terça-feira, fevereiro 08, 2005
V
por momentos
breves
mas sólidos
meteoritos
aflitos
em queda
uma paz
que temo
de que fujo
(um sinal
da presença
de deus
debaixo
da almofada
em que
durmo)
hesito
em acordar
de súbito
pássaro
baleado
p’lo sonho
perverso
de um voo
derradeiro
(imerso
na neblina
do desejo
de que a
quietude
irrompa
em pranto
de novo
numa ânsia
de satanás
um beijo)
22.05.03
(in o mundo e um pouco mais, 2003)
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
o meu primeiro fractal
fria incerteza
que me perdoem os especialistas em matemática pela singeleza da tentativa, mas o fascínio por estes "seres" matemáticos permitiu-me o arrojo de tentar explorar o Tierazon, para a manipulação de um
Newton Variation 89: z=z-((z^5)-1)/(5*(z^4)); z= (z^5)*c;
Um dia saberei o que cada uma das variáveis z e c fazem neste mundo de infinitas perspectivas. Um dia. Por agora, o prazer da exploração da beleza, vista por dentro.
plúmbeo ego
arcano, demente
desenha-se a solidão
não é leve a certeza
não é rósea a angústia
uma esfera de chumbo
suspensa sobre o juízo
oscila sobre o quotidiano
não se lhe submete
não venera nem condena
não lhe é indiferente
não lhe é, simplesmente
oscila sobre o limiar da vida
não é certa a leveza
não é angustiante o rosa
que o sonho dá a esse outro
em nós, de nós, por nós, sem nós.
Fev.05.MMV
(in livro xiii)
sábado, fevereiro 05, 2005
antes do deserto, a ideia
paira
quase densa
ainda não esquálida
como o pensamento
órfão de razão, triste
não responde
não emerge
não acorre
está
é fome ainda,
(antes do desejo
antes do retorno
à disforme alma
universal)
a ideia,
antes do pulsar
inquieto que respira
a areia dos dias
o pó dos luares
Fev.04.MMV
(in livro xiii)
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
I
o mundo está ali
adormeceu
dorme
não acordará
chego-lhe ao rosto
de sal
de pedra
um dedo
tímido e ousado
um afago
ora uma palavra amarga
ou um sopro inútil agora
lamento
não ter derrubado
a tempo o silêncio
tardo em aceitar a hora e
hesito em criar uma ilusão
de lençóis de flanela
num excesso de primavera
não encontro para mim
a oração que me redima
desta invisibilidade construída
dou mais um passo atrás
o mundo parece mais pequeno
e mais pequena a tristeza
de assim o perder
15.05.03
(in o mundo e um pouco mais)
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
eco / reverberação / eco
não é um rugido não é um lamento não há morte onde as paredes devolvem o que partiu nem esquecimento onde a vibração cavalga sobre a onda anterior num caleidoscópio de sons sem dono sem memória não se dilui o que permanece não repousa o que se inquieta em reflexos nem desaparece o que retorna ao oráculo involuntário sem distância não há outro sem outro não há distância o oráculo inconsciente emite o que nasce para o reflexo inquieto que não repousa quando permanece sem se desvanecer na memória dos sons em miríades submersas sob as vibrações que não se deixam esquecer por partirem de encontro às paredes que concedem a imortalidade ao troar das feras e às lágrimas contidas
Fev.02.MMV
(in a geometria da inexistência)
o tempo
as horas, queimadas
sobre incenso,
nem delírios de
poeta, moribundo
de um intenso
sofrer invisível –
são brechas, todos
os minutos, abertos
sobre a tela incolor
da paixão pela vida
e pela dor risível.
23.08.03
(in 2/3 e outros poemas)
segunda-feira, janeiro 31, 2005
crónicas de viagem
Há lugares – espaço, tempo – onde a tristeza parece ter encontrado definitivamente o seu lar, o seu lugar.
Lírio-do-Vale, podias ter sido um corpo, uma vítima, apenas um corpo de menina, mais uma vítima, como o juiz Mierck fazia gosto em ressalvar nos gestos indiferentes e cruelmente frios, desumanos. Mas em épocas de morte anónima as mortes com nome inscrito doem numa dimensão diferente, à parte.
A tristeza apenas parece duvidar de ali pertencer, quando emigra para a nossa alma, também cinzenta no reflexo que a leitura nos imprime.
