sábado, agosto 13, 2005

eu não sou o sonho

eu não sou o sonho
sou o estímulo

e a sede que fica
a arder na garganta
quando é parca
a nascente e longínquo
o oceano adormecido

eu não sou o deserto
mas a vontade de viajar
no sentido irreversível
dos caminhos

nem tão-pouco o néctar...
sou a própria idade da colheita

e não fosse eu o espírito
seria a arte de o inventar
para quando o sonho
fosse quase nada

15.04.03
(in a incerta permanência da dúvida)

terça-feira, agosto 09, 2005

(dia 31 de outubro, 2041)

IV
Não encontrei uma porta aberta e continuei sozinho, a percorrer caminhos escuros que o hábito clareia, como se a memória não penetrasse mais além do nível básico da orientação abstracta, como se só funcionasse relativamente ao que a rodeia e nunca ao que a fundamenta. A noite envolve as pessoas que gritam silenciosamente, envolve os pássaros distantes e inexistentes. Não me envolve. Penetra-me. Tentadora, poderosa e submissa. Testa-me a capacidade de não recordar a luz do fim da tarde, a capacidade de reconhecer o belo na escuridão do desamparo.
Percorro as ruas nuas de luz, ou apenas vestidas com os farrapos degradantes dos candeeiros envergonhados e tristes. Uma musa desnudada seria prostituta em bairro de deuses e artistas. A sua poesia seria pó nas mesas sujas de vinho, ode à reveladora decadência do espírito soturno e amargo.

quinta-feira, agosto 04, 2005

XVI. (estudos e interlúdios)

demiúrgico
na placidez da espera
do instante preciso
de fazer nascer
o tremor de vida
que numa lágrima ou
num suspiro
se deixe aprisionar

demiúrgico, sim
na magia de sentir
a morte do silêncio
na vontade de respirar
à pulsação
de um gongo ou um tam-tam

louco, talvez
pela inelutável fuga
do tempo com que nos deixas sonhar
estriado em figuras quase humanas
no previsível como no não-esperado

demiúrgico, repito
na derrota do instante vulgar
transfigurado em suspensão silente
imaculado de novo pelo teu virtuoso aceno
à imortalidade

03.03.02
(in instantes de perplexa aprendizagem, 2002,
poemas para António Pinho Vargas)

domingo, julho 31, 2005

Outro ar, outro lume

Não era ainda verão no seu olhar, mas o murmúrio do tempo tinha já adocicado o timbre da voz e o restolhar das pétalas indefiníveis sob os seus pés descalços. Não era ela a mulher mais louca da cidade, mas muitos achavam-se menos do que na realidade eram. Por isso, contas feitas, ela seria a mais doce encarnação da sanidade, num mundo e num tempo propício à desmesura e à crueza das expectativas.
Chamavam-lhe o pássaro sem morte. Nem todos a apelidavam assim. Apenas os que a tinham amado. Incondicionalmente. Quase todos os outros diziam apenas “ali vai ela”, e nessa aparente familiaridade, de nomear como quem aponta com o dedo hipócrita, não sabiam que só denunciavam o contraste da sua própria mediocridade com a elevação do seu espírito leve e imperscrutável.

Há algumas semanas atrás, o taberneiro galhofava com os menos sóbrios acerca das mulheres sem nome. Todos as conheciam por tudo menos pelo bilhete de identidade, diziam sorrindo com a boca desfigurada pela falta de controle muscular que o vinho expõe (mas que não está nunca ausente dos rostos idiotas destes homens, mesmo ao acordar). O taberneiro insistia que o vinho e as putas eram as provas irrefutáveis da presença de Deus, nestes ou noutros termos menos coloquiais. “Sem umas pernas onde esconder a bebedeira, um homem pareceria um louco ou um parvalhão”, sentença auto-analítica de profundidade insuspeitada na boca que a proferia. O Casimiro, do poleiro dos 57 anos, cacareja incompreensivelmente um remate para a ordinarice anterior, mas o vinho canta mais alto e sai apenas um arroto surdo e nojento, que promove as gargalhadas imbecis dos comparsas. O que ele pretenderia dizer fica para dias que não vão chegar. A morte não é tão complacente que permita que todos os disparates sejam soltos sem mais nem menos. Em menos de um ano, este e outros dois ou três como ele farão rezar missas hipócritas. São os ritmos de todos os interiores. Mais evidentes que nas capitais, onde o vinho veste fato, e a morte é acompanhada pelos coros de Mozart.
Nessa tarde, um ruído estrepitoso chamou os olhares à porta escancarada da tasca, mas o olhar não chega e os corpos tentam a dança risível de se levantarem rapidamente. Só quem nunca tentou levar um bêbado pelo braço até casa é que poderá não saber o quadro em movimento parodístico que aqui se refere. Um dos mais velhos ainda se agarrou a uma cadeira manca antes de cair, ele e a cadeira, e os dois copos que o desequilíbrio atira ao chão. Mas ninguém reparou, porque quase todos se esmagavam à porta para poder ver mais, ver antes, como se o seu estado permitisse distinguir lucidamente o que realmente aconteceu.

