quinta-feira, abril 21, 2005
o velho paradoxo
Sem a hipótese do livre arbítrio quanto ao ter acendido esse cigarro, não poder dizer à partida “não, obrigado, eu não vivo”, como vencer a tentação de lamentar o poder do seu sabor ao preço que o tempo cobra?
Haverá vida de enrolar em mortalha? Existência de rapé? O que será um cachimbo? O próprio mundo que aguarda a erva aromática do nosso sangue, da nossa mente? Para desfrute de que fumador compulsivo?
Abr.02.MMV
(in a geometria da inexistência)
segunda-feira, abril 18, 2005
ex-libris da tugosfera
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro em branco aos olhos do poder – um poema para os despertos.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Desejei muito que a Agnés da “Imortalidade” existisse de facto. Não me apaixonei por ela, mas pelo que o Kundera nela viu. “Adriano” passou a significar algo de muito intenso depois da Yourcenar. Clarissa, Laura e Virginia, marcaram, colorindo, um olhar sobre A Mulher pela mão de Cunningham.
Qual foi o último livro que compraste?
Casa na Duna, de Carlos de Oliveira; A Mancha Humana, de Philip Roth; Camões: Labirintos e Fascínios, de Aguiar e Silva
Qual o último livro que leste?
Os Demónios de Kraven, de Alan Isler
Que livros estás a ler?
Casos do Beco das Sardinheiras, de Mário de Carvalho; Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro; Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco; A Vaga de Calor, de Urbano Tavares Rodrigues; Granta nº 87; Discurso da Narrativa, de Gérard Genette; O Rei, o Sábio e o Bobo, de Shafique Keshavjee; A Angústia da Influência, de Harold Bloom;...
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
1) A poesia e a ficção de Jorge Luis Borges, a poesia de Pedro Tamen (e, quem sabe, a sua tradução de Proust, dado o tempo que provavelmente teria), a poesia de Al Berto.
2) As Cidades Invisíveis, e demais fantasias de Italo Calvino (devia haver edições com a obra completa num só volume para o caso de emergências como esta).
3) Os romances do Umberto Eco, para reler um após outro (acho que escondia os Limites da Interpretação no meio dos romances).
4) O Ser e o Nada do Sartre, Ser e Tempo do Heidegger, Verdade e Método do Gadamer, Investigações Filosóficas do Wittgenstein e Diferença e Repetição do Deleuze, preencheriam com toda a certeza as horas mais longas.
5) Cadernos em branco, para expandir os livros que levasse para outras páginas, para outros sonhos.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
À Azul, pela cumplicidade de tantas leituras, pela partilha de tantas ideias, pelo fascínio de tantos anos.
À Helena, pela empatia das palavras que lhe leio, pela beleza e profundidade do que nos comunica.
Ao Alexandre, que nos leva com ele para tantos recantos do mundo, como livros para uma ilha deserta.
sexta-feira, abril 15, 2005
díptico para Deus - harmonia celeste
Ufano na solidão
em que me defino
sem definhar ao
castigo que clamaste
no momento ímpar
da sóbria separação,
escorro angústia
ao invés de sal
pelas órbitas
insanas, irreais;
mas é contudo
alegria revolta
paz insatisfeita
que se esvai de mim
assim, neste fluir
escuro por que me
tentas a voltar.
Numa ilha sem ti
rodeado de ti só
alcanço o limite
o cume a franja
do sentido da tua
ausência incerta;
e mascaro de fome
o sabor a nada,
e digo sequioso
quando trago
voluptuosamente
afinal o néctar
o sangue esperma
teu e de todos os
corpos que aceitas.
O nome é então
o que resta do verbo
e o som do estertor
é tempestade que
ressoa já na minha
inexistência triunfal;
o poder é o nome
do som inexistente,
a dor do espírito
que não sente já
o peso da tua mão
a afagar-me sem dó.
quinta-feira, abril 14, 2005
retrato esboçado ao luar
não é a morte mais silente
que o dia sem ti
nem a noite imponente deslumbre maior
que o céu que dorme nos teus braços
nem o mar véu mais puro
que a tua pele nua
24.01.04
sábado, abril 02, 2005
XII
lúgubre sobre o que intuo me invadir derradeiramente.
sei a cor do débil apagar de todas as velas e
comprometo a minha inteligência em cada olhar
sorridente sobre um poema assinado – prova irrefutável
da sede de paz enganadora e triste. adio o afecto
que adivinho nascer nesse momento em que convergem
as fés e as descrenças, em que brilha o sol
e a lua simultaneamente, em que caem as estrelas
duas a duas (porque o mal se partilha também no
universo inerte). adio o deslumbramento doloroso, não
por parca audácia mas por me quedar a olhar demasiado
tempo o rio de águas paradas (translúcidas, porém) da
vida que me banha.
