domingo, janeiro 16, 2005

teatro de pele

O gesto nunca chega, o braço recusa
o contorno desavergonhado do impossível. O corpo sabe a lógica da emoção
proibida. O sonho conhece-a também -
semântica secreta do fio
de lume subliminar do desejo.

(O corpo sacrifica à linguagem o imaginário nu e indefeso, numa entrega
desonesta interesseira premeditada sobre o prazer antecipado)

A vereda do ventre continua deserta, onde habita ainda a mão cega.

Jan.16.MMV

pedaços de letras... de Philippe Claudel


Philippe Claudel

“Não sei muito bem por onde começar. É bastante difícil. Há todo esse tempo passado, que as palavras não recuperarão, e também os rostos, os sorrisos, as chagas. Mas ainda assim preciso de tentar dizer. Dizer o que me vai no coração há vinte anos. Os remorsos e as grandes interrogações. Preciso de rasgar o mistério à faca como um ventre, e de o remexer com ambas as mãos, mesmo se não mudar nada de nada.
Se me perguntassem por que milagre conheço todos os facto que vou contar, responderia que os sei, ponto final. Sei-os porque me são familiares como o entardecer e o nascer do dia. Porque passei a vida a querer juntá-los e alinhavá-los, para os fazer falar, para os ouvir. Outrora, era de certo modo o meu ofício.
Vou fazer desfilar muitas sombras. Uma delas, sobretudo estará em primeiro plano. Pertencia a um homem que se chamava Pierre-Ange Destinat”
(in Almas Cinzentas, Philippe Claudel, trad. Isabel St. Aubyn, ASA 2004)

POR ONDE ANDO...

I - Os livros que acompanham os dias presentes,
espalhados pelas horas que esperam por mim em lugares incertos.



Almas Cinzentas, de Philippe Claudel – uma sugestão de leitura que aceitei pela possibilidade de instantes de pensamentos partilhados. Ainda li demasiado pouco para poder emitir um juízo que não o interesse estimulado pela forma de contacto directo que o narrador estabelece connosco, talvez um dos atributos que tenham proporcionado ao autor o Prémio Renaudot 2003.

O Fio das Missangas, de Mia Couto – outra forma de fazer nascer palavras das mesmas coisas. Simples, com o encantamento que é reconhecido à escrita de Mia Couto.

Para Além da Morte, de John Galsworthy – leitura mais descontraída, embalada pelo realismo inglês, em pedaços que respiro quando nada mais parece apelar ao silêncio da leitura.

O Conceito de Amor em Santo Agostinho, da Hannah Arendt – não esquecendo que é uma dissertação de doutoramento de uma das maiores pensadoras do séc. XX, não deixa de ser uma delícia que poucos livros proporcionam, a erudição no feminino, delicada e profunda, exigente e livre. Um passeio inesquecível...

As Confissões, de Santo Agostinho – apesar de ainda só ter lido até ao livro VIII, até onde se descrevem ainda muitas das vivências anteriores à conversão e à entrega a Deus, é um dos textos que apetece beber até sermos capazes de dizer de nós mesmos aquelas verdade. Mesmo o impossível parece estar ao nosso alcance, ainda “sermos” homens e mulheres ao alcance do pensamento. Do mesmo autor, acabei na última semana o seu brilhante Diálogo sobre a Felicidade, que recomendo também.

História da Filosofia IV, de Nicola Abbagnano – um clássico que não tenho dispensado. Não o leio com o fim definido de preparar um exame, nem com o estímulo de conhecer a fundo os pensadores ocidentais, e não só. Tem sido uma leitura pela ajuda organizada e descomprometida que a sua linguagem de pedagogo dá na arrumação cronológica de eventos e homens, livros e revoluções no pensamento da humanidade. Acabei ontem (dia 15) o terceiro volume, aprendendo muito sobre a filosofia árabe e judaica, que tanto ensinaram ao Ocidente sobre Aristóteles, e tenho o quarto tomo a fazer beicinho por ainda não o ter desflorado. Apenas o marcador já dirige o seu lugar para Alberto Magno.

