quinta-feira, janeiro 20, 2005

evidente vacuidade do nome

Escorre uma ironia nos
teus lábios de marfim, desequilíbrio entre
o verdadeiro prémio e a glória que roubas –
fazes-te julgar na posse do que
lamentamos perder, e não tens mais
que um nome vazio – vazio o teu nome.

Não mora ninguém onde exaltas o negro
no teu olhar (não se reflecte nenhum pavor,
ninguém te segue, auto-proclamado e mudo oráculo).

Julgas conter o que anulas. Finges absorver
até o que pelo devir é dissipado em vida maior. Reverbera
em ti apenas o eco do nome. O eco vazio, repetido
à estridência – camada de nada sobre som nenhum.

Jan.20.MMV

(in a geometria da inexistência)

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Noite Transfigurada - Parabéns, Eugénio

Nocturno com Gatos lembrou-nos ontem do 82º aniversário de Eugénio de Andrade, bem como do silêncio que envolve os poetas e criadores, nestas datas pessoais ou de efemérides marcantes da sua obra. Se compararmos com a contaminação verborreica que move imprensa e instituições em torno da mesquinhez da política medíocre, o assombro é evidente. Deixemo-nos envolver então pelas palavras de Eugénio...



NOITE TRANSFIGURADA


Criança adormecida, ó minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
- chegaste,
nem eu sei de que horizontes.

Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
- ó minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.

Chegaste, noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que respiramos
nítida no ângulo das esquinas
- ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.

(in As Mãos e os Frutos, 1948)


(a quem o título do poema remeter incondicionalmente para a obra homónima de Schoenberg, sugiro a versão de sexteto, mais soturna e cristalina, simultaneamente, que a avassaladora versão para orquestra de cordas)

terça-feira, janeiro 18, 2005

a vã beleza de deus

visceral o encontro
com a subtil nudez de deus

polimorfismo (hiperbólico
diriam o próprio e alguns
alados da casa) sem pudor

sem que a vergonha
ruborize as faces diáfanas
ou que arfe o peito
pelo amor que não há
ele sublima o vício
(voyeur desonesto) e
espreita a miséria dos
corpos finitos, exibindo(
-se) apenas a ausência
- beleza comparável
de translúcida
à diabólica vanidade.

Jan.18.MMV
(in livro xiii)

luz em pó

sobre a cómoda resta um fio
que o existir das coisas
não consegue quebrar – só
refractar (
o frasco de perfume há mais
de vinte anos bem pesados,
um santo, outro, aquele
iluminado, uma maçã
que não está ainda mais
engelhada que as do cesto
ao lado, um homem antigo
daqueles que sabemos
terem morrido mesmo
que vivos, fotografia nunca
olhada com amor,
uma caixinha, minúscula
para os comprimidos que
dali a vida tem tirado, um
livro, orações que usei para
a ajudar a dormir nas asas
de deus, uma caixinha que
nem ela soube nunca para
serve, um retalho de pano
que servirá para o quase
imperscrutável, e pó
)
- pó que reflecte sem
refractar a luz das frestas
da persiana suja.

para a minha avó, que fez 91 anos

(Jan.17.MMV)

nota sobre crime em linha recta...

a orgânica do declínio, o amor em queda livre, teatro de pele e crime em linha recta, espiral invisível são os primeiros poemas de um conjunto intitulado A Geometria da Inexistência, nome pelo qual serão identificados os poemas que a estes se somarem ao longo do tempo. Constituem portanto um ciclo distinto do anteriormente mencionado livro xiii. Sempre que forem publicados outros poemas ou textos que não integrem nenhum destes grupos em construção, serão devidamente datados e identificados segundo o nome do livro a que pertencem.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

crime em linha recta, espiral invisível

Lembras-te de quando sentiste
pela primeira vez o peso da consciência fratricida? Ocorre-te,
quando acordas, recuperar o perdão? É indolor já
a tenacidade com que despontas do crepúsculo,
indelével talvez? Foi por acaso violentado
o céu, e és filha de um deus que fugiu? Precisavas de aniquilar
o sangue de luz a correr pelas horas?
(Tinhas de ser filha única. Não suportaste a ameaça
da comparação de cores, dos brilhos, das reverberações. Foi-te prometido
um jardim que não há. Não toleras a verdade, mas
não existem deuses deste lado)
Lembras-te, noite, de quando choraste pela primeira vez?


