I
Ao fundo, o negro das roupas que vestem o silêncio confunde-se com as paredes nuas e sujas. Mesmo a luz que consegue tenebrosamente entrar, apenas contribui para o contraste dos cinzentos (quase amarelecidos, é certo, em algumas horas do dia).
A regularidade a que os bancos corridos se distanciam faz-nos recordar as ondas, as nuvens, os socalcos ou os telhados dessa cidade que já não há – cidade invisível, dos nossos sonhos de ontem...
De cada lado, as figuras perguntam-nos silenciosamente as horas, ou melhor, questionam-nos sobre o tempo (pois para a eternidade da pedra ou da madeira o tempo é o único assunto que realmente lhes importa). Os seus olhos levam-nos sempre a tentar localizar historicamente a sua origem, como se o sofrimento que lhes deu “vida” pudesse ter outra explicação que não os vícios da nossa própria falta de fé, a maldade sobre-humana de alguns de nós ou a miséria escondida nos intestinos da alma de todos. Mas quando paramos muito tempo diante de cada uma destas santas representações, a infantilidade do espírito ultrapassa a mera contemplação e quase nos deixa voar pelo imaginário, que está sempre iluminado pela presença ingénua da esperança.
Sob os nossos pés, aqui e acolá, emerge um grito abafado até então pelo pó da história. Nessa altura escutamo-lo encantados, como se sempre tivéssemos sabido que da morte se levantam hinos surdos, à nossa procura, e que nem a pedra que se lhes assenta em cima os faz cair na luz do silêncio.
Em cima, o céu deixou-se esculpir na pedra em formas severas – como se Deus se estivesse sempre a espreguiçar, para com os braços eternamente abertos melhor nos guardar e proteger; ou ainda, para de forma piedosamente infeliz nos tocar a todos com carinho e nos fazer acordar do sonho de existir sem Ele.
As roupas que vestem de negro o silêncio movem-se imperceptivelmente para junto do leito macabro, almofadado para conforto dos vivos na assunção de cumprido o atemorizador dever para com os mortos. O jardim que em redor se desenvolve, em formas curiosamente circulares, quase faz esquecer o significado da cor das faixas de seda que o ornamentam.
O morto, como cidade invisível também, repousa de olhos por outrém fechados, e espera...
nota do editor do blog:















