terça-feira, janeiro 11, 2005

A recordação de coisa nenhuma

Dentro de poucos minutos o concerto estaria a começar. Estava no meu lugar, como quase todos os outros elementos. Como em quase todas as vezes, inundava-me a letargia profunda que só se dissolveria em breves momentos, fugazes, numa ou noutra peça, caso do programa constasse alguma obra que me enlevasse ao ponto do exorcismo. Em todas as outras alturas, como esta, o estado de dormência espiritual manter-se-ia ao longo do concerto, ou agravar-se-ia até ao limite de uma fobia ao som, uma fobia de música, de espectáculo, de público, que me faria regressar, terminada a performance, a um alívio de silêncio e de introspecção sem rumo mas desejada.

A poucos minutos do início do concerto, já com o instrumento montado, com algumas notas emitidas, para enganar os lábios e os fazer sentir relaxados e eficazes, dei por mim numa paralisia (in)voluntária, ou in(voluntária), caso assim se entenda melhor a ambiguidade da vontade.

Tenho por hábito remeter as crenças místicas que envolvem os sentidos e a razão, para a quadratura a pontilhado dos produtos da criatividade intelectual – como mais um elemento do mundo 3 de Popper. Não tenho por hábito, assim, valorizar os comportamentos misteriosos, mesmo que do meu próprio espírito.

Desta vez suspendi o meu juízo mental sobre tais fenómenos e, talvez por força da necessidade de escapar à inevitabilidade da fuga impossível, comecei a anular todos os sinais da minha presença e, simultaneamente, da presença de tudo o que me rodeava.

Naquele momento, tinha algo no meu colo. Penso que um livro, talvez uma partitura. Os meus olhos dirigiam-se aparentemente para o seu conteúdo. Mas na verdade os meus olhos eram os meus ouvidos, os meus pulmões, os meus músculos, o meu coração. Os meus olhos eram a única coisa que eu acreditei, naquele instante, existir ali, de mim. A sensação é comum a outros momentos, mas ali adquiriu uma função terapêutica, ou uma anti-função, dado que constituiu um atenuar de sensibilidade e dados vitais. O corpo atingiu uma imobilidade que não me recordava de já ter alcançado. Os músculos pareceram decidir respeitar um minuto de silêncio, numa atitude de reverência para com a estaticidade da mente, como os amigos de um defunto, em redor do caixão, antes de para os cigarros e as anedotas típicas de todos os velórios. Só os olhos viviam. Sem ver. Tenho de acreditar que os pulmões tenham continuado a representar o seu papel, que o sangue tenha conseguido manter o seu rumo no seu leito do costume, que o mais recôndito espaço intestinal tenha cumprido a sua razão de existir perante o jantar. Tenho de acreditar em tudo isso com uma fé mais intensa que a necessária para acreditar em Deus (porém, não tão enigmática e majestosa como a que recrutamos para acreditar na Morte).

Senti-me possuído por mim. Num sentido desabitual da posse de nós mesmos a que nos habituamos. Senti-me possuído pelo que de mim costuma diluir-se no que de mim possui outras coisas, dos sons aos movimentos que rodeiam qualquer minuto de vida. Senti-me possuído por nada mais que mim mesmo. Eu era só o meu olhar que não olhava para nada. Era só o meu olhar, que em vez de ver, respirava, tremia, pulsava, ouvia, abraçava o silêncio, gritava de músculo para músculo ordens inconsequentes.

Como um buraco negro à escala da realidade que me rodeava, tudo foi absorvido pela expulsão do meu olhar. Deixei de ser ali para que o próprio ali fosse eu - o meu olhar cego.

Mesmo assim, senti descolar-se de mim, deste olhar grávido de escuridão, uma outra consciência que me colocava ligeiramente atrás de mim mesmo. Podia intuir o meu olhar, vê-lo por detrás da própria visão, espreitar por cima dos ombros dos olhos e aceder ao que o olhar surdo e quieto me ocultava. Intuí assim a presença do maestro no estrado, a ovação que o recebeu. O início do concerto foi-me dado, clandestinamente, por este outro sentido, por esta possibilidade de passar por mim até ao real sem mim. Confiei nesta percepção difusa e levei o clarinete à boca, aos lábios já quase esquecidos da sua função antecipadamente preparada. Os sons de reminiscências espanholas, de um pseudo poema sinfónico de má qualidade, ecoaram na sala e confirmaram-me a necessidade de tocar. Toquei. Lá, e algures entre lá e mim.

