sexta-feira, setembro 09, 2005

13. metáfora líquida

O branco repousa num milagre de leveza. Uma montanha, uma serra...
uma cordilheira de água plana sobre nada. Assenta num limite invisível, num traço...
numa superfície imaginada pela nossa incredulidade. Água, sobre uma fina fronteira de
textura e substância. Todas as configurações parecem ter abdicado de uma face da sua individualidade. Como alguém que decidisse ser plano ou côncavo ou amorfo num dos lados do seu corpo. As nuvens repousam sem memória da forma antiga. A lâmina que as separa do céu invisível é fatal - ou foi, no instante do embate. As almas abdicaram também de uma dimensão. Existência, sobre uma fina fronteira de vida e morte.
As almas assentam numa colina invertida - o abrigo do mundo ao contrário...
o véu que desvenda, o tecto que descobre, o refúgio que desampara. As águas elevadas
moldam-se a um destino anterior. Repousam num milagre, e movem-se numa osmose lenta
e solitária. A densidade das almas comprova-se p’la observância de similar paradigma. Isolamos o âmago do resto do nosso espírito, como por uma membrana amniótica criativa.

10.04.03
(in a densidade das almas, 2003)

segunda-feira, setembro 05, 2005

sem título

não tinham de ser lilases as flores,
podiam ter escolhido outra luz até.
importava apenas tornar lúgubre a
falta de fé com que me libertavam.

16.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)

sexta-feira, setembro 02, 2005

12



plena noite quase luz
num ontem qualquer

pereces ao chamar do sol inquieto
fica o deleite de te eternizar –
lágrima estrela por cair

Jun.15.MMV

segunda-feira, agosto 29, 2005

pelas corujas, o fascínio

sonho que me abraçaria num piar selvagem e perigoso
se me entrasse noite escura pela janela semi-aberta
a coruja com que sonho
(a fraternidade dos noctívagos, apesar da luz ameaçadora)


07.05.03

(in a incerta permanência da dúvida, 2003)

(coruja desenhada a carvão, há muito tempo, por r.e.)

esquissos de ti

Espera. Aumenta o volume. Não te vejo. Fala-me de ti. Não. Espera. Repete. Aumenta o volume da tua presença. A nitidez. O contraste. Fala-me de ti. Descreve o que vestes. Não. Espera. Assim, não. Descreve antes o que pensas. Não. O que sentes. Aumenta o volume da tua fragrância por mim adentro. Sim. Por mim adentro. Pela minha alma fora. Aumenta o volume da tua loucura para que te veja. Sim. Agora. Não quando morreres. Agora que a tua cor é Azul. É agora que te quero sentir por dentro de mim. No meu peito. Aumenta o volume da tua insensatez. Aumenta o volume dos teus dedos no meu cabelo. Sim. Descreve o que vês. Espera. Fecha os olhos e descreve o que vês. Não. De olhos fechados. Escuta-me o respirar irregular, num ritmo entre os teus dedos. Abre os olhos e cheira-nos. Olha para o nosso sabor. Vês a que sabemos? Aumenta o volume dos teus lábios sobre a barriga. Ouves? Sentes o sangue a dançar ao som da tua língua? Espera. Aumenta o volume da tua vida. Enche-nos de nós. Nós. Arrepia-te. Abre os olhos. Invade a vida.

Ago.28.MMV
(in a geometria da inexistência)

domingo, agosto 28, 2005

Incognoscibilidade (vários meses antes)

Depressa o sol a cobriu de um tom que evidenciava a textura sedosa da pele, e o Luís recordou a última vez que a tinha visto, ainda durante o Outono do ano anterior. Olhou-a com desejo. Diferente, desta vez. O sentido de missão impera muitas vezes sobre os instintos. Outras não. Desta vez, desnudou-a simplesmente com o olhar fechado, sem revelar o que lhe passava a uma dupla velocidade pela mente. Ela retribuiu o olhar frio de quem reconhece o destino à porta.


