sábado, junho 11, 2005

VI

é a escuridão de cada beco e
travessa que me impulsiona
me suga para o seu centro
um conhecido desconhecido

vultos de outros pesadelos
são agora companheiros
cúmplices inocentes pela
primeira vez talvez

derrubo o medo e anseio
pelo perigoso frémito
de loucura irracional
de naquele mar navegar

dou dinheiro a quem passa
de olhar feito ameaça
e deleito-me como desistente
na certeza desta incerteza

o futuro é real aqui e agora
que deixa de ser vislumbrado
levianamente para ser apenas
uma luz morta sob a porta

uma madrugada de sol intenso
nos candeeiros urbanos banais
cobre-me a sorte de ilusão

e afasta-se a sorrir a morte

23.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)

terça-feira, junho 07, 2005

5

sobre o pano, inquieta, deleita-se rubra
a cor do vinho, o cheiro como um músculo
pulsa nos sentidos mesclados de ironias – são
os olhos, sabias?, que lhe afagam o odor e o
travo a passado, passas do ano esquecido.

o tempo arredonda-se, como uma chama
imperturbável na macieza com que engana
o rio da angústia que as imagens alimentam
dentro da insónia – colheita de demónios
em forma de esperanças com sabor a fruta.

a líquida metamorfose de mim em néctar
fez-se na madrugada do dia que não houve.

aspiro a crescer dentro da terra, a respirar
o lume ritual, a beber o mar que me embala
a queda no redentor manto fúnebre de algas,
com as sereias homéricas a confirmar os sons
do crepitar da pele, da sede pútrida dos vermes.

escuto ainda o restolho num sussurro falso
natureza a implorar clemência à raiva que
contida ainda no peito ameaça queimar os
rios quebrar nuvens em pedaços coloridos
e fazer do último arco-íris cama de bordel.

Abr.01.MMV

domingo, junho 05, 2005

XIV



viajante,
não repouses debaixo de uma sombra;
será sempre uma sombra,
representação da frescura
e nunca a carícia da água
ou o arrulho do vento franco

06.12.02

sexta-feira, junho 03, 2005

(dia 24 de junho, 2028)

VI

Não está tão escuro agora, mas o quarto não me parece o mesmo. Olho em meu redor, a cadeira, a cama... Queria sentir-me sozinho, mas assim...
os lençóis amarrotados mantém-me em contacto comigo mesmo, e quase desato a rir de me observar a dormir há pouco...

Perto da janela penso novamente que se a abrisse nem o eterno me iluminaria; o vazio não é infinito, então... e a consolação que daí advém remonta à ideia de que o meu autor se encontra lá, desse lado imaterial da janela. E não é coragem o que me falta para a abrir.
Talvez me falte dúvida. Talvez até me falte , mas quase que ao contrário - não tenho assim tamanha necessidade de olhar nos olhos azuis do fascínio pela angústia, e perguntar-lhe ternamente:
também me amas?

quinta-feira, junho 02, 2005

sem título

sorriso suspiro lamento
grito sussurro contido
murmúrio vagido
infortunado pensamento

quarta-feira, junho 01, 2005

4

constrange-me que
o mundo se veja
se deixe apalpar, não fuja
da perseguição dos sentidos;
aflige-me o contraste
entre o que há e o que
não há

Abr.01.MMV

terça-feira, maio 31, 2005

aforismos

Como lâminas transparentes, que se sobrepõem...
O mundo em nosso redor faz-se sentir único ao olhar de cada um, e confiamos que assim não é.
Chegamos a rezar para que assim não seja.

sábado, maio 28, 2005

3



nem o fluxo germinal imaginado
inibe o reflexo, muscular tumulto,
que ao desejado amplexo cede lugar

