domingo, março 06, 2005

Retratos - I


Entrevista com
António Sereno Rodrigues


Conheci-o como António, o Milas. Num café em Lisboa. Há alguns anos já. No início, das primeiras vezes em que lá entrei, sem a cumplicidade que hoje me permite tratá-lo pelo epíteto anedótico, antipatizava com o seu ar, com os seus modos indiferentes. Não me tratava de forma distinta da que usava ao servir outros clientes, que eu deduzia serem já de longa data, dada a familiaridade do Milas com que o chamavam à mesa para um pedido ou dois dedos de conversa. Mas mesmo não me tratando com tal má cara que me tivesse feito deixar de frequentar o local, foi lenta a tomada de confiança mútua, ao longo de pequenas trocas de comentários banais e de repetidas situações que os meses foram somando, dando lugar a um sorriso sincero de cada vez que me trazia um café ou vinha, com cumplicidade, partilhar algum pormenor que imaginava ser do meu interesse sobre alguma cliente que se lhe afigurava “interessante”, ou sobre si mesmo. A partir de certa altura soube que teria de o incluir neste conjunto de entrevistas. Conhecer o Milas, conhecer o António.


ASR – Vamos lá ver o que sai daí... ainda não percebi muito bem o que queres que te diga. Já me conheces. Que mais posso dizer que te interesse?

RE – Calma, Milas. O que te disse é que gostava de te ouvir. Não quero saber nada especialmente. Quero que participes neste ciclo de entrevistas porque tens uma vida dentro de ti que não é menos vida que a de mais ninguém. Se quiseres, podes começar por dizer, a quem nos lê que não te conhece, quem és, o que dizes para te apresentar quando vais, sei lá... à repartição de finanças ou ao banco...

ASR – Vão todos chular para a estrada ou levar no cu à borla, que aqui pelo Milas é igual ao litro. (ri, com gosto, e alguma timidez à mistura, que poucos detectariam no quotidiano; acende um cigarro).

RE – Sim, senhor, estás apresentado! Quer dizer que a ti não enganam eles. Roubam, mas não saem em ombros.

ASR – Foda-se, era o que mais faltava era um gajo ser comido e calar. Da maneira que um tipo já anda feliz todo o dia, só estes caramelos às vezes para nos foderem os cornos com papelinhos e papeletas do arco da velha para no fim dizerem que estamos fodidos na mesma.

“Já pediram? Ainda não. Então o que vai ser? Para mim é uma água castelo com gelo e limão, e tu Milas, o que é que queres? Pode trazer-me, por favor, uma imperial. Muito bem. É pá, faz-me sempre uma confusão do caralho quando estou num café mas deste lado. Quando disseste que querias a água castelo, quase que gritei p’ó gajo do balcão “sai uma castelo”.(ri)


RE – Mas quem te vê muito calado e senhor de si, de mesa em mesa, “mais dois cafés, Rute”, “passa a quatro”, sem uma exaltação, sem um repente – pronto, confesso que às vezes és mesmo um bocado sisudo demais, mas isso não mata ninguém – quem te vê só ali toma-te um bocado por de-relações-cortadas-com-a-vida, se é que me entendes. Sentes isso na maneira como te falam?

ASR – Ó pá, quer dizer, sinto e não sinto. (coça a orelha, e evita o olhar). Às vezes é fodido não saber o que vai na cabeça de certas pessoas. Um tipo às vezes já vem virado do avesso de casa, quando chega ali e encontra a pasmaceira de todos os dias, e aparece algum marmelo que fala como se eu lhe tivesse cuspido ou mandado à merda, só me apetece mesmo mandar. Estou a fazer meu trabalho. O patrão não me pede que entretenha os clientes com palhaçadas, para que é que me hei-de andar a rir, né?


Ora aqui está a sua água. E a imperial fresquinha. Muito obrigado. Desejam mais alguma coisa? Por agora não, obrigado. (Só se fosse a ti, ‘mor.[murmura entredentes, e de olhar pegado ao rabo que se afasta]. Então, pá? Deixa lá a colega agora, e continua. É pá, é que aquele par...bom, adiante)


Estava eu a dizer que apesar de tudo também sei ser amigo do meu amigo quando as pessoas começam a ser mais porreiras ou quando passam a ser quase da casa, como é o teu caso. Ao princípio também não te topava muito bem, com a mania de ficar ali de livros na mesa uma hora ou duas, e a chamar ora para um café, ora para outro, e agora um copo de água, se faz favor, e podia trazer-me um cinzeiro, e mais um café... Mas é o ofício. Depois vi que não eras daqueles doutores de merda com o rei na barriga a puxar galões de inteligentes, como se toda a gente que não foi colega ou aluno deles fosse uma cambada de analfabetos. Esses a mim não me vêem os dentes.

RE – Que idade tens, Milas?

ASR – Vou fazer 47 agora em Março. Ainda falta tanto e já estou tão farto.

RE – Não percebi.

ASR – Se não me atropelarem para aí, ou isso, ainda sou novo, na volta morro quando já estiver p’ra aí para um lado qualquer a borrar-me todo e a chamar nomes à desgraçada da mulher, e por mim às vezes sinto que se morresse hoje já era tarde. Isto há dias em que um gajo pensa em tudo, né? Há alguns anos era pior. Foi uma altura complicada. Ainda não me conhecias. A miúda, a mais velha, começou a andar com um tipo... É pá, não me venham com merdas, há gajos que se vê à primeira que não valem nada. A malta fala fala mas quando é a nossa filha a coisa muda de figura. Às vezes lá no café bem topo os casalinhos, e vê-se logo quando é o tipo que vai aproveitando agora a sacudir umas migalhinhas da camisola na gaja, agora a pôr-lhe a mãozinha na perna, e elas a fazer que é tudo muito normal, mas a rir sem à-vontade nenhum.

RE – Mas estavas a falar da tua filha...

ASR – Quando ela conheceu o pai da Raquel, a minha neta, eu vi logo que aquilo ia dar molho. O gajo era do tipo arruaceiro, de botinhas para assustar palermas, de óculos apaneleirados, que a Sara achava que tinham estilo, de modos parvos e, pelo que eu via, era burro como as portas. Não tenho cursos mas sei distinguir um idiota de um paz de alma. O Paulo era um idiota. Ainda por cima, andava na altura com um grupinho que, meu deus, era bem de ver que boa coisa não faziam. Isto para dizer que o raio da miúda lá viu ali alguma coisa que a encantou, aquela liberdade toda, não sei – não é que lá em casa andassem como num quartel, que eu nunca me armei em general, nem para ela nem para o Renato, mas é sempre diferente, né? – sei que começaram as noites em casa dele, começou a ficar para os fins de semana, e ao fim de dois meses estava a viver lá, num trapel desgraçado, ela sem trabalho ainda e ele, sei eu lá bem o que ele fazia? A minha mulher a chatear-me os cornos que eu é que tinha sido sempre um bruto, e que agora é que se via o resultado, que se eu não fosse tão casmurro às vezes, a cachopa não se sentia tão deserta de sair dali pra fora. O puto a foder-me também a cabeça que a mana é que estava certa, que viver ali parecia que estavam todos os dias num velório sem morto. Um fedelho daqueles que tinha 15 anos na altura, já lá vão quase sete. Foram dos piores anos da minha vida. Nessa altura, com tudo a desandar dos carris, pensei muitas vezes a sério em estourar os miolos ou amandar-me lá do 5º andar abaixo. (acende outro cigarro, e bebe mais um golo)

RE – E no entanto a vida foi encarrilhando de novo, e aqui estás tu ainda a poder contar a história. Como é que as coisas estão agora com a Sara?

ASR – Como é que haviam de estar? Estão uma merda. Claro que podia ser pior. Ela abriu os olhos à custa dela. E da pequena, que não tem culpa nenhuma. O filho da puta pôs-se na alheta assim que viu que ter meninos não era tão económico como fazê-los. Ela voltou para casa. Entretanto o Renato também casou, mas esse tem tido mais tino e sorte. Sim, porque também é realmente preciso sorte com quem nos aparece à frente na vida. Hoje faz-me bem ter lá a pequenita em casa, a gatinhar por mim acima. Mas quando olho para trás e tento perceber o que podia ter feito de maneira diferente, é fodido, mas não consigo imaginar o que poderia ser. Se recuo muito vou sempre bater ao mesmo lado, só se não tivesse nascido é que alguma coisa teria sido diferente. Será assim com toda a gente?

RE – Não sei, Milas. Nunca dá para comparar. Mas tu e a morte nunca se deram nem muito bem nem muito mal. Ora ela parece chamar-te com ar de sonsa, ou tu a tratas como a uma puta. Já uma vez me chegou lá no café aos ouvidos que tu mesmo tinhas andado uma vez com um tipo debaixo de olho para o mandares fazer tijolo. Como é que essa cena aconteceu?

ASR – Foda-se, quem é que te foi contar essa merda?

RE – Calma, já sabes como é que estas coisas são, um dia uma boca, outro dia uma brincadeira, e mais dia menos dia de tudo se fala. Um não estavas lá, e a Rute e o Sérgio lembraram-se a propósito já nem sei de quê, do tipo que viu a vida mal parada. Quem era o gajo?

ASR – Sei lá eu quem era o gajo! Ele tinha-se mudado ali para o bairro à pouco tempo... Bem, aos anos que isso foi já! Deixa ver, é só fazer as contas... vai para 10 anos, mais coisa menos coisa. Eu nessa altura morava perto do café. Era melhor para mim à noite que não tinha de apanhar transportes à noite, e para a mulher era mais perto também da loja que ela limpava às manhãs. A Sara andava no 11º ano, já estás a ver ao tempo que isto foi. Bom, o tipo começou a aparecer por lá pelo café. Ao princípio era cara nova, a malta está sempre mais observadora. Comentámos que o tipo devia ser solteiro. Às vezes vinha assim para o desalinhado, não foi uma nem duas as vezes que vinha com peúgas desirmanadas, enfim, aquelas coisas que quem vive sozinho acaba por se desleixar. Ou na prisão, ou na tropa. Tu sabes. Quem seria, o que fazia na vida, nunca soube. E não se teria passado nada se ele um dia, já depois de umas semanas de lá ir beber o café depois de almoço, não tivesse dito à Guida, que já tu não conheceste lá, “ó menina, pode vir aqui fazer companhia um bocadinho?”. E isto vinha de onde? Ele tinha-me visto a trocar umas palavras noutra mesa (olha, com o Sr. Leonel que morreu o ano passado, esse tu lembras-te, coitado. Já lá está). Devia vir com o miolos queimados, queria que ali estivesse se calhar especado a olhar para ele à espera que sua excelência tivesse algum desejo. Conclusão, o cabrão estava a meter-se com a Guida (na altura um gaja espigada, e toda penteadinha, como na época não se via muitas, na idade dela), como se fosse serviço do café fazer companhia aos clientes. Eu topei o gajo, e vim perguntar-lhe se desejava alguma coisa. Ela ainda disse “deixa lá, Milas, que eu atendo o cavalheiro”. E logo ele “Milas ou Pilas? Não percebi”. Eu perguntei-lhe o que é que ele queria dizer com aquilo. Vá-se lá saber o que passa pela cabeça das pessoas, é o que eu digo. Sei que ele insistiu “Sei lá, pelo jeitinho até podia ser o Pilas. E pelos vistos é esquisito. Deve haver noutras mesas algo que satisfaça mais”. Diz-me lá se não estava a pedi-las. Até podia ter bebido. Ou era simplesmente anormal. Não me interessa. Perguntei-lhe se ele queria ajudar a mudar o nome de Milas para Pilas pela fama de lhe rebentar com o cu. Eu sei que isto não se faz, eu estava a trabalhar e tudo, arrisquei-me a ser corrido. Mas o Velho Antunes sabia mais da vida que nós todos. Ele mandou-me lá para dentro, que ele acabava de atender o tipo. Depois dessa vez, começou a deixar cartas debaixo da porta do café com ameaças. Ora a mim, ora indirectas com insinuações sobre a Guida. A gente acabou por se acostumar àquilo. Ele nunca mais entrou no café. As cartas deviam ser deixadas durante a madrugada. Um marado dos cornos qualquer que ali tinha vindo calhar, era o que era. Até que uma das cartas começava por perguntar-me se eu gostava de passar o testemunho da alcunha do Pilas para o Renato.