Na viagem de regresso a casa, tento recordar-me do repertório, da reacção a cada obra, do final do concerto, dos aplausos do costume. Nada. Apenas a memória daquela lânguida ausência de breves minutos. É a recordação mais vívida, a de coisa nenhuma.


um passeio pel'O Navio de Espelhos

deixo aos leitores que por aqui passem por estes dias a sugestão apresentada por Divas e Contrabaixos, de um encontro na Livraria O Navio de Espelhos, em Aveiro. Para informação mais detalhada, deixo o link (perdoem-me não saber apresentar o link de forma mais profissional :) , mas assim não se perdem por esse espaço fora)

http://divasecontrabaixos.blogspot.com/2005/01/bloggers-vossa.html

Pela qualidade e profissionalismo deste blog, não hesito em remeter-vos a ele.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

grão

vincos que o tempo
alisa. perde-se
a rugosidade - fica um grão
uma filigrana de dor. espasmos
sem pulsação. só pulsão
vómito agonia.

(vibração de dentro
para dentro fora
de tempo à margem
do tempo em vão)

rugas dobras
uma conivência com
a textura das flores violentadas.

Jan.08.MMV

a orgânica do declínio

Vazio. Queda. Desordem. Um apelo breve. Incisivo.
Um sussurro de podridão.
Há sempre uma vida feita numa rodilha
à procura das mãos que a ajudem a cumprir o destino.
Uma desconjunção constitutiva. Um descarrilamento ancestral.
Um mito do pecado original extensível ao que não surge da crueldade da vileza da torpeza da malignidade da promiscuidade da irresponsabilidade da inveja da perversão da corrupção do desejo da degenerescência das paixões do desequilíbrio dos sentidos da malvadez gratuita do vilipendio desavergonhado da miséria dos valores da insensatez existencial.
Um mito extensível ao que surge apenas do ar da água da terra do fogo.

domingo, janeiro 09, 2005

... para agradar ao Diabo: primeira parte - o encantamento ancestral

III

Medeia mais de uma
vida vazia entre as
mortes consequentes
dos príncipes idílicos
que me povoam em
cada eternidade vivida;
esqueço-te/-me/-vos
sem que seja alto ou
ridículo sequer o preço.

Inicio, reinicio a queda
sem aparato nem nojo
agora, porque o verão
fará apodrecer agora
os resquícios de vida
que as palavras tiverem
deixado acesos ainda
como brasas em casa
de campo, madrugada
adentro, manhã afora.

Penso que sei afinal
mais do mundo do
que quando cheguei;
os primeiros dias
foram estranhos e
inquietantes, mas a
fome a sede e a fé
dão ao sentido o que
de sentido lhe falta;
depois é uma questão
de espaço – para ser
para criar destruir
e acima de tudo odiar.

Agora parto? Ou resta
aniquilar alguma alma
mais? Ou deambular
mais uma eternidade
p’las pantanosas areias
de mais um espírito
estúpido e crédulo?

Resistem em mim mil
vermes ainda sãos.
Ou quase mil, já que
tu também por agora
desfaleces pálido e nu.

sábado, janeiro 08, 2005


morte perpendicular (beco em ruínas, Santarém)

as casas morrem

XXII

as casas mantêm
a nobreza de um velho...

ano após chuva
... após roupas estendidas
leite no pátio derramado após desmaio fatal.
as casas morrem

e o seu corpo permanece
sábio
com respeito por tudo
que as não habitou

as casas não vegetam
eternamente imaturas
viajam sim pelo
silêncio inquieto do
vento que as acariciou
e depois as vela
num sopro de luto.

(in Infinitas Impossibilidades, 2002)

sexta-feira, janeiro 07, 2005


Amantes: claustro da abadia de Sto. Domingo de Silos (século XV - Burgos)

Que soydade ...

Que soydade de mha senhor ey,
quãdo me nembra d’ela qual a ui
e que me nembra que bem a oy
falar, e, por quanto bem d’ela sey,
rogu’ eu a Deus, que end’ á o poder,
que mha leixe, se lhi prouguer, ueer


Cedo, ca, pero mi nũca fez bem,
se a nõ uir, nõ me posso guardar,
d’enssandecer ou morrer cõ pesar,
e, por que ela tod’ en poder tem,
rogu’ eu a Deus, que end’ á o poder,
que mha leixe, se lhi prouguer, ueer


Cedo, ca tal a fez Nostro Senhor;
de quãtas outras [e]no mũdo son
nõ lhi fez par a la minha fe’, nõ,
e, poy-la fez das melhores melhor,
rogu’ eu a Deus, que end’ á o poder,
que mha leixe, se lhi prouguer, ueer


Cedo, ca tal a quis[o] Deus fazer
que se a non uyr, nõ posso uiuer.

