sexta-feira, julho 29, 2005

(dia 31 de outubro, 2041)

III
... com a morte vê-se o silêncio ...
Agora, perto do rio, olho para trás como para um altar, ladeado por Queirós, santo que enamorado se enlaça num corpo nu ... bonito ... de ninfa ...
Lembro-me novamente dos pássaros que “silenciosos” me procuram e penso subir de novo ao seu encontro, apesar de a tarde anunciar não só o seu silêncio, mas também o meu cansaço. Subo. Caminho lentamente, para não chorar. Cumprimento, com um toque de volúpia, a ninfa nua que me olha discretamente. Perto da igreja, decido não olhar na sua direcção e sigo em frente. Ando mecanicamente, como quem não conhece por onde vai. Acho que se encontrasse uma porta aberta, uma porta qualquer, entraria, apenas para me sentir acompanhado pela solidão de um edifício desconhecido, e não por esta multidão que tão bem conheço e desprezo. É quase noite, finalmente.

quinta-feira, julho 28, 2005

sombras

ainda o verão não saiu
dos teus olhos e já escureces,
nuvem, sobre o meu altar
de folhas cansadas neste
jardim sem nome

e é a cor do teu sorriso
triste, que me ensina a
amar o inverno eterno

25.09.03
(in 2 / 3 e outros poemas, 2003)

quarta-feira, julho 27, 2005

as nervuras simétricas da alma



a meio do labirinto
um poema conhecido, recitado de olhos fechados
na penumbra de um sorriso

em marés de vento, lúcido,
um cego tacteia a fronte amiga
e descobre o azul, nas maçãs desse rosto de pedra

enfim, a deambular na luminosidade da lua
um corvo morre, sim,
não sei a que horas, mas tarde


29.04.02
(in prosa perdida, 2002)

segunda-feira, julho 25, 2005

andorinha sem paixão

há muito a morte chamo
mas é tão grande o pavor
da imensidão de vazio e de mais nada
tivesse agora uma religião
em que cego mergulhasse
o temor não seria tanto
para isso servem Deus
e os anjos e os sonhos
cegam e abrem porta de perdição
com fé nada ficaria
desse temor bisonho
desse obstáculo à coragem
a queda seria corrida
em direcção ao infinito
o vazio eterno planície
nessa morte não receada
os olhos adormeceriam
a alma já lá estava
tão rápida a transição
do medo ao desejo
nem um feixe de luz
poderoso esse Deus
“amarás o que temes
morrerás enquanto sonhas”
que a fé venha longe
cavalo sem asas
andorinha sem paixão.

07.01.00

(in despojos de lume e de medo, 2000)

sexta-feira, julho 22, 2005

7. maldição

As águas retornam.
O princípio da nostalgia é o instante em que nos envergonhamos de ter elaborado
uma teoria da eternidade. Saudamo-nos com reserva, humildemente. Vai-se o tempo
de mãos dadas com a nossa ignorância, e fica ao nosso lado, como um demónio benevolente
e inútil, a consciência de tudo o que nos declara menos que quase nada. As águas infiltram-se
por cada fenda de luz. O princípio do desespero é o cintilante quebrar de todos os fragmentos
construídos pelos poetas para os inocentes. O tempo desequilibra-se e tenta puxar-nos também
para lá de todos os nossos limites espirituais. As águas param, o milagre da palavra...
As águas retornam.
O limbo da condição moderna destaca-se a pontilhado da nossa imagem de colagens. Pedaço a pedaço, vão-se esfumando os restos de cola entre cada espelho. A ironia isola-nos como pode
da verdadeira esfera que nos envolve, e por onde escorrem as águas ideais.

10.02.03
(in a densidade das almas, 2003)

quinta-feira, julho 21, 2005

Incognoscibilidade (uns dias antes)

23:36
Saberei um dia que a vida é quase tudo o que não pensámos que fosse. Mas entre um e outro olhar mundividente podia haver uma centelha de sabedoria que prevalecesse sobre o desânimo.


0:15
Dói-me o corpo.