Philippe Claudel escreveu um livro triste - daquela tristeza bem intencionada que pretende acalentar sem iludir, daquela Tristeza com que Lysia cognominou o Procurador. Um livro sobre a herança dos instintos - uma herança pesada para quem deixa de ter outra vida que não essa para viver, outro destino que não aquele, traçado cedo demais. Lírio-do-Vale, Clélis de Vincey e Lysia Verhareine (para não acrescentar Clémence, que o próprio narrador hesita em colocar entre as restantes mortes), são os espelhos que devolvem à vida todo o cinzento que, já lá estando antes, se evidencia perante os vazios que estes nomes encerram com eles no túmulo. Mesmo assim, de todo o cinzento que habita o livro, as únicas cores vêm do passado relacionado com estas mulheres.
E não será sempre assim?
after "Funeral Blues"
after "Funeral Blues", W. H. Auden
Esta foi a expressão dada por Abstracto Concreto para o célebre poema de Auden. Para que possam também apreciar a sensibilidade deste criador, que nos encanta com riscos puros e tantas vezes duros, deixo-vos o poema e a sugestão de uma viagem ao seu espaço. Não se arrependerão.
Funeral Blues
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever; I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.
W. H. Auden
domingo, janeiro 30, 2005
(89)
O Professor morreu.
O dia continuou
sem título
tempo comoção
senão verdadeira frágil
estão vestígio de medo
resoluto e belo
(Jan.25.MMV)
sábado, janeiro 29, 2005
sexta-feira, janeiro 28, 2005
5. uma tela sobre a morte
com uma paciência centenária o peso da nossa vida ignorante. Apenas nalguns instantes
irrepetíveis parece desvendar-se o mistério, nobre natureza subliminar de cada curva. Ali
uma perna máscula, de atleta milenar, conduz-nos a uma planície que se fez abdómen
e peito desse apolo invisível. Dos seios daquela ninfa, nasceram sobreiros. O próprio alcatrão
se molda indelevelmente aos contornos de dorsos e membros de animais míticos. Aquela casa repousa numa nádega de guerreiro, e aqueloutra numa madeixa do cabelo negro de antiga prostituta ou feiticeira. Cada vinha alimenta-se do suor do corpo que delira em noites perversamente eternas. O nosso olhar continua a desnudar cadáveres que posam gigantes para os pintores do espírito inferior. A terra amarela está envilecida pela saudade. Os sulcos castanhos já não são rugas, mas frestas doentes. Apenas o verde que nos comove permanece testemunha da vida que transborda ainda para o lado de cá.
13.01.03
(in a densidade das almas)
quarta-feira, janeiro 26, 2005
lume esfíngico
submisso - discernir
o reflexo (o deambular
no lago de vinho
esquecido)
do quadro que se espraia
no pó das paredes.
não o bebeu
(um fantasma
derramou-o) pela
ausência
de corporeidade –
razão peso timbre.
sob o olhar, a mesa
altiva - a permanência
contra a mutabilidade
dos ecos dos rastos
de ontem, de qualquer
invenção do desejo.
Jan.24.MMV
(in livro xiii)
limites possíveis da suspensão
fractal: flames
Refulgência apenas quando clarão
não sejas. Perpendicular do mundo tangente
a ti. Deslize biológico na sombra da evolução incerta. Refúgio
das agonias quando não alheias – imaginárias então, para que nasçam
outros, em ti, reflexos sem objecto.
Império de um só nome, território de casas mansas ou asilos. Veneno
incolor. Convite ao absurdo sem nó. Pó triste nos despojos
de um ontem qualquer. Revérbero intenso nas ruelas de solidão em chamas.
(insistência de vida num deserto. teimosia surda de sangue sem leito)
Jan.23.MMV
(in a geometria da inexistência)
domingo, janeiro 23, 2005
a vénia
Sento-me sem olhar muito em redor. Descer as escadas cansou-me. Não sei quanto tempo quero ter ainda. Fecho os olhos, e tento abstrair-me do ruído. Adormeceria. Mas sou sacudido por um grave estertor que me alimenta a curiosidade. Desci por isto. Por isto abro os olhos.
As carruagens sucedem-se numa amálgama de luzes e vultos desfocados, cuja nitidez aumenta com o chiar do ferro nos carris. Eles e elas saem apressados. Nem sempre é a necessidade de chegar a algum lado no próximo instante. Às vezes penso no medo que as pessoas poderão ter de ficar dentro da carruagem, como se alguma ameaça lá as esperasse. Mas deve ser apenas mais um fenómeno de grupo, e os poucos que precisam mesmo de correr, levam nesse impulso todos os outros, como nas religiões ou na arte.