Não foi apenas o cantar do vinho que foi atropelado pelo barulho disfarçado de trovão envergonhado que soou pela rua toda. Também as conversas cacarejadas na Lina foram silenciadas pelo susto. Com maior aparato na cabeleireira do que na tasca, o silêncio chega sempre como um rebentar de onda no meio da noite. Quando as mulheres falam querendo que a sua versão da história ganhe coerência e verosimilhança, sobe o estrépito das vogais e o arrastar irritante das consoantes. O silêncio forçado varre esta amálgama de banalidades como um estalo num petiz surpreendido num devaneio mais adulto que os seus seis anos.
A Lina saiu primeiro, como senhora de um templo cuja profanação teria de ser esmiuçada inquisitorialmente. As madames impedidas pelos secadores alienígenas não conseguiam engolir os grunhidos da frustração de estar a perder um evento provavelmente imperdível. Mas dor maior era terem de se sujeitar à novela em que a Lina transformaria até o mais desinteressante episódio trivial. Se bem que trivial não era aquele estrondo perigosamente familiar. A Célia seguiu a patroa, o que deixou enfurecidas as clientes que, entregues a si mesmas, se tornavam de repente umas estranhas insuportáveis mutuamente. Toda a gente se (re)conhece sempre por intermédio de um elo inconsciente que alguém representa, cabeleireira ou padre, juiz ou taberneiro. Sem os vínculos subtis de uma compreensão global somos tão irreconhecíveis como um estrangeiro mudo e cego.

O pássaro sem morte jazia no chão.

A perspectiva mais ampla sobre a praça seria a da varanda do Arnaldo, mas não estava ninguém em casa para a desfrutar. Mas de qualquer janela à volta se via parte do cenário, interrompida a visão apenas pelas copas das árvores providenciais contra a curiosidade quotidiana. Dos escritórios da Cont@r as três secretárias e os dois técnicos não conseguiram reproduzir sequer um som que dignificasse o espanto e o horror simultaneamente. Viam, mais próximo do que desejariam, o corpo de um homem. Parecia vivo. Parecia irreal. Parecia familiar.
O cheiro da detonação chegava até aos andares mais altos, quase todos habitados por velhas solitárias cuja surdez natural fez do estoiro um banal ruído de rua, talvez mais um dos diários toques de pára-choques, talvez mesmo um balão a rebentar ou um caixote da casa de mudanças tratado com menor cuidado. Apenas uma das inquilinas do nº 25 se preocupou com o pior, talvez por ser a mais nova, ainda a raspar a margem esquerda dos setenta. E foi dela o primeiro grito, porque o corpo que viu foi o de uma criança, que dali lhe pareceu a neta da Laurinda. Mas não podia ser porque estavam todos a passar esta semana na serra. Mas era uma criança, de qualquer forma, e estar ali deitada de barriga para baixo com o vestido enrodilhado não podia deixar de arrepiar, mesmo à distância de cinco andares.

Jazia no chão, com as mãos abertas e o corpo torcido numa coreografia interrompida.

