sexta-feira, junho 03, 2005
(dia 24 de junho, 2028)
Não está tão escuro agora, mas o quarto não me parece o mesmo. Olho em meu redor, a cadeira, a cama... Queria sentir-me sozinho, mas assim...
os lençóis amarrotados mantém-me em contacto comigo mesmo, e quase desato a rir de me observar a dormir há pouco...
Perto da janela penso novamente que se a abrisse nem o eterno me iluminaria; o vazio não é infinito, então... e a consolação que daí advém remonta à ideia de que o meu autor se encontra lá, desse lado imaterial da janela. E não é coragem o que me falta para a abrir.
Talvez me falte dúvida. Talvez até me falte fé, mas quase que ao contrário - não tenho assim tamanha necessidade de olhar nos olhos azuis do fascínio pela angústia, e perguntar-lhe ternamente:
também me amas?
quinta-feira, junho 02, 2005
quarta-feira, junho 01, 2005
4
o mundo se veja
se deixe apalpar, não fuja
da perseguição dos sentidos;
aflige-me o contraste
entre o que há e o que
não há
Abr.01.MMV
terça-feira, maio 31, 2005
aforismos
O mundo em nosso redor faz-se sentir único ao olhar de cada um, e confiamos que assim não é.
Chegamos a rezar para que assim não seja.
sábado, maio 28, 2005
3
nem o fluxo germinal imaginado
inibe o reflexo, muscular tumulto,
que ao desejado amplexo cede lugar
Mar.31.MMV
quinta-feira, maio 26, 2005
4. nuvem desancorada
deixas-te desenhar pelo seu capricho impressionista. Concede-te
apenas o poder do contraste. Podes exibir a tua nudez cinzenta, ou esconder
o teu exuberante negrume. Podes imprimir-lhe a ilusão de movimento, se abrires
muito os braços. Podes lançar-nos numa busca pelo seu olhar, se te deixares embalar
pelo vento. A lua controla-te, leme da nossa mestria em te imaginar solta. Deitada sobre
o seu horizonte, dança contigo no colo, e adormeces com o nosso choro de embalar. São
diamantes que os nossos olhos te oferecem, enquanto te sorriem terna e maternalmente as estrelas, que te vestem de lantejoulas a pele. Adensas-te lá adiante, espraias-te lá atrás numa
duna escura de há instantes passados. A lua arrasta-te, pesada e triste. Queres voar e o
branco não te deixa. É o branco que se prendeu às coisas bonitas que te envolve agora
numa agonia, âncora da tua solidão.
10.01.03
(in a densidade das almas, 2003)
segunda-feira, maio 23, 2005
22
insubmissão e revolta
é inútil o vazio como inútil é a fome
(surpresa envolta em clarões)
como pode a verdade estar mascarada de perfeição ou a perfeição em trajes de nulidade vã?
desfaz-se o sonho em cada manhã?
talvez não... talvez descanse apenas
e o som do sol a cair do outro lado
seja somente o eco desses sonhos...
(a dúvida que se impõe
é da cor das pupilas vítreas
de um mamífero desconhecido)
cai o véu do corpo da rarefação da alma
é desnudada assim na sua virginal beleza
esquálida, enfim, uma carcaça do deserto
que o tempo seco e pesado descarnou já
(grito por ver agora o ultraje
perpetrado pela verdade falsa)
ergo-me?
levanto os olhos?
caminho de rosto sombrio?
expulso a raiva num murro teológico?
Sim.
22.02.04
domingo, maio 22, 2005
(dia 31 de outubro, 2041)
Nas ruas em que disperso o meu olhar pelas paredes e pelos telhados ...
(Walt Whitman)
Olho para trás e espero um segundo de preciosa ansiedade. Por esta rua já desceram tantas pessoas, mas também tantas personagens, e era por ele que o meu pensamento ansiava, pois que nos seus derradeiros meses também ele, por interposta genialidade de José, procurou o seu eu/autor - e com ele, fantasma de companhia, morreu.
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com a minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.”
(Ricardo Reis)
Continuo a descer, agora que a emoção me escorre discretamente pela face, e atravesso a estrada, para virar naquela esquina, descer as escadas e parar sentado. Gostava que fosse noite, noite poética, noite dura, que cura. De noite este lamento seria ouvido, e por detrás da solidão, ouviria chamar o meu nome.
quarta-feira, maio 18, 2005
2
deixariam de pulsar no mundo
motivos para outras epopeias
Mar.31.MMV
domingo, maio 15, 2005
1
enobrece a chuva, o sal do horizonte,
colhe-se o âmbar para a eternidade
que recebe desolado este olhar,
contemplar inerte, inane (imortais,
estes coros varonis sobre as ondas)
Mar.28.MMV
sexta-feira, maio 13, 2005
(dia 24 de junho, 2028)
O Triângulo apresenta contudo a grande desvantagem de não elaborar satisfatoriamente a ideia de não-retorno. Tento ainda imaginar um triângulo em espiral ...