O ferro recomeça o seu namoro de atrito quente, e revejo-me ainda algumas vezes nos reflexos cada vez mais impossíveis das janelas em movimento.
A súbita ausência de volume à minha frente cria-me uma sensação de vertigem horizontal, estimulada pela plataforma distante, do outro lado dos paralelos ainda trepidantes. Demoro alguns segundos a habituar-me ao cenário, quase irreal, que o silêncio agora preenche à minha frente. Apenas circulam na plataforma de lá algumas pessoas que, por isso, parecem conhecer-se bem.
Ele encontra-se de pé, numa posição relativamente ao limite do fosso que não daria para entender se ali se encontrava há muito tempo à espera, ou se teria acabado de sair num anterior combóio e apenas não sabe para onde ir. Contudo, sei que é a primeira hipótese a correcta. O seu rosto já me tinha ficado registado no espírito no instante breve em que olhei em frente, quando me sentei. Vira-se um pouco para a esquerda, ficando praticamente de frente para mim, como se se soubesse observado, mas não desejando o confronto visual. Noutra perspectiva, parece até olhar-me, mas daquela forma de perscrutar o vazio que alguns músicos têm, quando num recital ou concerto varrem a plateia com o semblante enigmático, e ...
... me fixo num ponto que, a ser uma pessoa, passa a partir daí a representar aquele outro elo de uma irmandade dual, que noutras circunstâncias chamaria apenas de compositor. Nestes momentos, ou melhor, a partir daqui, o concerto flui como uma discussão quase sempre indolor com essa figura distante. Estou então pronto a olhar para o chão, sentir o corpo apelar a uma desistência benigna, e começar inesperadamente a tocar. O violino nessa fase do meu desequilíbrio funciona como as varas dos equilibristas, que amplificam controlando as diferenças laterais de peso. Também aqui se dá essa compensação, que a literatura técnica chama de expressão ou intensidade emocional. O meu corpo balança-se, suavemente, mecanicamente ...
... como se a demorada espera lhe estivesse a dar cabo dos nervos, a destruir a paciência que todos levamos connosco em cada manhã para o labirinto do dia. Olho-o já com curiosidade, e não apenas com a antipatia que inexplicavelmente me tinha assaltado. Somos poucos, agora, o que nos devolve aquela sensação familiar tantas vezes perdida ao longo dos caminhos, de que estamos envoltos nas mesmas quimeras e derrotados pelos mesmos dragões.
Mais duas pessoas parecem querer fazer parte do seu ténue movimento, aproximando-se das linhas amarelas de aviso. É já aquela pressa, com o inerente engano de que sairão mais depressa da carruagem se estiverem há mais tempo preparados para entrar. Talvez não seja por outra razão senão a natural estranheza, mas lentamente se afastam do homem absorto no seu ...
... movimento que me embala e ampara, entre duas frases de igual importância. O público não deve ter nunca verdadeira consciência de que está perante apenas mais um mortal a criar a dupla sensação de imortalidade na companhia de outro mortal. Deve, sim, acreditar na plenitude espiritual do instante ali mumificado.
Há certas passagens que me fazem irritar quando as estudo em casa, e que nos concertos se revelam quase sempre novas, como que escutadas interiormente pela primeira vez. São as que dão menos prazer tocar. São as que me fazem sentir inútil. Como esta que agora vou começar, mal a orquestra termine a resposta à minha anterior dádiva. Prefiro nestas alturas fechar...
... os olhos. Às vezes também os fecho para poder contemplar a realidade como surpresa e não como imaginário construído. Mas não sei se é a mesma ambição que o move neste seu cego balançar. Começo a hesitar internamente entre uma atenção descuidada e um controle total das suas emoções. Não me sinto capaz de nenhuma das formas de estar, neste momento. Fecho igualmente os olhos, não pelo prazer de os voltar a poder abrir, mas pela incerteza que se instalou. Não chego a perceber de que cor era a escuridão, pois a trepidação regressou e do outro lado da estação, reacendem-se as rápidas cenas, como de um filme antigo, das carruagens em movimento decrescente. A fúria das pessoas em fuga trá-lo de volta, pois quase o derrubam na sua cegueira. Vejo-o do outro lado das janelas, que já se movem novamente, ainda devagar.