RE – Foda-se, a sério?

ASR – Podes crer. Até me caíram os tomates ao chão. O gajo devia seguir-me. A mim e aos miúdos, para lhe saber o nome, e assustei-me pela primeira vez na vida com uma merda assim. Estás a imaginar o que a cabeça começa a construir. É fodido, mas quanto mais tentava pensar que ele era só um maluquinho, mas medo tinha que ele fizesse alguma merda ao puto. Nessa altura comprei uma arma. Nunca tinha pensado até aí que pudesse ver-me metido numa destas. Corri a cidade. Durante a noite, fazia directas, de beco em beco, de bar em bar. Fui a bairros famosos pelas merdas mais fodidas. Tentei lembrar-me de merdas que ele tivesse dito que me dessem alguma pista. Mas nada. Nunca mais o vi. Mas foi melhor assim. Ele não se tinha safado, e agora não estava aqui a contar esta porcaria passados estes anos.

RE – Eu farejava uma boa história e ia entrevistar-te à prisão.

ASR – Não me terias chegado a conhecer (ri, satisfeito provavelmente por essa possibilidade mesmo, de poder estar a rir daquilo).

RE – Então, mas agora confundiste-me. É Milas ou Pilas, afinal?

ASR – Olha lá... Olha que eu desfiz-me da canhota, mas ainda te assentava um bom murro se não soubesse que estás a brincar.

RE – Mas já agora, e fora de brincadeiras, donde é que vem essa de te chamarem Milas?
(ri-se de repente, como se a própria pergunta já contivesse a piada que originara o nome)

Olhe, faz favor, podia trazer mais uma imperial? É só? O senhor não quer beber mais nada? Nem comer? Não, obrigado. Olhe, espere. Afinal, pode trazer-me um café, por favor. (Tens razão, foda-se, que belo par de mamas... bolas, tenho que te reconhecer o olho. Ó pá, passa lá p’lo café tanta coisa que um tipo acaba por apurar o gosto) [rimo-nos]


RE – Mas ias a dizer...

ASR – O Milas já vem do tempo da tropa. Fiz a recruta nas Caldas, e vinha aos fins de semana a casa... Alguns, que a maior parte das vezes acabava por ficar lá com eles, ora na jogatana ora a roçar o cu p’las paredes. Na altura.... Foda-se, é engraçado teres perguntado isso, porque ainda anteontem me lembrei do Valinhos, um gajo de Barcelos, que na altura era mais que meu irmão. Caramba, ao tempo que estas merdas foram, e como há caras que parece que estou a ver ainda... (acende um cigarro, e pisca-me o olho, imperceptivelmente)

O café e a imperial... Posso levar esta? Obrigado. [sorrimos, sem mais]


Bom, mas das vezes que íamos a casa, toda a malta tinha de trazer grandes histórias para contar. E, ou eram grandes misérias ou grandes tangas. Naquela época era difícil ir à terra, no cu de judas, e trazer na sacola uma história de encantar. Como eu nunca quis fazer da minha família motivo de conversas, inventava outras aventuras. E, naquela idade, quem passasse por mais “homem”, dominava a cena, tás a ver? Ainda deve ser um bocado assim hoje em dia, não é? A maior parte tinha sempre algo para alardear – e eram sempre mulheres o troféu a gabar. Ora era uma tia mais velha e toda p’as curvas, que os tinha apanhado a jeito e os tinha ensinado sobre o que é uma mulher; ou era a filha de um vizinho que tomava banho nalgum regato, e que eles miravam deliciados e de pau feito; ou para quem não tinha força de imaginação, como eu, eram putas. Porque essas, nas histórias faziam tudo o que nas fantasias sonhávamos. Comecei uma vez a falar de uma puta, que disse que era de lá da aldeia, e que se teria apaixonado por mim – chamei-lhe Mila. E do que contei, acho que ainda consegui que alguns mais ingénuos se tivessem apaixonado por ela. As semanas passavam, e os nomes iam rodando. Mas o nome Mila voltava sem que eu me apercebesse já. Os tipos um dia começaram em brincadeira a dizer que eu tinha ficado tão apanhadinho pela primeira puta, que agora só me vinha com gajas chamadas Camila, ou Ludomila ou outras Milas. E fiquei o Milas. É fodido como uma coisinha de nada, uma história de rapazolas, acompanha a vida toda de um gajo.

RE – E sempre é verdade?

ASR – Hã?

RE – Só com Milas? (ri-me)

ASR – Engraçadinho. (sorri)

RE – Sabes, António, agora sem nomes de putas aqui à mistura, por vezes quando te escuto, como hoje, não reconheço o empregado de mesa que convidei para esta entrevista. Há bocado, estava a pensar uma coisa absurda – que tu é que me tinhas enganado, e bem, fingindo ser empregado de mesa nos dias em que lá ia ao café, para me fazer vir até esta conversa. Mas então, teria de te imaginar com outra profissão. E não consigo.

ASR – Queres uma dica? Imagina-me polícia à paisana. Acho que foi das primeiras coisas que me lembro de em puto querer ser quando fosse grande, como se costuma dizer. Lembro-me do meu pai me apontar algumas vezes uns tipos, de ar discreto, de poucas falas, que apareciam lá na terra. “Olha, lá andam estes à caça do contrabando. Fixa-lhes as caras, porque nunca se sabe o dia de amanhã.”, dizia-me ele, ainda a resmungar algumas coisas lá para os seus botões, que eu não chegava já a entender. Só depois, se o ouvisse a falar com o meu tio, ou com algum vizinho – “a guarda anda por aí a meter o nariz”, “vasculhem aí, seus filhos da puta, o que vocês querem não hão-de encontrar nem que tivessem focinho de cão”. E eu ficava com a ideia que aquilo era assunto sério. Imaginei-me depois muitas vezes, já maiorzinho, a entrar numa aldeia, e a ser o alvo de comentários assim, de quem caga doutorices mas que o tem mais pequeno que o buraco de uma agulha. E vê tu onde cheguei! Às mesas, de saca-rolhas e caneta no bolso. Bem, é capaz de ter sido melhor assim.

RE – Foi com toda a certeza, senão em vez de te ir eu ver à prisão, se tivesses encontrado o outro filho da mãe, eras tu que me ias de vez em quando interrogar espremer para me sacar algum nome ou alguma informação que metesses na ideia que eu tivesse.

ASR – E toda esta conversa teria sido ao contrário.

RE – Com a diferença de que tu não sais todo negro daqui.

ASR – Por falar em sair... Já escureceu, já viste? Tenho de ir andando, se por ti não quiseres perguntar mais nada. Disse em casa que durante esta folga ia a uma entrevista, e ficaram a pensar que era para tentar mudar de emprego (ri-se). De polícia à paisana para empregado de mesa... se continuasse à procura ainda acabava a fazer entrevistas como tu a gajos como eu! (rimo-nos muito, enquanto nos levantamos para pagar)

RE – Obrigado pela tarde de folga que te fiz desperdiçar.

ASR – Deixa lá, não é todos os dias que alguém está sentado à mesa de um café este tempo todo só para me ouvir falar. Obrigado.

sábado, março 05, 2005

2



era uma vez no infinito


o requinte de deus consiste na distância

palavras onde nem uma gota de sangue
cabe sem que o sentido se dissolva
em
heresia capital


“há uma lúcida entrega
onde deixou de haver fé”

no infinito, não há palavras esquecidas


sempre que vier o demiurgo
ao mundo incriado
será estrangeiro


“pela mesma lógica
que fez nascer fé”

e deus será filho ilegítimo
de um pai onírico e sem memória


“no lugar da oferenda cega”



morre-se em silêncio, lá.


02.02.04
(in imanências, 2004)

quinta-feira, março 03, 2005

3. imponderável charme de morte

(deste lado)

I


Ao fundo, o negro das roupas que vestem o silêncio confunde-se com as paredes nuas e sujas. Mesmo a luz que consegue tenebrosamente entrar, apenas contribui para o contraste dos cinzentos (quase amarelecidos, é certo, em algumas horas do dia).
A regularidade a que os bancos corridos se distanciam faz-nos recordar as ondas, as nuvens, os socalcos ou os telhados dessa cidade que já não há – cidade invisível, dos nossos sonhos de ontem...
De cada lado, as figuras perguntam-nos silenciosamente as horas, ou melhor, questionam-nos sobre o tempo (pois para a eternidade da pedra ou da madeira o tempo é o único assunto que realmente lhes importa). Os seus olhos levam-nos sempre a tentar localizar historicamente a sua origem, como se o sofrimento que lhes deu “vida” pudesse ter outra explicação que não os vícios da nossa própria falta de fé, a maldade sobre-humana de alguns de nós ou a miséria escondida nos intestinos da alma de todos. Mas quando paramos muito tempo diante de cada uma destas santas representações, a infantilidade do espírito ultrapassa a mera contemplação e quase nos deixa voar pelo imaginário, que está sempre iluminado pela presença ingénua da esperança.
Sob os nossos pés, aqui e acolá, emerge um grito abafado até então pelo pó da história. Nessa altura escutamo-lo encantados, como se sempre tivéssemos sabido que da morte se levantam hinos surdos, à nossa procura, e que nem a pedra que se lhes assenta em cima os faz cair na luz do silêncio.
Em cima, o céu deixou-se esculpir na pedra em formas severas – como se Deus se estivesse sempre a espreguiçar, para com os braços eternamente abertos melhor nos guardar e proteger; ou ainda, para de forma piedosamente infeliz nos tocar a todos com carinho e nos fazer acordar do sonho de existir sem Ele.

As roupas que vestem de negro o silêncio movem-se imperceptivelmente para junto do leito macabro, almofadado para conforto dos vivos na assunção de cumprido o atemorizador dever para com os mortos. O jardim que em redor se desenvolve, em formas curiosamente circulares, quase faz esquecer o significado da cor das faixas de seda que o ornamentam.

O morto, como cidade invisível também, repousa de olhos por outrém fechados, e espera...

__________

nota do editor do blog:
este texto foi escrito no dia 6 de março de 2062, data que já foi aludida antes: o Professor morreu na véspera, dia 5. ainda não é possível determinar com rigor a relação entre este texto e o escrito em 2028. não foi possível determinar também, com certeza, se este texto se refere ao facto do dia anterior, ou se teve um carácter completamente ficcional, que apenas por coincidência macabra se inscreve nessa sequência cronológica. Talvez apenas quando se nos tornar clara a relação real ou possível entre o Professor e o narrador deste texto esta questão seja ultrapassada. Temos em mãos o estudo de algumas cartas que esperamos venham a trazer alguma luz sobre a origem destes textos. Também ainda não foi possível escutar o quarteto de cordas de cujas notas de programa é citada a frase com a obra morre a ideia. Esperamos que o interesse de cada um dos fragmentos que vamos partilhando não diminua pela falta de dados biográficos. Os leitores serão elucidados sempre que alguma informação relevante seja revelada.

terça-feira, março 01, 2005

(24 de junho, 2028)

II
Ainda bem que nenhum vértice representa o fim, mas apenas uma mudança de direcção. Quando nos sentimos próximos do fim, não temos sequer a ilusão de caminhar para lá de vértice algum; ou seja, o horizonte plano e tranquilo da visão do fim acaba por ser mais perturbador que a sensação de viragem de rumo, mesmo para o desconhecido. Quantos ângulos tem a vida? Provavelmente não será a circunferência a forma mais perfeita, mas sim o triângulo (sem quaisquer conotações teológicas, por enquanto – estou só a tentar compreender as vantagens metafísicas de três vértices ...).
Enquanto penso nesta idiota construção geométrica da existência, medida em vértices de esperança assustadora, a escuridão que me envolve murmura ruídos de lado nenhum, barulhos ínfimos que só se ouviriam por um louco ou por mim, tal a minha concentrada imaginação. Cerca-me o vazio, eu sei, mas o vazio não é só silêncio.


