terça-feira, outubro 25, 2005

o azul era vento

o azul era vento, 2005

aguarela (Winson & Newton, Cotman series)

s/ papel Fabriano, 18 x 24 cm, 200 g/m2


quinta-feira, outubro 20, 2005

26


para ti, Céu
como tudo o que sou
é teu
de mais a menos infinito,
qual "animal aflito"


encontrei-te
suspensa
na flor em que
te perdi.

vem
de olhos fechados
pelo vento
nas minhas asas
trémulas
de colibri.

não deixes
que o tempo
se esfume,
agora,
numa nuvem
escura arrastada
pela inércia
pura.

desce dessa
para outra flor
e renasce
nos olhos
ardentes do
colibri que te
segura.

10.06.03
(in
um barco de papel para Afrodite, 2003)

segunda-feira, outubro 17, 2005

sem título


o murmúrio do meu roçagar por ti adentro, imita o arco-íris de uma ave-do-paraíso,
e desfaz-se em silêncio tumultuoso, como dança nupcial ou espasmo pírrico.

24.01.04

(in horizontes de ouro, 2004)

quarta-feira, outubro 12, 2005

cena em tempo lento


demorei um milímetro a sentir
o perfume de uma queda
(angústia sem porosidade a registar)

vi-te da cor do fundo de mim
e não chorei

caí, depois.


20.01.04
(in horizontes de ouro, 2004)

domingo, outubro 09, 2005

XXII

envolto em cores de cipreste,
coberto pelo manto do silêncio
envergonhado
(- a mortalidade é o pior dos defeitos)
o coveiro acende o cigarro
e espanta olhares curiosos
com um cabecear amalucado

por dentro pensa no infinito,
pinta-o de cores brilhantes
falsificadas
(- nunca o preto foi verdadeiro)
e enterra corpos como farpas
na alma da terra humedecida
pelo suor de escaravelhos e larvas

08.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)

sexta-feira, outubro 07, 2005

13

queria dizer árvore e não capto
mais que a luz que não há
por detrás daquela folha que não vejo

disse árvore e o vento saudou o ar
embatendo na luz que me devolveu
o verde entranhado nos veios

digo árvore e é o sol que desenho
quebrado pela sombra de um galho
partido que deixei suspenso no sonho

Jul.30.MMV

quarta-feira, outubro 05, 2005

XX

num afago ansioso de
memórias da cor dos unicórnios
o mundo engendra
uma teia de sonhos nas folhas
virgens do meu desassossego
enleio-me nos seus
bosques sem clareiras como
se me dissecasse –
barriga aberta ao vento
peito entregue à brisa quente
da imaginação
uma viagem de tempo
entre dois crepúsculos
banha-me de perspectivas
vazias sobre o anúncio da
minha morte, historicamente
tão perto, e presente como
o cheiro a ratos no sótão

01.06.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)

domingo, outubro 02, 2005

14


novos diálogos adâmicos


e deus disse:

faça-se
a (tua) morte
à imagem
da (minha) vida


e o homem disse:

seja feita
a minha vontade
assim em mim
como no fundo de ti


e deus viu que isso era bom


e o homem disse:

faça-se
a (minha) vida
à imagem
da (tua) morte


e deus disse:

seja feita
a tua vontade
assim em mim
como no fundo de ti


e o homem viu que isso era bom


15.02.04
(in imanências, 2004)

quarta-feira, setembro 28, 2005

11

é um espaço apenas
simples ao olhar confiante
entre as coisas
algumas metades de coisas
espaço que é também algo
entre espaços medidos pelo olhar
confiança de que o nada tenha partido para o sonho
e de entre as coisas apenas a distância possa
gritar
sim, a distância entre espaços
é uma outra
coisa.


Jun.13.MMV

domingo, setembro 25, 2005

madrugada inquieta

madrugada inquieta, 2005
pastel s/ papel canson mi-teintes 160grs preto

primeira tentativa de utilização de pastel seco.
não partilho o resultado da primeira experiência com pastel de óleo :)

r.e.

quarta-feira, setembro 21, 2005

IX

Lisboa parada à espera...
à minha espera, como
uma mãe que se tivesse
esquecido de um berço
num hipermercado e só
agora, trinta anos idos,
lembrasse os parabéns
que não me deu.

caminhos conhecidos
que hoje me confundem
e que fizeram o rol
dos mistérios com que
cresci...