(ver NOTA)
Mas a não-sobreposição no retorno, apesar de presente, não é definida pelo número de vértices, pois o problema é comum a todas as formas fechadas; é a própria ausência de sobreposição mais importante que a Forma. É pena, pois a ideia inicial agradava-me intuitivamente. Lembro-me do meu autor lá adiante (não sei em que direcção) e penso que a nossa sobreposição estaria sempre correlacionada com a sua morte, pois que eu lhe sobreviveria (como qualquer personagem). E neste momento? Poderia matar o meu autor com este pensamento? Sentirá ele na sua imaterial memória a ameaça da futura aniquilação dos sentimentos?
NOTA: no manuscrito que aqui se transcreve, existia um esquisso, algo rasurado (deduzimos que por hesitação teórica ou falta de firmeza no traço), em que o presumível autor deste fragmento tentou ilustrar o esquema mental a que se refere - uma espiral constituída, não por uma forma elíptica ou circular, mas por uma forma triangular. Diz-se agora que "existia" um esquisso, porque à data em que se tentam reunir os elementos que permitam entender de que forma estes fragmentos nos elucidam acerca do seu autor, descobrimos um pedaço deste mesmo texto, com data por confirmar ainda, no qual não parece ter havido lugar a tentativa alguma de ilustração gráfica. Ainda não foi possível determinar sequer se estamos em presença de momentos diversos do mesmo pensamento, ou simples tentativa de reformulação (na hipótese, plausível por agora, de que sejam do mesmo autor). Sobre a representação gráfica, e dada a quase ilegibilidade do traçado definitivo, perdido entre outros riscos aparentemente inúteis, decidimos omiti-la nesta transcrição, reservando essa divulgação para um momento mais avançado do estudo destes manuscritos.
terça-feira, maio 10, 2005
díptico para Deus - para Ti, punhais
Quando te esqueço
sofro da certeza impura
e danço quase quedo
num medo sólido e uno.
II
Danço num segredo
e guardo-me para ela –
a renúncia ao saber e
ao desassossego vão.
III
Sossego na ausência
dos teus braços de luz
isento da tributação da
alma antes penhorada.
IV
Um dia, sem tempo e
olhos nos olhos, infiel
à fé, pétrea a entrega,
a partir chamei chegar.
V
E porque ris, se não
estavas lá, oráculo ou
esfinge, e nem sabias
quem chegou partindo?
VI
Há um lugar visceral
dentro do teu nome
no qual habita inócua
a minha dúvida perdida
VII
Não é ainda triste
o aroma que a morte
exala, afinal, entre
um e outro suspiro teu.
VIII
Procuras, derradeira e
desesperada criação,
o coração das minhas
desapaixonadas trevas.
IX
Enfrentas o deserto
e a rocha, o oceano
pálido e o infindável
abismo do meu olhar.
X
Uma vela ao fundo,
um incenso por queimar,
talvez um cântico, hino
ao tempo? Aguarda.
XI
É mais bela a tua
solidão agora, espelho
- vislumbro o belo,
panegírico da liberdade.
XII
Imitas na tua queda
o outro declive, grave
destino sobre irmãos
na perdição, caídos, vis.
último punhal
Recuperas a noite
do teu nascimento
no silêncio que deixo
a embalar o teu sonho.
? - Abr.18.MMV
(in livro xiii, 2005)
Nota: como antes anunciado, este díptico para Deus que aqui termina faz o contraponto ao tríptico para o Diabo, que tinha aberto este volume intitulado livro xiii.
todas as partes foram editadas aqui, e podem ser lidas a partir dos arquivos.
domingo, maio 08, 2005
batem-me
pedras que servem de berço aos rios
de uma infância banal qualquer, as
recordações póstumas de uma branda
quietude. batem-me com a violência
das evidências que balizam a nossa
credulidade no mundo infinito e belo,
apesar da crueldade bélica dos instintos.
01.09.03
(in a língua secreta do egoísmo, 2003)
Dádiva em Marília Campos
Muito obrigado, Marília.
quinta-feira, maio 05, 2005
dádiva
é sempre daqui que se olha
para o reflexo
sempre donde não nos vemos
mas intuímos
e sempre nos surpreende
a brancura
sempre a luz nos ofusca
aura intensa
é sempre daqui que nascemos
para o mundo
sempre os olhos abertos inúteis
quase cegos
sempre que o céu cai digno
sobre a morte
e sempre que o som do grito
atroz ecoa.