D. Dinis

... para agradar ao Diabo: primeira parte - o encantamento ancestral

II

Vai-te para dentro
de mim agora, ou
respira para longe
esse bafo a sorte
a agoiro a felicidade;
rastejas como um
fio de sangue aos
pés da estátua do
meu corpo erecto
mas não semearás
mais vermelho no
pálido tecido da
minha angústia.

Ignoro o dia hora
e cor do instante
perplexo em que
te abracei, com o
nojo pintado nos
olhos e o medo a
sorrir de inocência,
mas sei o cheiro a
que fazes cheirar,
à distância de um
pensamento azul
como o fedor de
uma cobra na sua
labuta de câmbio
vítreo e iniciático.

Encaro-me com a
paixão do cadáver
pelo escuro, pela
profundeza do
inquietante ermo
onde divaga, além;
mas não me sujeito
a um poder que não
tens, a uma vontade
que não é tua, nem
a um pensamento
que inventei para ti.

quinta-feira, janeiro 06, 2005


são asas... o lume os corpos ... são chamas

untitled

a imagem é um trabalho de susanna corrias. vale a pena percorrer as restantes fotografias deste grupo em http://www.gruppogarage.com/

coro



cantos
silêncios de um azul de azálea
percorrem veias
inundam sepulturas
nas almas
nas peculiares cavidades
onde se escondem
o passado e a eternidade

leveza e melancolia



Esparsas penas
sobrevoam silenciosas
sobre as árvores
nas madrugadas
dessa densa e efémera
tristeza.

(... mais que uma folha
decide cair com a lágrima
deste pássaro que sobrevive ...)

(eu sabia que um dia voltaria a precisar de escrever isto)

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Quatro Melros e Eu



uma escultura ao fundo, depois do lago. quer dizer, não é ao fundo. atrás ainda espreitam prédios desalinhados. mas a escultura é um fundo. marca o limite de até onde o meu olhar se detém com interesse. os vários seres que flutuam sobre a água verde (que hesito em chamar patos para não ofender nenhuma plumagem mais nobre) provocam riscos na superfície. riscos, sim. traços. traços móveis. traços curvos móveis. ondulação ténue que o olhar teria de supor apenas, não fossem os traços curvos móveis que os flutuadores provocam. a escultura é branca. já tinha dito? ... não. mas é. fica bem com o verde (apesar de eu desconfiar que o motivo da escolha pelo artista foi mais prosaico e tentadoramente mais económico para o mecenas). mas as aves que perturbam a perfeição do reflexo não querem saber de política cultural. dá-lhes apenas prazer desfazer a pose líquida da sereia. isto já tinha dito, não? ... ... escultura... vários seres... ... não. mas é uma sereia, sim. daí ser evidentemente compreensível (ou compreensivelmente evidente, conforme o sujeito do enunciado) que os ovíparos (espero que nenhum tenha optado por modernas técnicas reprodutivas) não engracem com “aquilo” ali deitado sobre a água, que parece tão forte e se desfaz em riscos quando eles simplesmente mergulham a cabeça, ou até quando somente defecam. sim. já contemplaram a maravilha de um pato a defecar num lago? porque é que pensavam que a água era verde? pelo reflexo das árvores? sim, à volta existem árvores, mas isso nem vou confirmar se já vos tinha dito. antes, no entanto, que o meu olhar chegue ao lago serenizado (modificado pela imagem da sereia, entenda-se), detém-se num pequeno palco, baixinho, de pedra, feito de paralelipípedos cinzentos e de rebordos desenhados a verde pelas ervas que os tentam separar uns dos outros. chamei-lhe palco? talvez pela ideia que promove de que a qualquer instante ali se possa passar algo que mereça o aplauso de quem, arbitrariamente, se sente nos lugares de pedra que circundam metade do espaço - (tenho quatro melros a olhar para mim. dois machos e duas fêmeas. será normal? Ou fará parte do espectáculo iminente?) – há um paralelismo entre as superfícies. O lago onde os mandarins e os marrecos dançam sem saber que dançam, e o palco de pedra onde os pombos se exibem sem saber que são as estrelas. eu tinha falado dos pombos já? isso é lamentável, até porque sobre eles não hesitei em chamar-lhes pombos. e nenhum desaprovou (sim, houve um que quando viu os melros sentiu uma pequena inquietação de identidade, mas disfarçou). os pombos não têm uma imagem de sereia para riscar. não têm jeito para dançar. a bem dizer, só partilham com os vizinhos do lado o fascínio pela acção de defecar. e isso não me atrevo a duvidar de que já tenham presenciado. De resto parece não terem ali mais nada a fazer. como eu. não. não se preocupem, porque só partilho com eles esta inércia. mas eu tenho um propósito. importante, e bem definido. Vim fazer de conta que vinha estudar. e fiz.