Caminharam em silêncio durante vários minutos, alguns quilómetros de dúvidas e receios. A primeira coisa que ela lhe disse foi: «estás preparado?». «Ainda não», disse Luís, com um travo amargo na boca. Ela deu-lhe a mão. Entraram numa zona sombria da cidade, por debaixo dos arcos antigos e sujos pelos pombos, e a cor dela mudou. Deixou de brilhar. Apareceu ao olhos dele com a secura e a debilidade alva que a morte imprime a tudo o que toca. «Vamos?, sugeriu-lhe ele, sem a olhar de frente, sentindo apenas a pressão da mão dela sobre a dele. Subiram até ao local da performance.
Perto do castelo, magnânime como se tivesse descido do céu e instalado em cima das árvores, existe uma praça quase sempre vazia. O Luís conduzi-a até ao meio da praça. Segurou-lhe com uma mão um dos braços, violentamente, obrigando-a a curvar-se para tentar fugir à dor. De uma ou outra janela surgiram rostos. Alguns regressaram aos seus quotidianos, porque a cena não parecia merecer maior atenção. Outros permaneceram. Havia público. Sara perscrutou os seus rostos e exagerou um pouco mais a dor realmente sentida. O Luís gritou-lhe algo que se tornou imperceptível para quem não estivesse ao nível térreo. A lâmina brilhou como que por milagre, sob as copas cerradas das árvores que deixavam a praça coberta de um fresco incómodo. Mas brilhou. E brilharam os olhos à janela. O sangue começou a notar-se por debaixo da camisola, na zona lombar. Ela recurvou-se muito mais do que pareceria necessário a quem do outro lado não pudesse ver o que se passava. A sua posição insólita, dobrada sobre si mesma, já quando ela a largava, chamou a atenção de uma mulher que a tentou alcançar para a ajudar a levantar-se. A mão da mulher ficou tingida e o grito dela foi o sinal para que o Luís desatasse a correr como um fugitivo. Ainda antes de contornar derradeiramente a esquina da praça, olhou para Sara e sorriu-lhe. Ela retribuiu o sorriso, como se o sangue que se libertava do seu corpo fosse o de Rute ou de outra actriz qualquer. Mas era o dela. Ele sabia que ela estaria a pensar na Rute. Apesar de nesse dia ele ainda não a ter conhecido, sabia que os seus destinos estavam desenhados no meio de tantos outros.


Sara fechou os olhos. Uma vez mais. Rute acordará um dia. Uma vez mais.

sábado, agosto 27, 2005

10

espraia-se a vontade pelas coisas inúteis
ou seria desejo místico se a conquistavam outras coisas –
ânsia de sublime imerecido, perspectiva de um sorriso divino
.
pela inutilidade o investimento é devolvido sem pressa
mas cheio da fragrância da auto-comiseração que entope a estima
mas refulge no escuro – líquido fedorento sob nariz obstruído
.
a vontade, a boa, cresce em tons de lágrima sonora
e tempera de moral o deserto, pintalga de fé a sede, equilibra
o poder o real o admissível a vergonha – mata o sonho de ser mau
.

Jun.07.MMV

segunda-feira, agosto 22, 2005

é a alma um polígono frio e débil

é a alma um polígono frio e débil
– desfaz-se em pó azul escuro
quando um pingo de medo desliza
pelo declive polido de cada aresta
permeável à dor.

privada de um véu diáfano que
lhe perpetue a fragilidade, é cristal
mais puro que o desenho ingénuo
do mundo possível que deus desejaria
ter perspectivado.

se a luz a penetra ou a ocultam
sombreados de prata, reflecte
a condição póstuma com que
preencherá o espaço dos futuros
prenhes de morbidez.

quando de placidez a inundo,
deixa-se esventrar pelo corte oblíquo
do tédio e da palavra surda e morta,
num deambular íntimo sem peso
nem forma primordial.