Os três corpos exibiam imobilidades diferentes. Dois respiravam imperceptivelmente. Um apenas respirava já outro ar. O ar que o pássaro sem morte respirava era ainda o mesmo. Apenas o lume que a queimava era já outro. O de uma tranquilidade imposta à alma pela violência de todos os actos justos e inadiáveis. A sua filha foi a primeira a sair do escuro que envolveu o seu olhar no instante em que o tremor e o medo a fizeram refugiar-se na inconsciência de um desmaio. A primeira pessoa que viu foi o pai. Controlou o grito impulsionado pelo choque do contraste entre a imobilidade presente e todos os gestos passados, que na sua mente voaram num frenesim de luz e som, como numa alucinação. Correu imediatamente para a mãe, abanou-a, chamou-a, e só parou de soluçar convulsivamente quando esta lhe apertou a mão com força, ainda antes de abrir os olhos. A arma estava ainda ao alcance de um braço que intencionalmente se movesse nessa direcção. Só a polícia a tirou de lá, alguns minutos mais tarde.
“Nenhum homem te tocará sem amor nas polpas dos dedos, nem a luz do respeito no olhar, enquanto arder em mim este fogo, querida”, foram as palavras que lhe ouviram quando as separaram para averiguar os detalhes do sucedido. A filha olhou ainda uma vez mais para o pai, com o alívio e o nojo misturado com um sabor ainda indefinível que só muitos anos mais tarde definiria para si mesma.

A rapidez com que o quotidiano se instalou de novo na praça apenas denunciou a hipocrisia de nenhum dos acontecimentos passados e presentes ter constituído surpresa ou novidade. Há lugares assim, onde até a tragédia parece fazer parte do destino colectivo, e o silêncio é a mais cruel das tiranias. Poucas pessoas continuaram a dizer “ali vai ela”. Nem só quem a amou incondicionalmente a passou a chamar também o pássaro em chamas.

sexta-feira, julho 29, 2005

(dia 31 de outubro, 2041)

III
... com a morte vê-se o silêncio ...
Agora, perto do rio, olho para trás como para um altar, ladeado por Queirós, santo que enamorado se enlaça num corpo nu ... bonito ... de ninfa ...
Lembro-me novamente dos pássaros que “silenciosos” me procuram e penso subir de novo ao seu encontro, apesar de a tarde anunciar não só o seu silêncio, mas também o meu cansaço. Subo. Caminho lentamente, para não chorar. Cumprimento, com um toque de volúpia, a ninfa nua que me olha discretamente. Perto da igreja, decido não olhar na sua direcção e sigo em frente. Ando mecanicamente, como quem não conhece por onde vai. Acho que se encontrasse uma porta aberta, uma porta qualquer, entraria, apenas para me sentir acompanhado pela solidão de um edifício desconhecido, e não por esta multidão que tão bem conheço e desprezo. É quase noite, finalmente.

quinta-feira, julho 28, 2005

sombras

ainda o verão não saiu
dos teus olhos e já escureces,
nuvem, sobre o meu altar
de folhas cansadas neste
jardim sem nome

e é a cor do teu sorriso
triste, que me ensina a
amar o inverno eterno

25.09.03
(in 2 / 3 e outros poemas, 2003)

quarta-feira, julho 27, 2005

as nervuras simétricas da alma



a meio do labirinto
um poema conhecido, recitado de olhos fechados
na penumbra de um sorriso

em marés de vento, lúcido,
um cego tacteia a fronte amiga
e descobre o azul, nas maçãs desse rosto de pedra

enfim, a deambular na luminosidade da lua
um corvo morre, sim,
não sei a que horas, mas tarde


29.04.02
(in prosa perdida, 2002)

segunda-feira, julho 25, 2005

andorinha sem paixão

há muito a morte chamo
mas é tão grande o pavor
da imensidão de vazio e de mais nada
tivesse agora uma religião
em que cego mergulhasse
o temor não seria tanto
para isso servem Deus
e os anjos e os sonhos
cegam e abrem porta de perdição
com fé nada ficaria
desse temor bisonho
desse obstáculo à coragem
a queda seria corrida
em direcção ao infinito
o vazio eterno planície
nessa morte não receada
os olhos adormeceriam
a alma já lá estava
tão rápida a transição
do medo ao desejo
nem um feixe de luz
poderoso esse Deus
“amarás o que temes
morrerás enquanto sonhas”
que a fé venha longe
cavalo sem asas
andorinha sem paixão.