(“As cousas que me cercam, silenciosas,
São almas, a chorar, que me procuram”
Teixeira de Pascoaes )

domingo, fevereiro 27, 2005

meticulosidade abstracta

A linha mantém-se paralela
à curvatura do joelho – uma película
de luz (insondável, hesitante, não fosse apenas luminosidade, não
seda, desejo). Roça a pele a milímetros de roçar, sustém
o ar e a sombra – até uma borboleta seria
remetida para o mundo etéreo, profano. A perfeição é a distância (
ilusória?) entre o calor do sangue e a estaticidade
luminosa – uma osmose abstracta. Perpendicular é o olhar cartesiano
que devolve o mundo ao número imaginado.


Fev.26.MMV

(in a geometria da inexistência)

sábado, fevereiro 26, 2005

pequena elegia



inspirada p’la tragédia
caminhas segura

uma vela ao fundo
incendeia de amarelo o túmulo
o labirinto

vagueias sem medo
infantil o olhar
pés de neblina

repousas
mistério de quem te lembra
hoje


in memoriam Magda Patita
27.02.01
(nota: a Magda Patita era minha aluna quando faleceu,
num acidente de viação,
com apenas 20 anos.
Ontem falei com um rapaz, seu colega de faculdade na altura, que a tinha convidado finalmente para sair, precisamente na semana anterior - jantar que ela aceitou, não se tendo nunca realizado)

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

memória

passou
os dedos por


uma vez
(outra)

sem dor
afinal.

Fev.17.MMV

(in livro xiii)

sem título

o tempo
impuro ( -vil?
- talvez no
intento de
sentido se
escureça)
líquido –
esgoto sem
escoadouro (
horizonte flácido
nos olhos do desespero
) da existência,
esboroamento
burilar vão, pensar
o tempo.

Fev.12.MMV

(in livro xiii)

impenetrável subúrbio



depois dessa esquina mora um vagabundo
atrás daqueles caixotes, uma velha que talvez já tenha morrido
mesmo aqui ao lado, no vão da escada, uma bebedeira acorda, ensurdecedora
e ali ao fundo, iluminado intermitentemente por uma lâmpada mal enroscada, moro eu

não é um excerto do tratado de filosofia do fracasso, ou a memória moribunda do último homem
é a microgeografia do mundo, de um qualquer mundo em que consigas acreditar

depois dessa esquina mora um vagabundo...
...
etc.


31.08.02
(in despojos de lume e de medo, 2000-2002)

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

sem título

nunca ansiei pela resposta ao que
não sabia porque não sei o que
ficaria colorido ou a preto
ou a branco depois

a lua passaria a vestir mais
cetim vermelho?

perguntar é respirar o sal
e o lume pelos poros que
a juventude abre e limpa

the answered question deixaria
de ter quatro flautas, soaria
somente o clarim da morte

08.05.03
(in a incerta permanência da dúvida, 2003)



[nota: "the unanswered question" é uma obra de Charles Ives para trompete (fora de palco), quatro flautas, e orquestra de cordas]

terça-feira, fevereiro 22, 2005

canção de morte e de vento

Vem...
Abraça-me em ternas ilusões, negra madrugada
Sei que não serás menos minha que de Deus
já que também Deus morreu a teus pés, noite

Sopra-me de angústia
Faz-me tremer a vida em que navego confiante
pois no medo e no lume se encontra a verdade
de nos sabermos sozinhos e por ti amados, escuridão

Arrefece-me ...
deixa-me sucumbir no gelo dos teus beijos
morro por de vento frio me penetrares em hora certa
esperarei por ti em cada verão tranquilo
para te amar em inverno desejado

18.07.01

(in despojos de lume e de medo, 2000-2002)

domingo, fevereiro 20, 2005

sem título



infantil a crença crónica
impúdica no arrebatamento
não cegueira maldição
outra forma de inquietude


Fev.18.MMV

sábado, fevereiro 19, 2005

dança

Não se ouvem os passos, só
os vultos parecem cortar o ar em zumbidos
adivinhados. Se de um filme se tratasse
talvez os pudesse fazer voar. Não se lhes sente
o peso sobre as folhas secas. Ouvem-se as folhas
secas. Umas a dançar com as outras. Não se ouvem
morrer as folhas quebradas pelo
peso silente dos vultos. Apenas ciciam
as folhas que dançam.

Fev.18.MMV

(in a geometria da inexistência)

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

(24 de junho, 2028)


I

Por vezes sinto-me a pensar em mim no passado. Não a pensar em como fui em criança, ou apenas ontem, mas a pensar no meu presente como se ele fosse já um determinado passado. Talvez se possa ilustrar esta visão bizarra com a imagem da relação temporal entre as personagens e o seu autor. De facto, aí encontram-se as três faces do tempo. O presente a que as personagens chamam “hoje” já representa um estado passado para o autor (que primeiro as formulou no seu presente – quando ainda as personagens não existiam sequer). No seu presente, as personagens actuam na memória do seu autor. No entanto, para o leitor, todo esse presente das personagens constitui ainda o seu futuro, já que se considera o acto da leitura posterior ao da composição e este posterior ao da concepção. Nas personagens reúnem-se pois todos os caminhos temporais convergentes. Como dizia há pouco, por vezes penso-me como passado, ou melhor, penso-me como personagem cujo autor sou eu mesmo, obviamente noutro momento temporal. Ser personagem de mim próprio nem é tão angustiante assim, pois faz-me crescer a esperança de vir a ser o meu próprio leitor ...


... com a obra morre a ideia ...


Pois hoje é um desses dias. Sinto-me completamente como personagem observada em fase de revisão pelo seu autor (eu mesmo, algures noutro instante). Mas o hoje em que penso não é o hoje em que escrevo estas linhas. Nesse presente, estou deitado, numa cama desconfortável, a olhar o vazio no escuro, em noite de ar sufocante, à espera que amanheça. O hoje em que escrevo estas linhas é outro, e se queres que partilhe um segredo, nem sempre tenho a certeza se escrevo antes ou depois. E que importa?

(dia 24 de junho)

I



Por vezes sinto-me a pensar em mim no passado. Não a pensar em como fui em criança, ou apenas ontem, mas a pensar no meu presente como se ele fosse já um determinado passado. Talvez se possa ilustrar esta visão bizarra com a imagem da relação temporal entre as personagens e o seu autor. De facto, aí encontram-se as três faces do tempo. O presente a que as personagens chamam “hoje” já representa um estado passado para o autor (que primeiro as formulou no seu presente – quando ainda as personagens não existiam sequer). No seu presente, as personagens actuam na memória do seu autor. No entanto, para o leitor, todo esse presente das personagens constitui ainda o seu futuro, já que se considera o acto da leitura posterior ao da composição e este posterior ao da concepção. Nas personagens reúnem-se pois todos os caminhos temporais convergentes. Como dizia há pouco, por vezes penso-me como passado, ou melhor, penso-me como personagem cujo autor sou eu mesmo, obviamente noutro momento temporal. Ser personagem de mim próprio nem é tão angustiante assim, pois faz-me crescer a esperança de vir a ser o meu próprio leitor ...

... com a obra morre a ideia ...

Pois hoje é um desses dias. Sinto-me completamente como personagem observada em fase de revisão pelo seu autor (eu mesmo, algures noutro instante). Mas o hoje em que penso não é o hoje em que escrevo estas linhas. Nesse presente, estou deitado, numa cama desconfortável, a olhar o vazio no escuro, em noite de ar sufocante, à espera que amanheça.
O hoje em que escrevo estas linhas é outro, e se queres que partilhe um segredo, nem sempre tenho a certeza se escrevo antes ou depois. E que importa?

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

para o mundo, talvez apenas mais uma história...

era uma vez um puto
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...

...
_______________________________
...
tocava desde os 9 anos na banda...
os seus amigos eram os da banda e os do prédio...

...
...achava que era feliz, o puto...
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aos 12 anos apaixonou-se por uma prima, o pequeno atrevido.
e ela por ele, a malandra, tanta sabedoria em 10 infantis anos

depois dessas férias na praia em que experimentaram os segredos
que segredam as bocas quando estão próximas e mesmo unidas,
nunca mais se viram.

só anos mais tarde, adultos já, de sorriso cúmplice nos olhos
se voltaram a ver e a falar. num casamento de família.
ele, outro; ela, outra também; duvidando da própria memória.
_________________________________
...
...
o rapaz era aplicado no clarinete, e a banda o seu mundo

a família ... uma massa informe de afectos.
uma avó ambígua
(um dia saberei o que isto quer dizer)
...
_________________________________
...
o miúdo até pensava que era feliz, mas duvidava do que sentia
e no seu íntimo sabia que não era.
...
culpas? por aí. umas num homem, algumas numa mulher, ambos
inconscientes da inquietação interior do petiz.
...
_________________________________
aos 15 anos, subitamente, renasce.
vai a uma pequena terriola, de que nunca tinha ouvido falar
vai como "músico de fora", dos "bons", ajudar a banda local
procissões, peditórios, concerto...
e vê-A!

_________________________________
ela tocava clarinete, tinha um olhar maduro
um sorriso escondido, uma forma rebelde de vestir
e de falar, altiva ou algo distante, observando
da colina dos 18 anos, a puberdade do moço da cidade.
...
estiveram perto um do outro, nesse dia. sempre longe
sempre inquietos, cada um envolto no seu próprio manto
um dia... somente um dia, e a viagem de regresso a casa
com um beicinho mental, uma tristeza indefinível

nem três palavras trocadas, entre músicas e barulho,
ele fora do seu meio, ela demasiado no seu meio
ele querendo entrar ali, ela a desejar dali fugir.
um dia, contudo...
até ao mesmo dia do ano seguinte.
____________________________
um ano de silêncio e de esquecimento.
esquecimento?
...
desta vez, reconheceram-se à distância
ou não tivesse ele perguntado logo pela moça.
deu logo de caras com o pai dela
e por ela perguntou, ao que o pai (desconfiado)
respondeu, com ares de importante: ela está em Lisboa
a trabalhar. só vem ao concerto.
!!!
um dia, um ano depois, e só a veria à noite.
a memória fez o trabalho de reconstruir, tentou, o rosto
a forma do corpo, a roupa vestida, o cabelo...
quase em vão
nenhuma imagem, quase não tinha existido aquele dia
quase...
_____________________________
o concerto estava iluminado...
ela estava lá, e ele também.
adivinhe-se em casa de que família os músicos de fora dormiriam...