25.11.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)

domingo, agosto 14, 2005

5



que se universe o teu corpo

a língua, minha, cometa de
cauda líquida sobre firmamentos
desenhados, barriga acima
peito abaixo,
anunciando turbilhões à
flor da pele
(êxtases suspensos)


o reboliço de dedos no
interior, no magma salgado
do teu núcleo, do teu
centro acedido por
brechas e falhas tectónicas
(...sexo boca mãos sexo...)
entreabertas


o meu olhar circum-navegante
(fazendo durar a noite
o tempo da noite e o
dia a escuridão restante)
rodeando de sol desejante
cada planície colina vale
de pernas ventre seios
de uma à outra aurora
(sobre as costas planas
horizontes perfeitos)



14.05.03
(in um barco de papel para Afrodite, 2003)

sábado, agosto 13, 2005

eu não sou o sonho

eu não sou o sonho
sou o estímulo

e a sede que fica
a arder na garganta
quando é parca
a nascente e longínquo
o oceano adormecido

eu não sou o deserto
mas a vontade de viajar
no sentido irreversível
dos caminhos

nem tão-pouco o néctar...
sou a própria idade da colheita

e não fosse eu o espírito
seria a arte de o inventar
para quando o sonho
fosse quase nada

15.04.03
(in a incerta permanência da dúvida)

terça-feira, agosto 09, 2005

(dia 31 de outubro, 2041)

IV
Não encontrei uma porta aberta e continuei sozinho, a percorrer caminhos escuros que o hábito clareia, como se a memória não penetrasse mais além do nível básico da orientação abstracta, como se só funcionasse relativamente ao que a rodeia e nunca ao que a fundamenta. A noite envolve as pessoas que gritam silenciosamente, envolve os pássaros distantes e inexistentes. Não me envolve. Penetra-me. Tentadora, poderosa e submissa. Testa-me a capacidade de não recordar a luz do fim da tarde, a capacidade de reconhecer o belo na escuridão do desamparo.
Percorro as ruas nuas de luz, ou apenas vestidas com os farrapos degradantes dos candeeiros envergonhados e tristes. Uma musa desnudada seria prostituta em bairro de deuses e artistas. A sua poesia seria pó nas mesas sujas de vinho, ode à reveladora decadência do espírito soturno e amargo.

quinta-feira, agosto 04, 2005

XVI. (estudos e interlúdios)

demiúrgico
na placidez da espera
do instante preciso
de fazer nascer
o tremor de vida
que numa lágrima ou
num suspiro
se deixe aprisionar

demiúrgico, sim
na magia de sentir
a morte do silêncio
na vontade de respirar
à pulsação
de um gongo ou um tam-tam

louco, talvez
pela inelutável fuga
do tempo com que nos deixas sonhar
estriado em figuras quase humanas
no previsível como no não-esperado

demiúrgico, repito
na derrota do instante vulgar
transfigurado em suspensão silente
imaculado de novo pelo teu virtuoso aceno
à imortalidade

03.03.02
(in instantes de perplexa aprendizagem, 2002,
poemas para António Pinho Vargas)

domingo, julho 31, 2005

Outro ar, outro lume

Não era ainda verão no seu olhar, mas o murmúrio do tempo tinha já adocicado o timbre da voz e o restolhar das pétalas indefiníveis sob os seus pés descalços. Não era ela a mulher mais louca da cidade, mas muitos achavam-se menos do que na realidade eram. Por isso, contas feitas, ela seria a mais doce encarnação da sanidade, num mundo e num tempo propício à desmesura e à crueza das expectativas.
Chamavam-lhe o pássaro sem morte. Nem todos a apelidavam assim. Apenas os que a tinham amado. Incondicionalmente. Quase todos os outros diziam apenas “ali vai ela”, e nessa aparente familiaridade, de nomear como quem aponta com o dedo hipócrita, não sabiam que só denunciavam o contraste da sua própria mediocridade com a elevação do seu espírito leve e imperscrutável.