2:24
Ele sabe mais do que eu sobre o fim. Mas eu sei mais do que ele sobre ele. Não consigo perceber se ganho ou perco na véspera, mas sei que perco no próprio dia. O meu silêncio tem um preço mais alto do que a minha sabedoria toda sobre ele e do que a dele sobre o fim.

2:53
Posso ir embora?
Não.
Posso desistir?
Sim.
Posso chorar?
Não.
Posso amar?
Sim.
Posso viver?

4:22
Não sei se ele percebeu quando me matou pela primeira vez. Não sei se eles viram o que nos estavam a fazer aos dois. Não sei se eu própria percebi quando morri para eles a primeira vez. Não quero acreditar que o destino pudesse ter sido só este. Não quero negar-me a probabilidade de poder ter inventado tudo de outra maneira. Não quero ter certezas a esta hora incerta.

5:01
A dor passou. Acho que amanhã vai chover, mas não é muito, afinal.

segunda-feira, julho 18, 2005

sem título

inócuo contemplar
ausência anódina
subjectividade anónima
vicissitudes do ínfimo olhar






(in mar branco, nudez insular)

sexta-feira, julho 15, 2005

esta eternidade

...?
(...de luz; poder olhar o tempo lado a lado, imitar-lhe
a dança em nós, fazer do seu corpo redondo um par
num ritmo esquivo e doente, sem sincronia ou elegância; mirar
a água e ver o reflexo aterrado pela ânsia
da evaporação invisível de todos os espelhos; desejar deixar
expresso simbolicamente os medo, os fascínios e chamar
literatura a essas infantilidades existenciais; amar
como o vinho, o sangue; quebrar em caleidoscópicas ilusões
todos os sonhos de cada madrugada; temer o escuro mesmo
disfarçado...)

Ah!, se não fôssemos imortais
condenados a esta inutilidade...

Jul.12.MMV
(in a geometria da inexistência)

terça-feira, julho 12, 2005

8

se o tempo não vê nem fere (não é
ninguém)
porque coibir a verdade da nudez
ansiada? – palidez, talvez, mas
mais que silêncio (dúvida
ou nada)

Abr.20.MMV

domingo, julho 10, 2005

6. vertigem


Sussurra-nos o futuro. Geme se não o acreditamos. Treme de angústia e raiva
por quem já o esqueceu. E tem razão. Preocupa-nos a miséria que nos grita
lá atrás. Envergonha-nos o pesadelo estúpido do que aconteceu sem nós. Até
a nossa leviandade em respeitar o presente parece fruto dessa vingança. Cada
dia que nos condena p’la nossa ausência reflecte a fúria de uma inexistente
relação entre aquele rio de tempo e o leito que nos molda a presença.
Uivam lá adiante, por detrás das colinas que distorcem a luz dos anos, cachos
de segundos apressados, infinitas memórias vazias de instantes guardados em
baús de mortos e loucos imortais. O imenso traço negro das noites sucessivas
deixa-se esculpir na nossa materialidade em contornos frágeis. E desse esboço
fazemos a nossa fronteira. Decidimos sobre que solo imaginário depositamos
os despojos de cada ciclo milenar.

17.01.03

(in a densidade das almas, 2003)

sábado, julho 09, 2005

7

já eu me não lembrava
da plenitude que será
amanhã voar.

Abr.18.MMV

quinta-feira, julho 07, 2005

IX

cai sobre a minha dor
um manto tão quente

01.12.02
(in infinitas impossibilidades, 2002)

quarta-feira, julho 06, 2005

III



a morte não existe senão no capítulo infindo da nossa angústia
a morte não existe senão no parágrafo visionário da capacidade de sonhar

a morte não é
a morte não se diz morte quando se nomeia
a morte não se nomeia quando se pensa
a morte não se pensa no momento em que existe

(porque a morte não existe...)

mas apenas naquele em que se impõe como metáfora

a morte é a nossa necessidade dela
a morte é a devolução do que lhe demos inconscientemente
(ao longo de uma noite de intensa solidão criativa
ou de uma vida de imenso vazio colorida)