Lisboa à espera do sol...
ninfa inquieta deitada
na relva, de dorso nu
à beira de um rio,
diferente do de lágrimas
que a tristeza faz agora
desaguar rosto abaixo
por razão nenhuma

23.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)

segunda-feira, setembro 12, 2005

mediocridade a carvão

Perder o sentido orientador da central mediania
da perfeição
derrubou do topo da memória os laivos
de passos sensatos que a intuição
planeara. Resta a desordem?
O lugar do futuro está sublinhado
a diamante. É um cubo perfeito. O centro é oco. Como guiar
a passada larga pela ilusória vacuidade do mundo?
Ultrapassar a nobre vileza da condição
oferecida a troco de vida
conduz a liberdade à clausura de se redefinir
a troco de quase nada. Que sobra?
Centros. Metades. Fulcros. Zénites.
Vácuos. Pontos insuspeitos.
Nós cegos.

Ago.29.MMV

sexta-feira, setembro 09, 2005

13. metáfora líquida

O branco repousa num milagre de leveza. Uma montanha, uma serra...
uma cordilheira de água plana sobre nada. Assenta num limite invisível, num traço...
numa superfície imaginada pela nossa incredulidade. Água, sobre uma fina fronteira de
textura e substância. Todas as configurações parecem ter abdicado de uma face da sua individualidade. Como alguém que decidisse ser plano ou côncavo ou amorfo num dos lados do seu corpo. As nuvens repousam sem memória da forma antiga. A lâmina que as separa do céu invisível é fatal - ou foi, no instante do embate. As almas abdicaram também de uma dimensão. Existência, sobre uma fina fronteira de vida e morte.
As almas assentam numa colina invertida - o abrigo do mundo ao contrário...
o véu que desvenda, o tecto que descobre, o refúgio que desampara. As águas elevadas
moldam-se a um destino anterior. Repousam num milagre, e movem-se numa osmose lenta
e solitária. A densidade das almas comprova-se p’la observância de similar paradigma. Isolamos o âmago do resto do nosso espírito, como por uma membrana amniótica criativa.

10.04.03
(in a densidade das almas, 2003)

segunda-feira, setembro 05, 2005

sem título

não tinham de ser lilases as flores,
podiam ter escolhido outra luz até.
importava apenas tornar lúgubre a
falta de fé com que me libertavam.

16.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)

sexta-feira, setembro 02, 2005

12



plena noite quase luz
num ontem qualquer

pereces ao chamar do sol inquieto
fica o deleite de te eternizar –
lágrima estrela por cair

Jun.15.MMV

segunda-feira, agosto 29, 2005

pelas corujas, o fascínio

sonho que me abraçaria num piar selvagem e perigoso
se me entrasse noite escura pela janela semi-aberta
a coruja com que sonho
(a fraternidade dos noctívagos, apesar da luz ameaçadora)


07.05.03

(in a incerta permanência da dúvida, 2003)

(coruja desenhada a carvão, há muito tempo, por r.e.)

esquissos de ti

Espera. Aumenta o volume. Não te vejo. Fala-me de ti. Não. Espera. Repete. Aumenta o volume da tua presença. A nitidez. O contraste. Fala-me de ti. Descreve o que vestes. Não. Espera. Assim, não. Descreve antes o que pensas. Não. O que sentes. Aumenta o volume da tua fragrância por mim adentro. Sim. Por mim adentro. Pela minha alma fora. Aumenta o volume da tua loucura para que te veja. Sim. Agora. Não quando morreres. Agora que a tua cor é Azul. É agora que te quero sentir por dentro de mim. No meu peito. Aumenta o volume da tua insensatez. Aumenta o volume dos teus dedos no meu cabelo. Sim. Descreve o que vês. Espera. Fecha os olhos e descreve o que vês. Não. De olhos fechados. Escuta-me o respirar irregular, num ritmo entre os teus dedos. Abre os olhos e cheira-nos. Olha para o nosso sabor. Vês a que sabemos? Aumenta o volume dos teus lábios sobre a barriga. Ouves? Sentes o sangue a dançar ao som da tua língua? Espera. Aumenta o volume da tua vida. Enche-nos de nós. Nós. Arrepia-te. Abre os olhos. Invade a vida.