Há algumas semanas atrás, o taberneiro galhofava com os menos sóbrios acerca das mulheres sem nome. Todos as conheciam por tudo menos pelo bilhete de identidade, diziam sorrindo com a boca desfigurada pela falta de controle muscular que o vinho expõe (mas que não está nunca ausente dos rostos idiotas destes homens, mesmo ao acordar). O taberneiro insistia que o vinho e as putas eram as provas irrefutáveis da presença de Deus, nestes ou noutros termos menos coloquiais. “Sem umas pernas onde esconder a bebedeira, um homem pareceria um louco ou um parvalhão”, sentença auto-analítica de profundidade insuspeitada na boca que a proferia. O Casimiro, do poleiro dos 57 anos, cacareja incompreensivelmente um remate para a ordinarice anterior, mas o vinho canta mais alto e sai apenas um arroto surdo e nojento, que promove as gargalhadas imbecis dos comparsas. O que ele pretenderia dizer fica para dias que não vão chegar. A morte não é tão complacente que permita que todos os disparates sejam soltos sem mais nem menos. Em menos de um ano, este e outros dois ou três como ele farão rezar missas hipócritas. São os ritmos de todos os interiores. Mais evidentes que nas capitais, onde o vinho veste fato, e a morte é acompanhada pelos coros de Mozart.
Nessa tarde, um ruído estrepitoso chamou os olhares à porta escancarada da tasca, mas o olhar não chega e os corpos tentam a dança risível de se levantarem rapidamente. Só quem nunca tentou levar um bêbado pelo braço até casa é que poderá não saber o quadro em movimento parodístico que aqui se refere. Um dos mais velhos ainda se agarrou a uma cadeira manca antes de cair, ele e a cadeira, e os dois copos que o desequilíbrio atira ao chão. Mas ninguém reparou, porque quase todos se esmagavam à porta para poder ver mais, ver antes, como se o seu estado permitisse distinguir lucidamente o que realmente aconteceu.

Não foi apenas o cantar do vinho que foi atropelado pelo barulho disfarçado de trovão envergonhado que soou pela rua toda. Também as conversas cacarejadas na Lina foram silenciadas pelo susto. Com maior aparato na cabeleireira do que na tasca, o silêncio chega sempre como um rebentar de onda no meio da noite. Quando as mulheres falam querendo que a sua versão da história ganhe coerência e verosimilhança, sobe o estrépito das vogais e o arrastar irritante das consoantes. O silêncio forçado varre esta amálgama de banalidades como um estalo num petiz surpreendido num devaneio mais adulto que os seus seis anos.
A Lina saiu primeiro, como senhora de um templo cuja profanação teria de ser esmiuçada inquisitorialmente. As madames impedidas pelos secadores alienígenas não conseguiam engolir os grunhidos da frustração de estar a perder um evento provavelmente imperdível. Mas dor maior era terem de se sujeitar à novela em que a Lina transformaria até o mais desinteressante episódio trivial. Se bem que trivial não era aquele estrondo perigosamente familiar. A Célia seguiu a patroa, o que deixou enfurecidas as clientes que, entregues a si mesmas, se tornavam de repente umas estranhas insuportáveis mutuamente. Toda a gente se (re)conhece sempre por intermédio de um elo inconsciente que alguém representa, cabeleireira ou padre, juiz ou taberneiro. Sem os vínculos subtis de uma compreensão global somos tão irreconhecíveis como um estrangeiro mudo e cego.

O pássaro sem morte jazia no chão.