(16.00 h)

terça-feira, janeiro 04, 2005

flor íngreme

desejo um azul

em forma de nunca,
(nuca
nua
nu
)

não

em vez de um
domingo, que se adapte
ao olfacto como
uma tulipa, ao prazer

branco,
não
vertigem, apenas.

um fluido,
telúrico e acre
-
noite sem penumbra.


Jan.04.MMV

depois de um dia qualquer


Apesar de morta, continuo a sentir este formigueiro, este prurido incessante, na planta dos pés e por detrás dos olhos. Não vejo nada, mas sinto como se visse, como se olhasse e continuasse a olhar como antes para o fundo das coisas, onde elas já não são o que são, como eu já não sou o que sou, para os outros olhos que me evitam. E só este formigueiro intenso e incómodo me salva do esquecimento.

Lembro-me agora bem como a queda do sentido das coisas começou, lenta e sinuosa, como uma gota perdida no labirinto de uma folha de plátano.

Ontem, cedo, penso que ainda antes do despertador tocar pela terceira vez, senti-me exausta; sabia que seria um dia de turbulentas acções, mas nunca tão nitidamente como agora me apercebi de como tudo começara.
O que sempre se ouve dizer acerca da morte dos outros acaba por ser verdade, porque os outros são todos. E quando se fala em saudade não se sabe o que se diz. Nunca.

Acho que foi a minha beleza.
Sempre fui, e sou, uma mulher bonita; uma jovem de beleza cativante e misteriosa. Essa confiança acompanhou-me durante os últimos segundos. A beleza, atributo que a muitas mulheres atormenta, fez da minha vida um paraíso aparente, uma ilusão de que tudo estaria para mim reservado. E esteve. Mas eu não quis.
As pessoas ...! Estamos sós, mesmo quando pensamos que somos compreendidos. Mesmo quando nos lançam olhares de súplica. Mesmo se o amor nos acompanhou o zunido vital de todos os dias.
E eu apenas quis ver este silêncio.

Começam por nos achar pessoas mais distantes, e eu acho que isso não é verdade; acho que nesses momentos é quando nos sentimos colados aos outros e às coisas, inevitavelmente. Sentimo-nos indiferenciados, talvez, mas não distantes. Indiferenciados ou indiferentes, sim. Mas não distantes. Nem tristes, nem morbidamente presos à vida.
Olham-nos com alguma curiosidade porque acabam por suspeitar que o nosso silêncio é de outra cor, que a nossa vida está lá, do outro lado da janela.

Não procuro hoje uma resposta mais do que antes, porque já a sabia aqui, tão perto. Sim, aqui perto, bem junto ao nariz da alma, onde esse faro incurável nos faz entristecer de inveja pelo futuro dos outros. Porque só nesse lugar Outro é que nos conseguimos realmente sentir mortos; não é como os poetas dizem, não. Ou será, mas noutra língua - a dos sentimentos não vividos.

A saudade não é uma rua de sentido único.
E a vida não é mais que uma obra de arte inacabada. Esboços somos para nada. Milan querido, como te recordo com tantos nomes, com tantas cores e palavras, neste limbo que sou, nesta sensual leveza de não ser, Sabina ou Tereza?

As pequenas distracções que povoam os nossos dias, inócuas e significativas, são interpretadas muitas vezes como acções auto-destrutivas, como flagelações mortíferas incompletas, inconscientes. Acabei por perceber que não eram acções, muito menos auto-destrutivas, nem tão pouco inconscientes. Todos os actos são destrutivos de qualquer coisa. A questão é sempre a da escolha de “o que destruir”. Mesmo quando, por distracção, quase somos atropelados, quem queremos destruir? Que parte de nós morre atropelado? Que parte de nós morre envenenado? Que parte de nós não morre?

