segunda-feira, janeiro 31, 2005

crónicas de viagem

"Almas Cinzentas", de Philippe Claudel

Há lugares – espaço, tempo – onde a tristeza parece ter encontrado definitivamente o seu lar, o seu lugar.

Lírio-do-Vale, podias ter sido um corpo, uma vítima, apenas um corpo de menina, mais uma vítima, como o juiz Mierck fazia gosto em ressalvar nos gestos indiferentes e cruelmente frios, desumanos. Mas em épocas de morte anónima as mortes com nome inscrito doem numa dimensão diferente, à parte.
A tristeza apenas parece duvidar de ali pertencer, quando emigra para a nossa alma, também cinzenta no reflexo que a leitura nos imprime.

Philippe Claudel escreveu um livro triste - daquela tristeza bem intencionada que pretende acalentar sem iludir, daquela Tristeza com que Lysia cognominou o Procurador. Um livro sobre a herança dos instintos - uma herança pesada para quem deixa de ter outra vida que não essa para viver, outro destino que não aquele, traçado cedo demais. Lírio-do-Vale, Clélis de Vincey e Lysia Verhareine (para não acrescentar Clémence, que o próprio narrador hesita em colocar entre as restantes mortes), são os espelhos que devolvem à vida todo o cinzento que, já lá estando antes, se evidencia perante os vazios que estes nomes encerram com eles no túmulo. Mesmo assim, de todo o cinzento que habita o livro, as únicas cores vêm do passado relacionado com estas mulheres.
E não será sempre assim?

after "Funeral Blues"


after "Funeral Blues", W. H. Auden

Esta foi a expressão dada por Abstracto Concreto para o célebre poema de Auden. Para que possam também apreciar a sensibilidade deste criador, que nos encanta com riscos puros e tantas vezes duros, deixo-vos o poema e a sugestão de uma viagem ao seu espaço. Não se arrependerão.

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever; I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing now can ever come to any good.

W. H. Auden

domingo, janeiro 30, 2005

(89)

Enfª Marisa
Mar.5.2062
__________

O cheiro de quase nada...
como se o vazio também tivesse sido um jardim
de cuja ancestral memória apenas tivesse podido subsistir este aroma
estranho e familiar. A limpeza do quarto
e uma ausência indefinível fizeram-me sentir mais intrusa
que numa cama alheia, ruborizada pela vergonha de viver
como se estivesse a comer frente a uma criança transparente de fome,
inquieta como se não fosse este o mais redundante pormenor
dos meus dias. Já não sei porque escrevo o que já sei. Porque não serei capaz
de inventar a vida que aqui deixo escrita?

O Professor morreu.
Duas horas antes de dizer “Olá, Mar!”
com o seu sorriso terno e azul, como não existirá
em mais nenhum rosto.

O dia continuou
passou
correu
parou
não sei. Não o vivi. Não o admiti em mim.
Não o aceitei da cor dos outros dias. Não...
__________

sem título

tempo comoção
senão verdadeira frágil
estão vestígio de medo
resoluto e belo

(Jan.25.MMV)

sábado, janeiro 29, 2005

aforismo #1


fractal by Doug Harrington


Não chames cego
a quem não vê de ti
o que não tens

sexta-feira, janeiro 28, 2005

5. uma tela sobre a morte

O manto tricolor que veste cada colina ao alcance da nossa estranha curiosidade, suporta
com uma paciência centenária o peso da nossa vida ignorante. Apenas nalguns instantes
irrepetíveis parece desvendar-se o mistério, nobre natureza subliminar de cada curva. Ali
uma perna máscula, de atleta milenar, conduz-nos a uma planície que se fez abdómen
e peito desse apolo invisível. Dos seios daquela ninfa, nasceram sobreiros. O próprio alcatrão
se molda indelevelmente aos contornos de dorsos e membros de animais míticos. Aquela casa repousa numa nádega de guerreiro, e aqueloutra numa madeixa do cabelo negro de antiga prostituta ou feiticeira. Cada vinha alimenta-se do suor do corpo que delira em noites perversamente eternas. O nosso olhar continua a desnudar cadáveres que posam gigantes para os pintores do espírito inferior. A terra amarela está envilecida pela saudade. Os sulcos castanhos já não são rugas, mas frestas doentes. Apenas o verde que nos comove permanece testemunha da vida que transborda ainda para o lado de cá.