Desvio o olhar infantilmente quando me apercebo que sou tão observado quanto observador. Porque nunca aceitamos o óbvio? (Por o óbvio nunca ser verdadeiro? - penso). Deixo-me de criancices e assumo o meu papel de ser vivo, social, e todo esse blá-blá-blá pseudo-definidor de conjunto. Olho-o frontalmente, e sou humilhado pelo seu desinteresse. Não era propriamente para mim que olhava afinal. Parece que olhava para alguém que pareceu reconhecer...
... na antepenúltima fila da primeira plateia, ao lado do homem que dorme enquanto me esvazio de emoção na cadência. Parece mentira sentir-me capaz de analisar estas futilidades enquanto faço o que amanhã originará uma crítica fabulosa nos jornais da especialidade (onde se realçará a minha quase irreal concentração e inspiração em momentos de tamanha expressividade como este mesmo instante). Porque é que nunca acertamos com os verdadeiros estados internos dos outros? Porque o óbvio é mais seguro (sim, apesar de n...).
A orquestra pega na minha deixa triunfante, e sente-se de novo útil. No fundo, cada músico tem sempre o seu pequeno instante em que sente justificado o dinheiro do bilhete. E este momento é um deles. Não fora toda a orquestra reafirmar, confirmar, relembrar, o que eu acabei de tocar, a cadência ficaria tão ridícula e insolente como um choro de criança contrariada em frente a uma montra de brinquedos.
Nem o estrondo do tutti o acordou. Impressionante.
Estou cansado. Agora que não estou a tocar, consigo desfrutar um instante da beleza do concerto. O tema aparece agora lá longe, onde não estou, e isso dá-lhe um carácter tão sublime quanto inalcançável. (A música diviniza-se no instante em que se liberta do peso da nossa alma). Quem a tocará nesses momentos?
Por momentos, não sei se já acabaram de tocar. Sinto-me como naqueles truques cinematográficos em que o sujeito fica aparentemente surdo, em que as imagens se passam muito desfocadas e lentas, e onde normalmente se pressente o aroma da tragédia. Já sei onde os realizadores vão buscar essas idéias. Não acabaram ainda, diz-me a quietude da maior parte da audiência. Suspiro novamente ...
... e volta a olhar-me, como quem sorri por detrás da expressão inalterada. Já não sei se sou eu que ainda estou aqui por ele, ou ele por mim. Poderia fazer a prova, levantando-me.
Levanto-me, e aproximo-me da linha amarela no chão. Pergunto-me sempre como calculam a distância onde pintar tamanha segurança. Agora que estamos mais próximos, instala-se outra irmandade que não a anterior. Outro elo. Outro abismo. Nunca mais cruzaremos o olhar.
“Porquê?” – apetece-me perguntar-lhe. Seria tão óbvio, mais uma vez. Que raiva!
Sinto-me estremecer de novo.
É o público que se manifesta exaltante, numa cerimónia quase vazia de sentido já, de gritar, aplaudir, fazer-nos acreditar no que criámos. O chão quase treme...
... apesar de ser apenas a sensação ilusória criada pelo ruído. Num filme veríamos agora a cena, na perspectiva do condutor, ou mais radicalmente através de uma câmara nos carris, à espera da luz ao fundo do túnel (mas de sentido metafórico invertido). Olhamo-nos sem disfarçar. Respiro irregularmente...
... não controlando o fluxo emocional de que nunca somos capazes de falar, porque só o conhecemos assim, nos derradeiros instantes. Olho-o, agora que acorda, e inacreditavelmente não lhe sinto um desprezo maior que à restante plateia. Neste momento todos representam novamente a mesma “outra coisa”. Avanço lentamente para a frente, para a boca de cena, com os cavalheiros e as senhoras da primeira fila a tentarem sorrir de forma diferente, numa cumplicidade que não existe. O estertor da orquestra a elogiar caracteristicamente o meu desempenho, incomoda-me. Batem com os arcos nas estantes, raspam os sapatos no chão, como se se retirassem teatralmente do mérito dos aplausos. Olho-os, de sorriso enigmático no rosto. E encaro a luz dos projectores que obrigam a semicerrar os olhos ...