depois do concerto, foram todos (o rapaz, dois colegas da banda
e ela) para casa. ficaram a jogar às cartas todos, na varanda.
era tarde, e os amigos foram saindo para ir dormir.
a noite acolheu a conversa dos seres que ali se encontravam pela segunda vez
ele a falar de si
ela a falar dela
ele, sobre adorar música e imaginar-se compositor
ela, sobre adorar pessoas e desejar ser psicóloga
ele, sobre o desejo de morrer
ela, sobre a fúria de viver
ele de coração louco de nervos
ela de alma perplexa pelo destino
ainda não tinha amanhecido quando decidiram trocar de moradas
para poderem escrever
ele sentia que algo dependia dele, para desenhar o seu futuro
no papel da morada, escreveu ainda, trémulo, algo mais ...
ela sorriu mais do que naquela noite toda, e apenas respondeu com
a curiosidade sobre o que o tempo poderia estar a reservar

estava a amanhecer quando deram o primeiro beijo
...
__________________________

ela está a dormir agora
e eu estou feliz por ter esta história para recordar e viver

domingo, fevereiro 13, 2005

sem título



um tumulto silente
opostos pilares de nada
só a labuta de asas
quebradas pela ausência
Fev.12.MMV

3. sob um céu serial

Posted by Hello

lua errante



Apago os faróis. Projecto-me lá atrás, onde deixei de existir quando as estrelas me pegaram
ao colo. Chamaram por mim num assobio silente. Acenou-lhes a minha inglória imprudência.
A cada gesto corresponde um desejo. Ou são os sonhos que se desfazem em
perpétuos adiamentos do prazer? Apago os faróis. Respondo ao afago das estrelas
imprudentes. Penso-as em traços e figuras. Tento gritar-lhes que as conheço pelos nomes
mas não me recordo de nenhum. Espaçam-se a intervalos imaginários. São a revelação
da nossa nascença. Do nosso desamparo. Rogo-lhes que se apaguem uma a uma. E me deixem soprar a última. Uma, duas, doze. E de novo duas, três, onze. E tudo por milhões imaginários multiplicado e transposto. Olho o fantasma que deixei lá atrás quando fechei os olhos nos olhos fechados das estrelas. Num assobio silente deslizo por este céu invertido,
de alcatrão. Fecho os olhos, para acender os faróis. E evito o infinito que me condena lá do
alto. E conto mentalmente uma duas dez e outra vez cinco, nove...

10.01.03
(in a densidade das almas, 2003)

olhar

As coisas entram no campo de visão, cada vez mais
elitista, estupidamente - como um crítico musical limitado, um acrobata
cego. As coisas tentam habitar o olhar e
são expulsas pelo não reconhecimento do poder
dessa habit(u)ação silenciosa. Ficam outras. Outras ainda,
passam e regressam como filme rebobinado –
memória, afinal. As coisas desistem. Entram noutro
olhar. Voltam as costas à insensibilidade. A arte insiste.

Não haverá mais coisas um dia.

... ecoa pausadamente, tom circunspecto, o solilóquio das obras-primas.

Fev.12.MMV
(in a geometria da inexistência)

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

sem título

o muro do jardim ruiu no dia em
que brotaram as flores mais bravias

14.04.03

(in a incerta permanência da dúvida, 2003)

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

o triunfo dos insectos

(Não há metamorfoses reais) – É psicossomático
o vómito incontrolado. A goma de saliva que escorre, que
se passeia pelas mandíbulas abertas, que desagua no ventre escamado,
é um rio como outro qualquer. Não são peganhentas as polpas dos dedos, não
há mais do que dois olhos límpidos e sem morbidez. Não são asas
estes membros que almejam chegar ao topo dos abrunheiros, nem asas são
estes sonhos
frios e despovoados. Não são mortais as trémulas dentadas, os golpes
de língua, os beijos de louva-a-nós, de alva viúva. Perdemos.
Na peçonha que não deixamos nas coisas, na invisibilidade que ofuscamos com
os corpos deformados p’lo tempo.
Perdemos. Empatamos com o escorpião

– (mas transfigurações do mal)

Fev.09.MMV


(in a geometria da inexistência)

terça-feira, fevereiro 08, 2005

V

inunda-me
por momentos
breves
mas sólidos
meteoritos
aflitos
em queda
uma paz
que temo
de que fujo
(um sinal
da presença
de deus
debaixo
da almofada
em que
durmo)
hesito
em acordar
de súbito
pássaro
baleado
p’lo sonho
perverso
de um voo
derradeiro
(imerso
na neblina
do desejo
de que a
quietude
irrompa
em pranto
de novo
numa ânsia
de satanás
um beijo)

22.05.03

(in o mundo e um pouco mais, 2003)

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

o meu primeiro fractal


fria incerteza

que me perdoem os especialistas em matemática pela singeleza da tentativa, mas o fascínio por estes "seres" matemáticos permitiu-me o arrojo de tentar explorar o Tierazon, para a manipulação de um
Newton Variation 89: z=z-((z^5)-1)/(5*(z^4)); z= (z^5)*c;
Um dia saberei o que cada uma das variáveis z e c fazem neste mundo de infinitas perspectivas. Um dia. Por agora, o prazer da exploração da beleza, vista por dentro.

plúmbeo ego

num suspiro
arcano, demente
desenha-se a solidão

não é leve a certeza
não é rósea a angústia
uma esfera de chumbo
suspensa sobre o juízo

oscila sobre o quotidiano
não se lhe submete
não venera nem condena
não lhe é indiferente
não lhe é, simplesmente
oscila sobre o limiar da vida

não é certa a leveza
não é angustiante o rosa
que o sonho dá a esse outro
em nós, de nós, por nós, sem nós.


Fev.05.MMV

(in livro xiii)

sábado, fevereiro 05, 2005

sem título

há um equilíbrio
insondável na perda
osmose de afecto
provavelmente harmonia
(Fev.05.MMV)

antes do deserto, a ideia

paira
quase densa
ainda não esquálida
como o pensamento
órfão de razão, triste

não responde
não emerge
não acorre
está

é fome ainda,
(antes do desejo
antes do retorno
à disforme alma
universal)
a ideia,
antes do pulsar
inquieto que respira
a areia dos dias
o pó dos luares

Fev.04.MMV

(in livro xiii)


quinta-feira, fevereiro 03, 2005

I



o mundo está ali
adormeceu
dorme
não acordará

chego-lhe ao rosto
de sal
de pedra
um dedo
tímido e ousado
um afago
ora uma palavra amarga
ou um sopro inútil agora

lamento
não ter derrubado
a tempo o silêncio

tardo em aceitar a hora e
hesito em criar uma ilusão
de lençóis de flanela
num excesso de primavera

não encontro para mim
a oração que me redima
desta invisibilidade construída

dou mais um passo atrás
o mundo parece mais pequeno
e mais pequena a tristeza
de assim o perder

15.05.03

(in o mundo e um pouco mais)


quarta-feira, fevereiro 02, 2005

eco / reverberação / eco

não é um rugido não é um lamento não há morte onde as paredes devolvem o que partiu nem esquecimento onde a vibração cavalga sobre a onda anterior num caleidoscópio de sons sem dono sem memória não se dilui o que permanece não repousa o que se inquieta em reflexos nem desaparece o que retorna ao oráculo involuntário sem distância não há outro sem outro não há distância o oráculo inconsciente emite o que nasce para o reflexo inquieto que não repousa quando permanece sem se desvanecer na memória dos sons em miríades submersas sob as vibrações que não se deixam esquecer por partirem de encontro às paredes que concedem a imortalidade ao troar das feras e às lágrimas contidas

Fev.02.MMV

(in a geometria da inexistência)


o tempo

não são brumas,
as horas, queimadas
sobre incenso,
nem delírios de
poeta, moribundo
de um intenso
sofrer invisível –
são brechas, todos
os minutos, abertos
sobre a tela incolor
da paixão pela vida
e pela dor risível.


23.08.03
(in 2/3 e outros poemas)

segunda-feira, janeiro 31, 2005

crónicas de viagem

"Almas Cinzentas", de Philippe Claudel

Há lugares – espaço, tempo – onde a tristeza parece ter encontrado definitivamente o seu lar, o seu lugar.

Lírio-do-Vale, podias ter sido um corpo, uma vítima, apenas um corpo de menina, mais uma vítima, como o juiz Mierck fazia gosto em ressalvar nos gestos indiferentes e cruelmente frios, desumanos. Mas em épocas de morte anónima as mortes com nome inscrito doem numa dimensão diferente, à parte.
A tristeza apenas parece duvidar de ali pertencer, quando emigra para a nossa alma, também cinzenta no reflexo que a leitura nos imprime.

Philippe Claudel escreveu um livro triste - daquela tristeza bem intencionada que pretende acalentar sem iludir, daquela Tristeza com que Lysia cognominou o Procurador. Um livro sobre a herança dos instintos - uma herança pesada para quem deixa de ter outra vida que não essa para viver, outro destino que não aquele, traçado cedo demais. Lírio-do-Vale, Clélis de Vincey e Lysia Verhareine (para não acrescentar Clémence, que o próprio narrador hesita em colocar entre as restantes mortes), são os espelhos que devolvem à vida todo o cinzento que, já lá estando antes, se evidencia perante os vazios que estes nomes encerram com eles no túmulo. Mesmo assim, de todo o cinzento que habita o livro, as únicas cores vêm do passado relacionado com estas mulheres.
E não será sempre assim?

after "Funeral Blues"


after "Funeral Blues", W. H. Auden

Esta foi a expressão dada por Abstracto Concreto para o célebre poema de Auden. Para que possam também apreciar a sensibilidade deste criador, que nos encanta com riscos puros e tantas vezes duros, deixo-vos o poema e a sugestão de uma viagem ao seu espaço. Não se arrependerão.

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever; I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.

W. H. Auden

domingo, janeiro 30, 2005

(89)

Enfª Marisa
Mar.5.2062
__________

O cheiro de quase nada...
como se o vazio também tivesse sido um jardim
de cuja ancestral memória apenas tivesse podido subsistir este aroma
estranho e familiar. A limpeza do quarto
e uma ausência indefinível fizeram-me sentir mais intrusa
que numa cama alheia, ruborizada pela vergonha de viver
como se estivesse a comer frente a uma criança transparente de fome,
inquieta como se não fosse este o mais redundante pormenor
dos meus dias. Já não sei porque escrevo o que já sei. Porque não serei capaz
de inventar a vida que aqui deixo escrita?

O Professor morreu.
Duas horas antes de dizer “Olá, Mar!”
com o seu sorriso terno e azul, como não existirá
em mais nenhum rosto.

O dia continuou
passou
correu
parou
não sei. Não o vivi. Não o admiti em mim.
Não o aceitei da cor dos outros dias. Não...
__________

sem título

tempo comoção
senão verdadeira frágil
estão vestígio de medo
resoluto e belo

(Jan.25.MMV)

sábado, janeiro 29, 2005

aforismo #1


fractal by Doug Harrington


Não chames cego
a quem não vê de ti
o que não tens

sexta-feira, janeiro 28, 2005

5. uma tela sobre a morte

O manto tricolor que veste cada colina ao alcance da nossa estranha curiosidade, suporta
com uma paciência centenária o peso da nossa vida ignorante. Apenas nalguns instantes
irrepetíveis parece desvendar-se o mistério, nobre natureza subliminar de cada curva. Ali
uma perna máscula, de atleta milenar, conduz-nos a uma planície que se fez abdómen
e peito desse apolo invisível. Dos seios daquela ninfa, nasceram sobreiros. O próprio alcatrão
se molda indelevelmente aos contornos de dorsos e membros de animais míticos. Aquela casa repousa numa nádega de guerreiro, e aqueloutra numa madeixa do cabelo negro de antiga prostituta ou feiticeira. Cada vinha alimenta-se do suor do corpo que delira em noites perversamente eternas. O nosso olhar continua a desnudar cadáveres que posam gigantes para os pintores do espírito inferior. A terra amarela está envilecida pela saudade. Os sulcos castanhos já não são rugas, mas frestas doentes. Apenas o verde que nos comove permanece testemunha da vida que transborda ainda para o lado de cá.