A Angústia da Influência, de Harold Bloom – tem sido um livro duro de fruir, um desafio, uma luta. Lembra-me de como me senti quando li a primeira vez a Obra Aberta. É daqueles livro que ainda sinto que se pode dar ao luxo de escolher o seu leitor, e tenta ironicamente chamar-me à sua leitura para me dizer devagarinho e com sadismo, que não sou ainda um leitor para si. Mas a minha teimosia por vezes é insensata. E tenho entrado no jogo. Leio, lentamente, como quem disfarça o desejo de o devorar, com medo de denunciar a ansiedade ou o temor de chegar depressa demais ao fim e sentir o gosto amargo de reconhecer que não devia ter lido ainda.




Rembrandt: Philosopher in Meditation (1632)


II - Impostos pelo estudo que a presente época académica intensifica, deixo-me perder ainda por:


Meditações Metafísicas, de Descartes – Depois das Regulae, e do Discours, as Meditações são uma leitura mais prazerosa. Não fosse o trabalho que tenho de fazer, o prazer seria ainda maior.

Categorias, de Aristóteles – já em fase final (de leitura, não de integração), é sem dúvida um grande texto, de interesse geral sobre a organização do pensamento e das coisas. Não tenho a certeza de estar a ler uma excelente tradução. Desconfio que não. Mas o apetite de continuar em busca da compreensão não é abalado por acidentes desta natureza.

O Conhecimento e o Problema Corpo-Mente, de Karl R. Popper – ainda comecei a ler antes do Natal, mas só agora me encontro com disponibilidade de continuar. Estou muito curioso para penetrar na justificação de Popper da função de chave-mestra que ele atribui ao seu Mundo 3.

Do Cancioneiro de Amigo, de Stephen Reckert e Helder Macedo – Cantigas medievais como significantes poéticos de significados antropológicos – um outro olhar sobre a imagética medieval, dos mitos e ritos que a nossa poesia de excepção permite sublimar em versos de aparente ingenuidade. Grandes ensaios e análises de texto.



III - Os livros de que nem me dou conta de andar a ler,
de tão naturais que são os minutos em que neles tenho repousado:



Teoria Literária, org. de Marc Angenot – ler devagar, tema por tema, problema a problema.

Dicionário das Ciências da Linguagem, de Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov - referências incontornáveis da teoria literária e linguística

Source Readings in Music History: I. - Greek Views of Music – o Platão e o Aristóteles que ouviam música.

A Linguagem Harmónica do Tonalismo, de Christopher Bochmann - professor de quem guardo boas memórias, e cujo trabalho continua a ajudar-me a organizar as minhas aulas.

O Declínio da Idade Média, de quem não precisa de apresentações - Johan Huizinga é mestre na arte de fascinar, seja que esfera de pensamento for.

História da Literatura Portuguesa, de António José Sariava e Óscar Lopes – como o Abbagnano, leitura de longa duração, sem destino, sem pressa, ao sabor do tempo.


Ein-Blick (aquarell 54x62), by Birgit Blumenstock

um livro por escrever

Através das cortinas sujas, diáfanas apesar disso, consegue observar a desorganizada aleatoriedade das pessoas que dia após dia lhe passam diante da janela. Nunca a sua memória visual lhe permitiu reconhecer alguém (embora admita que possam ter havido casos, espera que poucos, de pessoas lhe terem passado despercebidas ou inadvertidamente irreconhecíveis). Já não sabe o que ali faz, horas a fio, mas continua na convicção plena de que algo ali espera por si.
Escreve em folhas sujas - sujas de tinta em descuidadas pinturas e sombreados, sujas de pó pela ausência de palavras, sujas dos rastos deixados pelos insectos que consigo privam e ajudam a devorar não só os encadeamentos dos segundos, como também os resquícios de papel resultante de inúmeras rasuras. Mas no meio deste labirinto que viola a desejável brancura do receptáculo literário, sempre consegue encontrar um canto onde anotar cada nova descrição.