01.02.04
terça-feira, maio 03, 2005
Ode a um amor diferente
ouvi sem ouvir o meu nome
que a tua voz sem voz já
deixou pairar silente entre
os teus olhos e a minha dor
ressonância adiada
temido eco odioso
desejado colhido no
prado do tempo sem
promessa esquecido
viajar pela tua memória não
me permiti nem o tempo a
mim concedeu nobreza que
antes iluminasse desejo tal
o vento nas flores
a água nos rebordos
vasos aves aroma a
banha sabor de fruta
o som da tarde
cantei-te sem melodia sonhos
em forma de oração pedaços
de crueldade sem rumo com a
coragem envenenada de amor
fio de rádio parodiantes
luz em fundo sombrio
frinchas de persianas
conversas perdidas na
vizinhança envelhecida
quando parti sem desejar voltar
repousas imagem inquieta hirta
imponente invulnerável e dócil
amor que não esbanjaste
mimo inviolado guardado
ignorado talvez revestido
da leveza que a maldade
parece dar ao olhar vazio
talvez muito de ti viva em mim
assim nesta clausura em que me
defino quando fecho os olhos e
um cheiro a mofo me inebria
uma velhice intemporal
meiguice uma subtileza
da voz com a chuva ao
fundo da rua na escada
na relva no teu quarto
não cheiravas a morte no último
dia nem a pele resistiu ao beijo
não foi inerte o olhar inerte nem
mudo o afecto que ecoou em nós
letras que não sabias
não sabendo ensinaste
e nem a amar podias
adivinhar que ensinavas
sendo ódio o dicionário
não partiste agora para mais longe
do que para onde a vida te afastara
estás no mesmo lugar sem morada
em que vivem os diferentes amores
in memoriam
Beatriz Oliveira Pereira
(17.01.1914 - 28.04.2005)
quinta-feira, abril 21, 2005
o velho paradoxo
Sem a hipótese do livre arbítrio quanto ao ter acendido esse cigarro, não poder dizer à partida “não, obrigado, eu não vivo”, como vencer a tentação de lamentar o poder do seu sabor ao preço que o tempo cobra?
Haverá vida de enrolar em mortalha? Existência de rapé? O que será um cachimbo? O próprio mundo que aguarda a erva aromática do nosso sangue, da nossa mente? Para desfrute de que fumador compulsivo?
Abr.02.MMV
(in a geometria da inexistência)
segunda-feira, abril 18, 2005
ex-libris da tugosfera
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro em branco aos olhos do poder – um poema para os despertos.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Desejei muito que a Agnés da “Imortalidade” existisse de facto. Não me apaixonei por ela, mas pelo que o Kundera nela viu. “Adriano” passou a significar algo de muito intenso depois da Yourcenar. Clarissa, Laura e Virginia, marcaram, colorindo, um olhar sobre A Mulher pela mão de Cunningham.
Qual foi o último livro que compraste?
Casa na Duna, de Carlos de Oliveira; A Mancha Humana, de Philip Roth; Camões: Labirintos e Fascínios, de Aguiar e Silva
Qual o último livro que leste?
Os Demónios de Kraven, de Alan Isler
Que livros estás a ler?
Casos do Beco das Sardinheiras, de Mário de Carvalho; Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro; Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco; A Vaga de Calor, de Urbano Tavares Rodrigues; Granta nº 87; Discurso da Narrativa, de Gérard Genette; O Rei, o Sábio e o Bobo, de Shafique Keshavjee; A Angústia da Influência, de Harold Bloom;...
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
1) A poesia e a ficção de Jorge Luis Borges, a poesia de Pedro Tamen (e, quem sabe, a sua tradução de Proust, dado o tempo que provavelmente teria), a poesia de Al Berto.
2) As Cidades Invisíveis, e demais fantasias de Italo Calvino (devia haver edições com a obra completa num só volume para o caso de emergências como esta).
3) Os romances do Umberto Eco, para reler um após outro (acho que escondia os Limites da Interpretação no meio dos romances).
4) O Ser e o Nada do Sartre, Ser e Tempo do Heidegger, Verdade e Método do Gadamer, Investigações Filosóficas do Wittgenstein e Diferença e Repetição do Deleuze, preencheriam com toda a certeza as horas mais longas.
5) Cadernos em branco, para expandir os livros que levasse para outras páginas, para outros sonhos.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
À Azul, pela cumplicidade de tantas leituras, pela partilha de tantas ideias, pelo fascínio de tantos anos.
À Helena, pela empatia das palavras que lhe leio, pela beleza e profundidade do que nos comunica.
Ao Alexandre, que nos leva com ele para tantos recantos do mundo, como livros para uma ilha deserta.
sexta-feira, abril 15, 2005
díptico para Deus - harmonia celeste
Ufano na solidão
em que me defino
sem definhar ao
castigo que clamaste
no momento ímpar
da sóbria separação,
escorro angústia
ao invés de sal
pelas órbitas
insanas, irreais;
mas é contudo
alegria revolta
paz insatisfeita
que se esvai de mim
assim, neste fluir
escuro por que me
tentas a voltar.
Numa ilha sem ti
rodeado de ti só
alcanço o limite
o cume a franja
do sentido da tua
ausência incerta;
e mascaro de fome
o sabor a nada,
e digo sequioso
quando trago
voluptuosamente
afinal o néctar
o sangue esperma
teu e de todos os
corpos que aceitas.
O nome é então
o que resta do verbo
e o som do estertor
é tempestade que
ressoa já na minha
inexistência triunfal;
o poder é o nome
do som inexistente,
a dor do espírito
que não sente já
o peso da tua mão
a afagar-me sem dó.
quinta-feira, abril 14, 2005
retrato esboçado ao luar
não é a morte mais silente
que o dia sem ti
nem a noite imponente deslumbre maior
que o céu que dorme nos teus braços
nem o mar véu mais puro
que a tua pele nua
24.01.04