13.01.03
(in a densidade das almas)

quarta-feira, janeiro 26, 2005

lume esfíngico

Sobre a mesa, o olhar
submisso - discernir
o reflexo (o deambular
no lago de vinho
esquecido)
do quadro que se espraia
no pó das paredes.

não o bebeu
(um fantasma
derramou-o) pela
ausência
de corporeidade –
razão peso timbre.

sob o olhar, a mesa
altiva - a permanência
contra a mutabilidade
dos ecos dos rastos
de ontem, de qualquer
invenção do desejo.


Jan.24.MMV
(in livro xiii)

limites possíveis da suspensão


fractal: flames


Refulgência apenas quando clarão
não sejas. Perpendicular do mundo tangente
a ti. Deslize biológico na sombra da evolução incerta. Refúgio
das agonias quando não alheias – imaginárias então, para que nasçam
outros, em ti, reflexos sem objecto.
Império de um só nome, território de casas mansas ou asilos. Veneno
incolor. Convite ao absurdo sem nó. Pó triste nos despojos
de um ontem qualquer. Revérbero intenso nas ruelas de solidão em chamas.

(insistência de vida num deserto. teimosia surda de sangue sem leito)


Jan.23.MMV
(in a geometria da inexistência)

domingo, janeiro 23, 2005

a vénia

Sento-me sem olhar muito em redor. Descer as escadas cansou-me. Não sei quanto tempo quero ter ainda. Fecho os olhos, e tento abstrair-me do ruído. Adormeceria. Mas sou sacudido por um grave estertor que me alimenta a curiosidade. Desci por isto. Por isto abro os olhos.

As carruagens sucedem-se numa amálgama de luzes e vultos desfocados, cuja nitidez aumenta com o chiar do ferro nos carris. Eles e elas saem apressados. Nem sempre é a necessidade de chegar a algum lado no próximo instante. Às vezes penso no medo que as pessoas poderão ter de ficar dentro da carruagem, como se alguma ameaça lá as esperasse. Mas deve ser apenas mais um fenómeno de grupo, e os poucos que precisam mesmo de correr, levam nesse impulso todos os outros, como nas religiões ou na arte.
O ferro recomeça o seu namoro de atrito quente, e revejo-me ainda algumas vezes nos reflexos cada vez mais impossíveis das janelas em movimento.
A súbita ausência de volume à minha frente cria-me uma sensação de vertigem horizontal, estimulada pela plataforma distante, do outro lado dos paralelos ainda trepidantes. Demoro alguns segundos a habituar-me ao cenário, quase irreal, que o silêncio agora preenche à minha frente. Apenas circulam na plataforma de lá algumas pessoas que, por isso, parecem conhecer-se bem.
Ele encontra-se de pé, numa posição relativamente ao limite do fosso que não daria para entender se ali se encontrava há muito tempo à espera, ou se teria acabado de sair num anterior combóio e apenas não sabe para onde ir. Contudo, sei que é a primeira hipótese a correcta. O seu rosto já me tinha ficado registado no espírito no instante breve em que olhei em frente, quando me sentei. Vira-se um pouco para a esquerda, ficando praticamente de frente para mim, como se se soubesse observado, mas não desejando o confronto visual. Noutra perspectiva, parece até olhar-me, mas daquela forma de perscrutar o vazio que alguns músicos têm, quando num recital ou concerto varrem a plateia com o semblante enigmático, e ...

... me fixo num ponto que, a ser uma pessoa, passa a partir daí a representar aquele outro elo de uma irmandade dual, que noutras circunstâncias chamaria apenas de compositor. Nestes momentos, ou melhor, a partir daqui, o concerto flui como uma discussão quase sempre indolor com essa figura distante. Estou então pronto a olhar para o chão, sentir o corpo apelar a uma desistência benigna, e começar inesperadamente a tocar. O violino nessa fase do meu desequilíbrio funciona como as varas dos equilibristas, que amplificam controlando as diferenças laterais de peso. Também aqui se dá essa compensação, que a literatura técnica chama de expressão ou intensidade emocional. O meu corpo balança-se, suavemente, mecanicamente ...

... como se a demorada espera lhe estivesse a dar cabo dos nervos, a destruir a paciência que todos levamos connosco em cada manhã para o labirinto do dia. Olho-o já com curiosidade, e não apenas com a antipatia que inexplicavelmente me tinha assaltado. Somos poucos, agora, o que nos devolve aquela sensação familiar tantas vezes perdida ao longo dos caminhos, de que estamos envoltos nas mesmas quimeras e derrotados pelos mesmos dragões.
Mais duas pessoas parecem querer fazer parte do seu ténue movimento, aproximando-se das linhas amarelas de aviso. É já aquela pressa, com o inerente engano de que sairão mais depressa da carruagem se estiverem há mais tempo preparados para entrar. Talvez não seja por outra razão senão a natural estranheza, mas lentamente se afastam do homem absorto no seu ...

... movimento que me embala e ampara, entre duas frases de igual importância. O público não deve ter nunca verdadeira consciência de que está perante apenas mais um mortal a criar a dupla sensação de imortalidade na companhia de outro mortal. Deve, sim, acreditar na plenitude espiritual do instante ali mumificado.
Há certas passagens que me fazem irritar quando as estudo em casa, e que nos concertos se revelam quase sempre novas, como que escutadas interiormente pela primeira vez. São as que dão menos prazer tocar. São as que me fazem sentir inútil. Como esta que agora vou começar, mal a orquestra termine a resposta à minha anterior dádiva. Prefiro nestas alturas fechar...

... os olhos. Às vezes também os fecho para poder contemplar a realidade como surpresa e não como imaginário construído. Mas não sei se é a mesma ambição que o move neste seu cego balançar. Começo a hesitar internamente entre uma atenção descuidada e um controle total das suas emoções. Não me sinto capaz de nenhuma das formas de estar, neste momento. Fecho igualmente os olhos, não pelo prazer de os voltar a poder abrir, mas pela incerteza que se instalou. Não chego a perceber de que cor era a escuridão, pois a trepidação regressou e do outro lado da estação, reacendem-se as rápidas cenas, como de um filme antigo, das carruagens em movimento decrescente. A fúria das pessoas em fuga trá-lo de volta, pois quase o derrubam na sua cegueira. Vejo-o do outro lado das janelas, que já se movem novamente, ainda devagar.
Desvio o olhar infantilmente quando me apercebo que sou tão observado quanto observador. Porque nunca aceitamos o óbvio? (Por o óbvio nunca ser verdadeiro? - penso). Deixo-me de criancices e assumo o meu papel de ser vivo, social, e todo esse blá-blá-blá pseudo-definidor de conjunto. Olho-o frontalmente, e sou humilhado pelo seu desinteresse. Não era propriamente para mim que olhava afinal. Parece que olhava para alguém que pareceu reconhecer...

... na antepenúltima fila da primeira plateia, ao lado do homem que dorme enquanto me esvazio de emoção na cadência. Parece mentira sentir-me capaz de analisar estas futilidades enquanto faço o que amanhã originará uma crítica fabulosa nos jornais da especialidade (onde se realçará a minha quase irreal concentração e inspiração em momentos de tamanha expressividade como este mesmo instante). Porque é que nunca acertamos com os verdadeiros estados internos dos outros? Porque o óbvio é mais seguro (sim, apesar de n...).
A orquestra pega na minha deixa triunfante, e sente-se de novo útil. No fundo, cada músico tem sempre o seu pequeno instante em que sente justificado o dinheiro do bilhete. E este momento é um deles. Não fora toda a orquestra reafirmar, confirmar, relembrar, o que eu acabei de tocar, a cadência ficaria tão ridícula e insolente como um choro de criança contrariada em frente a uma montra de brinquedos.
Nem o estrondo do tutti o acordou. Impressionante.
Estou cansado. Agora que não estou a tocar, consigo desfrutar um instante da beleza do concerto. O tema aparece agora lá longe, onde não estou, e isso dá-lhe um carácter tão sublime quanto inalcançável.
(A música diviniza-se no instante em que se liberta do peso da nossa alma). Quem a tocará nesses momentos?
Por momentos, não sei se já acabaram de tocar. Sinto-me como naqueles truques cinematográficos em que o sujeito fica aparentemente surdo, em que as imagens se passam muito desfocadas e lentas, e onde normalmente se pressente o aroma da tragédia. Já sei onde os realizadores vão buscar essas idéias. Não acabaram ainda, diz-me a quietude da maior parte da audiência. Suspiro novamente ...

... e volta a olhar-me, como quem sorri por detrás da expressão inalterada. Já não sei se sou eu que ainda estou aqui por ele, ou ele por mim. Poderia fazer a prova, levantando-me.
Levanto-me, e aproximo-me da linha amarela no chão. Pergunto-me sempre como calculam a distância onde pintar tamanha segurança. Agora que estamos mais próximos, instala-se outra irmandade que não a anterior. Outro elo. Outro abismo. Nunca mais cruzaremos o olhar.
“Porquê?” – apetece-me perguntar-lhe. Seria tão óbvio, mais uma vez. Que raiva!
Sinto-me estremecer de novo.

É o público que se manifesta exaltante, numa cerimónia quase vazia de sentido já, de gritar, aplaudir, fazer-nos acreditar no que criámos. O chão quase treme...

... apesar de ser apenas a sensação ilusória criada pelo ruído. Num filme veríamos agora a cena, na perspectiva do condutor, ou mais radicalmente através de uma câmara nos carris, à espera da luz ao fundo do túnel (mas de sentido metafórico invertido). Olhamo-nos sem disfarçar. Respiro irregularmente...

... não controlando o fluxo emocional de que nunca somos capazes de falar, porque só o conhecemos assim, nos derradeiros instantes. Olho-o, agora que acorda, e inacreditavelmente não lhe sinto um desprezo maior que à restante plateia. Neste momento todos representam novamente a mesma “outra coisa”. Avanço lentamente para a frente, para a boca de cena, com os cavalheiros e as senhoras da primeira fila a tentarem sorrir de forma diferente, numa cumplicidade que não existe. O estertor da orquestra a elogiar caracteristicamente o meu desempenho, incomoda-me. Batem com os arcos nas estantes, raspam os sapatos no chão, como se se retirassem teatralmente do mérito dos aplausos. Olho-os, de sorriso enigmático no rosto. E encaro a luz dos projectores que obrigam a semicerrar os olhos ...

... como se me perscrutasse a intuição. Como se me interrogasse também do meu porquê. Os carris entre nós são um duplo espelho. O combóio anuncia-se, num ronco já familiar. Não preciso de me afastar para trás da linha amarela. Contudo, num reflexo natural, a proximidade e a ferocidade do monstro de ferro faz-me recuar, como se me protegesse até das vibrações que já se sentem ...

... num tumulto de mãos, e bocas que tecem comentários ao parceiro, e olhares, uns felizes outros verdadeiros. Resta-me retribuir a falsidade com falsidade, a ilusão com ilusão. Jogo o seu jogo uma vez mais.

Vou deixar de o ver quando as janelas brilhantes se interpuserem entre nós. E a multidão sair e o tornar parte dela, ou ele entrar na outra multidão que segue e se tornar novamente incógnito. Vou deixar de o ver, no preciso instante em que ...

... me debruço para a frente, num ímpeto sem cerimónia, de quem agradece sem sentir o dever de agradecer. Num impulso brusco, deixo o meu peito pender e olho o chão ...

... e não vendo, sabendo, fecho os olhos sem conseguir sequer gritar.


Precisámos um do outro, num diálogo de deuses.


31.08.02


agora e na hora

na hora
em que morre
o animal – anónimo (invisível:
absurdo
por não ter do hipócrita
a estima fetichista
da figura do dono titular assassino) –
sucumbe ao peso
dos átomos sobre a vontade
ou à leveza
do corpo sob o vazio escuro

o anonimato da morte
fecha o ciclo da
ignorância
expõe exibe condena denuncia
a distância irracional
das moles de matéria –

indiferença então.