A perspectiva mais ampla sobre a praça seria a da varanda do Arnaldo, mas não estava ninguém em casa para a desfrutar. Mas de qualquer janela à volta se via parte do cenário, interrompida a visão apenas pelas copas das árvores providenciais contra a curiosidade quotidiana. Dos escritórios da Cont@r as três secretárias e os dois técnicos não conseguiram reproduzir sequer um som que dignificasse o espanto e o horror simultaneamente. Viam, mais próximo do que desejariam, o corpo de um homem. Parecia vivo. Parecia irreal. Parecia familiar.
O cheiro da detonação chegava até aos andares mais altos, quase todos habitados por velhas solitárias cuja surdez natural fez do estoiro um banal ruído de rua, talvez mais um dos diários toques de pára-choques, talvez mesmo um balão a rebentar ou um caixote da casa de mudanças tratado com menor cuidado. Apenas uma das inquilinas do nº 25 se preocupou com o pior, talvez por ser a mais nova, ainda a raspar a margem esquerda dos setenta. E foi dela o primeiro grito, porque o corpo que viu foi o de uma criança, que dali lhe pareceu a neta da Laurinda. Mas não podia ser porque estavam todos a passar esta semana na serra. Mas era uma criança, de qualquer forma, e estar ali deitada de barriga para baixo com o vestido enrodilhado não podia deixar de arrepiar, mesmo à distância de cinco andares.

Jazia no chão, com as mãos abertas e o corpo torcido numa coreografia interrompida.

Os três corpos exibiam imobilidades diferentes. Dois respiravam imperceptivelmente. Um apenas respirava já outro ar. O ar que o pássaro sem morte respirava era ainda o mesmo. Apenas o lume que a queimava era já outro. O de uma tranquilidade imposta à alma pela violência de todos os actos justos e inadiáveis. A sua filha foi a primeira a sair do escuro que envolveu o seu olhar no instante em que o tremor e o medo a fizeram refugiar-se na inconsciência de um desmaio. A primeira pessoa que viu foi o pai. Controlou o grito impulsionado pelo choque do contraste entre a imobilidade presente e todos os gestos passados, que na sua mente voaram num frenesim de luz e som, como numa alucinação. Correu imediatamente para a mãe, abanou-a, chamou-a, e só parou de soluçar convulsivamente quando esta lhe apertou a mão com força, ainda antes de abrir os olhos. A arma estava ainda ao alcance de um braço que intencionalmente se movesse nessa direcção. Só a polícia a tirou de lá, alguns minutos mais tarde.
“Nenhum homem te tocará sem amor nas polpas dos dedos, nem a luz do respeito no olhar, enquanto arder em mim este fogo, querida”, foram as palavras que lhe ouviram quando as separaram para averiguar os detalhes do sucedido. A filha olhou ainda uma vez mais para o pai, com o alívio e o nojo misturado com um sabor ainda indefinível que só muitos anos mais tarde definiria para si mesma.

A rapidez com que o quotidiano se instalou de novo na praça apenas denunciou a hipocrisia de nenhum dos acontecimentos passados e presentes ter constituído surpresa ou novidade. Há lugares assim, onde até a tragédia parece fazer parte do destino colectivo, e o silêncio é a mais cruel das tiranias. Poucas pessoas continuaram a dizer “ali vai ela”. Nem só quem a amou incondicionalmente a passou a chamar também o pássaro em chamas.

sexta-feira, julho 29, 2005

(dia 31 de outubro, 2041)

III
... com a morte vê-se o silêncio ...
Agora, perto do rio, olho para trás como para um altar, ladeado por Queirós, santo que enamorado se enlaça num corpo nu ... bonito ... de ninfa ...
Lembro-me novamente dos pássaros que “silenciosos” me procuram e penso subir de novo ao seu encontro, apesar de a tarde anunciar não só o seu silêncio, mas também o meu cansaço. Subo. Caminho lentamente, para não chorar. Cumprimento, com um toque de volúpia, a ninfa nua que me olha discretamente. Perto da igreja, decido não olhar na sua direcção e sigo em frente. Ando mecanicamente, como quem não conhece por onde vai. Acho que se encontrasse uma porta aberta, uma porta qualquer, entraria, apenas para me sentir acompanhado pela solidão de um edifício desconhecido, e não por esta multidão que tão bem conheço e desprezo. É quase noite, finalmente.