Almoçou parcamente, como de resto acontece com todos os momentos vitais da sua presente existência. Deixou-se cair novamente na poltrona que, desde o dia em que a comprou à família do vizinho falecido, acredita proporcionar o contacto misterioso com uma certa forma de dormir, necessária à sua tarefa diária – um dormir de olhos despertos, um sono de guarda vigilante, que revê no sonho confuso a dança de rostos desfocados apreendidos durante a manhã. Apenas o leve roçar de alguns sapatos na calçada lhe faz tremer levemente a dormência, mas retorna de seguida o estranho sono, até acordar pelo despertador interno que lhe diz que a matéria anda à solta e é preciso trabalhar, o que acontece quase sempre de manhã e ao fim da tarde, horas de maior afluxo de deambulantes almas à mercê da sua janela de olhos atentos.

Com sapatos de roçagar leve pelo chão, submissos e arrastados, em cadência quase morta, o vulto que mais perto se encontra de si e dos seus olhos no vidro é um homem ainda novo. Em tanta gente uniforme e monotonamente igual, já quase nada lhe permite distinguir da multidão um ser individual por alguma característica especial. Quando tal acontece, o punho começa a tremer levemente, e a alma tenta respirar silenciosamente para não acordar a ansiedade que ao lado espera. Nesse momentos sabe que escreverá uma frase, uma descrição breve que seja, um suspiro em forma de palavra, qualquer coisa, mas influenciado pela característica observada.
O homem que esta tarde lhe perturbou o sono a ponto de pensar que ia escrever, apenas se distingue da alucinada nebulosa viva, pela incongruência do seu vestuário com a leveza do andar. E pormenores destes acabam por não chegar para escrever seja o que for. É daqueles casos em que a ideia fica no espírito a acumular com outras não realizadas, à espera que o conjunto suficiente de pormenores mereça o esforço de violar o vazio, arriscando a perdição da inocência do não-escrito.

Apesar de tudo, não é uma pessoa distante do mundo.

Ouve também muito bem. Por vezes, joga toda a sua confiança na audição. Deixa-se estar de olhos fechados, mesmo depois de saber que os devia abrir. Mesmo por saber que a material transmutação das suas personagens anda lá fora, deixa-os estar fechados e testa-se nessa coragem angustiada. Cada som de vestido esvoaçante, cada murmúrio de passos distantes, cada assobio de passagem veloz, se podem tornar sinais de presenças a reter.

Tem ao lado da poltrona uma estante de madeira, muito velha também. Cheia de livros que não abre há muito tempo. Nem sempre leu muito. Há alguns anos que a vida se tem organizado em torno da ilusão da escrita, e não da miragem da leitura. Antes, em cada vulto reconhecia algum traço de um personagem lido, e revivia nesse momento a alegria de partilhar com um grande escritor a revelação da universalidade do ser humano, como se em todos e em cada um de nós um livro já escrito se desfolhasse a cada dia volvido.
E não é em destino que pensa ... seria em poesia metafísica, se pensasse nisso.

Quando arrisca escrever uma palavra, sabe o peso que a tinta exerce na sua alma, mais do que no papel ansioso, à sua frente. Ao tentar iniciar uma descrição, pondera primeiro a forma como relacionará determinada particularidade observada com outros aspectos que queira atribuir a um ou outro transeunte. Porque não só do observado se constrói uma imagem...

Escreve desordenadamente... dolorosamente, ordena de novo o branco em pinceladas de censura e desilusão.

Anoitece lentamente...
...

Um passo ...

Acorda sobressaltado ...

(17.07.01 - rev. 2005)

rainy night, by Michael J. Russell

sábado, janeiro 15, 2005

ontem, o céu

naquela apenas
solitária, não morta
ou silenciosa,
madrugada
vieste embrulhada
em nuvens e choveste


22.12.03

(in Horizontes de Ouro, 2004)

sexta-feira, janeiro 14, 2005

... para agradar ao Diabo: segunda parte - a invocação silente

II
Na esfera do reduto
final do grito iniciático
ergue-se uma sombra
uma dúvida, inquieta
paixão pelo derrubar
sem dó do preconceito
e da descrença vazia.

Desliza nos bicos
dos pés, dilacera o ar
com esgrimas de viuvez,
afila o sorriso negro
num gume sarcástico
de vitória antecipada.

Julga fortuna a desdita
do chamamento de sereia
em que a metamorfose
da culpa me transforma.