Mar.31.MMV

quinta-feira, maio 26, 2005

4. nuvem desancorada

A lua contorna-te, como um golfinho em torno do navio, e
deixas-te desenhar pelo seu capricho impressionista. Concede-te
apenas o poder do contraste. Podes exibir a tua nudez cinzenta, ou esconder
o teu exuberante negrume. Podes imprimir-lhe a ilusão de movimento, se abrires
muito os braços. Podes lançar-nos numa busca pelo seu olhar, se te deixares embalar
pelo vento. A lua controla-te, leme da nossa mestria em te imaginar solta. Deitada sobre
o seu horizonte, dança contigo no colo, e adormeces com o nosso choro de embalar. São
diamantes que os nossos olhos te oferecem, enquanto te sorriem terna e maternalmente as estrelas, que te vestem de lantejoulas a pele. Adensas-te lá adiante, espraias-te lá atrás numa
duna escura de há instantes passados. A lua arrasta-te, pesada e triste. Queres voar e o
branco não te deixa. É o branco que se prendeu às coisas bonitas que te envolve agora
numa agonia, âncora da tua solidão.

10.01.03
(in a densidade das almas, 2003)

segunda-feira, maio 23, 2005

22



insubmissão e revolta


é inútil o vazio como inútil é a fome




(surpresa envolta em clarões)


como pode a verdade estar mascarada de perfeição ou a perfeição em trajes de nulidade vã?

desfaz-se o sonho em cada manhã?
talvez não... talvez descanse apenas
e o som do sol a cair do outro lado
seja somente o eco desses sonhos...



(a dúvida que se impõe
é da cor das pupilas vítreas
de um mamífero desconhecido)



cai o véu do corpo da rarefação da alma
é desnudada assim na sua virginal beleza
esquálida, enfim, uma carcaça do deserto
que o tempo seco e pesado descarnou já




(grito por ver agora o ultraje
perpetrado pela verdade falsa)



ergo-me?
levanto os olhos?
caminho de rosto sombrio?
expulso a raiva num murro teológico?
Sim.




22.02.04

(in imanências, 2004)

domingo, maio 22, 2005

(dia 31 de outubro, 2041)

II

Nas ruas em que disperso o meu olhar pelas paredes e pelos telhados ...

“... I loafe and invite my soul ...”
(Walt Whitman)

e as pessoas parecem-me luzes que se procuram encontrar num escuro redentor. Desço e olho o rio, como que pela primeira vez. As tágides ainda não morreram ...
Olho para trás e espero um segundo de preciosa ansiedade. Por esta rua já desceram tantas pessoas, mas também tantas personagens, e era por ele que o meu pensamento ansiava, pois que nos seus derradeiros meses também ele, por interposta genialidade de José, procurou o seu eu/autor - e com ele, fantasma de companhia, morreu.


“Não sei de quem recordo meu passado
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com a minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.”
(Ricardo Reis)



Continuo a descer, agora que a emoção me escorre discretamente pela face, e atravesso a estrada, para virar naquela esquina, descer as escadas e parar sentado. Gostava que fosse noite, noite poética, noite dura, que cura. De noite este lamento seria ouvido, e por detrás da solidão, ouviria chamar o meu nome.

quarta-feira, maio 18, 2005

2

cantasse o poema os teus cabelos
deixariam de pulsar no mundo
motivos para outras epopeias


Mar.31.MMV

domingo, maio 15, 2005

1

o encontro entre as pedras suaves
enobrece a chuva, o sal do horizonte,
colhe-se o âmbar para a eternidade
que recebe desolado este olhar,
contemplar inerte, inane (imortais,
estes coros varonis sobre as ondas)


Mar.28.MMV

sexta-feira, maio 13, 2005

(dia 24 de junho, 2028)

V
O Triângulo apresenta contudo a grande desvantagem de não elaborar satisfatoriamente a ideia de não-retorno. Tento ainda imaginar um triângulo em espiral ...