Jan.22.MMV
(in livro xiii)

sábado, janeiro 22, 2005

2. vitrais a preto e branco

O dia avança por ele adentro, de tempo em riste
num acesso de poder inusitado, e desonesto. Violenta-o
na sua inadmitida fragilidade, passeia-se pelo seu medo
como um turista a fotografar um altar, e conduz-se
atrevidamente aos meandros da sua vertigem de futuro,
destruindo o parapeito de esperança com que se resguardava
dessa queda abnegada. O dia passeia-se pelo seu medo, e destrói-lhe
a esperança. Fotografa-lhe instante a instante, a preto e branco, cada
trémulo gesto, cada desconforto ou delírio, cada futilidade. E cola-as num álbum
só seu, a que vai chamando ontem. O dia não sabe disso. Ignoto da própria
crueldade, desliza apenas como quem pensa morrer em cada poente. Avança por ele adentro, e atreve-se na sua vertigem de amanhã.


(in a densidade das almas, 2003)

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Diálogos Possíveis - I

Classes Laborais - Superiores e Subordinados



Sub. – Você é incompetente. Ponto final.
Sup. – Como? Atreve-se a repetir isso?
Sub. – E não reconhecer uma evidência como esta, a da sua incompetência, só pode revelar uma de três coisas...
Sup. – Veja lá o que está a dizer, ou terei de agir consigo de acordo com os direitos que me assistem...
Sub. – Típico... a Ignorância a puxar galões de autoridade para transformar a Mediocridade em Poder. Mas estava eu a dizer, se é que também não lhe falta, para além do resto, a boa educação de ouvir quando os outros falam, que não reconhecer uma evidência, e sendo esta a da própria incompetência, pode ser sinal de: uma estupidez simples de não ver o que é evidente, daquelas que não há nada a fazer senão lamentar que tenha calhado em alguém que infelizmente tenha alguma coisa a ver com a nossa vida; ou o não reconhecer a incompetência, que se subdivide por sua vez em duas hipóteses: ou não sabe que é incompetente, o que é gravíssimo em quem devia ser capaz de distinguir a competência da incompetência (coisa que não me parece ser de pedir muito a quem coordena, dirige, controla ou comanda); ou sabe que é incompetente e não o admite (demitindo-se, por exemplo), o que revela a má-fé que normalmente nunca é filha única nas mentes de integridade duvidosa.
Sup. – Você acaba de escrever oralmente a sua carta de demissão!
Sub. – Não comentando o absurdo do “escrever oralmente”, disparate que no meio dos do costume até passaria despercebido, lamento informá-lo de que tomar uma resolução de líder, como um despedimento, baseado na própria incompetência como justificação é um erro de meter dó e bradar aos céus.


(E brademos todos aos céus, ou pelo menos oremos para que qualquer semelhança com pessoas ou situações reais seja pelo menos, não podendo ser coincidência fruto da ficção, longínqua do nosso quotidiano)

quinta-feira, janeiro 20, 2005

evidente vacuidade do nome

Escorre uma ironia nos
teus lábios de marfim, desequilíbrio entre
o verdadeiro prémio e a glória que roubas –
fazes-te julgar na posse do que
lamentamos perder, e não tens mais
que um nome vazio – vazio o teu nome.

Não mora ninguém onde exaltas o negro
no teu olhar (não se reflecte nenhum pavor,
ninguém te segue, auto-proclamado e mudo oráculo).

Julgas conter o que anulas. Finges absorver
até o que pelo devir é dissipado em vida maior. Reverbera
em ti apenas o eco do nome. O eco vazio, repetido
à estridência – camada de nada sobre som nenhum.

Jan.20.MMV

(in a geometria da inexistência)

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Noite Transfigurada - Parabéns, Eugénio

Nocturno com Gatos lembrou-nos ontem do 82º aniversário de Eugénio de Andrade, bem como do silêncio que envolve os poetas e criadores, nestas datas pessoais ou de efemérides marcantes da sua obra. Se compararmos com a contaminação verborreica que move imprensa e instituições em torno da mesquinhez da política medíocre, o assombro é evidente. Deixemo-nos envolver então pelas palavras de Eugénio...



NOITE TRANSFIGURADA


Criança adormecida, ó minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
- chegaste,
nem eu sei de que horizontes.

Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
- ó minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.

Chegaste, noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que respiramos
nítida no ângulo das esquinas
- ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.

(in As Mãos e os Frutos, 1948)


(a quem o título do poema remeter incondicionalmente para a obra homónima de Schoenberg, sugiro a versão de sexteto, mais soturna e cristalina, simultaneamente, que a avassaladora versão para orquestra de cordas)

terça-feira, janeiro 18, 2005

a vã beleza de deus

visceral o encontro
com a subtil nudez de deus

polimorfismo (hiperbólico
diriam o próprio e alguns
alados da casa) sem pudor

sem que a vergonha
ruborize as faces diáfanas
ou que arfe o peito
pelo amor que não há
ele sublima o vício
(voyeur desonesto) e
espreita a miséria dos
corpos finitos, exibindo(
-se) apenas a ausência
- beleza comparável
de translúcida
à diabólica vanidade.

Jan.18.MMV
(in livro xiii)

luz em pó

sobre a cómoda resta um fio
que o existir das coisas
não consegue quebrar – só
refractar (
o frasco de perfume há mais
de vinte anos bem pesados,
um santo, outro, aquele
iluminado, uma maçã
que não está ainda mais
engelhada que as do cesto
ao lado, um homem antigo
daqueles que sabemos
terem morrido mesmo
que vivos, fotografia nunca
olhada com amor,
uma caixinha, minúscula
para os comprimidos que
dali a vida tem tirado, um
livro, orações que usei para
a ajudar a dormir nas asas
de deus, uma caixinha que
nem ela soube nunca para
serve, um retalho de pano
que servirá para o quase
imperscrutável, e pó
)
- pó que reflecte sem
refractar a luz das frestas
da persiana suja.

para a minha avó, que fez 91 anos

(Jan.17.MMV)

nota sobre crime em linha recta...

a orgânica do declínio, o amor em queda livre, teatro de pele e crime em linha recta, espiral invisível são os primeiros poemas de um conjunto intitulado A Geometria da Inexistência, nome pelo qual serão identificados os poemas que a estes se somarem ao longo do tempo. Constituem portanto um ciclo distinto do anteriormente mencionado livro xiii. Sempre que forem publicados outros poemas ou textos que não integrem nenhum destes grupos em construção, serão devidamente datados e identificados segundo o nome do livro a que pertencem.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

crime em linha recta, espiral invisível

Lembras-te de quando sentiste
pela primeira vez o peso da consciência fratricida? Ocorre-te,
quando acordas, recuperar o perdão? É indolor já
a tenacidade com que despontas do crepúsculo,
indelével talvez? Foi por acaso violentado
o céu, e és filha de um deus que fugiu? Precisavas de aniquilar
o sangue de luz a correr pelas horas?
(Tinhas de ser filha única. Não suportaste a ameaça
da comparação de cores, dos brilhos, das reverberações. Foi-te prometido
um jardim que não há. Não toleras a verdade, mas
não existem deuses deste lado)
Lembras-te, noite, de quando choraste pela primeira vez?


Jan.17.MMV

notas sobre o Diabo


The Fall of the Rebel Angels, by Pieter Bruegel

O último post constitui a terceira e última parte de um "tríptico" ... para agradar ao Diabo. Foram todos publicados aqui, e podem ser lidos na íntegra a partir do post de 03 de janeiro. "... para agradar ao Diabo" é o grupo de poemas que abre "livro xiii", título do conjunto a que pertencem também "flor íngreme" e "grão", igualmente publicados por estes dias. Os poemas que se lhes juntarem serão identificados no final por "livro xiii", para os distinguir de outros textos, recentes ou já datados.

... para agradar ao Diabo: terceira parte – cristais para lúcifer

I
Estaco, quedo-me
resoluto - decido (pel)o
silêncio.

II
Aprecio o deambular
sonâmbulo, do hipnotizador
sodomizado pela própria cauda.

III
Esvaio-me, um sorriso,
malícia sobre sangue, esperma
derramado em vão.

IV
Toco o vermelho sem
repulsa sem desejo
sem indiferença.

V
Acasalo com o demónio
sem contraceptivo
– o domínio silente.

VI
Ele toma a forma de
serpente, eu reinvento-me
covil e vara - antídoto envenenado.

VII
Metamorfose em corpo
de mulher, cadáver, imagem
- resisto, não definho no nojo.

VIII
Vagueio pelo corpo corrompido
como pelo virginal – cubro-o de
de saliva como de sémen.

IX
Passeio pelas entranhas da luz
(decrepitude última que o fim
admite) – “Sentes-me? Dói?”

X
Não te chamei em vão
nem foi a ambição móbil
faustiano da invocação silente.

XI
Vejo a tua morte num assomo
de lume aos olhos que me inundam
desta destemida volptuosidade.

XII
Cedeste tarde ao prazer que
injectaste, esvais-te cedo no amplexo
que te nego, ego saturnino.

XIII
Queda-te tu agora (infinito e
esquálido), seco pelo vento árido
que te prolonga o uivar eterno.

último cristal
Oco de ti, sobrevive pouco
do brilho que enunciou o canto
- ecoa livre agora, o silêncio.

domingo, janeiro 16, 2005

teatro de pele

O gesto nunca chega, o braço recusa
o contorno desavergonhado do impossível. O corpo sabe a lógica da emoção
proibida. O sonho conhece-a também -
semântica secreta do fio
de lume subliminar do desejo.

(O corpo sacrifica à linguagem o imaginário nu e indefeso, numa entrega
desonesta interesseira premeditada sobre o prazer antecipado)

A vereda do ventre continua deserta, onde habita ainda a mão cega.

Jan.16.MMV

pedaços de letras... de Philippe Claudel


Philippe Claudel

“Não sei muito bem por onde começar. É bastante difícil. Há todo esse tempo passado, que as palavras não recuperarão, e também os rostos, os sorrisos, as chagas. Mas ainda assim preciso de tentar dizer. Dizer o que me vai no coração há vinte anos. Os remorsos e as grandes interrogações. Preciso de rasgar o mistério à faca como um ventre, e de o remexer com ambas as mãos, mesmo se não mudar nada de nada.
Se me perguntassem por que milagre conheço todos os facto que vou contar, responderia que os sei, ponto final. Sei-os porque me são familiares como o entardecer e o nascer do dia. Porque passei a vida a querer juntá-los e alinhavá-los, para os fazer falar, para os ouvir. Outrora, era de certo modo o meu ofício.
Vou fazer desfilar muitas sombras. Uma delas, sobretudo estará em primeiro plano. Pertencia a um homem que se chamava Pierre-Ange Destinat”
(in Almas Cinzentas, Philippe Claudel, trad. Isabel St. Aubyn, ASA 2004)

POR ONDE ANDO...

I - Os livros que acompanham os dias presentes,
espalhados pelas horas que esperam por mim em lugares incertos.



Almas Cinzentas, de Philippe Claudel – uma sugestão de leitura que aceitei pela possibilidade de instantes de pensamentos partilhados. Ainda li demasiado pouco para poder emitir um juízo que não o interesse estimulado pela forma de contacto directo que o narrador estabelece connosco, talvez um dos atributos que tenham proporcionado ao autor o Prémio Renaudot 2003.

O Fio das Missangas, de Mia Couto – outra forma de fazer nascer palavras das mesmas coisas. Simples, com o encantamento que é reconhecido à escrita de Mia Couto.

Para Além da Morte, de John Galsworthy – leitura mais descontraída, embalada pelo realismo inglês, em pedaços que respiro quando nada mais parece apelar ao silêncio da leitura.