Acho que foi a minha beleza.
Sempre que numa relação amorosa, ele me dizia “és linda”, a punhalada era mortal. Não sei porquê, mas sempre o óbvio me soou a falso. Sempre vi a realidade como uma fotografia. Sempre ouvi uma orquestra como um bando de pássaros frustrados por não serem capazes de voar como os outros, tentando apenas, para colmatar esse handicap, imitar grosseiramente a superior mestria e pureza do seu canto distante. Sempre cheirei cebola, não acreditando que aquele fosse mesmo o seu cheiro. A verdade nunca é tão óbvia. Sempre desejei que alguém visse de mim o que sou. “És linda!” Pfff... Claro, mas o que sou? O que era? A que cheirava realmente? Que ruído ensurdecedor emanava da minha voz quando dizia: “amo-te!”?

Por detrás dos olhos, incessantemente, e na planta dos pés, como se uma chama distante aquecesse o ar em meu redor, e esse calor atraísse o sangue que ainda corre a dançar, incómodo, à flor da pele ... a volúpia da morte ...

Azul, o meu silêncio. Porque é que pensamos sempre que é branco? Enquanto vivemos, temos tendência a pensar que vemos o mundo às cores. Mentira, a maior parte das vezes nem o vemos sequer. Mas vivemos com a ideia de que o vemos intensamente colorido, e por preocupação compreensível, absurdamente compreensível, achamos que a cor do silêncio devia ser branca. Por simpatia para com o vazio, talvez, como o de uma página ...
Envolta neste calor estranho, o corpo adormecido num torpor desconhecido, a alma agita-se em arrepios interiores.

Acho que foi ...
Desliguei o despertador e saí apressadamente do quarto como se não desejasse reter a imagem dos lençóis amarrotados, como recordação que me ancorasse ao real. Como noutras alturas, lavei a cara sem me mirar no pequeno espelho. Não me veria, de qualquer forma, de olhos fechados. Não saí logo. Sabia que tinha tempo. Passamos a ter mais tempo quando já não o temos. Na rua, lembrei-me do livro que andava a ler e voltei a buscá-lo. Para enganar o destino? Acho que não. Apenas porque não quis morrer em jejum espiritual. Na rua novamente, fechei os olhos por cinco segundos, com vergonha do sol. Superior a ele em tudo o mais, só no meu crepúsculo me senti menos digna do seu amor. Raiva pela sua capacidade de renascer?

Daqui a duas semanas estaria a apagar uma imensidão de velas, a tentar não ouvir o que cantavam à minha volta, a tentar chorar sem conseguir, a pensar ... uma imensidão ... quase trinta pequenos sopros e a escuridão na sala cheia de fantasmas de felicidade. Seria daqui a duas semanas ... Por detrás dos olhos, sorrio subtilmente, tentando enganar a dor e o formigueiro.

Infantilmente, pés de neblina, percorro o labirinto ... e lembro...
e sinto...
e penso...

Penso!
Penso, já não existo ...
(Março, 2001 revisited)

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Divas & Contrabaixos

Divas & Contrabaixos

pedaços de letras... de Mircea Eliade...

...do livro que estou a ler

“Eu já tinha ouvido falar dele mas nunca o tinha visto. Estava à espera que aparecesse. A vivenda onde eu tinha alugado um quarto nesse Verão ficava no alto de uma colina. Chamava-se Vila Cornélia. Era a última da aldeia. Foi por isso que o jovem tártaro só passou pela minha casa depois de ter estado em todas as outras. Mas foi, de qualquer maneira. Era o seu ofício: ganhava a vida a exterminar as moscas. Chegou uma tarde, pelas duas horas. Eu estava a dormir a sesta. Ouvi-o bater à porta e fazer a pergunta: «Tem muitas moscas?» Saltei logo da cama. Estava ansioso por o conhecer. Tinha moscas, é claro, como toda a gente em Tekirghiol, mas o que me interessava mais era conhecê-lo. «Bastantes», respondi-lhe eu. «Que vai fazer com elas?» «Vou expulsá-las e durante uma semana não tornam a aparecer. Se vier alguma, o senhor não me paga». «Quanto quer pelo serviço?» «Um leu. Metade agora e o resto para a semana. Se nessa altura me mostrar uma só mosca que seja, devolvo-lhe o que me deu por conta.» «Combinado», disse eu. «Vou ver como o senhor faz.»"

in Rua Mântuleasa, de Mircea Eliade (trad. Ricardo Alberty) para a Ulisseia.

"Rua Mântuleasa", de Mircea Eliade Posted by Hello