Jan.17.MMV

notas sobre o Diabo


The Fall of the Rebel Angels, by Pieter Bruegel

O último post constitui a terceira e última parte de um "tríptico" ... para agradar ao Diabo. Foram todos publicados aqui, e podem ser lidos na íntegra a partir do post de 03 de janeiro. "... para agradar ao Diabo" é o grupo de poemas que abre "livro xiii", título do conjunto a que pertencem também "flor íngreme" e "grão", igualmente publicados por estes dias. Os poemas que se lhes juntarem serão identificados no final por "livro xiii", para os distinguir de outros textos, recentes ou já datados.

... para agradar ao Diabo: terceira parte – cristais para lúcifer

I
Estaco, quedo-me
resoluto - decido (pel)o
silêncio.

II
Aprecio o deambular
sonâmbulo, do hipnotizador
sodomizado pela própria cauda.

III
Esvaio-me, um sorriso,
malícia sobre sangue, esperma
derramado em vão.

IV
Toco o vermelho sem
repulsa sem desejo
sem indiferença.

V
Acasalo com o demónio
sem contraceptivo
– o domínio silente.

VI
Ele toma a forma de
serpente, eu reinvento-me
covil e vara - antídoto envenenado.

VII
Metamorfose em corpo
de mulher, cadáver, imagem
- resisto, não definho no nojo.

VIII
Vagueio pelo corpo corrompido
como pelo virginal – cubro-o de
de saliva como de sémen.

IX
Passeio pelas entranhas da luz
(decrepitude última que o fim
admite) – “Sentes-me? Dói?”

X
Não te chamei em vão
nem foi a ambição móbil
faustiano da invocação silente.

XI
Vejo a tua morte num assomo
de lume aos olhos que me inundam
desta destemida volptuosidade.

XII
Cedeste tarde ao prazer que
injectaste, esvais-te cedo no amplexo
que te nego, ego saturnino.

XIII
Queda-te tu agora (infinito e
esquálido), seco pelo vento árido
que te prolonga o uivar eterno.

último cristal
Oco de ti, sobrevive pouco
do brilho que enunciou o canto
- ecoa livre agora, o silêncio.

domingo, janeiro 16, 2005

teatro de pele

O gesto nunca chega, o braço recusa
o contorno desavergonhado do impossível. O corpo sabe a lógica da emoção
proibida. O sonho conhece-a também -
semântica secreta do fio
de lume subliminar do desejo.

(O corpo sacrifica à linguagem o imaginário nu e indefeso, numa entrega
desonesta interesseira premeditada sobre o prazer antecipado)

A vereda do ventre continua deserta, onde habita ainda a mão cega.

Jan.16.MMV

pedaços de letras... de Philippe Claudel


Philippe Claudel

“Não sei muito bem por onde começar. É bastante difícil. Há todo esse tempo passado, que as palavras não recuperarão, e também os rostos, os sorrisos, as chagas. Mas ainda assim preciso de tentar dizer. Dizer o que me vai no coração há vinte anos. Os remorsos e as grandes interrogações. Preciso de rasgar o mistério à faca como um ventre, e de o remexer com ambas as mãos, mesmo se não mudar nada de nada.
Se me perguntassem por que milagre conheço todos os facto que vou contar, responderia que os sei, ponto final. Sei-os porque me são familiares como o entardecer e o nascer do dia. Porque passei a vida a querer juntá-los e alinhavá-los, para os fazer falar, para os ouvir. Outrora, era de certo modo o meu ofício.
Vou fazer desfilar muitas sombras. Uma delas, sobretudo estará em primeiro plano. Pertencia a um homem que se chamava Pierre-Ange Destinat”
(in Almas Cinzentas, Philippe Claudel, trad. Isabel St. Aubyn, ASA 2004)

POR ONDE ANDO...