O Conceito de Amor em Santo Agostinho, da Hannah Arendt – não esquecendo que é uma dissertação de doutoramento de uma das maiores pensadoras do séc. XX, não deixa de ser uma delícia que poucos livros proporcionam, a erudição no feminino, delicada e profunda, exigente e livre. Um passeio inesquecível...

As Confissões, de Santo Agostinho – apesar de ainda só ter lido até ao livro VIII, até onde se descrevem ainda muitas das vivências anteriores à conversão e à entrega a Deus, é um dos textos que apetece beber até sermos capazes de dizer de nós mesmos aquelas verdade. Mesmo o impossível parece estar ao nosso alcance, ainda “sermos” homens e mulheres ao alcance do pensamento. Do mesmo autor, acabei na última semana o seu brilhante Diálogo sobre a Felicidade, que recomendo também.

História da Filosofia IV, de Nicola Abbagnano – um clássico que não tenho dispensado. Não o leio com o fim definido de preparar um exame, nem com o estímulo de conhecer a fundo os pensadores ocidentais, e não só. Tem sido uma leitura pela ajuda organizada e descomprometida que a sua linguagem de pedagogo dá na arrumação cronológica de eventos e homens, livros e revoluções no pensamento da humanidade. Acabei ontem (dia 15) o terceiro volume, aprendendo muito sobre a filosofia árabe e judaica, que tanto ensinaram ao Ocidente sobre Aristóteles, e tenho o quarto tomo a fazer beicinho por ainda não o ter desflorado. Apenas o marcador já dirige o seu lugar para Alberto Magno.

A Angústia da Influência, de Harold Bloom – tem sido um livro duro de fruir, um desafio, uma luta. Lembra-me de como me senti quando li a primeira vez a Obra Aberta. É daqueles livro que ainda sinto que se pode dar ao luxo de escolher o seu leitor, e tenta ironicamente chamar-me à sua leitura para me dizer devagarinho e com sadismo, que não sou ainda um leitor para si. Mas a minha teimosia por vezes é insensata. E tenho entrado no jogo. Leio, lentamente, como quem disfarça o desejo de o devorar, com medo de denunciar a ansiedade ou o temor de chegar depressa demais ao fim e sentir o gosto amargo de reconhecer que não devia ter lido ainda.




Rembrandt: Philosopher in Meditation (1632)


II - Impostos pelo estudo que a presente época académica intensifica, deixo-me perder ainda por:


Meditações Metafísicas, de Descartes – Depois das Regulae, e do Discours, as Meditações são uma leitura mais prazerosa. Não fosse o trabalho que tenho de fazer, o prazer seria ainda maior.

Categorias, de Aristóteles – já em fase final (de leitura, não de integração), é sem dúvida um grande texto, de interesse geral sobre a organização do pensamento e das coisas. Não tenho a certeza de estar a ler uma excelente tradução. Desconfio que não. Mas o apetite de continuar em busca da compreensão não é abalado por acidentes desta natureza.

O Conhecimento e o Problema Corpo-Mente, de Karl R. Popper – ainda comecei a ler antes do Natal, mas só agora me encontro com disponibilidade de continuar. Estou muito curioso para penetrar na justificação de Popper da função de chave-mestra que ele atribui ao seu Mundo 3.

Do Cancioneiro de Amigo, de Stephen Reckert e Helder Macedo – Cantigas medievais como significantes poéticos de significados antropológicos – um outro olhar sobre a imagética medieval, dos mitos e ritos que a nossa poesia de excepção permite sublimar em versos de aparente ingenuidade. Grandes ensaios e análises de texto.



III - Os livros de que nem me dou conta de andar a ler,
de tão naturais que são os minutos em que neles tenho repousado:



Teoria Literária, org. de Marc Angenot – ler devagar, tema por tema, problema a problema.

Dicionário das Ciências da Linguagem, de Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov - referências incontornáveis da teoria literária e linguística

Source Readings in Music History: I. - Greek Views of Music – o Platão e o Aristóteles que ouviam música.

A Linguagem Harmónica do Tonalismo, de Christopher Bochmann - professor de quem guardo boas memórias, e cujo trabalho continua a ajudar-me a organizar as minhas aulas.

O Declínio da Idade Média, de quem não precisa de apresentações - Johan Huizinga é mestre na arte de fascinar, seja que esfera de pensamento for.

História da Literatura Portuguesa, de António José Sariava e Óscar Lopes – como o Abbagnano, leitura de longa duração, sem destino, sem pressa, ao sabor do tempo.


Ein-Blick (aquarell 54x62), by Birgit Blumenstock

um livro por escrever

Através das cortinas sujas, diáfanas apesar disso, consegue observar a desorganizada aleatoriedade das pessoas que dia após dia lhe passam diante da janela. Nunca a sua memória visual lhe permitiu reconhecer alguém (embora admita que possam ter havido casos, espera que poucos, de pessoas lhe terem passado despercebidas ou inadvertidamente irreconhecíveis). Já não sabe o que ali faz, horas a fio, mas continua na convicção plena de que algo ali espera por si.
Escreve em folhas sujas - sujas de tinta em descuidadas pinturas e sombreados, sujas de pó pela ausência de palavras, sujas dos rastos deixados pelos insectos que consigo privam e ajudam a devorar não só os encadeamentos dos segundos, como também os resquícios de papel resultante de inúmeras rasuras. Mas no meio deste labirinto que viola a desejável brancura do receptáculo literário, sempre consegue encontrar um canto onde anotar cada nova descrição.

Almoçou parcamente, como de resto acontece com todos os momentos vitais da sua presente existência. Deixou-se cair novamente na poltrona que, desde o dia em que a comprou à família do vizinho falecido, acredita proporcionar o contacto misterioso com uma certa forma de dormir, necessária à sua tarefa diária – um dormir de olhos despertos, um sono de guarda vigilante, que revê no sonho confuso a dança de rostos desfocados apreendidos durante a manhã. Apenas o leve roçar de alguns sapatos na calçada lhe faz tremer levemente a dormência, mas retorna de seguida o estranho sono, até acordar pelo despertador interno que lhe diz que a matéria anda à solta e é preciso trabalhar, o que acontece quase sempre de manhã e ao fim da tarde, horas de maior afluxo de deambulantes almas à mercê da sua janela de olhos atentos.

Com sapatos de roçagar leve pelo chão, submissos e arrastados, em cadência quase morta, o vulto que mais perto se encontra de si e dos seus olhos no vidro é um homem ainda novo. Em tanta gente uniforme e monotonamente igual, já quase nada lhe permite distinguir da multidão um ser individual por alguma característica especial. Quando tal acontece, o punho começa a tremer levemente, e a alma tenta respirar silenciosamente para não acordar a ansiedade que ao lado espera. Nesse momentos sabe que escreverá uma frase, uma descrição breve que seja, um suspiro em forma de palavra, qualquer coisa, mas influenciado pela característica observada.
O homem que esta tarde lhe perturbou o sono a ponto de pensar que ia escrever, apenas se distingue da alucinada nebulosa viva, pela incongruência do seu vestuário com a leveza do andar. E pormenores destes acabam por não chegar para escrever seja o que for. É daqueles casos em que a ideia fica no espírito a acumular com outras não realizadas, à espera que o conjunto suficiente de pormenores mereça o esforço de violar o vazio, arriscando a perdição da inocência do não-escrito.

Apesar de tudo, não é uma pessoa distante do mundo.

Ouve também muito bem. Por vezes, joga toda a sua confiança na audição. Deixa-se estar de olhos fechados, mesmo depois de saber que os devia abrir. Mesmo por saber que a material transmutação das suas personagens anda lá fora, deixa-os estar fechados e testa-se nessa coragem angustiada. Cada som de vestido esvoaçante, cada murmúrio de passos distantes, cada assobio de passagem veloz, se podem tornar sinais de presenças a reter.

Tem ao lado da poltrona uma estante de madeira, muito velha também. Cheia de livros que não abre há muito tempo. Nem sempre leu muito. Há alguns anos que a vida se tem organizado em torno da ilusão da escrita, e não da miragem da leitura. Antes, em cada vulto reconhecia algum traço de um personagem lido, e revivia nesse momento a alegria de partilhar com um grande escritor a revelação da universalidade do ser humano, como se em todos e em cada um de nós um livro já escrito se desfolhasse a cada dia volvido.
E não é em destino que pensa ... seria em poesia metafísica, se pensasse nisso.

Quando arrisca escrever uma palavra, sabe o peso que a tinta exerce na sua alma, mais do que no papel ansioso, à sua frente. Ao tentar iniciar uma descrição, pondera primeiro a forma como relacionará determinada particularidade observada com outros aspectos que queira atribuir a um ou outro transeunte. Porque não só do observado se constrói uma imagem...

Escreve desordenadamente... dolorosamente, ordena de novo o branco em pinceladas de censura e desilusão.

Anoitece lentamente...
...

Um passo ...

Acorda sobressaltado ...

(17.07.01 - rev. 2005)

rainy night, by Michael J. Russell

sábado, janeiro 15, 2005

ontem, o céu

naquela apenas
solitária, não morta
ou silenciosa,
madrugada
vieste embrulhada
em nuvens e choveste


22.12.03

(in Horizontes de Ouro, 2004)

sexta-feira, janeiro 14, 2005

... para agradar ao Diabo: segunda parte - a invocação silente

II
Na esfera do reduto
final do grito iniciático
ergue-se uma sombra
uma dúvida, inquieta
paixão pelo derrubar
sem dó do preconceito
e da descrença vazia.

Desliza nos bicos
dos pés, dilacera o ar
com esgrimas de viuvez,
afila o sorriso negro
num gume sarcástico
de vitória antecipada.

Julga fortuna a desdita
do chamamento de sereia
em que a metamorfose
da culpa me transforma.

Assoma às ameias da
alma suplicante com
tréguas nas narinas e
golpes de olhar nos
lábios, trémulo, a baba
enunciado, eloquente,
a volúptia do sangue
prometido no grito
em fingida agonia
renascido, edificado.

Sabe que perdeu, que
perde sempre que aceita
o desvario de quem
o invoca –desocultamento
da sua impotência
face ao desejo de
servir a súplica do
desesperado. Perdeu
porque se vulnerabiliza
ao poder do sacerdote
profanador do mal.

“Acede ao meu temor
vem à pele ensanguentada
beber a tua vida, e aqui
exercerás o último resgate”,
proclamo, derrotado e
silenciosamente triunfante.

o amor em queda livre

Ela murmura ainda, como num rascunho, uma experiência de despedida adiada
antes de desligar - um “sabes...”, um “espera...”, um “tenho ainda tanta coisa para...”, um “foda-se...”.
O diâmetro de um círculo mede-se com os olhos fechados.
O olhar foge à perfeição e à completude. Para o número redondo
é preciso escutar o tempo entre duas interjeições banais. Medir é caber, primeiro,
e comparar com a ausência, depois. Ele suspira, como um olhar gélido de cansaço a descer por um rio sujo, suspira sem som, sem comunicação. Sem sentido. Sem um “diz...”, sem um “falamos depois...”, sem um “é tarde...”, sem um “foda-se...”.
O volume de uma esfera é medido pelo tacto, pela palma da mão
sobre a pele das nádegas, pela profundidade a que os dedos se perdem, pelo cheiro que transborda das narinas para fora. Caber, primeiro. Deixar de estar, depois.
Não comparar. Cair.
A palavra e o corpo. Geometria do indizível e do impalpável.


quinta-feira, janeiro 13, 2005

quarta-feira, janeiro 12, 2005

a matilha

Como num dia de outono, a luz incide-lhe nos olhos, a uma certa distância, ao de leve. Paira um pouco antes de lhe lamber o rosto, mas acaba sempre por beijá-lo docemente. Dá-lhe uma nuance pálida aos contornos, mas enobrece-lhe o olhar, já que para recebê-la ele os deixa por alguns instantes vazios – abertos, mas vazios. Encantadores. Mais do que a sua consciência consegue projectar para fora de si, sente-se mal. Olha em frente sem ver, pensa sem existir fora do pensamento.
Apercebe-se da minha presença e respira de cansaço.