13.01.03
(in a densidade das almas)

quarta-feira, janeiro 26, 2005

lume esfíngico

Sobre a mesa, o olhar
submisso - discernir
o reflexo (o deambular
no lago de vinho
esquecido)
do quadro que se espraia
no pó das paredes.

não o bebeu
(um fantasma
derramou-o) pela
ausência
de corporeidade –
razão peso timbre.

sob o olhar, a mesa
altiva - a permanência
contra a mutabilidade
dos ecos dos rastos
de ontem, de qualquer
invenção do desejo.


Jan.24.MMV
(in livro xiii)

limites possíveis da suspensão


fractal: flames


Refulgência apenas quando clarão
não sejas. Perpendicular do mundo tangente
a ti. Deslize biológico na sombra da evolução incerta. Refúgio
das agonias quando não alheias – imaginárias então, para que nasçam
outros, em ti, reflexos sem objecto.
Império de um só nome, território de casas mansas ou asilos. Veneno
incolor. Convite ao absurdo sem nó. Pó triste nos despojos
de um ontem qualquer. Revérbero intenso nas ruelas de solidão em chamas.

(insistência de vida num deserto. teimosia surda de sangue sem leito)


Jan.23.MMV
(in a geometria da inexistência)

domingo, janeiro 23, 2005

a vénia

Sento-me sem olhar muito em redor. Descer as escadas cansou-me. Não sei quanto tempo quero ter ainda. Fecho os olhos, e tento abstrair-me do ruído. Adormeceria. Mas sou sacudido por um grave estertor que me alimenta a curiosidade. Desci por isto. Por isto abro os olhos.

As carruagens sucedem-se numa amálgama de luzes e vultos desfocados, cuja nitidez aumenta com o chiar do ferro nos carris. Eles e elas saem apressados. Nem sempre é a necessidade de chegar a algum lado no próximo instante. Às vezes penso no medo que as pessoas poderão ter de ficar dentro da carruagem, como se alguma ameaça lá as esperasse. Mas deve ser apenas mais um fenómeno de grupo, e os poucos que precisam mesmo de correr, levam nesse impulso todos os outros, como nas religiões ou na arte.
O ferro recomeça o seu namoro de atrito quente, e revejo-me ainda algumas vezes nos reflexos cada vez mais impossíveis das janelas em movimento.
A súbita ausência de volume à minha frente cria-me uma sensação de vertigem horizontal, estimulada pela plataforma distante, do outro lado dos paralelos ainda trepidantes. Demoro alguns segundos a habituar-me ao cenário, quase irreal, que o silêncio agora preenche à minha frente. Apenas circulam na plataforma de lá algumas pessoas que, por isso, parecem conhecer-se bem.
Ele encontra-se de pé, numa posição relativamente ao limite do fosso que não daria para entender se ali se encontrava há muito tempo à espera, ou se teria acabado de sair num anterior combóio e apenas não sabe para onde ir. Contudo, sei que é a primeira hipótese a correcta. O seu rosto já me tinha ficado registado no espírito no instante breve em que olhei em frente, quando me sentei. Vira-se um pouco para a esquerda, ficando praticamente de frente para mim, como se se soubesse observado, mas não desejando o confronto visual. Noutra perspectiva, parece até olhar-me, mas daquela forma de perscrutar o vazio que alguns músicos têm, quando num recital ou concerto varrem a plateia com o semblante enigmático, e ...

... me fixo num ponto que, a ser uma pessoa, passa a partir daí a representar aquele outro elo de uma irmandade dual, que noutras circunstâncias chamaria apenas de compositor. Nestes momentos, ou melhor, a partir daqui, o concerto flui como uma discussão quase sempre indolor com essa figura distante. Estou então pronto a olhar para o chão, sentir o corpo apelar a uma desistência benigna, e começar inesperadamente a tocar. O violino nessa fase do meu desequilíbrio funciona como as varas dos equilibristas, que amplificam controlando as diferenças laterais de peso. Também aqui se dá essa compensação, que a literatura técnica chama de expressão ou intensidade emocional. O meu corpo balança-se, suavemente, mecanicamente ...