Assoma às ameias da
alma suplicante com
tréguas nas narinas e
golpes de olhar nos
lábios, trémulo, a baba
enunciado, eloquente,
a volúptia do sangue
prometido no grito
em fingida agonia
renascido, edificado.

Sabe que perdeu, que
perde sempre que aceita
o desvario de quem
o invoca –desocultamento
da sua impotência
face ao desejo de
servir a súplica do
desesperado. Perdeu
porque se vulnerabiliza
ao poder do sacerdote
profanador do mal.

“Acede ao meu temor
vem à pele ensanguentada
beber a tua vida, e aqui
exercerás o último resgate”,
proclamo, derrotado e
silenciosamente triunfante.

o amor em queda livre

Ela murmura ainda, como num rascunho, uma experiência de despedida adiada
antes de desligar - um “sabes...”, um “espera...”, um “tenho ainda tanta coisa para...”, um “foda-se...”.
O diâmetro de um círculo mede-se com os olhos fechados.
O olhar foge à perfeição e à completude. Para o número redondo
é preciso escutar o tempo entre duas interjeições banais. Medir é caber, primeiro,
e comparar com a ausência, depois. Ele suspira, como um olhar gélido de cansaço a descer por um rio sujo, suspira sem som, sem comunicação. Sem sentido. Sem um “diz...”, sem um “falamos depois...”, sem um “é tarde...”, sem um “foda-se...”.
O volume de uma esfera é medido pelo tacto, pela palma da mão
sobre a pele das nádegas, pela profundidade a que os dedos se perdem, pelo cheiro que transborda das narinas para fora. Caber, primeiro. Deixar de estar, depois.
Não comparar. Cair.
A palavra e o corpo. Geometria do indizível e do impalpável.


quinta-feira, janeiro 13, 2005

quarta-feira, janeiro 12, 2005

a matilha

Como num dia de outono, a luz incide-lhe nos olhos, a uma certa distância, ao de leve. Paira um pouco antes de lhe lamber o rosto, mas acaba sempre por beijá-lo docemente. Dá-lhe uma nuance pálida aos contornos, mas enobrece-lhe o olhar, já que para recebê-la ele os deixa por alguns instantes vazios – abertos, mas vazios. Encantadores. Mais do que a sua consciência consegue projectar para fora de si, sente-se mal. Olha em frente sem ver, pensa sem existir fora do pensamento.
Apercebe-se da minha presença e respira de cansaço.

Ao longe, as nuvens desenham corvos azuis claros e unicórnios. Na sua mente qualquer construção natural tem o seu quê de inexistente e fantástico. Porque o real tem sempre o mistério de não ter ainda existido.
- Mais um dia assim – diz-me, numa apatia familiar, sem se voltar.
- Mais um dia assim – replico com tranquilidade, sem desviar o olhar dos unicórnios.

(São lobos)

Abraça-me, como eu o tivesse pedido, mas sem me encarar, sem me deixar mexer, sequer. Estamos sozinhos, perante árvores distantes, relva húmida, sol inquiridor. Mas ainda me toca como se de uma oferenda se tratasse, uma generosa aplacação do meu desejo ou da minha sensibilidade.

Aos quinze anos ele já sabia sobre o que é que o sol perguntava com tanta insistência. Eu só mais tarde compreendi o julgamento celeste. Os nossos desaguares foram recebidos nos antípodas dos afectos – os meus amigos são meus amigos; os seus ex-amigos são estranhos com nome. Moveu-os o comportamento fácil da incompreensão, ou o mecanismo mais complexo do medo. Os meus escolheram o labirinto da turbulência relacional, mas navegaram por esse mar de dúvidas com a resolução de uma questão pessoal – se tinham fantasmas pessoais a respeito da sua identidade, enfrentaram-nos e sobreviveram. Os seus ex-amigos, sucumbiram aos seus fantasmas sexuais, e continuam sem saber como lutar se um dia a tempestade não for bater à porta ao lado.

- A que horas chegaste?
- Há praticamente duas horas. Ainda não fui a casa. Calculei que estivesses aqui. Queres ficar sozinho?
- Não. Acho que não. Quer dizer, não sei se quero ficar sozinho ou não. Mas, pelo sim pelo não, fica. Posso descobrir, entretanto – acaba por dizer, sorrindo, e pela primeira vez depois de três semanas sem nos vermos, olha-me e beija-me, como se já tivesse encontrado a resposta.