Ao longe, as nuvens desenham corvos azuis claros e unicórnios. Na sua mente qualquer construção natural tem o seu quê de inexistente e fantástico. Porque o real tem sempre o mistério de não ter ainda existido.
- Mais um dia assim – diz-me, numa apatia familiar, sem se voltar.
- Mais um dia assim – replico com tranquilidade, sem desviar o olhar dos unicórnios.

(São lobos)

Abraça-me, como eu o tivesse pedido, mas sem me encarar, sem me deixar mexer, sequer. Estamos sozinhos, perante árvores distantes, relva húmida, sol inquiridor. Mas ainda me toca como se de uma oferenda se tratasse, uma generosa aplacação do meu desejo ou da minha sensibilidade.

Aos quinze anos ele já sabia sobre o que é que o sol perguntava com tanta insistência. Eu só mais tarde compreendi o julgamento celeste. Os nossos desaguares foram recebidos nos antípodas dos afectos – os meus amigos são meus amigos; os seus ex-amigos são estranhos com nome. Moveu-os o comportamento fácil da incompreensão, ou o mecanismo mais complexo do medo. Os meus escolheram o labirinto da turbulência relacional, mas navegaram por esse mar de dúvidas com a resolução de uma questão pessoal – se tinham fantasmas pessoais a respeito da sua identidade, enfrentaram-nos e sobreviveram. Os seus ex-amigos, sucumbiram aos seus fantasmas sexuais, e continuam sem saber como lutar se um dia a tempestade não for bater à porta ao lado.

- A que horas chegaste?
- Há praticamente duas horas. Ainda não fui a casa. Calculei que estivesses aqui. Queres ficar sozinho?
- Não. Acho que não. Quer dizer, não sei se quero ficar sozinho ou não. Mas, pelo sim pelo não, fica. Posso descobrir, entretanto – acaba por dizer, sorrindo, e pela primeira vez depois de três semanas sem nos vermos, olha-me e beija-me, como se já tivesse encontrado a resposta.

Depois de algum tempo sem pensarmos em mais nada senão no nosso idealizado futuro e no banal presente, começamos por vezes a querer vasculhar o passado, passá-lo a pente fino. Queríamos descobrir um gesto, uma palavra, um dia diferente, uma oferta, um abuso, um trato, um carinho, algo... Fosse o que fosse, acho que nos satisfaria. Depois de alguns anos deixamos de ambicionar a verdade. Serve-nos o que encontrarmos. Nessa altura duas coisas podem suceder: encontramos algo que achamos digno de nos reprimir o sentido de culpa por um número de anos que consideremos suficientes; ou não encontramos mesmo nada, e temos de construir para nós um novo passado prenhe de coisas a encontrar se procurarmos com determinação teleológica. Na melhor das hipóteses não temos consciência de qual das duas situações nos corresponde. Na pior, sabemos ser uma delas e estamos conscientes da infelicidade que esse conhecimento comporta.

Retribuo o beijo, sem desejo, sem vontade de pensar nos porquês da indiferença. Sei que ele prefere assim. Não saber que não se é amado faz com que o tempo pareça distender-se à nossa frente até decidirmos olhar para a verdade. Saber que não se é amado faz caber a eternidade numa hora, como o Blake pensava que sabia.

(Somos lobos)

- Não vou ficar muito tempo, provavelmente. Acho que está a ser ridículo demais para a nossa condição e idade. E mais ainda para o que pensamos de nós próprios e mutuamente. Tens pensado no vazio que nos espera?
- Não. Tenho pensado no vazio que habito. Como tu, pelos vistos. Que vazios temes tu ainda?
- O anonimato e a vulgaridade. Ambos definições do passado, ambos à nossa espera. Eu pelo menos só encontrei um nome em ti. E sei que perderei o meu quando sair.
- Voltar a ser uma boca ou um pau apenas, às escuras ou debaixo da luz amarela refractada no pára-brisas embaciado, não será propriamente original, mas talvez por isso mesmo não me assuste. Assusta-me poder não reconhecer de novo becos sem saída como o nosso.

Não me emociona ouvi-lo mentir. Como não me emocionou antes dizer a verdade. Afinal de contas ambos sabemos que a emoção maior vive sempre fora do que se vive emotivamente. O que se vive com entrega nunca pode ter nada de precioso, ou a eventual perda surgiria como uma ameaça que ninguém ignoraria. É estúpido pensar assim, sabendo que não se tem razão no que se pensa.

Os corvos clarearam ainda mais, não sendo mais que alguns riscos brancos já, penas soltas. Ele levanta-se. Passa-me a mão no cabelo. É uma despedida típica. Como se nos fôssemos encontrar logo à noite em casa, depois de cada um ter ocupado parte do dia na camuflagem diurna da cidade. Sem me voltar, ouço a porta do carro fechar-se. Pelo arranque, percebo que palavras não me disse. No cavalgar do último unicórnio ouço as palavras que eu próprio não quis dizer.


(Sem lhes vestirmos a pele)

...para agradar ao Diabo: segunda parte - a invocação silente

I


Oxalá o dia não nasça
um dia, e só ameace
espreitar por detrás de
uma manta de sombra.

Quem sabe o que eu
veria nessa velada dança
de um dia coberto de
pó areia cal ou cinza.

Centelhas de imaginário
se cobririam de ouro
ou de pólen, que é ouro
para brincos de mel.

Oxalá o coração pare
num silêncio teatral
num suspiro fingido
de surpresa ou ânsia.

Quem sabe o sabor
do erguido instante
acima do ruído vital
e da alvorada escura.

Um exército onírico
me derrubaria de mim
abaixo, como árvore
pelos ventos do norte.

Oxalá não sinta outro
inferno a nascer-me
atrás de cada instinto
nem dentro dos sons.

Quem sabe o que dirá
o Diabo, assim invocado
sem aviso nem piedade
por este nado-morto.

Palavras impetuosas, as
que bramará por esferas
abaixo, até estrangular
o meu atrevido gemido.

terça-feira, janeiro 11, 2005

A recordação de coisa nenhuma

Dentro de poucos minutos o concerto estaria a começar. Estava no meu lugar, como quase todos os outros elementos. Como em quase todas as vezes, inundava-me a letargia profunda que só se dissolveria em breves momentos, fugazes, numa ou noutra peça, caso do programa constasse alguma obra que me enlevasse ao ponto do exorcismo. Em todas as outras alturas, como esta, o estado de dormência espiritual manter-se-ia ao longo do concerto, ou agravar-se-ia até ao limite de uma fobia ao som, uma fobia de música, de espectáculo, de público, que me faria regressar, terminada a performance, a um alívio de silêncio e de introspecção sem rumo mas desejada.

A poucos minutos do início do concerto, já com o instrumento montado, com algumas notas emitidas, para enganar os lábios e os fazer sentir relaxados e eficazes, dei por mim numa paralisia (in)voluntária, ou in(voluntária), caso assim se entenda melhor a ambiguidade da vontade.

Tenho por hábito remeter as crenças místicas que envolvem os sentidos e a razão, para a quadratura a pontilhado dos produtos da criatividade intelectual – como mais um elemento do mundo 3 de Popper. Não tenho por hábito, assim, valorizar os comportamentos misteriosos, mesmo que do meu próprio espírito.

Desta vez suspendi o meu juízo mental sobre tais fenómenos e, talvez por força da necessidade de escapar à inevitabilidade da fuga impossível, comecei a anular todos os sinais da minha presença e, simultaneamente, da presença de tudo o que me rodeava.

Naquele momento, tinha algo no meu colo. Penso que um livro, talvez uma partitura. Os meus olhos dirigiam-se aparentemente para o seu conteúdo. Mas na verdade os meus olhos eram os meus ouvidos, os meus pulmões, os meus músculos, o meu coração. Os meus olhos eram a única coisa que eu acreditei, naquele instante, existir ali, de mim. A sensação é comum a outros momentos, mas ali adquiriu uma função terapêutica, ou uma anti-função, dado que constituiu um atenuar de sensibilidade e dados vitais. O corpo atingiu uma imobilidade que não me recordava de já ter alcançado. Os músculos pareceram decidir respeitar um minuto de silêncio, numa atitude de reverência para com a estaticidade da mente, como os amigos de um defunto, em redor do caixão, antes de para os cigarros e as anedotas típicas de todos os velórios. Só os olhos viviam. Sem ver. Tenho de acreditar que os pulmões tenham continuado a representar o seu papel, que o sangue tenha conseguido manter o seu rumo no seu leito do costume, que o mais recôndito espaço intestinal tenha cumprido a sua razão de existir perante o jantar. Tenho de acreditar em tudo isso com uma fé mais intensa que a necessária para acreditar em Deus (porém, não tão enigmática e majestosa como a que recrutamos para acreditar na Morte).

Senti-me possuído por mim. Num sentido desabitual da posse de nós mesmos a que nos habituamos. Senti-me possuído pelo que de mim costuma diluir-se no que de mim possui outras coisas, dos sons aos movimentos que rodeiam qualquer minuto de vida. Senti-me possuído por nada mais que mim mesmo. Eu era só o meu olhar que não olhava para nada. Era só o meu olhar, que em vez de ver, respirava, tremia, pulsava, ouvia, abraçava o silêncio, gritava de músculo para músculo ordens inconsequentes.

Como um buraco negro à escala da realidade que me rodeava, tudo foi absorvido pela expulsão do meu olhar. Deixei de ser ali para que o próprio ali fosse eu - o meu olhar cego.

Mesmo assim, senti descolar-se de mim, deste olhar grávido de escuridão, uma outra consciência que me colocava ligeiramente atrás de mim mesmo. Podia intuir o meu olhar, vê-lo por detrás da própria visão, espreitar por cima dos ombros dos olhos e aceder ao que o olhar surdo e quieto me ocultava. Intuí assim a presença do maestro no estrado, a ovação que o recebeu. O início do concerto foi-me dado, clandestinamente, por este outro sentido, por esta possibilidade de passar por mim até ao real sem mim. Confiei nesta percepção difusa e levei o clarinete à boca, aos lábios já quase esquecidos da sua função antecipadamente preparada. Os sons de reminiscências espanholas, de um pseudo poema sinfónico de má qualidade, ecoaram na sala e confirmaram-me a necessidade de tocar. Toquei. Lá, e algures entre lá e mim.

Na viagem de regresso a casa, tento recordar-me do repertório, da reacção a cada obra, do final do concerto, dos aplausos do costume. Nada. Apenas a memória daquela lânguida ausência de breves minutos. É a recordação mais vívida, a de coisa nenhuma.


um passeio pel'O Navio de Espelhos

deixo aos leitores que por aqui passem por estes dias a sugestão apresentada por Divas e Contrabaixos, de um encontro na Livraria O Navio de Espelhos, em Aveiro. Para informação mais detalhada, deixo o link (perdoem-me não saber apresentar o link de forma mais profissional :) , mas assim não se perdem por esse espaço fora)

http://divasecontrabaixos.blogspot.com/2005/01/bloggers-vossa.html

Pela qualidade e profissionalismo deste blog, não hesito em remeter-vos a ele.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

grão

vincos que o tempo
alisa. perde-se
a rugosidade - fica um grão
uma filigrana de dor. espasmos
sem pulsação. só pulsão
vómito agonia.

(vibração de dentro
para dentro fora
de tempo à margem
do tempo em vão)

rugas dobras
uma conivência com
a textura das flores violentadas.

Jan.08.MMV