27.10.02
(in infinitas impossibilidades, 2002)

domingo, julho 03, 2005

reflexo / dor / fluxo

Infirma-se a suspeita da unicidade. É um facto.
Mas porquê? Penetrar no real não devia ser simétrico a sair dele? Os gestos
não são contidos em dimensões paralelas?
(oblíquas nunca, porque a unidade não saberia como se multiplicar – assim,
pode o som ser ritmo exponenciado, e a luz
movimento invisível).
Magoam as ilusões mais que as desilusões. Embatemos impávidos contra a verdade mas sofremos por saber inquestionavelmente que é neblina sempre o que dizemos céu limpo.
Que perpassa enfim, por entre os dedos da alma, se nos atrevemos a escorrer raiva para fora do tempo, para dentro de nós? Que sabor tem o rio da desesperança? Não é amargo, como o lugar-comum apregoa. Não é doce, padre, não é doce.
Somos múltiplos sem desejo de tal mistério. Somos deliciosamente espectrais.

Jun.13.MMV
(in a geometria da inexistência)

quinta-feira, junho 30, 2005

6

está nu o meu desejo de infinito -
não o cobre a insanidade a crença a lucidez
- somente ainda, a veste risível da dor vã.

Abr.02.MMV

terça-feira, junho 28, 2005

Firmes Penas

I


o casario, a luz coada pela
neblina entre aqui e as paredes
sujas pelas tradições de janeiro,
as janelas que se deixaram abertas
por cansaço ou insuspeitada intenção,
ali espreita um rosto, duas casas adiante
apenas o vento a embater no escuro, sem rostos,
somente gatos, talvez, ou ainda os gemidos deles.


o casario não está ali,
chega-nos de longe, de onde um primo (
afastado?) se pôs à frente do carro (não,
não era primo, ou era?), uma perna
partida, acho que sem mais tragédia.


a vinha sem dias nem horas,
por detrás do curral, vazio também
como se nunca ali houvesse cheirado a
asno quando o havia, e só agora o animal
inexistente deixasse o seu rasto subtil, ou são
as velharias que o lembram saudosamente.


a vinha corta o tempo em cristais de cor,
primeiro o negro de melros a atrair o olhar,
as miras, depois, que mancham a lembrança
de vergonha por se lembrar do ar um dia sujo,
do chilriar calado, penas ensopadas em sangue,
depois ainda, o vento a dançar com as folhas
secas (que salvam tarde demais os pássaros
da queda prematura), os cães a viver o sol
raro, cães que as velhas alimentam como
parentes em desgraça caídos, acorrentados.


cheira a vinho, mesmo aqui em cima,
e não vem do casario apenas, impregna
a própria estrada, embebeda até as lagartixas
nas paredes húmidas, fascinantes, dos poços.


cheira a vinho tinto, é sempre tinto
o vinho que nos pinta a lembrança das
palavras gritadas de um ao outro lado
da mesa onde a família julga que está,
o pão é o que se imagina junto ao aroma
ácido, pão de tratamento carinhoso, mesmo
na angústia da fome, quando o houve,
todos os cheiros são familiares ainda, não
o sabíamos antes, nunca, ou teria sido guardado
mais longe na memória; recorda-se o mais
ínfimo detalhe da insignificância e da pobreza.

sábado, junho 25, 2005

a lição sem discípulo

Segura na mão
um instante.



__________? Não. Segura-o,
não o prendas, segura apenas -
não o deixes ser.
Segura o instante mesmo sabendo que ele
existe apesar do teu esforço.


Não abras os olhos. Segura
o instante, outro
sim, eu sei, não o de há pouco,
este agora,
como não fazer dele outro também?

Tenta.

Recomeça.
Se o vires pelo olfacto da alma,
se o pressentires seguro pelo osfacto da alma
se o instante submisso e feliz te fizer lembrar
um campo de relva acabada de cortar, então
abre os olhos.

Olha para ele.
Não, não abras a mão.
Olha através de ti para o instante que seguras.

____________!!! Sim, sim, eu sei.
É lindo o que vês de ti no caminho que
te leva a ele.



Vira-o lentamente.