Depois de algum tempo sem pensarmos em mais nada senão no nosso idealizado futuro e no banal presente, começamos por vezes a querer vasculhar o passado, passá-lo a pente fino. Queríamos descobrir um gesto, uma palavra, um dia diferente, uma oferta, um abuso, um trato, um carinho, algo... Fosse o que fosse, acho que nos satisfaria. Depois de alguns anos deixamos de ambicionar a verdade. Serve-nos o que encontrarmos. Nessa altura duas coisas podem suceder: encontramos algo que achamos digno de nos reprimir o sentido de culpa por um número de anos que consideremos suficientes; ou não encontramos mesmo nada, e temos de construir para nós um novo passado prenhe de coisas a encontrar se procurarmos com determinação teleológica. Na melhor das hipóteses não temos consciência de qual das duas situações nos corresponde. Na pior, sabemos ser uma delas e estamos conscientes da infelicidade que esse conhecimento comporta.

Retribuo o beijo, sem desejo, sem vontade de pensar nos porquês da indiferença. Sei que ele prefere assim. Não saber que não se é amado faz com que o tempo pareça distender-se à nossa frente até decidirmos olhar para a verdade. Saber que não se é amado faz caber a eternidade numa hora, como o Blake pensava que sabia.

(Somos lobos)

- Não vou ficar muito tempo, provavelmente. Acho que está a ser ridículo demais para a nossa condição e idade. E mais ainda para o que pensamos de nós próprios e mutuamente. Tens pensado no vazio que nos espera?
- Não. Tenho pensado no vazio que habito. Como tu, pelos vistos. Que vazios temes tu ainda?
- O anonimato e a vulgaridade. Ambos definições do passado, ambos à nossa espera. Eu pelo menos só encontrei um nome em ti. E sei que perderei o meu quando sair.
- Voltar a ser uma boca ou um pau apenas, às escuras ou debaixo da luz amarela refractada no pára-brisas embaciado, não será propriamente original, mas talvez por isso mesmo não me assuste. Assusta-me poder não reconhecer de novo becos sem saída como o nosso.

Não me emociona ouvi-lo mentir. Como não me emocionou antes dizer a verdade. Afinal de contas ambos sabemos que a emoção maior vive sempre fora do que se vive emotivamente. O que se vive com entrega nunca pode ter nada de precioso, ou a eventual perda surgiria como uma ameaça que ninguém ignoraria. É estúpido pensar assim, sabendo que não se tem razão no que se pensa.

Os corvos clarearam ainda mais, não sendo mais que alguns riscos brancos já, penas soltas. Ele levanta-se. Passa-me a mão no cabelo. É uma despedida típica. Como se nos fôssemos encontrar logo à noite em casa, depois de cada um ter ocupado parte do dia na camuflagem diurna da cidade. Sem me voltar, ouço a porta do carro fechar-se. Pelo arranque, percebo que palavras não me disse. No cavalgar do último unicórnio ouço as palavras que eu próprio não quis dizer.


(Sem lhes vestirmos a pele)

...para agradar ao Diabo: segunda parte - a invocação silente

I


Oxalá o dia não nasça
um dia, e só ameace
espreitar por detrás de
uma manta de sombra.

Quem sabe o que eu
veria nessa velada dança
de um dia coberto de
pó areia cal ou cinza.

Centelhas de imaginário
se cobririam de ouro
ou de pólen, que é ouro
para brincos de mel.

Oxalá o coração pare
num silêncio teatral
num suspiro fingido
de surpresa ou ânsia.

Quem sabe o sabor
do erguido instante
acima do ruído vital
e da alvorada escura.

Um exército onírico
me derrubaria de mim
abaixo, como árvore
pelos ventos do norte.

Oxalá não sinta outro
inferno a nascer-me
atrás de cada instinto
nem dentro dos sons.

Quem sabe o que dirá
o Diabo, assim invocado
sem aviso nem piedade
por este nado-morto.