(ver NOTA)


Mas a não-sobreposição no retorno, apesar de presente, não é definida pelo número de vértices, pois o problema é comum a todas as formas fechadas; é a própria ausência de sobreposição mais importante que a Forma. É pena, pois a ideia inicial agradava-me intuitivamente. Lembro-me do meu autor lá adiante (não sei em que direcção) e penso que a nossa sobreposição estaria sempre correlacionada com a sua morte, pois que eu lhe sobreviveria (como qualquer personagem). E neste momento? Poderia matar o meu autor com este pensamento? Sentirá ele na sua imaterial memória a ameaça da futura aniquilação dos sentimentos?




NOTA: no manuscrito que aqui se transcreve, existia um esquisso, algo rasurado (deduzimos que por hesitação teórica ou falta de firmeza no traço), em que o presumível autor deste fragmento tentou ilustrar o esquema mental a que se refere - uma espiral constituída, não por uma forma elíptica ou circular, mas por uma forma triangular. Diz-se agora que "existia" um esquisso, porque à data em que se tentam reunir os elementos que permitam entender de que forma estes fragmentos nos elucidam acerca do seu autor, descobrimos um pedaço deste mesmo texto, com data por confirmar ainda, no qual não parece ter havido lugar a tentativa alguma de ilustração gráfica. Ainda não foi possível determinar sequer se estamos em presença de momentos diversos do mesmo pensamento, ou simples tentativa de reformulação (na hipótese, plausível por agora, de que sejam do mesmo autor). Sobre a representação gráfica, e dada a quase ilegibilidade do traçado definitivo, perdido entre outros riscos aparentemente inúteis, decidimos omiti-la nesta transcrição, reservando essa divulgação para um momento mais avançado do estudo destes manuscritos.

terça-feira, maio 10, 2005

díptico para Deus - para Ti, punhais

I
Quando te esqueço
sofro da certeza impura
e danço quase quedo
num medo sólido e uno.

II
Danço num segredo
e guardo-me para ela –
a renúncia ao saber e
ao desassossego vão.

III
Sossego na ausência
dos teus braços de luz
isento da tributação da
alma antes penhorada.

IV
Um dia, sem tempo e
olhos nos olhos, infiel
à fé, pétrea a entrega,
a partir chamei chegar.

V
E porque ris, se não
estavas lá, oráculo ou
esfinge, e nem sabias
quem chegou partindo?

VI
Há um lugar visceral
dentro do teu nome
no qual habita inócua
a minha dúvida perdida

VII
Não é ainda triste
o aroma que a morte
exala, afinal, entre
um e outro suspiro teu.

VIII
Procuras, derradeira e
desesperada criação,
o coração das minhas
desapaixonadas trevas.

IX
Enfrentas o deserto
e a rocha, o oceano
pálido e o infindável
abismo do meu olhar.

X
Uma vela ao fundo,
um incenso por queimar,
talvez um cântico, hino
ao tempo? Aguarda.

XI
É mais bela a tua
solidão agora, espelho
- vislumbro o belo,
panegírico da liberdade.

XII
Imitas na tua queda
o outro declive, grave
destino sobre irmãos
na perdição, caídos, vis.

último punhal
Recuperas a noite
do teu nascimento
no silêncio que deixo
a embalar o teu sonho.


? - Abr.18.MMV

(in livro xiii, 2005)

Nota: como antes anunciado, este díptico para Deus que aqui termina faz o contraponto ao tríptico para o Diabo, que tinha aberto este volume intitulado livro xiii.
todas as partes foram editadas aqui, e podem ser lidas a partir dos arquivos.

domingo, maio 08, 2005

batem-me

batem-me, como roupa molhada nas
pedras que servem de berço aos rios
de uma infância banal qualquer, as
recordações póstumas de uma branda
quietude. batem-me com a violência
das evidências que balizam a nossa
credulidade no mundo infinito e belo,
apesar da crueldade bélica dos instintos.

