segunda-feira, janeiro 03, 2005


"Rua Mântuleasa", de Mircea Eliade Posted by Hello

... para agradar ao Diabo: primeira parte – o encantamento ancestral


I

Eclodiram em mim
mil vermes doentes;
mais de um milhão
de parentes sujos
vieram assistir ao
parto doloroso, e
cada um abençoou
o que lhe aprouve
abençoar, e tornou
a maldição verdade
sobre os mesquinhos
bichos que em mim
nasciam aos dois, três
de cada vez, ou em
ninhadas de cinco.

À miséria chamo
agora tempo, e ao
suplício, oferenda
de um anjo incógnito;
e o frémito que os
animou cá dentro
não nomeio nem
desejo ouvir chamar
senão por uma boca
fechada, por detrás
de um manto de
branco tingido, no
corpo impossível
de um demónio
qualquer, ou outro
personagem deste
grau de malvadez e
sanidade espiritual.

Não me lembro da
oração que me expôs
à violência, à invasão;
lembro-me da nuvem
de tabaco num beco
desconhecido, e do
cheiro a gasóleo ou
petróleo ou apenas
óleo queimado - não
sei porque disto me
lembro, ou saberei?

Italo Calvino Posted by Hello

Crónicas de Viagem - "As Cidades Invisíveis" de Italo Calvino

Conheci-te algures, numa noite de inverno... não tenho a certeza se não te teria visto antes... já ouvira falar da tua magia ... quem não ouvira?
Percorri cada cidade-fantasma, cada cidade-alma, cada cidade-vida... com o olhar mergulhado na sensação de contactar com Deus, o Belo e não Deus, o Criador.
Cada cidade-nome-de-mulher que crias e descreves existe já no nosso imaginário do futuro, naquela zona que só homens como tu puderam vislumbrar inteiramente, como se se mirassem no nosso espelho redentor, o que os faz libertarem-se da dúvida de estar a alucinar criativamente.
Adorei o contraste da tua fantasia livre com a simetria das tuas formas... lembrei-me de mim, e dos meus medos, das minhas ousadias infantis, das inseguranças presentes... porque a música é apenas uma aproximação grosseira, mesmo que a mais adequada de todas, à zona que as tuas palavras deixam magicamente entrever.

Ler-te é confiar. Confiar em ti é sonhar que se está morto e se pode mesmo assim contemplar a beleza. Acreditar nisso é viver na esperança de te encontrar de novo, Italo, seja em cima das árvores, às cavalitas na Lua, vestido de capa negra a cobrir o lado ausente do teu corpo, em qualquer início de romance inacabado para gáudio da nossa fantasia, em armadura falante e sentimental, ou simplesmente no brilho dos olhos dos afortunados que já te viram como eu.
(2001)

Quero ler-te. de novo. em breve. recordar-me de mim, em ti, perdido...

domingo, janeiro 02, 2005

o início de mais um fim

a náusea antecipada de mais uma incompletude anunciada pelo esquecimento e pelo desvario de deus em mim, por mim, de mim...
o imenso infinito indefinível tormento da estreiteza dos horizontes que não são de ouro, de cinza quanto muito.
o primeiro relance de um olhar apagado pelo facto de a luz se consumir na extensão da madrugada não onírica, de vigília à beira de um sopro.