Palavras impetuosas, as
que bramará por esferas
abaixo, até estrangular
o meu atrevido gemido.

terça-feira, janeiro 11, 2005

A recordação de coisa nenhuma

Dentro de poucos minutos o concerto estaria a começar. Estava no meu lugar, como quase todos os outros elementos. Como em quase todas as vezes, inundava-me a letargia profunda que só se dissolveria em breves momentos, fugazes, numa ou noutra peça, caso do programa constasse alguma obra que me enlevasse ao ponto do exorcismo. Em todas as outras alturas, como esta, o estado de dormência espiritual manter-se-ia ao longo do concerto, ou agravar-se-ia até ao limite de uma fobia ao som, uma fobia de música, de espectáculo, de público, que me faria regressar, terminada a performance, a um alívio de silêncio e de introspecção sem rumo mas desejada.

A poucos minutos do início do concerto, já com o instrumento montado, com algumas notas emitidas, para enganar os lábios e os fazer sentir relaxados e eficazes, dei por mim numa paralisia (in)voluntária, ou in(voluntária), caso assim se entenda melhor a ambiguidade da vontade.

Tenho por hábito remeter as crenças místicas que envolvem os sentidos e a razão, para a quadratura a pontilhado dos produtos da criatividade intelectual – como mais um elemento do mundo 3 de Popper. Não tenho por hábito, assim, valorizar os comportamentos misteriosos, mesmo que do meu próprio espírito.

Desta vez suspendi o meu juízo mental sobre tais fenómenos e, talvez por força da necessidade de escapar à inevitabilidade da fuga impossível, comecei a anular todos os sinais da minha presença e, simultaneamente, da presença de tudo o que me rodeava.

Naquele momento, tinha algo no meu colo. Penso que um livro, talvez uma partitura. Os meus olhos dirigiam-se aparentemente para o seu conteúdo. Mas na verdade os meus olhos eram os meus ouvidos, os meus pulmões, os meus músculos, o meu coração. Os meus olhos eram a única coisa que eu acreditei, naquele instante, existir ali, de mim. A sensação é comum a outros momentos, mas ali adquiriu uma função terapêutica, ou uma anti-função, dado que constituiu um atenuar de sensibilidade e dados vitais. O corpo atingiu uma imobilidade que não me recordava de já ter alcançado. Os músculos pareceram decidir respeitar um minuto de silêncio, numa atitude de reverência para com a estaticidade da mente, como os amigos de um defunto, em redor do caixão, antes de para os cigarros e as anedotas típicas de todos os velórios. Só os olhos viviam. Sem ver. Tenho de acreditar que os pulmões tenham continuado a representar o seu papel, que o sangue tenha conseguido manter o seu rumo no seu leito do costume, que o mais recôndito espaço intestinal tenha cumprido a sua razão de existir perante o jantar. Tenho de acreditar em tudo isso com uma fé mais intensa que a necessária para acreditar em Deus (porém, não tão enigmática e majestosa como a que recrutamos para acreditar na Morte).

Senti-me possuído por mim. Num sentido desabitual da posse de nós mesmos a que nos habituamos. Senti-me possuído pelo que de mim costuma diluir-se no que de mim possui outras coisas, dos sons aos movimentos que rodeiam qualquer minuto de vida. Senti-me possuído por nada mais que mim mesmo. Eu era só o meu olhar que não olhava para nada. Era só o meu olhar, que em vez de ver, respirava, tremia, pulsava, ouvia, abraçava o silêncio, gritava de músculo para músculo ordens inconsequentes.

Como um buraco negro à escala da realidade que me rodeava, tudo foi absorvido pela expulsão do meu olhar. Deixei de ser ali para que o próprio ali fosse eu - o meu olhar cego.

Mesmo assim, senti descolar-se de mim, deste olhar grávido de escuridão, uma outra consciência que me colocava ligeiramente atrás de mim mesmo. Podia intuir o meu olhar, vê-lo por detrás da própria visão, espreitar por cima dos ombros dos olhos e aceder ao que o olhar surdo e quieto me ocultava. Intuí assim a presença do maestro no estrado, a ovação que o recebeu. O início do concerto foi-me dado, clandestinamente, por este outro sentido, por esta possibilidade de passar por mim até ao real sem mim. Confiei nesta percepção difusa e levei o clarinete à boca, aos lábios já quase esquecidos da sua função antecipadamente preparada. Os sons de reminiscências espanholas, de um pseudo poema sinfónico de má qualidade, ecoaram na sala e confirmaram-me a necessidade de tocar. Toquei. Lá, e algures entre lá e mim.