I - Os livros que acompanham os dias presentes,
espalhados pelas horas que esperam por mim em lugares incertos.



Almas Cinzentas, de Philippe Claudel – uma sugestão de leitura que aceitei pela possibilidade de instantes de pensamentos partilhados. Ainda li demasiado pouco para poder emitir um juízo que não o interesse estimulado pela forma de contacto directo que o narrador estabelece connosco, talvez um dos atributos que tenham proporcionado ao autor o Prémio Renaudot 2003.

O Fio das Missangas, de Mia Couto – outra forma de fazer nascer palavras das mesmas coisas. Simples, com o encantamento que é reconhecido à escrita de Mia Couto.

Para Além da Morte, de John Galsworthy – leitura mais descontraída, embalada pelo realismo inglês, em pedaços que respiro quando nada mais parece apelar ao silêncio da leitura.

O Conceito de Amor em Santo Agostinho, da Hannah Arendt – não esquecendo que é uma dissertação de doutoramento de uma das maiores pensadoras do séc. XX, não deixa de ser uma delícia que poucos livros proporcionam, a erudição no feminino, delicada e profunda, exigente e livre. Um passeio inesquecível...

As Confissões, de Santo Agostinho – apesar de ainda só ter lido até ao livro VIII, até onde se descrevem ainda muitas das vivências anteriores à conversão e à entrega a Deus, é um dos textos que apetece beber até sermos capazes de dizer de nós mesmos aquelas verdade. Mesmo o impossível parece estar ao nosso alcance, ainda “sermos” homens e mulheres ao alcance do pensamento. Do mesmo autor, acabei na última semana o seu brilhante Diálogo sobre a Felicidade, que recomendo também.

História da Filosofia IV, de Nicola Abbagnano – um clássico que não tenho dispensado. Não o leio com o fim definido de preparar um exame, nem com o estímulo de conhecer a fundo os pensadores ocidentais, e não só. Tem sido uma leitura pela ajuda organizada e descomprometida que a sua linguagem de pedagogo dá na arrumação cronológica de eventos e homens, livros e revoluções no pensamento da humanidade. Acabei ontem (dia 15) o terceiro volume, aprendendo muito sobre a filosofia árabe e judaica, que tanto ensinaram ao Ocidente sobre Aristóteles, e tenho o quarto tomo a fazer beicinho por ainda não o ter desflorado. Apenas o marcador já dirige o seu lugar para Alberto Magno.

A Angústia da Influência, de Harold Bloom – tem sido um livro duro de fruir, um desafio, uma luta. Lembra-me de como me senti quando li a primeira vez a Obra Aberta. É daqueles livro que ainda sinto que se pode dar ao luxo de escolher o seu leitor, e tenta ironicamente chamar-me à sua leitura para me dizer devagarinho e com sadismo, que não sou ainda um leitor para si. Mas a minha teimosia por vezes é insensata. E tenho entrado no jogo. Leio, lentamente, como quem disfarça o desejo de o devorar, com medo de denunciar a ansiedade ou o temor de chegar depressa demais ao fim e sentir o gosto amargo de reconhecer que não devia ter lido ainda.




Rembrandt: Philosopher in Meditation (1632)


II - Impostos pelo estudo que a presente época académica intensifica, deixo-me perder ainda por:


Meditações Metafísicas, de Descartes – Depois das Regulae, e do Discours, as Meditações são uma leitura mais prazerosa. Não fosse o trabalho que tenho de fazer, o prazer seria ainda maior.

Categorias, de Aristóteles – já em fase final (de leitura, não de integração), é sem dúvida um grande texto, de interesse geral sobre a organização do pensamento e das coisas. Não tenho a certeza de estar a ler uma excelente tradução. Desconfio que não. Mas o apetite de continuar em busca da compreensão não é abalado por acidentes desta natureza.

O Conhecimento e o Problema Corpo-Mente, de Karl R. Popper – ainda comecei a ler antes do Natal, mas só agora me encontro com disponibilidade de continuar. Estou muito curioso para penetrar na justificação de Popper da função de chave-mestra que ele atribui ao seu Mundo 3.

Do Cancioneiro de Amigo, de Stephen Reckert e Helder Macedo – Cantigas medievais como significantes poéticos de significados antropológicos – um outro olhar sobre a imagética medieval, dos mitos e ritos que a nossa poesia de excepção permite sublimar em versos de aparente ingenuidade. Grandes ensaios e análises de texto.



III - Os livros de que nem me dou conta de andar a ler,
de tão naturais que são os minutos em que neles tenho repousado:



Teoria Literária, org. de Marc Angenot – ler devagar, tema por tema, problema a problema.

Dicionário das Ciências da Linguagem, de Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov - referências incontornáveis da teoria literária e linguística

Source Readings in Music History: I. - Greek Views of Music – o Platão e o Aristóteles que ouviam música.

A Linguagem Harmónica do Tonalismo, de Christopher Bochmann - professor de quem guardo boas memórias, e cujo trabalho continua a ajudar-me a organizar as minhas aulas.

O Declínio da Idade Média, de quem não precisa de apresentações - Johan Huizinga é mestre na arte de fascinar, seja que esfera de pensamento for.

História da Literatura Portuguesa, de António José Sariava e Óscar Lopes – como o Abbagnano, leitura de longa duração, sem destino, sem pressa, ao sabor do tempo.


Ein-Blick (aquarell 54x62), by Birgit Blumenstock

um livro por escrever

Através das cortinas sujas, diáfanas apesar disso, consegue observar a desorganizada aleatoriedade das pessoas que dia após dia lhe passam diante da janela. Nunca a sua memória visual lhe permitiu reconhecer alguém (embora admita que possam ter havido casos, espera que poucos, de pessoas lhe terem passado despercebidas ou inadvertidamente irreconhecíveis). Já não sabe o que ali faz, horas a fio, mas continua na convicção plena de que algo ali espera por si.
Escreve em folhas sujas - sujas de tinta em descuidadas pinturas e sombreados, sujas de pó pela ausência de palavras, sujas dos rastos deixados pelos insectos que consigo privam e ajudam a devorar não só os encadeamentos dos segundos, como também os resquícios de papel resultante de inúmeras rasuras. Mas no meio deste labirinto que viola a desejável brancura do receptáculo literário, sempre consegue encontrar um canto onde anotar cada nova descrição.

Almoçou parcamente, como de resto acontece com todos os momentos vitais da sua presente existência. Deixou-se cair novamente na poltrona que, desde o dia em que a comprou à família do vizinho falecido, acredita proporcionar o contacto misterioso com uma certa forma de dormir, necessária à sua tarefa diária – um dormir de olhos despertos, um sono de guarda vigilante, que revê no sonho confuso a dança de rostos desfocados apreendidos durante a manhã. Apenas o leve roçar de alguns sapatos na calçada lhe faz tremer levemente a dormência, mas retorna de seguida o estranho sono, até acordar pelo despertador interno que lhe diz que a matéria anda à solta e é preciso trabalhar, o que acontece quase sempre de manhã e ao fim da tarde, horas de maior afluxo de deambulantes almas à mercê da sua janela de olhos atentos.

Com sapatos de roçagar leve pelo chão, submissos e arrastados, em cadência quase morta, o vulto que mais perto se encontra de si e dos seus olhos no vidro é um homem ainda novo. Em tanta gente uniforme e monotonamente igual, já quase nada lhe permite distinguir da multidão um ser individual por alguma característica especial. Quando tal acontece, o punho começa a tremer levemente, e a alma tenta respirar silenciosamente para não acordar a ansiedade que ao lado espera. Nesse momentos sabe que escreverá uma frase, uma descrição breve que seja, um suspiro em forma de palavra, qualquer coisa, mas influenciado pela característica observada.
O homem que esta tarde lhe perturbou o sono a ponto de pensar que ia escrever, apenas se distingue da alucinada nebulosa viva, pela incongruência do seu vestuário com a leveza do andar. E pormenores destes acabam por não chegar para escrever seja o que for. É daqueles casos em que a ideia fica no espírito a acumular com outras não realizadas, à espera que o conjunto suficiente de pormenores mereça o esforço de violar o vazio, arriscando a perdição da inocência do não-escrito.

Apesar de tudo, não é uma pessoa distante do mundo.

Ouve também muito bem. Por vezes, joga toda a sua confiança na audição. Deixa-se estar de olhos fechados, mesmo depois de saber que os devia abrir. Mesmo por saber que a material transmutação das suas personagens anda lá fora, deixa-os estar fechados e testa-se nessa coragem angustiada. Cada som de vestido esvoaçante, cada murmúrio de passos distantes, cada assobio de passagem veloz, se podem tornar sinais de presenças a reter.

Tem ao lado da poltrona uma estante de madeira, muito velha também. Cheia de livros que não abre há muito tempo. Nem sempre leu muito. Há alguns anos que a vida se tem organizado em torno da ilusão da escrita, e não da miragem da leitura. Antes, em cada vulto reconhecia algum traço de um personagem lido, e revivia nesse momento a alegria de partilhar com um grande escritor a revelação da universalidade do ser humano, como se em todos e em cada um de nós um livro já escrito se desfolhasse a cada dia volvido.
E não é em destino que pensa ... seria em poesia metafísica, se pensasse nisso.

Quando arrisca escrever uma palavra, sabe o peso que a tinta exerce na sua alma, mais do que no papel ansioso, à sua frente. Ao tentar iniciar uma descrição, pondera primeiro a forma como relacionará determinada particularidade observada com outros aspectos que queira atribuir a um ou outro transeunte. Porque não só do observado se constrói uma imagem...

Escreve desordenadamente... dolorosamente, ordena de novo o branco em pinceladas de censura e desilusão.

Anoitece lentamente...
...

Um passo ...

Acorda sobressaltado ...

(17.07.01 - rev. 2005)

rainy night, by Michael J. Russell

sábado, janeiro 15, 2005

ontem, o céu

naquela apenas
solitária, não morta
ou silenciosa,
madrugada
vieste embrulhada
em nuvens e choveste


22.12.03

(in Horizontes de Ouro, 2004)

sexta-feira, janeiro 14, 2005

... para agradar ao Diabo: segunda parte - a invocação silente

II
Na esfera do reduto
final do grito iniciático
ergue-se uma sombra
uma dúvida, inquieta
paixão pelo derrubar
sem dó do preconceito
e da descrença vazia.

Desliza nos bicos
dos pés, dilacera o ar
com esgrimas de viuvez,
afila o sorriso negro
num gume sarcástico
de vitória antecipada.

Julga fortuna a desdita
do chamamento de sereia
em que a metamorfose
da culpa me transforma.

Assoma às ameias da
alma suplicante com
tréguas nas narinas e
golpes de olhar nos
lábios, trémulo, a baba
enunciado, eloquente,
a volúptia do sangue
prometido no grito
em fingida agonia
renascido, edificado.

Sabe que perdeu, que
perde sempre que aceita
o desvario de quem
o invoca –desocultamento
da sua impotência
face ao desejo de
servir a súplica do
desesperado. Perdeu
porque se vulnerabiliza
ao poder do sacerdote
profanador do mal.