27.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
indícios de nós
o espaço que as palavras deixam escorrer
por entre as respirações. Talvez
angústiaéotraçodoesboçodenósquenãoconsenteplenitude
se perfile na consciência como um exército contra
o sentido perdido. Memória tempo pulsação
cada vez mais vida a viver-se fora de nós. Todos os sinais
da nossa presença soam a rufos de circo
TRRRrrrrrrrrrrrrrrrrrLadiesAndGentlemenrrrrrrrrrrrr
rrrrrrrrrrrrrrrrParaTodosVósrrrrrrrrrrrrrrr
rrrrrODerradeirorrrrrrrrrrrEstertorRRRRRRRTCHSSSHHhhh...
Pulsação ritmo eternidade
Abr.01.MMV
(in a geometria da inexistência)
díptico para Deus - harmonia celeste
Pedes-me cinco sons
e os sentidos parecem
não ser capaz de evocar
um acorde temperado;
não consigo aniquilar
o ruído das preces
o arrulho de dores
da fé, a rugosidade
de tudo, a finitude.
Dou-te o medo, o
desajeitado medo de
quase nada, para que
com o branco brinques;
a cor do teu abraço
é escura já demais
para o vento que dizes
colher na túnica
dos profetas cegos.
Exiges o grito incerto
e não afino no parcial
harmónico que te doa,
que te quebre, magoe.
Cerras-me os olhos
com a força convicta
da unidade demiúrgica
com que os abriras;
esqueces a promessa
do infinito escuro
contido no deserto
em que as lágrimas
se vertem, desaguam.
Abro a garganta no
silêncio simulado
da oração hipócrita
com que te desgosto;
invoco todos os nomes
de impossibilidades
que te anunciem a dor
com que sucumbo
à realidade sem nós.
(in livro xiii)
Nota: este díptico, ainda em elaboração, de que é agora apresentada o primeiro poema da primeira parte, fechará o volume livro xiii, em contraponto com o tríptico para o Diabo que o tinha encetado, e que pode ser consultado nos arquivos.
r.e.
(dia 24 de junho, 2028)
IV
Levanto-me e a manhã sabe-me a cinza, a pó. Talvez seja da madeira do chão, do tecto, ou apenas de mim. Tenho frio. Ouço passos; estou sozinho. Ouço passos novamente. Sobre a cadeira a roupa remexe-se desalinhada, como que acordada de um sonho em que vestia um príncipe. Os passos eram dele, e agora que saiu, ajudo a roupa a encontrar-se consigo mesma, vestindo-a no meu corpo.
Olho para a janela fechada e penso vagamente na hipótese de nada existir para além dela... nem sequer o vazio. Aproximo-me da porta e esta limitação espacial irrita-me. Preferia Ser sem Espaço, ou pelo menos sem Forma, o que já seria suficientemente delimitador. Com um sorriso, ironicamente, a porta convida-me a sair ...
Aceito.
No corredor a ausência de plantas surpreende-me.
Regresso e penso ...
quinta-feira, março 31, 2005
horizonte (vil)
“sim. porque não?
uma ave, também...
sorrir, alma diagonal;
... só de longe, nascer.
segunda-feira, março 28, 2005
aforismos
Sonho com o dia em que a visão mística do som se confunda em tal medida com a realidade do que ouço,
que a morte me soe apenas como um pizzicato de contrabaixos,
em sinfonia rarefeita quasi weberniana
sábado, março 26, 2005
(dia 31 de outubro, 2041)
I
Não fosse o barulho da cidade em movimento, neste fim de tarde, suficientemente agressivo, o silêncio dos pássaros tornar-se-ia desesperadamente ensurdecedor. Olho-os, percorro o seu trajecto agitado, e não os ouço. E eles voam em torno das árvores, tantos ... e eu não os ouço ... seria hora de acordar aflito, se ...
... mas não sonho.
Esta angústia remonta a uma antiga intuição,
... com a obra morre a ideia ... ... com a morte vê-se o silêncio ...
“... são almas que choram, ...”
As pessoas que me evitam, apressadamente, afastam-me o pensamento dos pássaros e olho em redor. Encaminho-me para aquela igreja - na falta de uma gruta, uma catedral...
À porta, cumprimento o mendigo (há sempre um mendigo à porta das igrejas). Apetece-me sentar a seu lado e pedir-lhe um pouco de pão, pretexto que a seus olhos seria válido para legitimar, pela fome do corpo, a nossa irmandade na solidão do espírito.
Sento-me e não lhe peço nada ... mas anuncio-lhe com tristeza: "os pássaros morreram".
Ele já sabia, levanta-se e afasta-se apenas para não ter de enfrentar a minha inocência.