07.01.00

(in despojos de lume e de medo, 2000)

sexta-feira, julho 22, 2005

7. maldição

As águas retornam.
O princípio da nostalgia é o instante em que nos envergonhamos de ter elaborado
uma teoria da eternidade. Saudamo-nos com reserva, humildemente. Vai-se o tempo
de mãos dadas com a nossa ignorância, e fica ao nosso lado, como um demónio benevolente
e inútil, a consciência de tudo o que nos declara menos que quase nada. As águas infiltram-se
por cada fenda de luz. O princípio do desespero é o cintilante quebrar de todos os fragmentos
construídos pelos poetas para os inocentes. O tempo desequilibra-se e tenta puxar-nos também
para lá de todos os nossos limites espirituais. As águas param, o milagre da palavra...
As águas retornam.
O limbo da condição moderna destaca-se a pontilhado da nossa imagem de colagens. Pedaço a pedaço, vão-se esfumando os restos de cola entre cada espelho. A ironia isola-nos como pode
da verdadeira esfera que nos envolve, e por onde escorrem as águas ideais.

10.02.03
(in a densidade das almas, 2003)

quinta-feira, julho 21, 2005

Incognoscibilidade (uns dias antes)

23:36
Saberei um dia que a vida é quase tudo o que não pensámos que fosse. Mas entre um e outro olhar mundividente podia haver uma centelha de sabedoria que prevalecesse sobre o desânimo.


0:15
Dói-me o corpo.

2:24
Ele sabe mais do que eu sobre o fim. Mas eu sei mais do que ele sobre ele. Não consigo perceber se ganho ou perco na véspera, mas sei que perco no próprio dia. O meu silêncio tem um preço mais alto do que a minha sabedoria toda sobre ele e do que a dele sobre o fim.

2:53
Posso ir embora?
Não.
Posso desistir?
Sim.
Posso chorar?
Não.
Posso amar?
Sim.
Posso viver?

4:22
Não sei se ele percebeu quando me matou pela primeira vez. Não sei se eles viram o que nos estavam a fazer aos dois. Não sei se eu própria percebi quando morri para eles a primeira vez. Não quero acreditar que o destino pudesse ter sido só este. Não quero negar-me a probabilidade de poder ter inventado tudo de outra maneira. Não quero ter certezas a esta hora incerta.

5:01
A dor passou. Acho que amanhã vai chover, mas não é muito, afinal.

segunda-feira, julho 18, 2005

sem título

inócuo contemplar
ausência anódina
subjectividade anónima
vicissitudes do ínfimo olhar






(in mar branco, nudez insular)

sexta-feira, julho 15, 2005

esta eternidade

...?
(...de luz; poder olhar o tempo lado a lado, imitar-lhe
a dança em nós, fazer do seu corpo redondo um par
num ritmo esquivo e doente, sem sincronia ou elegância; mirar
a água e ver o reflexo aterrado pela ânsia
da evaporação invisível de todos os espelhos; desejar deixar
expresso simbolicamente os medo, os fascínios e chamar
literatura a essas infantilidades existenciais; amar
como o vinho, o sangue; quebrar em caleidoscópicas ilusões
todos os sonhos de cada madrugada; temer o escuro mesmo
disfarçado...)

Ah!, se não fôssemos imortais
condenados a esta inutilidade...

Jul.12.MMV
(in a geometria da inexistência)

terça-feira, julho 12, 2005

8

se o tempo não vê nem fere (não é
ninguém)
porque coibir a verdade da nudez
ansiada? – palidez, talvez, mas
mais que silêncio (dúvida
ou nada)

Abr.20.MMV

domingo, julho 10, 2005

6. vertigem


Sussurra-nos o futuro. Geme se não o acreditamos. Treme de angústia e raiva
por quem já o esqueceu. E tem razão. Preocupa-nos a miséria que nos grita
lá atrás. Envergonha-nos o pesadelo estúpido do que aconteceu sem nós. Até
a nossa leviandade em respeitar o presente parece fruto dessa vingança. Cada
dia que nos condena p’la nossa ausência reflecte a fúria de uma inexistente
relação entre aquele rio de tempo e o leito que nos molda a presença.
Uivam lá adiante, por detrás das colinas que distorcem a luz dos anos, cachos
de segundos apressados, infinitas memórias vazias de instantes guardados em
baús de mortos e loucos imortais. O imenso traço negro das noites sucessivas
deixa-se esculpir na nossa materialidade em contornos frágeis. E desse esboço
fazemos a nossa fronteira. Decidimos sobre que solo imaginário depositamos
os despojos de cada ciclo milenar.

17.01.03

(in a densidade das almas, 2003)

sábado, julho 09, 2005

7

já eu me não lembrava
da plenitude que será
amanhã voar.

Abr.18.MMV

quinta-feira, julho 07, 2005

IX

cai sobre a minha dor
um manto tão quente

01.12.02
(in infinitas impossibilidades, 2002)

quarta-feira, julho 06, 2005

III



a morte não existe senão no capítulo infindo da nossa angústia
a morte não existe senão no parágrafo visionário da capacidade de sonhar

a morte não é
a morte não se diz morte quando se nomeia
a morte não se nomeia quando se pensa
a morte não se pensa no momento em que existe

(porque a morte não existe...)

mas apenas naquele em que se impõe como metáfora

a morte é a nossa necessidade dela
a morte é a devolução do que lhe demos inconscientemente
(ao longo de uma noite de intensa solidão criativa
ou de uma vida de imenso vazio colorida)


27.10.02
(in infinitas impossibilidades, 2002)

domingo, julho 03, 2005

reflexo / dor / fluxo

Infirma-se a suspeita da unicidade. É um facto.
Mas porquê? Penetrar no real não devia ser simétrico a sair dele? Os gestos
não são contidos em dimensões paralelas?
(oblíquas nunca, porque a unidade não saberia como se multiplicar – assim,
pode o som ser ritmo exponenciado, e a luz
movimento invisível).
Magoam as ilusões mais que as desilusões. Embatemos impávidos contra a verdade mas sofremos por saber inquestionavelmente que é neblina sempre o que dizemos céu limpo.
Que perpassa enfim, por entre os dedos da alma, se nos atrevemos a escorrer raiva para fora do tempo, para dentro de nós? Que sabor tem o rio da desesperança? Não é amargo, como o lugar-comum apregoa. Não é doce, padre, não é doce.
Somos múltiplos sem desejo de tal mistério. Somos deliciosamente espectrais.

Jun.13.MMV
(in a geometria da inexistência)

quinta-feira, junho 30, 2005

6

está nu o meu desejo de infinito -
não o cobre a insanidade a crença a lucidez
- somente ainda, a veste risível da dor vã.

Abr.02.MMV

terça-feira, junho 28, 2005

Firmes Penas

I


o casario, a luz coada pela
neblina entre aqui e as paredes
sujas pelas tradições de janeiro,
as janelas que se deixaram abertas
por cansaço ou insuspeitada intenção,
ali espreita um rosto, duas casas adiante
apenas o vento a embater no escuro, sem rostos,
somente gatos, talvez, ou ainda os gemidos deles.


o casario não está ali,
chega-nos de longe, de onde um primo (
afastado?) se pôs à frente do carro (não,
não era primo, ou era?), uma perna
partida, acho que sem mais tragédia.


a vinha sem dias nem horas,
por detrás do curral, vazio também
como se nunca ali houvesse cheirado a
asno quando o havia, e só agora o animal
inexistente deixasse o seu rasto subtil, ou são
as velharias que o lembram saudosamente.


a vinha corta o tempo em cristais de cor,
primeiro o negro de melros a atrair o olhar,
as miras, depois, que mancham a lembrança
de vergonha por se lembrar do ar um dia sujo,
do chilriar calado, penas ensopadas em sangue,
depois ainda, o vento a dançar com as folhas
secas (que salvam tarde demais os pássaros
da queda prematura), os cães a viver o sol
raro, cães que as velhas alimentam como
parentes em desgraça caídos, acorrentados.


cheira a vinho, mesmo aqui em cima,
e não vem do casario apenas, impregna
a própria estrada, embebeda até as lagartixas
nas paredes húmidas, fascinantes, dos poços.


cheira a vinho tinto, é sempre tinto
o vinho que nos pinta a lembrança das
palavras gritadas de um ao outro lado
da mesa onde a família julga que está,
o pão é o que se imagina junto ao aroma
ácido, pão de tratamento carinhoso, mesmo
na angústia da fome, quando o houve,
todos os cheiros são familiares ainda, não
o sabíamos antes, nunca, ou teria sido guardado
mais longe na memória; recorda-se o mais
ínfimo detalhe da insignificância e da pobreza.