quinta-feira, julho 28, 2005

sombras

ainda o verão não saiu
dos teus olhos e já escureces,
nuvem, sobre o meu altar
de folhas cansadas neste
jardim sem nome

e é a cor do teu sorriso
triste, que me ensina a
amar o inverno eterno

25.09.03
(in 2 / 3 e outros poemas, 2003)

quarta-feira, julho 27, 2005

as nervuras simétricas da alma



a meio do labirinto
um poema conhecido, recitado de olhos fechados
na penumbra de um sorriso

em marés de vento, lúcido,
um cego tacteia a fronte amiga
e descobre o azul, nas maçãs desse rosto de pedra

enfim, a deambular na luminosidade da lua
um corvo morre, sim,
não sei a que horas, mas tarde


29.04.02
(in prosa perdida, 2002)

segunda-feira, julho 25, 2005

andorinha sem paixão

há muito a morte chamo
mas é tão grande o pavor
da imensidão de vazio e de mais nada
tivesse agora uma religião
em que cego mergulhasse
o temor não seria tanto
para isso servem Deus
e os anjos e os sonhos
cegam e abrem porta de perdição
com fé nada ficaria
desse temor bisonho
desse obstáculo à coragem
a queda seria corrida
em direcção ao infinito
o vazio eterno planície
nessa morte não receada
os olhos adormeceriam
a alma já lá estava
tão rápida a transição
do medo ao desejo
nem um feixe de luz
poderoso esse Deus
“amarás o que temes
morrerás enquanto sonhas”
que a fé venha longe
cavalo sem asas
andorinha sem paixão.

07.01.00

(in despojos de lume e de medo, 2000)

sexta-feira, julho 22, 2005

7. maldição

As águas retornam.
O princípio da nostalgia é o instante em que nos envergonhamos de ter elaborado
uma teoria da eternidade. Saudamo-nos com reserva, humildemente. Vai-se o tempo
de mãos dadas com a nossa ignorância, e fica ao nosso lado, como um demónio benevolente
e inútil, a consciência de tudo o que nos declara menos que quase nada. As águas infiltram-se
por cada fenda de luz. O princípio do desespero é o cintilante quebrar de todos os fragmentos
construídos pelos poetas para os inocentes. O tempo desequilibra-se e tenta puxar-nos também
para lá de todos os nossos limites espirituais. As águas param, o milagre da palavra...
As águas retornam.
O limbo da condição moderna destaca-se a pontilhado da nossa imagem de colagens. Pedaço a pedaço, vão-se esfumando os restos de cola entre cada espelho. A ironia isola-nos como pode
da verdadeira esfera que nos envolve, e por onde escorrem as águas ideais.

10.02.03
(in a densidade das almas, 2003)

quinta-feira, julho 21, 2005

Incognoscibilidade (uns dias antes)

23:36
Saberei um dia que a vida é quase tudo o que não pensámos que fosse. Mas entre um e outro olhar mundividente podia haver uma centelha de sabedoria que prevalecesse sobre o desânimo.


0:15
Dói-me o corpo.

2:24
Ele sabe mais do que eu sobre o fim. Mas eu sei mais do que ele sobre ele. Não consigo perceber se ganho ou perco na véspera, mas sei que perco no próprio dia. O meu silêncio tem um preço mais alto do que a minha sabedoria toda sobre ele e do que a dele sobre o fim.

2:53
Posso ir embora?
Não.
Posso desistir?
Sim.
Posso chorar?
Não.
Posso amar?
Sim.
Posso viver?

4:22
Não sei se ele percebeu quando me matou pela primeira vez. Não sei se eles viram o que nos estavam a fazer aos dois. Não sei se eu própria percebi quando morri para eles a primeira vez. Não quero acreditar que o destino pudesse ter sido só este. Não quero negar-me a probabilidade de poder ter inventado tudo de outra maneira. Não quero ter certezas a esta hora incerta.

5:01
A dor passou. Acho que amanhã vai chover, mas não é muito, afinal.

segunda-feira, julho 18, 2005

sem título

inócuo contemplar
ausência anódina
subjectividade anónima
vicissitudes do ínfimo olhar






(in mar branco, nudez insular)