... como se a demorada espera lhe estivesse a dar cabo dos nervos, a destruir a paciência que todos levamos connosco em cada manhã para o labirinto do dia. Olho-o já com curiosidade, e não apenas com a antipatia que inexplicavelmente me tinha assaltado. Somos poucos, agora, o que nos devolve aquela sensação familiar tantas vezes perdida ao longo dos caminhos, de que estamos envoltos nas mesmas quimeras e derrotados pelos mesmos dragões.
Mais duas pessoas parecem querer fazer parte do seu ténue movimento, aproximando-se das linhas amarelas de aviso. É já aquela pressa, com o inerente engano de que sairão mais depressa da carruagem se estiverem há mais tempo preparados para entrar. Talvez não seja por outra razão senão a natural estranheza, mas lentamente se afastam do homem absorto no seu ...

... movimento que me embala e ampara, entre duas frases de igual importância. O público não deve ter nunca verdadeira consciência de que está perante apenas mais um mortal a criar a dupla sensação de imortalidade na companhia de outro mortal. Deve, sim, acreditar na plenitude espiritual do instante ali mumificado.
Há certas passagens que me fazem irritar quando as estudo em casa, e que nos concertos se revelam quase sempre novas, como que escutadas interiormente pela primeira vez. São as que dão menos prazer tocar. São as que me fazem sentir inútil. Como esta que agora vou começar, mal a orquestra termine a resposta à minha anterior dádiva. Prefiro nestas alturas fechar...

... os olhos. Às vezes também os fecho para poder contemplar a realidade como surpresa e não como imaginário construído. Mas não sei se é a mesma ambição que o move neste seu cego balançar. Começo a hesitar internamente entre uma atenção descuidada e um controle total das suas emoções. Não me sinto capaz de nenhuma das formas de estar, neste momento. Fecho igualmente os olhos, não pelo prazer de os voltar a poder abrir, mas pela incerteza que se instalou. Não chego a perceber de que cor era a escuridão, pois a trepidação regressou e do outro lado da estação, reacendem-se as rápidas cenas, como de um filme antigo, das carruagens em movimento decrescente. A fúria das pessoas em fuga trá-lo de volta, pois quase o derrubam na sua cegueira. Vejo-o do outro lado das janelas, que já se movem novamente, ainda devagar.
Desvio o olhar infantilmente quando me apercebo que sou tão observado quanto observador. Porque nunca aceitamos o óbvio? (Por o óbvio nunca ser verdadeiro? - penso). Deixo-me de criancices e assumo o meu papel de ser vivo, social, e todo esse blá-blá-blá pseudo-definidor de conjunto. Olho-o frontalmente, e sou humilhado pelo seu desinteresse. Não era propriamente para mim que olhava afinal. Parece que olhava para alguém que pareceu reconhecer...

... na antepenúltima fila da primeira plateia, ao lado do homem que dorme enquanto me esvazio de emoção na cadência. Parece mentira sentir-me capaz de analisar estas futilidades enquanto faço o que amanhã originará uma crítica fabulosa nos jornais da especialidade (onde se realçará a minha quase irreal concentração e inspiração em momentos de tamanha expressividade como este mesmo instante). Porque é que nunca acertamos com os verdadeiros estados internos dos outros? Porque o óbvio é mais seguro (sim, apesar de n...).
A orquestra pega na minha deixa triunfante, e sente-se de novo útil. No fundo, cada músico tem sempre o seu pequeno instante em que sente justificado o dinheiro do bilhete. E este momento é um deles. Não fora toda a orquestra reafirmar, confirmar, relembrar, o que eu acabei de tocar, a cadência ficaria tão ridícula e insolente como um choro de criança contrariada em frente a uma montra de brinquedos.
Nem o estrondo do tutti o acordou. Impressionante.
Estou cansado. Agora que não estou a tocar, consigo desfrutar um instante da beleza do concerto. O tema aparece agora lá longe, onde não estou, e isso dá-lhe um carácter tão sublime quanto inalcançável.
(A música diviniza-se no instante em que se liberta do peso da nossa alma). Quem a tocará nesses momentos?
Por momentos, não sei se já acabaram de tocar. Sinto-me como naqueles truques cinematográficos em que o sujeito fica aparentemente surdo, em que as imagens se passam muito desfocadas e lentas, e onde normalmente se pressente o aroma da tragédia. Já sei onde os realizadores vão buscar essas idéias. Não acabaram ainda, diz-me a quietude da maior parte da audiência. Suspiro novamente ...

