
à minha espera, como
uma mãe que se tivesse
esquecido de um berço
num hipermercado e só
agora, trinta anos idos,
lembrasse os parabéns
que não me deu.
caminhos conhecidos
que hoje me confundem
e que fizeram o rol
dos mistérios com que
cresci...
Lisboa à espera do sol...
ninfa inquieta deitada
na relva, de dorso nu
à beira de um rio,
diferente do de lágrimas
que a tristeza faz agora
desaguar rosto abaixo
por razão nenhuma
23.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
segunda-feira, setembro 12, 2005
mediocridade a carvão
Perder o sentido orientador da central mediania
da perfeição
derrubou do topo da memória os laivos
de passos sensatos que a intuição
planeara. Resta a desordem?
O lugar do futuro está sublinhado
a diamante. É um cubo perfeito. O centro é oco. Como guiar
a passada larga pela ilusória vacuidade do mundo?
Ultrapassar a nobre vileza da condição
oferecida a troco de vida
conduz a liberdade à clausura de se redefinir
a troco de quase nada. Que sobra?
Centros. Metades. Fulcros. Zénites.
Vácuos. Pontos insuspeitos.
Nós cegos.
Ago.29.MMV
da perfeição
derrubou do topo da memória os laivos
de passos sensatos que a intuição
planeara. Resta a desordem?
O lugar do futuro está sublinhado
a diamante. É um cubo perfeito. O centro é oco. Como guiar
a passada larga pela ilusória vacuidade do mundo?
Ultrapassar a nobre vileza da condição
oferecida a troco de vida
conduz a liberdade à clausura de se redefinir
a troco de quase nada. Que sobra?
Centros. Metades. Fulcros. Zénites.
Vácuos. Pontos insuspeitos.
Nós cegos.
Ago.29.MMV
sexta-feira, setembro 09, 2005
13. metáfora líquida
O branco repousa num milagre de leveza. Uma montanha, uma serra...
uma cordilheira de água plana sobre nada. Assenta num limite invisível, num traço...
numa superfície imaginada pela nossa incredulidade. Água, sobre uma fina fronteira de
textura e substância. Todas as configurações parecem ter abdicado de uma face da sua individualidade. Como alguém que decidisse ser plano ou côncavo ou amorfo num dos lados do seu corpo. As nuvens repousam sem memória da forma antiga. A lâmina que as separa do céu invisível é fatal - ou foi, no instante do embate. As almas abdicaram também de uma dimensão. Existência, sobre uma fina fronteira de vida e morte.
As almas assentam numa colina invertida - o abrigo do mundo ao contrário...
o véu que desvenda, o tecto que descobre, o refúgio que desampara. As águas elevadas
moldam-se a um destino anterior. Repousam num milagre, e movem-se numa osmose lenta
e solitária. A densidade das almas comprova-se p’la observância de similar paradigma. Isolamos o âmago do resto do nosso espírito, como por uma membrana amniótica criativa.
10.04.03
(in a densidade das almas, 2003)
uma cordilheira de água plana sobre nada. Assenta num limite invisível, num traço...
numa superfície imaginada pela nossa incredulidade. Água, sobre uma fina fronteira de
textura e substância. Todas as configurações parecem ter abdicado de uma face da sua individualidade. Como alguém que decidisse ser plano ou côncavo ou amorfo num dos lados do seu corpo. As nuvens repousam sem memória da forma antiga. A lâmina que as separa do céu invisível é fatal - ou foi, no instante do embate. As almas abdicaram também de uma dimensão. Existência, sobre uma fina fronteira de vida e morte.
As almas assentam numa colina invertida - o abrigo do mundo ao contrário...
o véu que desvenda, o tecto que descobre, o refúgio que desampara. As águas elevadas
moldam-se a um destino anterior. Repousam num milagre, e movem-se numa osmose lenta
e solitária. A densidade das almas comprova-se p’la observância de similar paradigma. Isolamos o âmago do resto do nosso espírito, como por uma membrana amniótica criativa.
10.04.03
(in a densidade das almas, 2003)
segunda-feira, setembro 05, 2005
sem título
não tinham de ser lilases as flores,
podiam ter escolhido outra luz até.
importava apenas tornar lúgubre a
falta de fé com que me libertavam.
16.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
podiam ter escolhido outra luz até.
importava apenas tornar lúgubre a
falta de fé com que me libertavam.
16.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
sexta-feira, setembro 02, 2005
12
plena noite quase luz
num ontem qualquer
pereces ao chamar do sol inquieto
fica o deleite de te eternizar –
fica o deleite de te eternizar –
lágrima estrela por cair
Jun.15.MMV
segunda-feira, agosto 29, 2005
pelas corujas, o fascínio
sonho que me abraçaria num piar selvagem e perigoso
se me entrasse noite escura pela janela semi-aberta
a coruja com que sonho
se me entrasse noite escura pela janela semi-aberta
a coruja com que sonho
(a fraternidade dos noctívagos, apesar da luz ameaçadora)
07.05.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)
(coruja desenhada a carvão, há muito tempo, por r.e.)esquissos de ti
Espera. Aumenta o volume. Não te vejo. Fala-me de ti. Não. Espera. Repete. Aumenta o volume da tua presença. A nitidez. O contraste. Fala-me de ti. Descreve o que vestes. Não. Espera. Assim, não. Descreve antes o que pensas. Não. O que sentes. Aumenta o volume da tua fragrância por mim adentro. Sim. Por mim adentro. Pela minha alma fora. Aumenta o volume da tua loucura para que te veja. Sim. Agora. Não quando morreres. Agora que a tua cor é Azul. É agora que te quero sentir por dentro de mim. No meu peito. Aumenta o volume da tua insensatez. Aumenta o volume dos teus dedos no meu cabelo. Sim. Descreve o que vês. Espera. Fecha os olhos e descreve o que vês. Não. De olhos fechados. Escuta-me o respirar irregular, num ritmo entre os teus dedos. Abre os olhos e cheira-nos. Olha para o nosso sabor. Vês a que sabemos? Aumenta o volume dos teus lábios sobre a barriga. Ouves? Sentes o sangue a dançar ao som da tua língua? Espera. Aumenta o volume da tua vida. Enche-nos de nós. Nós. Arrepia-te. Abre os olhos. Invade a vida.
Ago.28.MMV
(in a geometria da inexistência)
Ago.28.MMV
(in a geometria da inexistência)