Não entro. Deixo-me ficar sentado, indiferente ao que as pessoas vão pensando enquanto por ali passam. Os nossos olhos cruzam-se por vezes, e apesar de a minha aparência não provocar o habitual desviar do olhar e da misericórdia, o insólito da minha postura inexpressiva traz à superfície aquele tipo de sentimentos que, como a compaixão, nunca vêm sós. E é numa mistura emocional que alguns aceleram o passo, enquanto outros, por associações tão pessoais que não se enumeram, não hesitam em contornar-me e, sem deixar de com o olhar mo agradecer, entram na igreja.
terça-feira, março 22, 2005
ars nova
, fulgor por nascer –
opõe-se à memória
o limite (não foram
escuros os dias) –
não serão – as horas
– rendilhados de
espectros (cromáticos
e
) –
Mar.21.MMV
(in livro xiii)
domingo, março 20, 2005
(dia 24 de junho, 2028)
Em fase de revisão? De há quanto tempo, no futuro, me observo? Que pena um personagem não poder partilhar com o seu autor um só momento de mútua existência. Sobrepor-se-iam como dois espectros coloridos? Atravessar-se-iam como fantasmas? (de quem? Mais confusão, por agora não, obrigado) ... No entanto, a perspectiva de um encontro não deixa de ser mais angustiante do que a noção da irrealidade da nossa vida. Ser em alguém (mesmo num futuro interior) não será melhor que Ser em si ?
Futuro interior ... o Tempo aqui dentro bem junto ao nariz da alma, meu caro amigo...
sábado, março 19, 2005
heresias de sal
ardem sem lágrimas
os olhos
deuses da minha melancolia
salgados e tristes
de te ver
mar
29.12.00
(in despojos de lume e de medo, 2000-2002)
sexta-feira, março 18, 2005
sem título
inelutabilidade indolor
o limite adivinhado
desejo desenhado na sombra
inerte vazio de futuro
quinta-feira, março 17, 2005
para o TCA

feelings, by TCA
– Uma andorinha,
tal qual a do sonho
de ontem – diz o
infante, da verdade
seguro.
Não pressente
o odor da resina nas
crinas em atrito
lento sobre um dó
grave de violoncelo.
Fosse universitário já
e talvez evocasse
o diálogo, no tempo
moldado, entre Goethe
e o Mestre.
– Azul –
dirá a infância de novo
– será o céu da tentação
de criar, sempre – donde
nasce a lucidez?
Na idade do Verão era
o Vermelho o condor
da Liberdade, e seria
de amor o poema de
pastel.
Mas o risco
lento e doloroso
sobre todo o grão
de cor é, para ti, só
um grito, um canto.
Não fosse o silêncio
e era tal qual, dos
sonhos, as aves todas;
das crianças, todos
os amanhãs.
___
Um Obrigado muito especial ao TCA pela oportunidade que proporcionou para este trabalho conjunto. A minha admiração pelo seu talento faz da passagem pelo Abstracto Concreto um prazer diário de contemplação.
domingo, março 13, 2005
V
alinhamento de asas – força aérea da
Natureza em demonstração acrobática.
Primeiro pensamento: afinal nem tudo eram fábulas –
Os pássaros voam, definitivamente; migram, mesmo; têm o seu ciclo
iniciático. A magia de um bando ao longe sai da memória e
habita o céu todo – todo o céu é o céu onde se recorta a negro
a formação em V.
(segundo pensamento: em que geometria, formação, bando, desapareço? Que lugar ocupo? Vértice ou curva impossível?)
Mar.12.MMV
(in a geometria da inexistência)
sábado, março 12, 2005
Manhã Fratricida
não infinita, inexistente -
desprende-se dela a poeira
que o esquecimento absorve.
exala o perfume do real,
que se evola, silente;
a essência nela se queda,
por toda a extensão.
a luz de uma manhã
relança o olhar do real
sobre o sonho vivo -
aniquila o tempo onírico.
sexta-feira, março 11, 2005
a luz e a lisura
uma sombra
de rugosidade –
plausível? verosímil
?
o traçado minucioso
misterioso (delicado)
de uma lisura
perdida, de um
grão, de
um atrito.
é isso.
a sombra
lembrada
do próprio atrito
é isso –
a feliz
saudade.
Mar.10.MMV
(in livro xiii)
quinta-feira, março 10, 2005
3
as serpentes e os livros
ininterruptos
de sentidos
ocultos
me oculto
por entre o mundo
e nos livros encontro o traçado
da coreografia imprevista
e sobre líricas sem balanço
me deito quando de mim me canso
a arder nos lábios depois de Andrade
ou Sophia?)
da capa ou do epílogo
e vislumbro o sonho
do silêncio que nasce depois
de sentidos
me descubro
(in imanências, 2004)