era uma vez um puto
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tocava desde os 9 anos na banda...
os seus amigos eram os da banda e os do prédio...
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...achava que era feliz, o puto...
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aos 12 anos apaixonou-se por uma prima, o pequeno atrevido.
e ela por ele, a malandra, tanta sabedoria em 10 infantis anos
depois dessas férias na praia em que experimentaram os segredos
que segredam as bocas quando estão próximas e mesmo unidas,
nunca mais se viram.
só anos mais tarde, adultos já, de sorriso cúmplice nos olhos
se voltaram a ver e a falar. num casamento de família.
ele, outro; ela, outra também; duvidando da própria memória.
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o rapaz era aplicado no clarinete, e a banda o seu mundo
a família ... uma massa informe de afectos.
uma avó ambígua
(um dia saberei o que isto quer dizer)
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o miúdo até pensava que era feliz, mas duvidava do que sentia
e no seu íntimo sabia que não era.
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culpas? por aí. umas num homem, algumas numa mulher, ambos
inconscientes da inquietação interior do petiz.
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aos 15 anos, subitamente, renasce.
vai a uma pequena terriola, de que nunca tinha ouvido falar
vai como "músico de fora", dos "bons", ajudar a banda local
procissões, peditórios, concerto...
e vê-A!
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ela tocava clarinete, tinha um olhar maduro
um sorriso escondido, uma forma rebelde de vestir
e de falar, altiva ou algo distante, observando
da colina dos 18 anos, a puberdade do moço da cidade.
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estiveram perto um do outro, nesse dia. sempre longe
sempre inquietos, cada um envolto no seu próprio manto
um dia... somente um dia, e a viagem de regresso a casa
com um beicinho mental, uma tristeza indefinível
nem três palavras trocadas, entre músicas e barulho,
ele fora do seu meio, ela demasiado no seu meio
ele querendo entrar ali, ela a desejar dali fugir.
um dia, contudo...
até ao mesmo dia do ano seguinte.
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um ano de silêncio e de esquecimento.
esquecimento?
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desta vez, reconheceram-se à distância
ou não tivesse ele perguntado logo pela moça.
deu logo de caras com o pai dela
e por ela perguntou, ao que o pai (desconfiado)
respondeu, com ares de importante: ela está em Lisboa
a trabalhar. só vem ao concerto.
!!!
um dia, um ano depois, e só a veria à noite.
a memória fez o trabalho de reconstruir, tentou, o rosto
a forma do corpo, a roupa vestida, o cabelo...
quase em vão
nenhuma imagem, quase não tinha existido aquele dia
quase...
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o concerto estava iluminado...
ela estava lá, e ele também.
adivinhe-se em casa de que família os músicos de fora dormiriam...
depois do concerto, foram todos (o rapaz, dois colegas da banda
e ela) para casa. ficaram a jogar às cartas todos, na varanda.
era tarde, e os amigos foram saindo para ir dormir.
a noite acolheu a conversa dos seres que ali se encontravam pela segunda vez
ele a falar de si
ela a falar dela
ele, sobre adorar música e imaginar-se compositor
ela, sobre adorar pessoas e desejar ser psicóloga
ele, sobre o desejo de morrer
ela, sobre a fúria de viver
ele de coração louco de nervos
ela de alma perplexa pelo destino
ainda não tinha amanhecido quando decidiram trocar de moradas
para poderem escrever
ele sentia que algo dependia dele, para desenhar o seu futuro
no papel da morada, escreveu ainda, trémulo, algo mais ...
ela sorriu mais do que naquela noite toda, e apenas respondeu com
a curiosidade sobre o que o tempo poderia estar a reservar
estava a amanhecer quando deram o primeiro beijo
...
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ela está a dormir agora
e eu estou feliz por ter esta história para recordar e viver