Não sabes?
É apenas um pedaço de tempo!

Outro, já, infinitamente,
eu sei.
Virar um pedaço de tempo não é fácil –
requer tempo!
Irónico? Se não confiarmos no impossível.

Sabes para que lado está ele virado?

_____________? Sim, para onde olha ele
quando olha para ti?

Pronto. Agora, basta ignorares o espelho. Consegues
ver o movimento entre a criança e o vazio?


Amplia-o... pouco...

_____________? Não sei isso. Mas sei que se a alma
o desenhou bem, e não mentiste quando
disseste ter cheirado a relva acabada de cortar,
neste momento deves tê-lo a cerca de 90º.

Como que a espreitar, sim. Um olho em ti e
outro no vórtice de quase tudo.

Aperta a mão um pouco –
se conseguires que o tempo
sinta a pressão da tua existência,

conseguiste criá-lo.

________! É belo, sim, assustadoramente.


Jun.25.MMV

quarta-feira, junho 22, 2005

escolhe-se

escolhe-se
na encruzilhada, o
caminho, tão único
como o preterido e
abandonado

(nem existiu
sequer, esta
miragem das
(in)finitas (im)
possibilidades)


16.04.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)

segunda-feira, junho 20, 2005

incognoscibilidade (talvez dois dias depois)

- Foda-se! A sério?
- Sim. Já te podiam ter dito antes. Mas também eu quis ter a certeza, por isso...
- Tanta coisa, para...
- Sim. É fodido. Alguém não aguentou a pressão.
- Há alguma investigação a decorrer já?
- Mais ou menos. É mais uma contra-investigação.
- Hmm... Como assim?
- O Luís confessou.
- Confessou o quê, caralho?
- Que a matou. Diz que sente ainda o cheiro do sangue. Passou-se!
- E tu, não dizes nada?
- Eu não posso fazer quase nada. Sou o único que podia tentar dizer que acredita que ele não a matou. Mas nem sequer posso aparecer, quanto mais fazer com que acreditem em mim. Mandei um mail ao tipo que está à frente da coisa. Relatei-lhe os telefonemas. Mas o Luís não desmente o que já disse. E há montes de referências à deambulação pela cidade, como em transe, já depois da hora em que conseguiram situar o crime.
- Que foda!
- É que eu até percebo. Um gajo tanto sonha com uma merda, que se isso acontece mesmo um tipo perde a noção se teria simplesmente sonhado.
- Bom... mais cedo ou mais tarde o Luís embrulhava-se todo. Aquela cena só ia durar até um deles quebrar. De qualquer forma, a coisa ia sempre virá-lo do avesso.
- É capaz de até ser melhor assim. Quer dizer... a nível global. Ele não deve aguentar muito mais que este mês, se eu bem o conheço. Por isso, a coisa salda-se com dois mortos só. Só que esta brincadeira ainda vai a meio... se...
- Que merda... Também quem a despachou podia ter feito a cena mais completa - um bilhete, uma história qualquer que arrumasse o caso sem confusões. Tudo feito à pressa...
- Pode ser que estejamos a falar afinal pela última vez, e nunca nos pudemos conhecer. Isso sim, sem dúvida que é um sinal positivo. As circunstâncias que nos fariam estar juntos no mesmo sítio seriam concerteza as que fariam um de nós estar de olhos bem fechados e o outro de olhos bem abertos.
- Podes crer. Que vida de merda!
- Vou desligar.
- Sim... eu tam...

sábado, junho 18, 2005

[des] {re} (cr) [tru] i (a) dor


inventei-me de novo,
crédulo, louco –
o sol, uma esférica convulsão de vermelhos,
e o ar impregnado de dúvidas.

dei-me outro nome,
troquei de olhar –
a rua, agora deserta, não me espera assim,
e procura por mim agitadamente.

reformulo a dúvida,
repenso tudo –
o mundo, ser vivo à beira da minha ausência,
arfante pelo medo de me perder.

25.01.04
(in horizontes de ouro, 2004)