01.09.03

(in a língua secreta do egoísmo, 2003)

Dádiva em Marília Campos

a Marília encontrou um lugar para estas palavras, mesmo ao lado do seu olhar.
Muito obrigado, Marília.

quinta-feira, maio 05, 2005

dádiva


é sempre daqui que se olha
para o reflexo
sempre donde não nos vemos
mas intuímos

e sempre nos surpreende
a brancura
sempre a luz nos ofusca
aura intensa

é sempre daqui que nascemos
para o mundo
sempre os olhos abertos inúteis
quase cegos

sempre que o céu cai digno
sobre a morte
e sempre que o som do grito
atroz ecoa.



01.02.04
(in horizontes de ouro, 2004)

terça-feira, maio 03, 2005

Ode a um amor diferente



ouvi sem ouvir o meu nome
que a tua voz sem voz já
deixou pairar silente entre
os teus olhos e a minha dor

ressonância adiada
temido eco odioso
desejado colhido no
prado do tempo sem
promessa esquecido

viajar pela tua memória não
me permiti nem o tempo a
mim concedeu nobreza que
antes iluminasse desejo tal

o vento nas flores
a água nos rebordos
vasos aves aroma a
banha sabor de fruta
o som da tarde

cantei-te sem melodia sonhos
em forma de oração pedaços
de crueldade sem rumo com a
coragem envenenada de amor

fio de rádio parodiantes
luz em fundo sombrio
frinchas de persianas
conversas perdidas na
vizinhança envelhecida

vagueias no limbo do que deixei
quando parti sem desejar voltar
repousas imagem inquieta hirta
imponente invulnerável e dócil

amor que não esbanjaste
mimo inviolado guardado
ignorado talvez revestido
da leveza que a maldade
parece dar ao olhar vazio

talvez muito de ti viva em mim
assim nesta clausura em que me
defino quando fecho os olhos e
um cheiro a mofo me inebria

uma velhice intemporal
meiguice uma subtileza
da voz com a chuva ao
fundo da rua na escada
na relva no teu quarto

não cheiravas a morte no último
dia nem a pele resistiu ao beijo
não foi inerte o olhar inerte nem
mudo o afecto que ecoou em nós

letras que não sabias
não sabendo ensinaste
e nem a amar podias
adivinhar que ensinavas
sendo ódio o dicionário

não partiste agora para mais longe
do que para onde a vida te afastara
estás no mesmo lugar sem morada
em que vivem os diferentes amores

in memoriam
Beatriz Oliveira Pereira
(17.01.1914 - 28.04.2005)
Mai.03.MMV

quinta-feira, abril 21, 2005

o velho paradoxo

Equilibrar a vida como ponta de cigarro. Quanto maior o prazer da aspiração saborosa de índole melancólica e triste, mais perto do filtro e do cinzeiro, mais frágil o balancear do cinzento ainda agora rubro, mais precária a expectativa de rever as volutas de fumo no ar já saturado. Pelo caminho cronológico dos dias, também a alma adquire a exaustão de um bar de putas, de um salão de bilhar depois da meia-noite, de uma sala de jogo clandestino roubada a um filme a preto e branco. Também o espírito ardente de sapiência latejante se definha no segundo seguinte, na década que se avizinha, no último dia, com a força morta do seu próprio ilusionismo. E a paixão, ah, a paixão, essa mata-hari de todos os declives existenciais...
Sem a hipótese do livre arbítrio quanto ao ter acendido esse cigarro, não poder dizer à partida “não, obrigado, eu não vivo”, como vencer a tentação de lamentar o poder do seu sabor ao preço que o tempo cobra?
Haverá vida de enrolar em mortalha? Existência de rapé? O que será um cachimbo? O próprio mundo que aguarda a erva aromática do nosso sangue, da nossa mente? Para desfrute de que fumador compulsivo?

Abr.02.MMV

(in a geometria da inexistência)