Na viagem de regresso a casa, tento recordar-me do repertório, da reacção a cada obra, do final do concerto, dos aplausos do costume. Nada. Apenas a memória daquela lânguida ausência de breves minutos. É a recordação mais vívida, a de coisa nenhuma.


um passeio pel'O Navio de Espelhos

deixo aos leitores que por aqui passem por estes dias a sugestão apresentada por Divas e Contrabaixos, de um encontro na Livraria O Navio de Espelhos, em Aveiro. Para informação mais detalhada, deixo o link (perdoem-me não saber apresentar o link de forma mais profissional :) , mas assim não se perdem por esse espaço fora)

http://divasecontrabaixos.blogspot.com/2005/01/bloggers-vossa.html

Pela qualidade e profissionalismo deste blog, não hesito em remeter-vos a ele.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

grão

vincos que o tempo
alisa. perde-se
a rugosidade - fica um grão
uma filigrana de dor. espasmos
sem pulsação. só pulsão
vómito agonia.

(vibração de dentro
para dentro fora
de tempo à margem
do tempo em vão)

rugas dobras
uma conivência com
a textura das flores violentadas.

Jan.08.MMV

a orgânica do declínio

Vazio. Queda. Desordem. Um apelo breve. Incisivo.
Um sussurro de podridão.
Há sempre uma vida feita numa rodilha
à procura das mãos que a ajudem a cumprir o destino.
Uma desconjunção constitutiva. Um descarrilamento ancestral.
Um mito do pecado original extensível ao que não surge da crueldade da vileza da torpeza da malignidade da promiscuidade da irresponsabilidade da inveja da perversão da corrupção do desejo da degenerescência das paixões do desequilíbrio dos sentidos da malvadez gratuita do vilipendio desavergonhado da miséria dos valores da insensatez existencial.
Um mito extensível ao que surge apenas do ar da água da terra do fogo.

domingo, janeiro 09, 2005

... para agradar ao Diabo: primeira parte - o encantamento ancestral

III

Medeia mais de uma
vida vazia entre as
mortes consequentes
dos príncipes idílicos
que me povoam em
cada eternidade vivida;
esqueço-te/-me/-vos
sem que seja alto ou
ridículo sequer o preço.

Inicio, reinicio a queda
sem aparato nem nojo
agora, porque o verão
fará apodrecer agora
os resquícios de vida
que as palavras tiverem
deixado acesos ainda
como brasas em casa
de campo, madrugada
adentro, manhã afora.

Penso que sei afinal
mais do mundo do
que quando cheguei;
os primeiros dias
foram estranhos e
inquietantes, mas a
fome a sede e a fé
dão ao sentido o que
de sentido lhe falta;
depois é uma questão
de espaço – para ser
para criar destruir
e acima de tudo odiar.

Agora parto? Ou resta
aniquilar alguma alma
mais? Ou deambular
mais uma eternidade
p’las pantanosas areias
de mais um espírito
estúpido e crédulo?

Resistem em mim mil
vermes ainda sãos.
Ou quase mil, já que
tu também por agora
desfaleces pálido e nu.

sábado, janeiro 08, 2005


morte perpendicular (beco em ruínas, Santarém)

as casas morrem

XXII

as casas mantêm
a nobreza de um velho...

ano após chuva
... após roupas estendidas
leite no pátio derramado após desmaio fatal.
as casas morrem

e o seu corpo permanece
sábio
com respeito por tudo
que as não habitou

as casas não vegetam
eternamente imaturas
viajam sim pelo
silêncio inquieto do
vento que as acariciou
e depois as vela
num sopro de luto.

(in Infinitas Impossibilidades, 2002)

sexta-feira, janeiro 07, 2005


Amantes: claustro da abadia de Sto. Domingo de Silos (século XV - Burgos)