... e volta a olhar-me, como quem sorri por detrás da expressão inalterada. Já não sei se sou eu que ainda estou aqui por ele, ou ele por mim. Poderia fazer a prova, levantando-me.
Levanto-me, e aproximo-me da linha amarela no chão. Pergunto-me sempre como calculam a distância onde pintar tamanha segurança. Agora que estamos mais próximos, instala-se outra irmandade que não a anterior. Outro elo. Outro abismo. Nunca mais cruzaremos o olhar.
“Porquê?” – apetece-me perguntar-lhe. Seria tão óbvio, mais uma vez. Que raiva!
Sinto-me estremecer de novo.

É o público que se manifesta exaltante, numa cerimónia quase vazia de sentido já, de gritar, aplaudir, fazer-nos acreditar no que criámos. O chão quase treme...

... apesar de ser apenas a sensação ilusória criada pelo ruído. Num filme veríamos agora a cena, na perspectiva do condutor, ou mais radicalmente através de uma câmara nos carris, à espera da luz ao fundo do túnel (mas de sentido metafórico invertido). Olhamo-nos sem disfarçar. Respiro irregularmente...

... não controlando o fluxo emocional de que nunca somos capazes de falar, porque só o conhecemos assim, nos derradeiros instantes. Olho-o, agora que acorda, e inacreditavelmente não lhe sinto um desprezo maior que à restante plateia. Neste momento todos representam novamente a mesma “outra coisa”. Avanço lentamente para a frente, para a boca de cena, com os cavalheiros e as senhoras da primeira fila a tentarem sorrir de forma diferente, numa cumplicidade que não existe. O estertor da orquestra a elogiar caracteristicamente o meu desempenho, incomoda-me. Batem com os arcos nas estantes, raspam os sapatos no chão, como se se retirassem teatralmente do mérito dos aplausos. Olho-os, de sorriso enigmático no rosto. E encaro a luz dos projectores que obrigam a semicerrar os olhos ...

... como se me perscrutasse a intuição. Como se me interrogasse também do meu porquê. Os carris entre nós são um duplo espelho. O combóio anuncia-se, num ronco já familiar. Não preciso de me afastar para trás da linha amarela. Contudo, num reflexo natural, a proximidade e a ferocidade do monstro de ferro faz-me recuar, como se me protegesse até das vibrações que já se sentem ...

... num tumulto de mãos, e bocas que tecem comentários ao parceiro, e olhares, uns felizes outros verdadeiros. Resta-me retribuir a falsidade com falsidade, a ilusão com ilusão. Jogo o seu jogo uma vez mais.

Vou deixar de o ver quando as janelas brilhantes se interpuserem entre nós. E a multidão sair e o tornar parte dela, ou ele entrar na outra multidão que segue e se tornar novamente incógnito. Vou deixar de o ver, no preciso instante em que ...

... me debruço para a frente, num ímpeto sem cerimónia, de quem agradece sem sentir o dever de agradecer. Num impulso brusco, deixo o meu peito pender e olho o chão ...

... e não vendo, sabendo, fecho os olhos sem conseguir sequer gritar.


Precisámos um do outro, num diálogo de deuses.


31.08.02


agora e na hora

na hora
em que morre
o animal – anónimo (invisível:
absurdo
por não ter do hipócrita
a estima fetichista
da figura do dono titular assassino) –
sucumbe ao peso
dos átomos sobre a vontade
ou à leveza
do corpo sob o vazio escuro

o anonimato da morte
fecha o ciclo da
ignorância
expõe exibe condena denuncia
a distância irracional
das moles de matéria –

indiferença então.



Jan.22.MMV
(in livro xiii)

sábado, janeiro 22, 2005

2. vitrais a preto e branco

O dia avança por ele adentro, de tempo em riste
num acesso de poder inusitado, e desonesto. Violenta-o
na sua inadmitida fragilidade, passeia-se pelo seu medo
como um turista a fotografar um altar, e conduz-se
atrevidamente aos meandros da sua vertigem de futuro,
destruindo o parapeito de esperança com que se resguardava
dessa queda abnegada. O dia passeia-se pelo seu medo, e destrói-lhe
a esperança. Fotografa-lhe instante a instante, a preto e branco, cada
trémulo gesto, cada desconforto ou delírio, cada futilidade. E cola-as num álbum
só seu, a que vai chamando ontem. O dia não sabe disso. Ignoto da própria
crueldade, desliza apenas como quem pensa morrer em cada poente. Avança por ele adentro, e atreve-se na sua vertigem de amanhã.