... como se me perscrutasse a intuição. Como se me interrogasse também do meu porquê. Os carris entre nós são um duplo espelho. O combóio anuncia-se, num ronco já familiar. Não preciso de me afastar para trás da linha amarela. Contudo, num reflexo natural, a proximidade e a ferocidade do monstro de ferro faz-me recuar, como se me protegesse até das vibrações que já se sentem ...
... num tumulto de mãos, e bocas que tecem comentários ao parceiro, e olhares, uns felizes outros verdadeiros. Resta-me retribuir a falsidade com falsidade, a ilusão com ilusão. Jogo o seu jogo uma vez mais.
Vou deixar de o ver quando as janelas brilhantes se interpuserem entre nós. E a multidão sair e o tornar parte dela, ou ele entrar na outra multidão que segue e se tornar novamente incógnito. Vou deixar de o ver, no preciso instante em que ...
... me debruço para a frente, num ímpeto sem cerimónia, de quem agradece sem sentir o dever de agradecer. Num impulso brusco, deixo o meu peito pender e olho o chão ...
... e não vendo, sabendo, fecho os olhos sem conseguir sequer gritar.
Precisámos um do outro, num diálogo de deuses.
31.08.02
agora e na hora
em que morre
o animal – anónimo (invisível:
absurdo
por não ter do hipócrita
a estima fetichista
da figura do dono titular assassino) –
sucumbe ao peso
dos átomos sobre a vontade
ou à leveza
do corpo sob o vazio escuro
o anonimato da morte
fecha o ciclo da
ignorância
expõe exibe condena denuncia
a distância irracional
das moles de matéria –
indiferença então.
Jan.22.MMV
(in livro xiii)
sábado, janeiro 22, 2005
2. vitrais a preto e branco
num acesso de poder inusitado, e desonesto. Violenta-o
na sua inadmitida fragilidade, passeia-se pelo seu medo
como um turista a fotografar um altar, e conduz-se
atrevidamente aos meandros da sua vertigem de futuro,
destruindo o parapeito de esperança com que se resguardava
dessa queda abnegada. O dia passeia-se pelo seu medo, e destrói-lhe
a esperança. Fotografa-lhe instante a instante, a preto e branco, cada
trémulo gesto, cada desconforto ou delírio, cada futilidade. E cola-as num álbum
só seu, a que vai chamando ontem. O dia não sabe disso. Ignoto da própria
crueldade, desliza apenas como quem pensa morrer em cada poente. Avança por ele adentro, e atreve-se na sua vertigem de amanhã.
(in a densidade das almas, 2003)
sexta-feira, janeiro 21, 2005
Diálogos Possíveis - I
Sub. – Você é incompetente. Ponto final.
Sup. – Como? Atreve-se a repetir isso?
Sub. – E não reconhecer uma evidência como esta, a da sua incompetência, só pode revelar uma de três coisas...
Sup. – Veja lá o que está a dizer, ou terei de agir consigo de acordo com os direitos que me assistem...
Sub. – Típico... a Ignorância a puxar galões de autoridade para transformar a Mediocridade em Poder. Mas estava eu a dizer, se é que também não lhe falta, para além do resto, a boa educação de ouvir quando os outros falam, que não reconhecer uma evidência, e sendo esta a da própria incompetência, pode ser sinal de: uma estupidez simples de não ver o que é evidente, daquelas que não há nada a fazer senão lamentar que tenha calhado em alguém que infelizmente tenha alguma coisa a ver com a nossa vida; ou o não reconhecer a incompetência, que se subdivide por sua vez em duas hipóteses: ou não sabe que é incompetente, o que é gravíssimo em quem devia ser capaz de distinguir a competência da incompetência (coisa que não me parece ser de pedir muito a quem coordena, dirige, controla ou comanda); ou sabe que é incompetente e não o admite (demitindo-se, por exemplo), o que revela a má-fé que normalmente nunca é filha única nas mentes de integridade duvidosa.
Sup. – Você acaba de escrever oralmente a sua carta de demissão!
Sub. – Não comentando o absurdo do “escrever oralmente”, disparate que no meio dos do costume até passaria despercebido, lamento informá-lo de que tomar uma resolução de líder, como um despedimento, baseado na própria incompetência como justificação é um erro de meter dó e bradar aos céus.
(E brademos todos aos céus, ou pelo menos oremos para que qualquer semelhança com pessoas ou situações reais seja pelo menos, não podendo ser coincidência fruto da ficção, longínqua do nosso quotidiano)