Ago.28.MMV
(in a geometria da inexistência)

domingo, agosto 28, 2005

Incognoscibilidade (vários meses antes)

Depressa o sol a cobriu de um tom que evidenciava a textura sedosa da pele, e o Luís recordou a última vez que a tinha visto, ainda durante o Outono do ano anterior. Olhou-a com desejo. Diferente, desta vez. O sentido de missão impera muitas vezes sobre os instintos. Outras não. Desta vez, desnudou-a simplesmente com o olhar fechado, sem revelar o que lhe passava a uma dupla velocidade pela mente. Ela retribuiu o olhar frio de quem reconhece o destino à porta.


Caminharam em silêncio durante vários minutos, alguns quilómetros de dúvidas e receios. A primeira coisa que ela lhe disse foi: «estás preparado?». «Ainda não», disse Luís, com um travo amargo na boca. Ela deu-lhe a mão. Entraram numa zona sombria da cidade, por debaixo dos arcos antigos e sujos pelos pombos, e a cor dela mudou. Deixou de brilhar. Apareceu ao olhos dele com a secura e a debilidade alva que a morte imprime a tudo o que toca. «Vamos?, sugeriu-lhe ele, sem a olhar de frente, sentindo apenas a pressão da mão dela sobre a dele. Subiram até ao local da performance.
Perto do castelo, magnânime como se tivesse descido do céu e instalado em cima das árvores, existe uma praça quase sempre vazia. O Luís conduzi-a até ao meio da praça. Segurou-lhe com uma mão um dos braços, violentamente, obrigando-a a curvar-se para tentar fugir à dor. De uma ou outra janela surgiram rostos. Alguns regressaram aos seus quotidianos, porque a cena não parecia merecer maior atenção. Outros permaneceram. Havia público. Sara perscrutou os seus rostos e exagerou um pouco mais a dor realmente sentida. O Luís gritou-lhe algo que se tornou imperceptível para quem não estivesse ao nível térreo. A lâmina brilhou como que por milagre, sob as copas cerradas das árvores que deixavam a praça coberta de um fresco incómodo. Mas brilhou. E brilharam os olhos à janela. O sangue começou a notar-se por debaixo da camisola, na zona lombar. Ela recurvou-se muito mais do que pareceria necessário a quem do outro lado não pudesse ver o que se passava. A sua posição insólita, dobrada sobre si mesma, já quando ela a largava, chamou a atenção de uma mulher que a tentou alcançar para a ajudar a levantar-se. A mão da mulher ficou tingida e o grito dela foi o sinal para que o Luís desatasse a correr como um fugitivo. Ainda antes de contornar derradeiramente a esquina da praça, olhou para Sara e sorriu-lhe. Ela retribuiu o sorriso, como se o sangue que se libertava do seu corpo fosse o de Rute ou de outra actriz qualquer. Mas era o dela. Ele sabia que ela estaria a pensar na Rute. Apesar de nesse dia ele ainda não a ter conhecido, sabia que os seus destinos estavam desenhados no meio de tantos outros.


Sara fechou os olhos. Uma vez mais. Rute acordará um dia. Uma vez mais.

sábado, agosto 27, 2005

10

espraia-se a vontade pelas coisas inúteis
ou seria desejo místico se a conquistavam outras coisas –
ânsia de sublime imerecido, perspectiva de um sorriso divino
.
pela inutilidade o investimento é devolvido sem pressa
mas cheio da fragrância da auto-comiseração que entope a estima
mas refulge no escuro – líquido fedorento sob nariz obstruído
.
a vontade, a boa, cresce em tons de lágrima sonora
e tempera de moral o deserto, pintalga de fé a sede, equilibra
o poder o real o admissível a vergonha – mata o sonho de ser mau
.

Jun.07.MMV

segunda-feira, agosto 22, 2005

é a alma um polígono frio e débil

é a alma um polígono frio e débil
– desfaz-se em pó azul escuro
quando um pingo de medo desliza
pelo declive polido de cada aresta
permeável à dor.

privada de um véu diáfano que
lhe perpetue a fragilidade, é cristal
mais puro que o desenho ingénuo
do mundo possível que deus desejaria
ter perspectivado.

se a luz a penetra ou a ocultam
sombreados de prata, reflecte
a condição póstuma com que
preencherá o espaço dos futuros
prenhes de morbidez.

quando de placidez a inundo,
deixa-se esventrar pelo corte oblíquo
do tédio e da palavra surda e morta,
num deambular íntimo sem peso
nem forma primordial.


25.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)