“Acede ao meu temor
vem à pele ensanguentada
beber a tua vida, e aqui
exercerás o último resgate”,
proclamo, derrotado e
silenciosamente triunfante.

o amor em queda livre

Ela murmura ainda, como num rascunho, uma experiência de despedida adiada
antes de desligar - um “sabes...”, um “espera...”, um “tenho ainda tanta coisa para...”, um “foda-se...”.
O diâmetro de um círculo mede-se com os olhos fechados.
O olhar foge à perfeição e à completude. Para o número redondo
é preciso escutar o tempo entre duas interjeições banais. Medir é caber, primeiro,
e comparar com a ausência, depois. Ele suspira, como um olhar gélido de cansaço a descer por um rio sujo, suspira sem som, sem comunicação. Sem sentido. Sem um “diz...”, sem um “falamos depois...”, sem um “é tarde...”, sem um “foda-se...”.
O volume de uma esfera é medido pelo tacto, pela palma da mão
sobre a pele das nádegas, pela profundidade a que os dedos se perdem, pelo cheiro que transborda das narinas para fora. Caber, primeiro. Deixar de estar, depois.
Não comparar. Cair.
A palavra e o corpo. Geometria do indizível e do impalpável.


quinta-feira, janeiro 13, 2005

quarta-feira, janeiro 12, 2005

a matilha

Como num dia de outono, a luz incide-lhe nos olhos, a uma certa distância, ao de leve. Paira um pouco antes de lhe lamber o rosto, mas acaba sempre por beijá-lo docemente. Dá-lhe uma nuance pálida aos contornos, mas enobrece-lhe o olhar, já que para recebê-la ele os deixa por alguns instantes vazios – abertos, mas vazios. Encantadores. Mais do que a sua consciência consegue projectar para fora de si, sente-se mal. Olha em frente sem ver, pensa sem existir fora do pensamento.
Apercebe-se da minha presença e respira de cansaço.

Ao longe, as nuvens desenham corvos azuis claros e unicórnios. Na sua mente qualquer construção natural tem o seu quê de inexistente e fantástico. Porque o real tem sempre o mistério de não ter ainda existido.
- Mais um dia assim – diz-me, numa apatia familiar, sem se voltar.
- Mais um dia assim – replico com tranquilidade, sem desviar o olhar dos unicórnios.

(São lobos)

Abraça-me, como eu o tivesse pedido, mas sem me encarar, sem me deixar mexer, sequer. Estamos sozinhos, perante árvores distantes, relva húmida, sol inquiridor. Mas ainda me toca como se de uma oferenda se tratasse, uma generosa aplacação do meu desejo ou da minha sensibilidade.

Aos quinze anos ele já sabia sobre o que é que o sol perguntava com tanta insistência. Eu só mais tarde compreendi o julgamento celeste. Os nossos desaguares foram recebidos nos antípodas dos afectos – os meus amigos são meus amigos; os seus ex-amigos são estranhos com nome. Moveu-os o comportamento fácil da incompreensão, ou o mecanismo mais complexo do medo. Os meus escolheram o labirinto da turbulência relacional, mas navegaram por esse mar de dúvidas com a resolução de uma questão pessoal – se tinham fantasmas pessoais a respeito da sua identidade, enfrentaram-nos e sobreviveram. Os seus ex-amigos, sucumbiram aos seus fantasmas sexuais, e continuam sem saber como lutar se um dia a tempestade não for bater à porta ao lado.

- A que horas chegaste?
- Há praticamente duas horas. Ainda não fui a casa. Calculei que estivesses aqui. Queres ficar sozinho?
- Não. Acho que não. Quer dizer, não sei se quero ficar sozinho ou não. Mas, pelo sim pelo não, fica. Posso descobrir, entretanto – acaba por dizer, sorrindo, e pela primeira vez depois de três semanas sem nos vermos, olha-me e beija-me, como se já tivesse encontrado a resposta.