(in a densidade das almas, 2003)

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Diálogos Possíveis - I

Classes Laborais - Superiores e Subordinados



Sub. – Você é incompetente. Ponto final.
Sup. – Como? Atreve-se a repetir isso?
Sub. – E não reconhecer uma evidência como esta, a da sua incompetência, só pode revelar uma de três coisas...
Sup. – Veja lá o que está a dizer, ou terei de agir consigo de acordo com os direitos que me assistem...
Sub. – Típico... a Ignorância a puxar galões de autoridade para transformar a Mediocridade em Poder. Mas estava eu a dizer, se é que também não lhe falta, para além do resto, a boa educação de ouvir quando os outros falam, que não reconhecer uma evidência, e sendo esta a da própria incompetência, pode ser sinal de: uma estupidez simples de não ver o que é evidente, daquelas que não há nada a fazer senão lamentar que tenha calhado em alguém que infelizmente tenha alguma coisa a ver com a nossa vida; ou o não reconhecer a incompetência, que se subdivide por sua vez em duas hipóteses: ou não sabe que é incompetente, o que é gravíssimo em quem devia ser capaz de distinguir a competência da incompetência (coisa que não me parece ser de pedir muito a quem coordena, dirige, controla ou comanda); ou sabe que é incompetente e não o admite (demitindo-se, por exemplo), o que revela a má-fé que normalmente nunca é filha única nas mentes de integridade duvidosa.
Sup. – Você acaba de escrever oralmente a sua carta de demissão!
Sub. – Não comentando o absurdo do “escrever oralmente”, disparate que no meio dos do costume até passaria despercebido, lamento informá-lo de que tomar uma resolução de líder, como um despedimento, baseado na própria incompetência como justificação é um erro de meter dó e bradar aos céus.


(E brademos todos aos céus, ou pelo menos oremos para que qualquer semelhança com pessoas ou situações reais seja pelo menos, não podendo ser coincidência fruto da ficção, longínqua do nosso quotidiano)

quinta-feira, janeiro 20, 2005

evidente vacuidade do nome

Escorre uma ironia nos
teus lábios de marfim, desequilíbrio entre
o verdadeiro prémio e a glória que roubas –
fazes-te julgar na posse do que
lamentamos perder, e não tens mais
que um nome vazio – vazio o teu nome.

Não mora ninguém onde exaltas o negro
no teu olhar (não se reflecte nenhum pavor,
ninguém te segue, auto-proclamado e mudo oráculo).

Julgas conter o que anulas. Finges absorver
até o que pelo devir é dissipado em vida maior. Reverbera
em ti apenas o eco do nome. O eco vazio, repetido
à estridência – camada de nada sobre som nenhum.

Jan.20.MMV

(in a geometria da inexistência)

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Noite Transfigurada - Parabéns, Eugénio

Nocturno com Gatos lembrou-nos ontem do 82º aniversário de Eugénio de Andrade, bem como do silêncio que envolve os poetas e criadores, nestas datas pessoais ou de efemérides marcantes da sua obra. Se compararmos com a contaminação verborreica que move imprensa e instituições em torno da mesquinhez da política medíocre, o assombro é evidente. Deixemo-nos envolver então pelas palavras de Eugénio...



NOITE TRANSFIGURADA


Criança adormecida, ó minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
- chegaste,
nem eu sei de que horizontes.

Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
- ó minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.

Chegaste, noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que respiramos
nítida no ângulo das esquinas
- ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.

(in As Mãos e os Frutos, 1948)


(a quem o título do poema remeter incondicionalmente para a obra homónima de Schoenberg, sugiro a versão de sexteto, mais soturna e cristalina, simultaneamente, que a avassaladora versão para orquestra de cordas)

terça-feira, janeiro 18, 2005

a vã beleza de deus

visceral o encontro
com a subtil nudez de deus

polimorfismo (hiperbólico
diriam o próprio e alguns
alados da casa) sem pudor

sem que a vergonha
ruborize as faces diáfanas
ou que arfe o peito
pelo amor que não há
ele sublima o vício
(voyeur desonesto) e
espreita a miséria dos
corpos finitos, exibindo(
-se) apenas a ausência
- beleza comparável
de translúcida
à diabólica vanidade.

