Dentro de poucos minutos o concerto estaria a começar. Estava no meu lugar, como quase todos os outros elementos. Como em quase todas as vezes, inundava-me a letargia profunda que só se dissolveria em breves momentos, fugazes, numa ou noutra peça, caso do programa constasse alguma obra que me enlevasse ao ponto do exorcismo. Em todas as outras alturas, como esta, o estado de dormência espiritual manter-se-ia ao longo do concerto, ou agravar-se-ia até ao limite de uma fobia ao som, uma fobia de música, de espectáculo, de público, que me faria regressar, terminada a performance, a um alívio de silêncio e de introspecção sem rumo mas desejada.
A poucos minutos do início do concerto, já com o instrumento montado, com algumas notas emitidas, para enganar os lábios e os fazer sentir relaxados e eficazes, dei por mim numa paralisia (in)voluntária, ou in(voluntária), caso assim se entenda melhor a ambiguidade da vontade.
Tenho por hábito remeter as crenças místicas que envolvem os sentidos e a razão, para a quadratura a pontilhado dos produtos da criatividade intelectual – como mais um elemento do mundo 3 de Popper. Não tenho por hábito, assim, valorizar os comportamentos misteriosos, mesmo que do meu próprio espírito.
Desta vez suspendi o meu juízo mental sobre tais fenómenos e, talvez por força da necessidade de escapar à inevitabilidade da fuga impossível, comecei a anular todos os sinais da minha presença e, simultaneamente, da presença de tudo o que me rodeava.
Naquele momento, tinha algo no meu colo. Penso que um livro, talvez uma partitura. Os meus olhos dirigiam-se aparentemente para o seu conteúdo. Mas na verdade os meus olhos eram os meus ouvidos, os meus pulmões, os meus músculos, o meu coração. Os meus olhos eram a única coisa que eu acreditei, naquele instante, existir ali, de mim. A sensação é comum a outros momentos, mas ali adquiriu uma função terapêutica, ou uma anti-função, dado que constituiu um atenuar de sensibilidade e dados vitais. O corpo atingiu uma imobilidade que não me recordava de já ter alcançado. Os músculos pareceram decidir respeitar um minuto de silêncio, numa atitude de reverência para com a estaticidade da mente, como os amigos de um defunto, em redor do caixão, antes de para os cigarros e as anedotas típicas de todos os velórios. Só os olhos viviam. Sem ver. Tenho de acreditar que os pulmões tenham continuado a representar o seu papel, que o sangue tenha conseguido manter o seu rumo no seu leito do costume, que o mais recôndito espaço intestinal tenha cumprido a sua razão de existir perante o jantar. Tenho de acreditar em tudo isso com uma fé mais intensa que a necessária para acreditar em Deus (porém, não tão enigmática e majestosa como a que recrutamos para acreditar na Morte).
Senti-me possuído por mim. Num sentido desabitual da posse de nós mesmos a que nos habituamos. Senti-me possuído pelo que de mim costuma diluir-se no que de mim possui outras coisas, dos sons aos movimentos que rodeiam qualquer minuto de vida. Senti-me possuído por nada mais que mim mesmo. Eu era só o meu olhar que não olhava para nada. Era só o meu olhar, que em vez de ver, respirava, tremia, pulsava, ouvia, abraçava o silêncio, gritava de músculo para músculo ordens inconsequentes.
Como um buraco negro à escala da realidade que me rodeava, tudo foi absorvido pela expulsão do meu olhar. Deixei de ser ali para que o próprio ali fosse eu - o meu olhar cego.
Mesmo assim, senti descolar-se de mim, deste olhar grávido de escuridão, uma outra consciência que me colocava ligeiramente atrás de mim mesmo. Podia intuir o meu olhar, vê-lo por detrás da própria visão, espreitar por cima dos ombros dos olhos e aceder ao que o olhar surdo e quieto me ocultava. Intuí assim a presença do maestro no estrado, a ovação que o recebeu. O início do concerto foi-me dado, clandestinamente, por este outro sentido, por esta possibilidade de passar por mim até ao real sem mim. Confiei nesta percepção difusa e levei o clarinete à boca, aos lábios já quase esquecidos da sua função antecipadamente preparada. Os sons de reminiscências espanholas, de um pseudo poema sinfónico de má qualidade, ecoaram na sala e confirmaram-me a necessidade de tocar. Toquei. Lá, e algures entre lá e mim.
Na viagem de regresso a casa, tento recordar-me do repertório, da reacção a cada obra, do final do concerto, dos aplausos do costume. Nada. Apenas a memória daquela lânguida ausência de breves minutos. É a recordação mais vívida, a de coisa nenhuma.