Depois de algum tempo sem pensarmos em mais nada senão no nosso idealizado futuro e no banal presente, começamos por vezes a querer vasculhar o passado, passá-lo a pente fino. Queríamos descobrir um gesto, uma palavra, um dia diferente, uma oferta, um abuso, um trato, um carinho, algo... Fosse o que fosse, acho que nos satisfaria. Depois de alguns anos deixamos de ambicionar a verdade. Serve-nos o que encontrarmos. Nessa altura duas coisas podem suceder: encontramos algo que achamos digno de nos reprimir o sentido de culpa por um número de anos que consideremos suficientes; ou não encontramos mesmo nada, e temos de construir para nós um novo passado prenhe de coisas a encontrar se procurarmos com determinação teleológica. Na melhor das hipóteses não temos consciência de qual das duas situações nos corresponde. Na pior, sabemos ser uma delas e estamos conscientes da infelicidade que esse conhecimento comporta.

Retribuo o beijo, sem desejo, sem vontade de pensar nos porquês da indiferença. Sei que ele prefere assim. Não saber que não se é amado faz com que o tempo pareça distender-se à nossa frente até decidirmos olhar para a verdade. Saber que não se é amado faz caber a eternidade numa hora, como o Blake pensava que sabia.

(Somos lobos)

- Não vou ficar muito tempo, provavelmente. Acho que está a ser ridículo demais para a nossa condição e idade. E mais ainda para o que pensamos de nós próprios e mutuamente. Tens pensado no vazio que nos espera?
- Não. Tenho pensado no vazio que habito. Como tu, pelos vistos. Que vazios temes tu ainda?
- O anonimato e a vulgaridade. Ambos definições do passado, ambos à nossa espera. Eu pelo menos só encontrei um nome em ti. E sei que perderei o meu quando sair.
- Voltar a ser uma boca ou um pau apenas, às escuras ou debaixo da luz amarela refractada no pára-brisas embaciado, não será propriamente original, mas talvez por isso mesmo não me assuste. Assusta-me poder não reconhecer de novo becos sem saída como o nosso.

Não me emociona ouvi-lo mentir. Como não me emocionou antes dizer a verdade. Afinal de contas ambos sabemos que a emoção maior vive sempre fora do que se vive emotivamente. O que se vive com entrega nunca pode ter nada de precioso, ou a eventual perda surgiria como uma ameaça que ninguém ignoraria. É estúpido pensar assim, sabendo que não se tem razão no que se pensa.

Os corvos clarearam ainda mais, não sendo mais que alguns riscos brancos já, penas soltas. Ele levanta-se. Passa-me a mão no cabelo. É uma despedida típica. Como se nos fôssemos encontrar logo à noite em casa, depois de cada um ter ocupado parte do dia na camuflagem diurna da cidade. Sem me voltar, ouço a porta do carro fechar-se. Pelo arranque, percebo que palavras não me disse. No cavalgar do último unicórnio ouço as palavras que eu próprio não quis dizer.


(Sem lhes vestirmos a pele)

...para agradar ao Diabo: segunda parte - a invocação silente

I


Oxalá o dia não nasça
um dia, e só ameace
espreitar por detrás de
uma manta de sombra.

Quem sabe o que eu
veria nessa velada dança
de um dia coberto de
pó areia cal ou cinza.

Centelhas de imaginário
se cobririam de ouro
ou de pólen, que é ouro
para brincos de mel.

Oxalá o coração pare
num silêncio teatral
num suspiro fingido
de surpresa ou ânsia.

Quem sabe o sabor
do erguido instante
acima do ruído vital
e da alvorada escura.

Um exército onírico
me derrubaria de mim
abaixo, como árvore
pelos ventos do norte.

Oxalá não sinta outro
inferno a nascer-me
atrás de cada instinto
nem dentro dos sons.

Quem sabe o que dirá
o Diabo, assim invocado
sem aviso nem piedade
por este nado-morto.

Palavras impetuosas, as
que bramará por esferas
abaixo, até estrangular
o meu atrevido gemido.