Jan.18.MMV
(in livro xiii)

luz em pó

sobre a cómoda resta um fio
que o existir das coisas
não consegue quebrar – só
refractar (
o frasco de perfume há mais
de vinte anos bem pesados,
um santo, outro, aquele
iluminado, uma maçã
que não está ainda mais
engelhada que as do cesto
ao lado, um homem antigo
daqueles que sabemos
terem morrido mesmo
que vivos, fotografia nunca
olhada com amor,
uma caixinha, minúscula
para os comprimidos que
dali a vida tem tirado, um
livro, orações que usei para
a ajudar a dormir nas asas
de deus, uma caixinha que
nem ela soube nunca para
serve, um retalho de pano
que servirá para o quase
imperscrutável, e pó
)
- pó que reflecte sem
refractar a luz das frestas
da persiana suja.

para a minha avó, que fez 91 anos

(Jan.17.MMV)

nota sobre crime em linha recta...

a orgânica do declínio, o amor em queda livre, teatro de pele e crime em linha recta, espiral invisível são os primeiros poemas de um conjunto intitulado A Geometria da Inexistência, nome pelo qual serão identificados os poemas que a estes se somarem ao longo do tempo. Constituem portanto um ciclo distinto do anteriormente mencionado livro xiii. Sempre que forem publicados outros poemas ou textos que não integrem nenhum destes grupos em construção, serão devidamente datados e identificados segundo o nome do livro a que pertencem.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

crime em linha recta, espiral invisível

Lembras-te de quando sentiste
pela primeira vez o peso da consciência fratricida? Ocorre-te,
quando acordas, recuperar o perdão? É indolor já
a tenacidade com que despontas do crepúsculo,
indelével talvez? Foi por acaso violentado
o céu, e és filha de um deus que fugiu? Precisavas de aniquilar
o sangue de luz a correr pelas horas?
(Tinhas de ser filha única. Não suportaste a ameaça
da comparação de cores, dos brilhos, das reverberações. Foi-te prometido
um jardim que não há. Não toleras a verdade, mas
não existem deuses deste lado)
Lembras-te, noite, de quando choraste pela primeira vez?


Jan.17.MMV

notas sobre o Diabo


The Fall of the Rebel Angels, by Pieter Bruegel

O último post constitui a terceira e última parte de um "tríptico" ... para agradar ao Diabo. Foram todos publicados aqui, e podem ser lidos na íntegra a partir do post de 03 de janeiro. "... para agradar ao Diabo" é o grupo de poemas que abre "livro xiii", título do conjunto a que pertencem também "flor íngreme" e "grão", igualmente publicados por estes dias. Os poemas que se lhes juntarem serão identificados no final por "livro xiii", para os distinguir de outros textos, recentes ou já datados.

... para agradar ao Diabo: terceira parte – cristais para lúcifer

I
Estaco, quedo-me
resoluto - decido (pel)o
silêncio.

II
Aprecio o deambular
sonâmbulo, do hipnotizador
sodomizado pela própria cauda.

III
Esvaio-me, um sorriso,
malícia sobre sangue, esperma
derramado em vão.

IV
Toco o vermelho sem
repulsa sem desejo
sem indiferença.

V
Acasalo com o demónio
sem contraceptivo
– o domínio silente.

VI
Ele toma a forma de
serpente, eu reinvento-me
covil e vara - antídoto envenenado.

VII
Metamorfose em corpo
de mulher, cadáver, imagem
- resisto, não definho no nojo.

VIII
Vagueio pelo corpo corrompido
como pelo virginal – cubro-o de
de saliva como de sémen.

IX
Passeio pelas entranhas da luz
(decrepitude última que o fim
admite) – “Sentes-me? Dói?”

X
Não te chamei em vão
nem foi a ambição móbil
faustiano da invocação silente.

XI
Vejo a tua morte num assomo
de lume aos olhos que me inundam
desta destemida volptuosidade.

XII
Cedeste tarde ao prazer que
injectaste, esvais-te cedo no amplexo
que te nego, ego saturnino.

XIII
Queda-te tu agora (infinito e
esquálido), seco pelo vento árido
que te prolonga o uivar eterno.

último cristal
Oco de ti, sobrevive pouco
do brilho que enunciou o canto
- ecoa livre agora, o silêncio.